Garimpeiros de colarinho branco: Quem devasta a Amazônia?

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Embora os mineiros sejam responsabilizados pela destruição das florestas, a corrida do ouro não existiria sem o consumo suntuoso de xeques, influenciadores, rappers, jogadores de futebol, corretores, atores de Hollywood ou cantores famosos. Após o aumento do seu preço durante a Covid-19, os bancos centrais e os especuladores incentivaram ainda mais esta procura. No Brasil e na Venezuela, a área de terra afetada pela mineração aumenta rapidamente e a presença de garimpeiros ameaça as comunidades indígenas que vivem perto dos depósitos.

Embora os mineiros sejam responsabilizados pela destruição das florestas, a corrida do ouro não existiria sem o consumo suntuoso de xeques, influenciadores, rappers, jogadores de futebol, corretores, atores de Hollywood ou cantores famosos. Após o aumento do seu preço durante a Covid-19, os bancos centrais e os especuladores incentivaram ainda mais esta procura. No Brasil e na Venezuela, a área de terra afetada pela mineração aumenta rapidamente e a presença de garimpeiros ameaça as comunidades indígenas que vivem perto dos depósitos.

“O ouro aumenta a sede por ouro e não a sacia”

Publio Sirio

“O ouro aumenta a sede por ouro e não a sacia”

Publio Sirio

Quando pensamos na mineração ilegal e legal de ouro que sangra a Amazônia, os culpados são óbvios. Por um lado, o garimpeiro é o protótipo do vilão predatório, em sua maioria homens, quase sempre jovens e, invariavelmente, pobres que, movidos pela ganância ou pela necessidade, vão para a selva destruindo tudo em seu caminho em busca dos metais mais preciosos.

Atrás deles temos os grupos armados irregulares: guerrilheiros, paramilitares ou simples bandidos. Paralelamente aos crimes ambientais, essas gangues cometem assassinatos, praticam lenocínio e traficam pessoas, drogas, alimentos e combustível. Em terceiro lugar, existem funcionários, políticos, soldados ou agentes da polícia corruptos que se deixam seduzir por estas máfias, sobrepondo o seu interesse individual à sua função pública. Por último, mas não menos importante, empresários sem escrúpulos que beneficiam da corrupção de funcionários e, em muitos casos, são os seus “testas de ferro”.

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Mineiros lavando ouro na Bacia do Rio Caquetá (Colômbia). Foto: Radio Macondo

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Mineiros lavando ouro na Bacia do Rio Caquetá (Colômbia). Foto: Radio Macondo

Os atores despercebidos da corrida do ouro

Quando pensamos na mineração de ouro, ninguém pensa na senhora elegante ou no jovem influencer passeando pelas suntuosas lojas de Milão, São Paulo, Nova York ou Pequim. Nem nos xeques dedicados a agradar suas múltiplas esposas nem nos sugar daddies que deslumbram suas conquistas. Menos ainda em rappers, jogadores de futebol, atores de Hollywood ou cantores famosos. Poucas pessoas pensam nos corretores de Wall Street, nos financiadores de paraísos fiscais como as Seicheles ou nos treinadores financeiros que dão conselhos de investimento. E muito menos nos burocratas dos bancos centrais.

Porém, todos eles são ainda mais responsáveis ​​que os garimpeiros e as autoridades corruptas pela devastação que a nova corrida do ouro está produzindo na Amazônia. E são responsáveis ​​não porque estejam diretamente envolvidos nestas atividades, sendo proprietários das minas ou das máquinas extrativas. A sua responsabilidade advém de ser a ponta de lança de uma procura crescente de ouro que promove a subida dos preços. Todos eles geraram a atual corrida do ouro que está destruindo a Amazônia e acabando com sua diversidade biológica e cultural.

Dito de uma vez por todas, o mercado do ouro não funciona de forma Sayesiana, isto é, a procura não é definida pela produção. Isto significa que não é o mineiro (o “produtor fornecedor”) quem cria a procura do seu bem. É precisamente o contrário: é a exigência ávida, ambiciosa, suntuosa e especulativa de setores privilegiados da sociedade planetária que possibilita e explica a existência do mineiro. Os garimpeiros fazem apenas o trabalho sujo, mas são o bode expiatório de um sistema de destruição do qual participam vários atores.

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Madre de Dios (Perú), a região da Amazônia mais devastada pela mineração ilegal. Foto: CEVAN / FAP

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Madre de Dios (Perú), a região da Amazônia mais devastada pela mineração ilegal. Foto: CEVAN / FAP

O ouro como reserva de valor

Em 1912, o banqueiro John Pierpont Morgan fez uma declaração que se tornaria mítica: “Só o ouro é dinheiro, todo o resto é dívida”. A frase foi expressa no âmbito do seu comparecimento perante o Congresso dos Estados Unidos, que o investigava por monopólio industrial e financeiro. Diante de questões investigativas, o empresário rejeitou o argumento de que o poder sobre o dinheiro vinha do controle do crédito exercido pelos bancos. Irritado, Morgan negou: “O crédito é uma prova de atividade bancária, mas não é dinheiro em si: só o ouro é dinheiro. Todo o resto é crédito.” A história provou que ele estava certo repetidamente.

Em meados da década de 1970, a subida do preço do ouro, juntamente com as pressões sobre o dólar norte-americano, desencadearam o fim do padrão-ouro, com o mercado do ouro entrando em uma espécie de estagnação com tendência descendente durante as duas últimas décadas de o século 20. A ascensão do dólar como principal moeda do comércio internacional e de reserva mundial explica em grande parte este comportamento.

Já no século XXI o panorama começou a mudar. O boom das commodities, alavancado pela procura chinesa, explica em grande parte esta mudança de tendência. Esta febre tendeu a diminuir após o furacão da crise financeira de 2008. Mas não foi o caso do ouro. Pelo contrário, o seu preço disparou porque os investidores e especuladores recorreram ao ouro como porto seguro. Seguiram o conselho de Morgan: as ações podem quebrar, a moeda fiduciária pode perder o valor e as poupanças podem desaparecer, mas apenas o ouro continua a ser o dinheiro definitivo de tudo o que tem valor de mercadoria.

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Evolução do preço mundial do ouro entre 1970 e 2023. Como qualquer linha do tempo, tem a enorme virtude de nos mostrar a tendência. Fonte: Cotización Real Oro

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Evolução do preço mundial do ouro entre 1970 e 2023. Como qualquer linha do tempo, tem a enorme virtude de nos mostrar a tendência. Fonte: Cotización Real Oro

A nova febre do ouro

Depois do grande confinamento causado pelo combate à Covid-19 e da virtual paralisia da produção e do comércio globais, o ouro iniciou uma escalada que ainda não parou. Nesta fase, o aumento dos preços é fundamentalmente impulsionado por dois atores, que se juntam aos consumidores de luxo: os bancos centrais e os especuladores financeiros que procuram um porto seguro para os seus investimentos.

Em ambos os casos, a motivação é a mesma, embora respondam a lógicas diferentes. Os bancos centrais vão atrás do ouro porque dados os tempos turbulentos (guerra na Europa, possível guerra em Taiwan, instabilidade monetária ou inflação global), nada funciona melhor. Mais uma vez confirma-se a tese de Morgan de que só o ouro é realmente dinheiro e tê-lo dá garantias. Consequentemente, os especuladores aproveitam esta onda de preços para proteger o seu dinheiro ocioso ou, melhor ainda, lucrar com ele revendendo-o.

Para melhor visualizar a questão, vale acrescentar que a demanda anual por ouro aumentou 18% durante 2022, atingindo 4.741 toneladas. No momento em que escrevemos esta nota, o preço da onça ronda os 1.900 dólares e estima-se que até ao final do ano esteja acima dos 2.000 dólares.

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Campo de mineração clandestino. Para organizações ambientalistas e lideranças indígenas no Brasil, existem 20 mil garimpeiros em territórios indígenas amazônicos. Foto: Johanna Goncalves

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Campo de mineração clandestino. Para organizações ambientalistas e lideranças indígenas no Brasil, existem 20 mil garimpeiros em territórios indígenas amazônicos. Foto: Johanna Goncalves

O caso do Brasil

O World Gold Council (WGC) estima que 46% do ouro extraído no mundo é transformado em joias. Do restante, mais de 20% são utilizados como investimento, 17% são detidos pelos bancos centrais como reservas e 15% são utilizados para outros fins. Mas, independentemente do uso, o resultado na Amazônia é o mesmo: mais mineração legal e ilegal, mais destruição do meio ambiente e mais ameaças às comunidades que vivem no entorno das jazidas.

Segundo dados de diferentes organizações, incluindo a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG), estima-se que durante o ano de 2020 a febre do ouro destruiu aproximadamente 114 quilômetros quadrados da Amazônia brasileira, equivalente a 10.000 campos de futebol, o que implica a maior área anual desde que os registros foram armazenados. A maior parte desta destruição ocorre nas reservas indígenas, onde os garimpeiros instalam as suas minas e maquinaria pesada, atacam aldeias, transmitem doenças, contaminam a água e devastam comunidades cujo conhecimento e respeito pela natureza são fundamentais.

Estudos recentes determinaram que entre 2019 e 2020 foram utilizadas 100 toneladas de mercúrio, o que se traduz no envenenamento do bioma amazônico, inclusive de comunidades onde já sofrem danos neurológicos.

Ao autorizar a abertura de Terras Indígenas à mineração, o legado do governo de Jair Bolsonaro foi desastroso.

O governo brasileiro estima que cerca de 4.000 garimpeiros ilegais operem atualmente em territórios indígenas localizados na Amazônia. No entanto, este número parece subestimado. Para organizações ambientais e líderes indígenas, o número gira em torno de 20 mil. Estudos recentes determinaram que entre 2019 e 2020 foram utilizadas 100 toneladas de mercúrio, o que se traduz no envenenamento do bioma amazônico, inclusive de comunidades onde já sofrem danos neurológicos.

O Brasil é o sétimo maior produtor de ouro do mundo e o segundo país da região com maior quantidade de reservas de ouro acumuladas em seu Banco Central (o primeiro é a Venezuela). Durante 2022, extraiu 107 toneladas e estima-se que apenas um terço desta produção tenha origem legal documentada porque a legislação atual permite que os vendedores a garantam apenas mediante assinatura de um documento. Ao autorizar a abertura de Terras Indígenas à mineração, o legado do governo de Jair Bolsonaro foi desastroso.

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Lagoas de mercúrio e gasolina destroem as florestas amazônicas. Foto: Ana Gisela Pérez

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Lagoas de mercúrio e gasolina destroem as florestas amazônicas. Foto: Ana Gisela Pérez

A história se repete na Venezuela

No país caribenho, a corrida do ouro global coincide com uma crise que combina um bloqueio econômico-financeiro e uma queda histórica na produção de petróleo. Desta forma, tudo parece conspirar para que a mineração ilegal dê um salto quântico. Wataniba estima que a superfície terrestre afetada pela mineração de ouro vem crescendo aceleradamente desde 2016: em 2019 atingiu cerca de 33,9 mil hectares e em 2021, cerca de 133,7 mil hectares, ou seja, um crescimento de 294%. O agravamento da crise nacional alimentada pela pandemia teve um papel preponderante neste crescimento.

Por meio do exército, o governo nacional tem levado a cabo a Operação Autana com o objetivo de erradicar os acampamentos ilegais no Parque Nacional Yapacana. Nesta área protegida estima-se que “vivam” cerca de 15 mil pessoas direta ou indiretamente dedicadas à mineração, tornando-a a segunda maior aglomeração do estado do Amazonas, atrás apenas da sua capital, Puerto Ayacucho. De 1º de julho até 6 de setembro de 2023, a Operação Autana contabilizou 11.345 garimpeiros ilegais desalojados do Parque Nacional.

Este número indica que em apenas um campo de mineração (dos vários localizados no Estado do Amazonas) estavam concentrados cinco vezes o número de garimpeiros que o governo brasileiro reconhece em toda a região amazônica de seu país. Na melhor das hipóteses, 50% dos garimpeiros ilegais estimados por lideranças indígenas e representantes da sociedade civil brasileira. Essa situação se repete, em maior ou menor grau, em todos os países que formam o bioma amazônico.

Segundo estimativas do Serviço Geológico dos Estados Unidos, restam cerca de 50 mil toneladas de ouro a serem extraídas, das quais uma parcela significativa é encontrada na Amazônia. Ao ritmo atual, isso traduz-se em cerca de 20 anos de extração de ouro, com um nível de pilhagem ainda mais predatório, porque este se tornará um bem escasso. Esta dinâmica só alimentará a sede de especuladores e garimpeiros de colarinho branco. Não são boas notícias: estamos realmente preparados para o que está por vir?