Memorias das Mulheres Mapuche sobre os seus familiares desaparecidos no Chile

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Durante a última ditadura cívico-militar, os desaparecimentos forçados e as execuções políticas as integrantes dos povos Mapuche devem ser enquadradas como uma continua violência colonial e genocida. Apesar da dor, as famílias Mapuche seguem lutando pela verdade e pela justiça. Em setembro, mês do golpe, será apresentado um livro ilustrado e bilingue que reúne as memorias de 7 mulheres da Araucanía que recordam seus familiares falecidos e abraçam um horizonte politico de dignidade e seus direitos.

Durante a última ditadura cívico-militar, os desaparecimentos forçados e as execuções políticas as integrantes dos povos Mapuche devem ser enquadradas como uma continua violência colonial e genocida. Apesar da dor, as famílias Mapuche seguem lutando pela verdade e pela justiça. Em setembro, mês do golpe, será apresentado um livro ilustrado e bilingue que reúne as memorias de 7 mulheres da Araucanía que recordam seus familiares falecidos e abraçam um horizonte politico de dignidade e seus direitos.

No Chile, durante a ditadura cívico-militar (1973 – 1990) eram numerosas violações aos direitos humanos. O antigo território mapuche, Wallmapu, não foi a exceção: dezenas de pessoas mapuche foram assassinadas, sequestradas, torturadas violentadas e desaparecidas á força. Suas histórias e identidade tem sido invisibilizadas ao longo da história e na construção da memória do país.

Estas desaparições forçadas estiveram envolvidas de violências racistas e institucionais, não somente com quem desapareceu, sendo também as suas famílias e principalmente as mulheres. A violência estatal e civil exibida em Wallmapu somente pode compreender a partir de uma perspectiva histórica que conta das completas relações entre as comunidades mapuches e as elites político-econômicos deste território.

Nos casos dos desaparecidos mapuche, são experiencias que não pode desprender-se de sua particularidade histórica. O povo Mapuche tem habitado historicamente o território localizado ao sul do que são hoje os territórios políticos-administrativos do Chile e Argentina; Ngulumapu, ao oeste da Cordilheira dos Andes, e o Puelmapu do lado oriental. Durante a formação dos Estados Nações usurpação do território mapuche de deu através de projetos coloniais e genocidas entre 1866 e 1885, em ambos lados da cordilheira. Este processo tem gerado conflitos com os governados do Chile e Argentina ate o dia de hoje.

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Elena Huina tem marido e dois filhos desaparecidos. Foto: Arquivo de Elena Huina

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Elena Huina tem marido e dois filhos desaparecidos. Foto: Arquivo de Elena Huina

As desaparições forçadas e a ausências de paz

A partir de março de 1990, Chile voltou a transitar em um regime democrático. Anos mais tarde, em 2006, os Carabineiros do Chile fizeram desaparecer forçosamente José Huenante Huenante, um adolescente de 16 de anos que somente estava com seus amigos do bairro em Puerto Montt. Sua vida havia estado atravessada pela pobreza econômico e as desigualdades sociais. Foi o primeiro detido desaparecido em democracia.

As desaparições forçadas são uma ferramenta do terror, muitas características das ditaduras militares do Cono Sur. No entanto, a extrema violência e a desaparição forçada praticada pelas juntas militares não estiveram exclusivamente dirigidas aos povos originários, fizeram parte do continua violência colonial contra o povo Mapuche. No caso do Chile, existem mais execuções politicas que desaparições, mas na região da Araucana, que forma de Wallmapu, essa situação se investe, pois tem mais desaparecidos que executados políticos. Isso vislumbra um tipo de repressão muito mais aguda que executados políticos. Este é um tipo de repressão muito mais aguda do que no resto do país.

Desaparecimento forçado é um tipo de tortura permanente devido ao ocultamento, a falta de justiça, os acordos desgastantes e a dor e a angustia que se perduram no tempo.

O desaparecimento forçado é um tipo de tortura permanente devido ao ocultamento, a falta de justiça, os acordos desgastantes e a dor e a angustia que se perduram no tempo.

A violência da ditadura militar impactou o tecido social das comunidades Mapuche da região da Araucanía. O centro de investigação e promoção dos Direitos Humanos (CINPRODH) de Temuco estima 172 vítimas, na região: 51 eram mapuches, todos homens, dos quais 20 foram executados políticos e 31 detidos desaparecidos. A incredulidade em torno do seu paradeiro e as condições que se encontram (com ou sem vida) provoca uma grande dor nas famílias. Alguns investigadores indicam que se trata de um tipo de tortura permanente devido ao ocultamento de informação, a falta de justiça, os acordos desgastantes e a dor e a angustia que se perduram no tempo.

Pior ainda, as famílias acreditam que os espíritos dos mapuche estão sofrendo embaixo d’água nos rios ou no mar, já que muitos desses corpos foram jogados na água para fazê-los desaparecer. Em termos políticos e culturais, o luto dos indígenas diante da ausência é diferente e muitas famílias não têm a ideia cristã de reencontrar os seus no céu ou “na vida após a morte”. Enquanto os corpos dos desaparecidos não forem encontrados e não houver despedida fúnebre, os espíritos não descansam em paz e os familiares e os familiares não podem esperar vê-los uma outra vez.

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Cecilia Huenante continua exigindo verdade e justiça por seu filho José. Foto: Radio JGM

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Cecilia Huenante continua exigindo verdade e justiça por seu filho José. Foto: Radio JGM

Um livro para fazer memória

A pesar das histórias de dor e violência sistemática das vítimas, as famílias seguem resistindo e construindo memórias de vários espaços. A maioria delas são mulheres: mães, esposas, filhas, irmãs, netas e sobrinhas que continuam o caminho da busca da verdade e justiça por seus entes queridos desaparecidos. Neste contexto, criaram laços de acompanhamento junto a outas mulheres e organizações de familiares, continuaram com os processos judiciais e insistiram em encontrar a verdade. Assim, também buscam tornar-se pública suas histórias e, deste modo, desestigmatizar seus desaparecidos e voltar a dar-lhe dignidade através de suas memórias.

Com este objetivo, suas experiencias serão parte de um livro bilingue e ilustrado, coordenado por María José Lucer, no marco de sua investigação doutoral no Programa de Doutorado em Antropologia Social do Centro de Investigações e Estudos Superiores em Antropologia Social (CIESAS). O livro foi escrito coletivamente a partir da memória oral, as ilustrações são de Cassandra martínez e o trabalho de tradução está a comando de Paula Pilquinao, Elizabeth Nuñez e José Ortiz. O trabalho é possível graças ao apoio do Grupo Internacional de Trabalho sobre Assuntos Indígenas (IWGIA) e a Cátedra Fray Bartolomé das Casas da Universidade Católica de Temuco das Araucanía.

O livro não só retrata a dor ante as múltiplas violências, mas também o amor e a humanidade com que precisa ser relembrados os detidos desaparecidos.

O livro não só retrata a dor ante as múltiplas violências, mas também o amor e a humanidade com que precisa ser relembrados os detidos desaparecidos.

O livro conta com ilustração que retratam tantos as memorias como as lembranças em torno dos seus seres querido, tanto trabalhando, jogando a bola, tomando mate ou simplesmente sorrindo. Assim, não somente retrata a dor ante as múltiplas violências, sendo também o amor e a humanidade com que necessitam ser recordados os detidos desaparecidos. As autoras são sete mulheres que narram suas recordações carregados de dor e resistência ante a ignominia que provocou a ditadura cívico-militar no Wallmapu e, sobretudo, de amor e resiliência por recordar aqueles que nunca devem ser esquecido.

Por um lado, Elena Huina, acompanhada de sua neta, Débora Astudillo Ramos, narram as memorias de seu esposo e seus dois filhos desaparecidos. Zoila Licoqueo faleceu sem ter tido justiça por seu filho Nelson, o primeiro preso desaparecido da região; seu testemunho está sendo revisado por seu filho Hugo Curiñir Lincoqueo. Mercedes Huaiquil recorda a seu esposo Don Gervasio, com quem teve sete filhos e filhas. Por sua vez, Lorenza Cheuquepán narra a vida de seu irmão, que desapareceu quando era um adolescente de somente 15 anos. Finalmente, oferecem seus testemunhos Maria e Cecilia Huenante, tia e mãe de José Huenante, o primeiro detido desaparecido numa democracia.

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Cartaz do Agrupamento de Familiares de Presos Desaparecidos e Executados Políticos (AFDDyEP) da Araucanía. Foto: AFDDyEP Araucanía

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Cartaz do Agrupamento de Familiares de Presos Desaparecidos e Executados Políticos (AFDDyEP) da Araucanía. Foto: AFDDyEP Araucanía

Nem perdão nem esquecimento

O livro será presenteado em setembro, a 50 anos do golpe militar no Chile, e tem como objetivo comemorar às quedas da ditadura, mas também dos que continuam construindo horizontes políticos em torno da dignidade e dos direitos humanos. A apresentação será feita pelo Centro de Estudos Sociocultural da Universidade Católica de Temuco e participarão as próprias autoras, a maioria delas pertencentes a comunidades mapuche próximas a Porto Montt.

Apesar dos anos, como neta de um desaparecido, tem acompanhado a minha mãe na busca da verdade e justiça. Embora meus tios e meu avô tinham sua cor política, nós seguimos lutando, já sem essas cores, porem compartilhando ideias, visões e valores que se foca em um país mais justo e com mais igualdade. Estes também eram os sonhos de nossos familiares, por ele lutaram e por eles já não estão. A 50 anos do fatídico dia em que nos tiraram nossos entes queridos, seguimos lutando por verdade, justiça, não repetição não mais impunidade.

Débora Astudillo Ramos é integrante do Agrupamento de Familiares de Detidos Desaparecidos e Executados Políticos da Araucanía (AFDDyEP). Contato: deas.astudillo@ gmail.com