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	<title>outubro 2024 Archives - Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Thu, 10 Apr 2025 18:45:13 +0000</lastBuildDate>
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	<title>outubro 2024 Archives - Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>Colonialidade do poder e autogoverno territorial</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/colonialidade-do-poder-e-autogoverno-territorial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Roberto Espinoza]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 06:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[autogoverno territorial]]></category>
		<category><![CDATA[Perú]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Num Peru dominado por máfias, a colonialidade do poder acelera a ofensiva antiamazônica e antinacional. Na Amazônia, a “conquista colonial” continua e provoca uma barragem de agressões: colonização, parcelamento, extração ilegal de madeir e, dendê, monoculturas, estradas, concessões de mineração, mineração ilegal de ouro, colônias menonitas intocáveis e expansão do tráfico de drogas. Se o Estado reiterar o seu racismo de assumir uma Amazônia “vazia” e “conquistável” para torná-la “lucrativa”, então é inevitável que a resposta indígena para defender seus direitos escale em direção ao controle territorial e ao autogoverno.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/colonialidade-do-poder-e-autogoverno-territorial/">Colonialidade do poder e autogoverno territorial</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A autonomia ou autogoverno territorial dos povos e nações da Amazônia peruana constitui um processo ativo e poderoso, que se evidencia em experiências muito diversas. Os mais avançados são o <a href="https://nacionwampis.com/">Governo Territorial </a><a href="https://nacionwampis.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Autônomo</a><a href="https://nacionwampis.com/"> da Nação Wampís (GTANW)</a>, o <a href="https://gtaawajun.org.pe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Governo Territorial Autônomo de Awajún (GTAA) </a>e a <a href="https://www.facebook.com/FenapPeru/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Federação da Nacionalidade Achuar do Peru (FENAP)</a>. Em nível intermediário estão os promovidos pela Coordenação Regional dos Povos Indígenas de Datem e Alto Amazonas no Nordeste: os <a href="https://www.facebook.com/profile.php?id=100093314449193" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Shawi</a>, Kandozi, <a href="https://www.nacionchapra.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Chapra</a>, Kukama, Inka del Pastaza e Shipibo <a href="https://www.coshikox.pe/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(Coshicox)</a>. Por fim, numa fase inicial estão os Ese Eja, Arakbut e Matsiguenka.</p>



<p>Embora a “autonomia” ou “autogoverno” seja a forma mais utilizada nas últimas duas décadas, na verdade esta denominação dá continuidade e amadurece uma aspiração muito mais antiga dos povos indígenas. Uma aspiração expressa nas intensas lutas territoriais e até, a título de ilustração, na experiência do povo Matsés durante a década de 70. Os Matsés evitaram a sua divisão em pedaços comunais e mantiveram a sua integridade coletiva como povo, <a href="https://cedia.org.pe/es/cediaopina/en-el-mes-de-los-pueblos-indigenas-recordemos-la-larga-lucha-del-pueblo-matses-en-la-defensa-de-su-territorio/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">num único grande título “comunal” de </a><a href="https://cedia.org.pe/es/cediaopina/en-el-mes-de-los-pueblos-indigenas-recordemos-la-larga-lucha-del-pueblo-matses-en-la-defensa-de-su-territorio/">452.735 hectares</a>, e depois os mantiveram, enfrentando diversas imposições estatais.</p>



<p>É neste longo processo que se realiza a segunda reunião, de 6 a 7 de outubro de 2023, entre a AIDESEP e as suas nove organizações regionais associadas <a href="https://aidesep.org.pe/noticias/pronunciamiento-modificatoria-de-la-ley-forestal-y-de-fauna-silvestre-vulnera-derechos-colectivos-de-los-pueblos-indigenas-y-pone-en-riesgo-la-amazonia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(que articulam 109 federações e 2.400 comunidades)</a>, juntamente com os governos territoriais autônomos e o Coordenador das Organizações Indígenas do Bacia Amazônica (COICA). Nesta reunião foram aprofundados acordos anteriores e aprovadas três resoluções históricas referentes à ampliação das autonomias aos 51 povos indígenas amazônicos, por meio da <a href="https://aidesep.org.pe/wp-content/uploads/2023/10/Minga-de-Territorialidad-FINAL-2.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Minga pela Territorialidade, Propriedade e Autogoverno dos Povos Indígenas </a>, um plano de ação e articulação.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-13475" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-1A.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Reunião da Associação Interétnica para o Desenvolvimento da Selva Peruana para compartilhar as experiências dos diferentes governos autônomos. <strong>Foto: </strong><a href="https://aidesep.org.pe/aidesep-gobiernos-autonomos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Aidesep</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Interaprendizado global</strong></h3>



<p>Este não é um processo isolado, exótico ou marginal, mas sim um processo que se estende por Abya Yala, África, Ásia-Pacífico e até mesmo pela Europa estadocêntrica. A exigência e o exercício <em>de facto</em> (e também de direito) de outro tipo de autoridade pública, coletiva e social não-estatal corre paralelamente à crise da civilização, à catástrofe climática e à decomposição do estadocentrismo eurocêntrico. São respostas sociais que abrem tendências e opções rurais que também se projetam nas cidades.</p>



<p>A Amazônia peruana está inserida nesta interaprendizagem global de processos autônomos. Aprendemos com as lições de reviver esse caminho. Entre as décadas de 80 e 90, no Ártico, o autogoverno da Nação Inuit demonstrou a sua &#8220;viabilidade&#8221; na <a href="https://www.iwgia.org/es/kalaallit-nunaat-groenlandia/5114-mi-2023-kalaallit-nunaat-groenlandia.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Gronelândia </a>e em <a href="https://www.gov.nu.ca/en" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nunavut</a>, perante estados poderosos como a Dinamarca e o Canadá. Também se conhece acerca da reconstituição territorial, governo, legislação e economia do <a href="https://www.cric-colombia.org/portal/proyecto-politico/componentes/#:~:text=Teniendo%20como%20principios%20la%20Unidad,La%20Cultura%20y%20la%20Autonom%C3%ADa." target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) </a>da Colômbia. Ou a defesa indígena e o governo autônomo dos <a href="https://avispa.org/brasil-indigenas-kaapor-rompen-con-el-estado-y-crean-condiciones-para-su-autonomia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">kaapor</a>, diante da violência de madeireiros e garimpeiros, e da incapacidade do Estado brasileiro de detê-los.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O povo Purépecha conseguiu que o governo reconhecesse as suas autoridades locais e transferisse o orçamento municipal para elas.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O povo Purépecha conseguiu que o governo reconhecesse as suas autoridades locais e transferisse o orçamento municipal para elas.</cite></blockquote>



<p>Outro exemplo conhecido de autogoverno é <a href="https://www.cheran.gob.mx/gobierno/manual-de-gobierno-comunal" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a inovação do Purépecha de </a><a href="https://www.cheran.gob.mx/gobierno/manual-de-gobierno-comunal">Cherán Keri</a>, em Michoacán, que erradicou as máfias madeireiras e a corrupção político-estatal por meio do autocontrole territorial. O povo Purépecha fechou o município, expulsou todos os partidos políticos, recuperou a sua estrutura de autogoverno comunitário e de gestão da floresta, da água, da educação e da indústria. Desta forma, conseguiu que o governo reconhecesse as suas autarquias locais e transferisse para elas o orçamento municipal.</p>



<p>Estamos testemunhando um novo nível, quando as Nações Unidas designaram a autodeterminação e o autogoverno no mundo como o tema do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas de 2024, e o relatório do Conselho Económico e Social (Ecosoc) das Nações Unidas Para esse debate substancial, sintetiza processos e princípios orientadores para a sua implementação. Abrange ainda experiências urbanas, sejam com população indígena ou não, como a <a href="https://desinformemonos.org/acapatzingo-el-otro-mundo-en-medio-de-la-ciudad/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cooperativa Habitacional Acapatzingo</a>, na Cidade do México, ou <a href="https://revistas.uncu.edu.ar/ojs3/index.php/mel/article/download/5405/4690/23744" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as comunas organizadas em torno do Povo Kitu Kara, </a>assentadas na periferia da cidade de Quito.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="534" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2-1024x534.jpg" alt="" class="wp-image-13477" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2-1024x534.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2-300x157.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2-768x401.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2-1536x802.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-2.jpg 1920w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Cúpula dos Povos Indígenas na Colômbia. O Conselho Regional Indígena de Cauca (CRIC) oferece lições sobre reconstituição territorial e autogoverno. <strong>Foto: </strong><a href="https://debatesindigenas.org/2022/09/01/cumbre-indigena-en-colombia-la-unidad-se-construye-desde-la-cocina/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Maurício Martínez</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando o racismo extrativista impulsiona o autogoverno</strong></h3>



<p>A autonomia é intrínseca ao orgulho cultural e à história de cada povo amazônico. Embora esta tendência (e opção) esteja sujeita a pressões e distrações, ela permanece latente e emerge com oscilações de acordo com os processos sociais. A autonomia surge quando o Estado desnatura e impede a titulação comunitária. No Peru, começou a crescer em 1993, quando a ditadura Fujimori eliminou os direitos constitucionais “inalienáveis e inapreensíveis” dos referidos territórios. E cresceu quando os governos seguintes insistiram numa ditadura extrativista com divisionismo e repressão.</p>



<p>As reivindicações de autonomia ressurgiram quando o título comunal deixou de fora os seus territórios ancestrais e os deturpou como “disponíveis gratuitamente”. Continuou a crescer, dada a frustração das reservas comunais, onde o Estado é o primeiro a não respeitar o seu regime jurídico especial. Também aumentou com a violência racista do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA), que os forçou a criar suas defesas indígenas autônomas. E continua até hoje, face à violência extrativista da madeira, dos hidrocarbonetos, da mineração, das monoculturas e do tráfico de drogas. E com impunidade pelo assassinato de 30 defensores territoriais indígenas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Diante da agressão do extrativismo e da farsa das consultas prévias, não é por acaso que as autonomias indígenas assumem que as decisões devem ser adotadas pela autoridade coletiva dos mesmos povos e nações.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Dado o extrativismo e a farsa das consultas prévias, não é por acaso que as autonomias indígenas assumem que as decisões devem ser adotadas pela autoridade coletiva.</cite></blockquote>



<p>Com a sua opressão e permissividade à violência extrativista, o Estado peruano promove a autonomia e aumenta-a com a decomposição do Estado, a corrupção persistente, o abandono das regiões amazônicas, a repressão das comunidades e a inutilidade dos seus funcionários. Se o Estado-Nação estiver em desinstitucionalização e a colonialidade do poder racista se tornar extrema, cada povo amazônico, no seu próprio ritmo e à sua maneira, poderá tomar decisões para assumir o controle de sua sobrevivência, de suas florestas e de suas selvas.</p>



<p>Portanto, diante da agressão do extrativismo e da farsa das consultas prévias que excluem o consentimento das comunidades, não é por acaso que as autonomias indígenas assumem que as decisões devem ser adotadas pela autoridade coletiva dos mesmos povos e nações. Na verdade, o Artigo 7 da Convenção 169 da OIT afirma que eles têm o direito de decidir e controlar o seu próprio tipo de desenvolvimento: desde a defesa das florestas até <a href="https://nacionwampis.com/pronunciamiento-no-al-infierno-de-la-mineria-aurifera-porque-defendemos-la-vida/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">à mobilização contra a mineração de ouro </a>e <a href="https://gtaawajun.org.pe/resolucion-de-las-naciones-originarias-frente-al-petroleo-en-sus-territorios/">a poluição por hidrocarbonetos </a>que ameaçam as suas vidas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="626" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-3-1024x626.jpg" alt="" class="wp-image-13478" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-3-1024x626.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-3-300x184.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-3-768x470.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Peru-Octubre-2024-3.jpg 1280w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>No Peru, o povo Ashaninka enfrentou a violência racista do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Túpac Amaru (MRTA). <strong>Foto: </strong><a href="https://www.gob.pe/institucion/devida/noticias/576900-devida-destaca-labor-de-los-comites-de-autodefensa-para-proteger-la-seguridad-de-sus-localidades" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Devida</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Selvas e cidades para sempre: sem secessionismo</strong></h3>



<p>Quando falávamos de autonomias, falávamos de autogoverno dentro dos próprios territórios com três objetivos: vigilância, monitorização, protecção, defesa e gestão dos territórios; <a href="https://nacionwampis.com/wp-content/uploads/2021/10/Pacto-Wampis-Naturaleza-Perpetua.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a existência </a><a href="https://nacionwampis.com/wp-content/uploads/2021/10/Pacto-Wampis-Naturaleza-Perpetua.pdf">perpétua de selvas e cidades</a>; e tomar decisões de acordo com sua cultura, história e processos coletivos. Não tem absolutamente nada a ver com qualquer forma de separatismo ou secessionismo porque os povos indígenas aceitaram o artigo 46 da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas: “Nada será interpretado de forma a violar ou minar a integridade territorial ou a unidade política dos Estados”.</p>



<p>O falso argumento de uma suposta secessão é oferecido por ignorância, desinformação, preconceito ou simples pretexto distrativo de alguns grupos de interesse ligados à ditadura extrativista. Para maior amplitude, <a href="https://nacionwampis.com/el-gobierno-territorial-autonomo-de-la-nacion-wampis-publico-su-protocolo-de-relacionamiento-con-el-estado-peruano/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Governo Territorial Autônomo da Nação Wampis (GTANW) apresentou um </a><a href="https://nacionwampis.com/el-gobierno-territorial-autonomo-de-la-nacion-wampis-publico-su-protocolo-de-relacionamiento-con-el-estado-peruano/">protocolo de relacionamento com o Estado Peruano</a>. Este documento detalha as relações de respeito mútuo entre os cidadãos wampis peruanos e o Estado peruano, no âmbito constitucional e legislativo, e em busca de cooperação e construção conjunta de políticas, planos e atividades.</p>



<p>No Equador, o autogoverno de Kitu Kara enfrentou o debate interno entre duas posições extremas: por um lado, a submissão à agenda estatal e, por outro, a completa separação do Estado. Após este debate comunitário, a autonomia estabeleceu a sua própria fórmula denominada <a href="https://revistas.uncu.edu.ar/ojs/index.php/mel/article/view/5405" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Dentro, Com ou Contra o Estado”</a>, mas sempre a partir do seu autogoverno territorial. Dependendo das circunstâncias, trabalharão dentro do Estado, em conjunto e, quando necessário, agirão contra aquilo que viola os seus direitos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="723" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4-1024x723.jpg" alt="" class="wp-image-13479" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4-1024x723.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4-300x212.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4-768x542.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4-1536x1085.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-4.jpg 1817w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As autoridades do GTANW conversam com a população sobre o despejo de mineiros ilegais em Boca Ayambis. <strong>Foto: </strong><a href="https://nacionwampis.com/gobierno-territorial-autonomo-de-la-nacion-wampis-a-la-opinion-publica-sobre-expulsion-de-mineros-ilegales-de-la-zona-sagrada-paish-nain/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nación Wampis</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Territorialidade, propriedade e autogoverno</strong></h3>



<p>Embora um processo autônomo se desenvolva ao ritmo de cada cidade, podemos apontar três dimensões que podem sobrepor-se. Em primeiro lugar, começa pela recuperação da memória e do conhecimento sobre a ocupação territorial ancestral: as áreas tradicionais de povoamento, migração, cemitérios, caça, pesca e recolha, que devem ser concertadas com outras cidades vizinhas. Aldeias não indígenas, concessões e áreas protegidas são cadastradas para futuros protocolos de relacionamento e respeito à governança indígena.</p>



<p>A seguir, é construído um arquivo de suporte histórico, ecológico, jurídico e mapas territoriais e de zoneamento. Este arquivo é notificado às autoridades estaduais para que seja respeitado e que as operações extrativas não sejam permitidas. Nesse sentido, os artigos 13 e 14 da Convenção 169 da OIT descrevem <em>a territorialidade ancestral integral </em>como o habitat regional que os povos ocupam (ou utilizam de alguma outra forma) e como o direito de uso de terras que não são ocupadas exclusivamente por eles, mas para aqueles que tiveram acesso às suas atividades tradicionais e de subsistência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Numa terceira etapa, é construído o Estatuto de Autogoverno, no qual são sintetizados diversos aspectos. Isto continua com a adopção de resoluções ou decretos governamentais territoriais para o desenvolvimento estatutário e regulamentar.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Numa primeira etapa é construído um arquivo de suporte histórico, ecológico, jurídico e mapas territoriais e de zoneamento.</cite></blockquote>



<p>O estatuto jurídico indígena não respeitou a institucionalidade coletiva de cada cidade, mas foi dividido em múltiplos pedaços comunais, e foram submetidas aos mesmos procedimentos que qualquer associação civil urbana. A alternativa proposta é a abertura de um livro especial de registro como “povos indígenas” na Superintendência Nacional de Registros Públicos do Peru (SUNARP). Neste sentido, <a href="https://aplicaciones02.regionloreto.gob.pe/sites/default/files/normativa_regional/ordenanza_regional_ndeg_014-2017-grl-cr.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Governo Regional de Loreto reconheceu a existência de 22 povos indígenas</a>: embora infelizmente tenha sido bloqueado pelo Ministério da Cultura, a portaria pode ser retomada no futuro, acompanhada do <a href="https://leyes.congreso.gob.pe/Documentos/2016_2021/Proyectos_de_Ley_y_de_Resoluciones_Legislativas/PL07639-20210505.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">projeto de lei de autonomias</a>, para que o Estado cumpra o seu obrigação de respeitar os povos como “sujeitos de direito”.</p>



<p>Por fim, constrói-se o Estatuto de Autogoverno (como nos casos do <a href="https://nacionwampis.com/wp-content/uploads/2017/05/estatuto-constitutivo-del-gobierno-territorial-autc3b3nomo-de-la-nacic3b3n-wampc3ads.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">GTANW </a>e do <a href="https://gtaawajun.org.pe/wp-content/uploads/2022/07/estatuto-awajun-oficial3-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">GTAA</a>) no qual se sintetizam vários aspectos: a história de cada povo, sua visão de mundo, a delimitação territorial e <a href="https://gtaawajun.org.pe/wp-content/uploads/2023/11/ROF-GTAA-VF-ORDENANZA-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a estrutura de autoridade coletiva</a>; regulamentos sobre florestas, biodiversidade, educação, saúde e justiça; participação de homens e mulheres sábios, mulheres e jovens; e a relação com cidades não indígenas e áreas naturais protegidas pelo estado. <a href="https://gtaawajun.org.pe/borrador-codigo-de-justicia-comunitaria-awajun/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Isto continua com a adoção de resoluções ou portarias do governo territorial de desenvolvimento estatutário e regulatório</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="622" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5-1024x622.jpeg" alt="" class="wp-image-13480" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5-1024x622.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5-300x182.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5-768x467.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5-1536x933.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Foto-5.jpeg 1824w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O Governo Territorial Autônomo de Awajún (GTAA) criou um estatuto próprio de acordo com seus usos e costumes. <strong>Foto: </strong>Alejandro Parellada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Autogoverno, plurinacionalidade e decolonialidade do poder</strong></h3>



<p>Existe uma estreita relação entre as autonomias indígenas e as mudanças na sociedade e no Estado “uninacional”. A territorialidade integral da terra, a personalidade jurídico-política dos povos indígenas e o respeito pela autoridade do autogoverno implicariam na admissão de que o Peru não é uma sociedade “uninacional”. Pelo contrário, é uma velha sociedade plurinacional (não apenas pluricultural) que, nessa base social plurinacional, deverá ser projetada em direção ao Estado, para a sua adaptação como Estado Plurinacional.</p>



<p>As experiências da Bolívia, Equador, Venezuela, Canadá e Nova Zelândia indicam que isto é essencial, viável e alcançável. Mas também não basta constitucionalizá-lo, porque a colonialidade do poder colore a subjetividade social e gera múltiplos mecanismos de opressão. Contudo, a persistência da autonomia indígena exige a capacidade dos povos indígenas de exercerem seu autogoverno “de fato”, principalmente, e “de lei”, paralelamente. Os processos de autogoverno territorial podem ser fortalecidos através das contribuições de teorias sociais críticas referentes à decolonialidade do poder e do conhecimento.</p>



<p>Os processos autônomos podem ser reprimidos, desviados e talvez até mesmo interrompidos ou derrotados, mas vieram para ficar. Eles sempre surgirão, de novo e de novo, e não há como voltar atrás.</p>



<p><strong>Uma primeira versão foi publicada na revista “Comunes” em março de 2024.</strong></p>
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		<title>Incêndios florestais devastam comunidades indígenas na Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/incendios-florestais-devastam-comunidades-indigenas-na-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Miguel Vargas Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 06:38:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13436</guid>

					<description><![CDATA[<p>A Bolívia superou a área queimada registrada em 2019, quando foi atingida a cifra de seis milhões de hectares em todo o país. Neste quadro, os povos indígenas sofrem impactos devastadores nas suas fontes de alimentos e no acesso à água, bem como problemas de saúde e até mesmo deslocamentos forçados. Os incêndios florestais são um produto das alterações climáticas, mas também são alimentados por fatores políticos e econômicos. Diante deste panorama, é urgente enfrentar esta crise numa perspectiva que transcenda a resposta imediata.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>De acordo com o <a href="https://gfw.global/3MAEX5k" target="_blank" rel="noreferrer noopener">World Resources Institute </a>(WRI), a América Latina enfrenta um aumento alarmante de incêndios florestais, espelhando a tendência global. De 2001 a 2023, Brasil, Bolívia, <a href="https://gfw.global/3MAEX5k" target="_blank" rel="noreferrer noopener">México e Argentina estão entre os dez países com maior perda de cobertura arbórea causada por incêndios</a>, segundo dados da Global Forest Watch (GFW). Esta mesma fonte revela que, em conjunto, estes países registaram um aumento de três vezes e meia na perda de cobertura florestal devido a incêndios na última década, em comparação com a anterior.</p>



<p>Segundo a GFW, <a href="https://gfw.global/3MAEX5k" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Bolívia é consistentemente classificada como um dos países latinoamericanos com maior perda de cobertura arbórea devido a incêndios</a>, perdendo apenas para o Brasil, com uma perda média anual de 89.700 hectares. Por sua vez, este ano estabeleceu recordes históricos: os alertas de incêndio começaram a disparar dramaticamente em meados de julho, e a Bolívia está atualmente entre os países com o maior número de alertas em todo o mundo.</p>



<p>Até o momento, os dados da área afetada pelos incêndios não foram atualizados a partir do nível central do Estado. <a href="https://www.lostiempos.com/actualidad/pais/20240927/peor-desastre-ambiental-historia-santa-cruz-fuego-arraso-mas-7-mm-hectareas" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A nível departamental, as autoridades de Santa Cruz quantificaram um impacto em sete milhões de hectares. </a>Organizações da sociedade civil, como a Fundación Tierra e o Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisas Sociais (CEJIS), relatam que até o momento a superfície de hectares é maior e superou a área queimada em 2019, quando foram queimados seis milhões de hectares em nível nacional. Os departamentos mais afetados incluem Santa Cruz e Beni, onde as florestas secas de Chiquitano e da Amazônia estão em chamas, afetando reservas florestais, áreas protegidas e territórios indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="960" height="720" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-2-2.jpeg" alt="" class="wp-image-13442" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-2-2.jpeg 960w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-2-2-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-2-2-768x576.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Na Bolívia, os incêndios florestais afetam diretamente o cotidiano das comunidades indígenas. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma ameaça recorrente à vida indígena</strong></h3>



<p>Embora este ano seja devastador, não é a primeira vez que ONG locais, organizações indígenas e o público procuram chamar a atenção global para a crise. A frequência dos incêndios tem aumentado constantemente e impacta profundamente as comunidades indígenas, colocando em risco a sua integridade física, saúde e meios de subsistência.</p>



<p>Yirka Mendoza, líder do corpo de bombeiros voluntários de sua comunidade na Terra Indígena Monte Verde, localizada na floresta seca de Chiquitano, comenta: “Temos até medo de perder a vida porque La Chiquitania ainda está queimando e não sabemos o que mais fazer.” Por sua vez, explica que estes incêndios são uma ameaça recorrente e impactam gravemente as pessoas que vivem no seu território: “Infelizmente, todos os anos enfrentamos estes incêndios e temo que continuemos a ser afetados. Nos anos anteriores, toda a floresta e as nossas culturas sempre arderam, mas este ano o fogo foi de grande magnitude como nenhum outro, devastou até as nossas casas.” Por outro lado, destaca que muitos no território dependem do mel e dos produtos artesanais, das florestas e da fauna que agora estão sendo destruídas.</p>



<p>Os incêndios também afetaram a saúde da comunidade: a densa fumaça deteriorou significativamente a qualidade do ar, dificultando a respiração e causando frequentes dores de cabeça e irritação nos olhos. Além disso, somam-se os impactos negativos nas fontes de água. Há pouco mais de uma década, os efeitos das mudanças climáticas e do desmatamento intensificaram o contexto de estresse hídrico nas comunidades da floresta seca de Chiquitano. Atualmente, as poucas fontes de água estão contaminadas pela presença de cinzas. Estes riscos para a saúde, o acesso à água e a integridade física são especialmente preocupantes para grupos vulneráveis, como as crianças e os idosos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A escassez crítica de água e medicamentos, combinada com o fumo e o fogo, estão forçando muitos a abandonar as suas casas e territórios, gerando um fenômeno de deslocação forçada.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A escassez crítica de água e medicamentos, combinada com o fumo e o fogo, estão forçando muitos a abandonar as suas casas e territórios, gerando um fenômeno de deslocação forçada.</cite></blockquote>



<p>Neste contexto, os povos indígenas da Bolívia assumem frequentemente o papel de bombeiros: muitas das comunidades do território de Monte Verde criaram as suas próprias brigadas de incêndio. Após os incêndios devastadores de 2019, os membros da comunidade indígena foram treinados para combater os incêndios florestais de forma mais eficaz. No entanto, Yirka enfatiza que faltam ferramentas adequadas. Ela e a sua equipe de 20 bombeiros voluntários estão na linha da frente, arriscando as suas vidas com roupas normais enquanto tentam proteger as suas comunidades e colheitas dos incêndios contínuos. Sem as ferramentas ou equipamentos de proteção adequados, seus esforços são ainda mais perigosos.</p>



<p>Segundo o Observatório dos Direitos dos Povos Indígenas da Bolívia (ODPIB), dependente do CEJIS, <a href="https://odpib.org/seguimiento/bolivia-incendiada-arrasar-con-los-bosques-hasta-el-2025-vulnerando-derechos-fundamentales/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os incêndios florestais levaram a perdas de colheitas e complicações de saúde devido à poluição do ar em vários territórios indígenas</a>. Ao mesmo tempo, a escassez crítica de água e de medicamentos, combinada com o fumo e o fogo, está forçando muitos a abandonar as suas casas e territórios, gerando um fenômeno de deslocamento forçado que constitui mais uma violação dos direitos fundamentais destas comunidades indígenas.</p>



<p>Segundo o CEJIS, no Território de Monte Verde, pelo menos 10 comunidades indígenas pertencentes às Comunidades Centrais Indígenas de Concepción (CICC) e à Central Indígena Paikoneca de San Javier foram forçadas a abandonar suas casas e a se refugiar em centros urbanos. Concepción e San Javier. Um relatório do Apoio aos Camponeses Indígenas do Leste da Bolívia (APCOB) mostra que <a href="https://www.facebook.com/photo/?fbid=937126765114430&amp;set=a.624884329672010" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as comunidades El Regreso, Sagrado Corazón de Jesús, Puerto San Pedro, Makanaté e Monte Verde foram as mais afetadas</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-13439" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM-1536x1153.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Monte-Verde-San-Javier-2024-09-25-at-7.23.43-AM.jpeg 1599w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Corpo de bombeiros voluntário combate incêndio em Monte Verde. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Causas subjacentes dos incêndios florestais</strong></h3>



<p>O World Resources Institute relata que <a href="https://www.wri.org/insights/global-trends-forest-fires" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a tendência crescente de incêndios florestais está intimamente ligada às alterações climáticas num ciclo de feedback</a>: condições mais quentes e mais secas alimentam incêndios florestais, que, por sua vez, liberam mais carbono na atmosfera, intensificando ainda mais as alterações climáticas e aumentando a probabilidade de incêndios futuros. Além disso, o instituto destaca que, embora as alterações climáticas tornem as florestas mais vulneráveis, a desflorestação impulsionada pelos produtos de base é também um fator importante que contribui para o número crescente de incêndios florestais nas regiões tropicais.</p>



<p>Por outro lado, as ONG bolivianas atribuem o aumento dos incêndios às políticas governamentais que promovem a expansão das terras agrícolas. Nos últimos 40 anos, a área agrícola da região de Santa Cruz aumentou mais de onze vezes, passando de 264,8 mil hectares para mais de três milhões. Os grandes proprietários de terras, especialmente aqueles que se dedicam à pecuária e à produção de soja, obtiveram benefícios significativos. Esta elite agrícola exerce uma influência política substancial e colabora com empresas transnacionais como a Monsanto e a Cargill. Durante a presidência de Evo Morales, foram concedidas concessões à elite agrícola para manter a estabilidade política, com planos de expandir a fronteira agrícola em um milhão de hectares anualmente até 2025.</p>



<p>Ao mesmo tempo, entra em cena o setor camponês e colonizador (intercultural), trabalhando a terra produzindo monoculturas em pequenas propriedades e buscando uma mudança no tamanho de suas propriedades para serem consideradas médias e grandes. Desta forma, tentam aceder a recursos financeiros e aprofundar o seu modelo de produção que desafia a propriedade colectiva indígena da terra devido à sua natureza improdutiva. Este setor é o principal responsável pela invasão de territórios indígenas, áreas protegidas e terras públicas. De forma crítica, um conjunto de regulamentos conhecidos como “leis incendiárias” facilitam a conversão de florestas em terras agrícolas e incentivam a desflorestação sob o argumento da promoção da segurança alimentar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Nas terras baixas bolivianas é comum o uso do fogo para limpar terras para novas pastagens ou campos agrícolas. No entanto, durante os períodos de seca, estes incêndios intencionais podem facilmente ficar fora de controle e espalhar-se rapidamente.</cite></blockquote>



<p>Segundo o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), até 2023, as cicatrizes de queimaduras se apresentam da seguinte forma: <a href="https://library.fes.de/pdf-files/bueros/bolivien/21204.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">37% em propriedades empresariais e médias, 18% em propriedades comunais e pequenas, 16% em Terras Indígenas, 10% em Terras Fiscais Disponíveis e 17% em Terras Fiscais Indisponíveis</a>. Em outubro de 2023, <a href="https://lapatria.bo/2024/09/13/procuraduria-identifica-41-propiedades-responsables-de-chaqueos-e-incendios-ilegales-en-2023/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Procuradoria Geral do Estado realizou uma investigação aos responsáveis pelos incêndios gerados durante esta administração</a>, identificando como responsáveis 41 entidades agrícolas e pecuárias dos departamentos de Santa Cruz, La Paz e Beni.</p>



<p>De acordo com o monitoramento realizado pelo Centro Autônomo de Planejamento Territorial (CPTA), dependente do CEJIS, até 20 de setembro deste ano a área queimada afetou os territórios indígenas da seguinte forma no departamento de Santa Cruz: 56% Monte Verde, 41% Zapocó , 41% Guarayos e 70% Pantanal. Por sua vez, uma investigação realizada pelo CEJIS em 2021 quantificou que, entre <a href="https://www.cejis.org/wp-content/uploads/2021/07/incendios_territorios_indigenas.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">2010 e 2020, 58% da área total titulada como TCOs em favor de 34 povos indígenas foi afetada por incêndios</a>.</p>



<p>Nas terras baixas bolivianas, é comum o uso do fogo para limpar terras para novas pastagens ou campos agrícolas. No entanto, durante os períodos de seca, estes incêndios intencionais podem facilmente ficar fora de controle e espalhar-se rapidamente. Muitas ONGs consideram esta prática uma das principais razões para o aumento dos incêndios florestais na Bolívia. À medida que crescem os incentivos para limpar a terra, os incêndios utilizados para esse fim escapam com maior frequência. Uma vez queimadas essas áreas, os danos causados à floresta são muitas vezes irreversíveis.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-13446" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/10/IMG_9550.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Segundo o INRA, 16% da superfície queimada pertence a Terras Indígenas. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mudanças climáticas e desmatamento: uma crise que exige ação</strong></h3>



<p>À medida que os povos indígenas enfrentam o impacto devastador dos incêndios florestais, é crucial aumentar a nossa perspectiva para além da crise imediata e considerar o papel dos intervenientes nas cadeias de abastecimento da soja e da pecuária. Na Bolívia, os incêndios não são apenas resultado das alterações climáticas; são também impulsionadas por fatores políticos e econômicos que estão enraizados na procura global que se estende muito para além das fronteiras do país. As empresas multinacionais e os importadores de soja e gado contribuem significativamente para esta crise, pois continuam a incentivar a expansão agrícola em áreas florestais, causando ainda mais desflorestação.</p>



<p>Embora seja urgentemente necessário apoio imediato – como o fornecimento de melhores equipamentos para os bombeiros voluntários e a garantia de acesso a água e medicamentos – estas medidas apenas proporcionarão um alívio temporário. O problema não será resolvido até que as questões mais amplas sejam abordadas: as alterações climáticas e os sistemas econômicos que promovam a desflorestação.</p>



<p>Esta crise não é nova. Embora este ano possa ser particularmente grave na Bolívia, o problema tem se agravado há anos. Sem uma mudança nas políticas e práticas globais, bem como um esforço genuíno para enfrentar as alterações climáticas, a desflorestação e as forças que impulsionam a expansão agrícola, é provável que os incêndios florestais continuem a devastar a Bolívia e outras regiões tropicais em todo o mundo.</p>



<p></p>
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		<title>Capítulo Étnico: as promessas não cumpridas de paz na Colômbia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/capitulo-etnico-as-promessas-nao-cumpridas-de-paz-na-colombia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Asdrúbal Plaza Calvo]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 06:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Acordo Final de Paz]]></category>
		<category><![CDATA[Colombia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13450</guid>

					<description><![CDATA[<p>A participação dos povos étnicos na assinatura dos Acordos de Paz entre o Estado Colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército Popular é um caso único na história da humanidade. Além de enriquecer o documento final, o Capítulo Étnico aborda uma série de direitos internacionalmente reconhecidos e também explica como o conflito armado interno prejudicou particularmente os povos indígenas e afro-colombianos. Quase oito anos após a assinatura, é necessário fazer um balanço dos progressos, dos incumprimentos e das lições aprendidas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Com o objetivo de pôr fim a mais de 50 anos de conflito armado e lançar as bases para uma paz estável e duradoura, em 24 de novembro de 2016, o então governo colombiano liderado por Juan Manuel Santos assinou um Acordo Final de Paz com as Armadas Revolucionárias. Forças da Colômbia-Exército Popular (FARC-EP). O documento final foi assinado após vários meses de intensas negociações realizadas nas cidades de Oslo e, principalmente, em Havana.</p>



<p>As partes negociaram seis pontos: 1. Uma Reforma Rural Abrangente para transformar o campo, preencher as lacunas com a cidade e melhorar as condições de vida; 2. Participação política, ou seja, a inclusão de novas forças políticas e sem uso de violência; 3. O cessar-fogo bilateral e as hostilidades e a entrega de armas pelas FARC-EP; 4. A solução para o problema das drogas ilícitas e a oferta de alternativas econômicas às comunidades afetadas; 5. Acordo sobre as vítimas do conflito como medidas de verdade, justiça, reparação e garantias de não repetição; 6. Métodos de implementação e verificação do acordo e endosso pela sociedade.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="566" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1-1024x566.jpg" alt="" class="wp-image-13469" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1-1024x566.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1-300x166.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1-768x424.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1-1536x849.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2023-1.jpg 1650w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A participação dos líderes dos povos étnicos durante o Acordo de Paz é um fato histórico. <strong>Foto: </strong>Asdrúbal Plaza Calvo</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Participação étnica: um fato inédito no mundo</strong></h3>



<p>Como um dos dois atores políticos do Acordo Final de Paz, o governo colombiano foi representado pelo então presidente, Juan Manuel Santos, e pelo chefe da equipe de negociação, Humberto de la Calle. Por sua vez, as FARC-EP foram representadas pelo seu Comandante-em-Chefe, Rodrigo Londoño, e pelo respectivo chefe da equipe de negociação, Luciano Marín. Além disso, houve o apoio e a participação de Cuba e da Noruega como países garantes, e da Venezuela e do Chile como companheiros.</p>



<p>Durante o processo de negociação, os povos étnicos foram adotados como terceiro ator político, um fato sem precedentes a nível mundial. Eles foram representados pela Organização Nacional Indígena da Colômbia (ONIC), pelo Movimento de Autoridades Indígenas do Sudoeste da Colômbia (AISO) e pelo Conselho Nacional Afro-Colombiano pela Paz (CONPA). Desta forma, conseguiram incluir um <a href="https://www.onic.org.co/images/noticias/2016/08/Cap%C3%ADtulo_%C3%89tnico.pdf">Capítulo Étnico </a>que reconhece que as pessoas foram despojadas das suas terras, territórios e recursos, gravemente afetados pelo conflito armado interno, e que devem manter as suas instituições, culturas e tradições.</p>



<p>O <a href="https://www.onic.org.co/images/noticias/2016/08/Cap%C3%ADtulo_%C3%89tnico.pdf">Capítulo Étnico </a>também inclui princípios para a implementação dos componentes do Acordo Final com enfoque étnico e cultural: não regressão, eliminação da discriminação racial e da discriminação contra as mulheres, autodeterminação, autonomia, autogoverno, participação, consulta e Consentimento Livre, Prévio e Informado. Também consagra o direito à identidade e integridade social, econômica e cultural, aos direitos sobre as suas terras, territórios e recursos, e à proteção e segurança jurídica das terras e territórios ancestral e tradicionalmente ocupados.</p>



<p>Finalmente, o <a href="https://www.onic.org.co/images/noticias/2016/08/Cap%C3%ADtulo_%C3%89tnico.pdf">Capítulo Étnico </a>estabeleceu quatro salvaguardas substanciais: 1. Consulta Prévia, Livre e Informada sobre qualquer medida que os afete; 2. Direito à oposição cultural relativamente a qualquer medida que afete a sua cultura, tradições e sobrevivência; 3. Abordagem interétnica às mulheres, à família e às gerações, que também está incluída na reforma rural, na participação política, na solução do problema das drogas ilícitas, na reparação às vítimas, na implementação e na verificação; 4) Não regressão de direitos, ou seja, a implementação do acordo não pode prejudicar os direitos adquiridos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-1024x682.jpg" alt="" class="wp-image-13470" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-1024x682.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-2-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>&nbsp;</strong>Juan Manuel Santos eRodrigo Londoño na cerimônia de assinatura do Acordo de Paz. <strong>Foto:</strong> <a href="https://www.cancilleria.gov.co/en/newsroom/news/intervencion-presidente-juan-manuel-santos-acto-firma-nuevo-acuerdo-paz-farc" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Andrés Piscov &#8211; Chancelaria OP</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimentos regulatórios após o acordo</strong></h3>



<p>Uma vez assinado o Acordo Final de Paz, iniciaram-se os desenvolvimentos jurídicos necessários à sua implementação. Basicamente foram identificadas duas etapas: <em>fast track </em>e <em>post fast track</em>. Anteriormente, havia sido editado o Ato Legislativo de 1º de julho de 2016, que estabelece instrumentos jurídicos para facilitar e garantir a implementação e o desenvolvimento regulatório do acordo final para a cessação do conflito e a construção de uma paz estável e duradoura.</p>



<p>Por meio do mecanismo <em>fast track</em>, foram emitidas 23 regulamentações. Entre as mais significativas estão a criação do Sistema Integral de Verdade, Justiça, Reparação e Não Repetição, incluindo a Jurisdição Especial para a Paz (JEP); o Ato Legislativo de Estabilidade e Segurança Jurídica ao Acordo Final; o Ato Legislativo para a reincorporação política das FARC e a criação dos Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial (PDET), do Sistema Integral de Segurança para o Exercício da Política e do Programa Nacional Integral de Substituição de Culturas para Uso Ilícito (PNIS). Ao mesmo tempo, foram estabelecidas medidas para a reintegração econômica dos membros das FARC-EP, sobre acordos humanitários e para a implementação da Reforma Rural Integral.</p>



<p>Após o mecanismo <em>fast track</em>, vários regulamentos legais foram emitidos para continuar a implementação do Acordo: a Lei 1957 sobre a Administração da Justiça na Jurisdição Especial para a Paz (JEP); a Lei 1958 para a reincorporação económica e social das FARC-EP na vida civil; a Lei 1959 sobre a proteção dos defensores dos direitos humanos e das suas famílias; o Decreto 2.278 que cria o Fundo Colômbia em Paz; a Lei 2.078 que amplia a Lei 1.448 de 2011 sobre Vítimas e Restituição de Terras; a Lei 2.197 sobre segurança cidadã e territorial; o Decreto 1.874 que cria a Unidade Especial de Investigação de crimes prioritários cometidos contra lideranças sociais, defensores de direitos humanos e signatários do Acordo de Paz; e o Decreto 1.591 que cria o Sistema Integral de Segurança para o Exercício da Política.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-13471" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-1536x863.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Colombia-Octubre-2024-3-rotated.jpg 1651w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Jesús Santrich, comandante da guerrilha, analisa o Capítulo Étnico com a Praça Asdrúbal Calvo. <strong>Foto:</strong> Asdrúbal Calvo Plaza</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A implementação do Capítulo Étnico</strong></h3>



<p>O Plano-Quadro de Implementação acordado entre o Governo e os povos étnicos descreve um roteiro detalhado sobre os passos que o Acordo de Paz e o seu Capítulo Étnico devem tomar. Este plano procura traduzir acordos gerais em ações concretas e mensuráveis, com vista a definir, numa perspetiva étnico-cultural, políticas públicas, metas, indicadores e prazos. Além disso, atribui responsabilidades institucionais, estabelece uma estimativa de custos e garante mecanismos de monitoramento e verificação.</p>



<p>Apenas oito anos após a assinatura, o Capítulo Étnico só conseguiu atingir 37 por cento da sua implementação, com os pontos 4 e 5 (solução para o problema das drogas ilícitas e a oferta de alternativas económicas e o acordo sobre as vítimas), os mais atrás. O mesmo ocorre com os processos de titulação coletiva de terras e entrega formal de terras. O ponto 6 sobre implementação, verificação e aprovação é o que reflete o maior progresso, mas estes são em grande parte indicadores de gestão e não indicadores de impacto.</p>



<p>Segundo relatório de 2023 da Controladoria-Geral da República, o investimento geral total acumulado entre 2017 e 2022 para a implementação do Acordo Final de Paz foi de aproximadamente 51,2 bilhões de pesos colombianos (12,2 bilhões de dólares), distribuídos anualmente pelas seguintes rubricas: 2017 2,9 bilhões de pesos, 2018. 5,7 bilhões; 2019, 9 bilhões; 2020. 9,8 bilhões; 2021, 11,9 bilhões; e 2022. 11,9 bilhões de pesos.</p>



<p>Por fim, há também dados sobre o investimento econômico do Acordo de Paz acumulado entre 2017 e 2022: Reforma Rural Integral: 25,7 mil milhões de pesos; participação política: 1 bilhão de pesos; fim do conflito: 4,8 bilhões de pesos; solução para o problema das drogas: 4,9 bilhões de pesos; vítimas: 11,5 bilhões de pesos; implementação, verificação e endosso: 3,3 bilhões de pesos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="447" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Colombia-Octubre-2024-4B-1.jpg" alt="" class="wp-image-14604" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Colombia-Octubre-2024-4B-1.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Colombia-Octubre-2024-4B-1-300x175.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Socialização do III Relatório sobre o processo de implementação do Capítulo Étnico do Acordo Final de Paz da Instância Especial de Alto Nível dos Povos Étnicos da Colômbia. <strong>Foto:</strong> <a href="https://ieanpe.com/2024/06/06/ieanpe-presenta-iii-informe-de-balance-sobre-la-implementacion-del-capitulo-etnicodel-acuerdo-final-de-paz/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ieanpe</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Lições sobre a implementação do Capítulo Étnico</strong></h3>



<p>A Instância Especial de Alto Nível com Povos Étnicos (IEANPE) desempenhou um papel importante na verificação do cumprimento do Capítulo Étnico. Produziu relatórios para apontar progressos e retrocessos, defendeu uma maior atenção às necessidades e exigiu uma maior participação dos povos étnicos na implementação. Ele também expressou preocupação com o ritmo lento de muitas disposições do Capítulo Étnico, apontando lacunas significativas entre os compromissos e as ações tomadas. Isto é especialmente observado na restituição de terras, na proteção de lideranças sociais e no desenvolvimento de programas socioeconômicos específicos para essas comunidades.</p>



<p>Da IEANPE acreditamos que esta primeira etapa da implementação do Capítulo Étnico deixou várias lições para os povos étnicos:</p>



<ol class="wp-block-list">
<li>Participação e consulta: é necessária a inclusão dos povos étnicos nos processos de negociação e tomada de decisão desde o início;</li>



<li>Perspectiva étnica: foi reconhecida a necessidade de uma perspectiva étnico-cultural que tenha em conta as particularidades culturais, sociais e territoriais;</li>



<li>Desafios na implementação: a execução do que foi acordado enfrenta obstáculos como a falta de recursos, a burocracia e a persistência de conflitos em territórios étnicos;</li>



<li>Fortalecimento organizacional: o processo contribui para o fortalecimento das organizações étnicas e da sua capacidade de diálogo com o Estado;</li>



<li>Visibilidade: os problemas específicos enfrentados pelos povos étnicos no contexto de conflito e pós-conflito tornaram-se visíveis;</li>



<li>Articulação institucional: é necessário melhorar a coordenação entre as diferentes instituições estatais para uma implementação mais eficaz;</li>



<li>Monitoramento e supervisão: é importante estabelecer mecanismos de monitorização e fiscalização territorial com a participação dos povos étnicos;</li>



<li>Segurança: os persistentes desafios de segurança em alguns territórios étnicos exigem garantias eficazes para líderes, comunidades e territórios;</li>



<li>Reparo abrangente: os processos de reparação coletiva devem contemplar danos materiais e imateriais;</li>



<li>Processos de Paz: por meio das suas organizações, os povos étnicos devem ser incluídos como atores políticos que contribuem para a construção, implementação e verificação de tudo o que foi acordado e como salvaguarda dos direitos étnicos.</li>
</ol>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/capitulo-etnico-as-promessas-nao-cumpridas-de-paz-na-colombia/">Capítulo Étnico: as promessas não cumpridas de paz na Colômbia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Um reconhecimento simbólico? A reforma constitucional sobre os direitos dos povos indígenas e afro no México</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/um-reconhecimento-simbolico-a-reforma-constitucional-sobre-os-direitos-dos-povos-indigenas-e-afro-no-mexico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Elisa Cruz Rueda]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 06:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Direitos Indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[México]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13452</guid>

					<description><![CDATA[<p>Embora a reforma represente um avanço para o marco regulatório nacional, as modificações chegam 30 anos depois e levantam dúvidas sobre sua possível aplicação. O principal desafio gira em torno da falta de formação financeira e administrativa para que as pessoas possam exercer a sua autonomia. Além disso, a reforma ainda não garante que a consulta prévia cumpra as normas internacionais e deixa de ser um simples ato administrativo como acontece atualmente. Na verdade, existe o risco da reforma continuar a ser um reconhecimento simbólico, sem mudanças estruturais profundas nas políticas econômicas que afetam as pessoas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A reforma constitucional de 2024 sobre os povos indígenas e afro-mexicanos, no que diz respeito ao seu reconhecimento como sujeitos coletivos de direito público, chegou com 30 anos de atraso: foi uma reivindicação do movimento indígena impulsionado pelos Acordos de San Andrés de 1996. Neste período de tempo, as condições de reconhecimento dos direitos e a sua implementação mudaram radicalmente e são mais adversas para os povos indígenas e seus povos; e agora também para os afro-mexicanos.</p>



<p>A reforma estabelece vários aspectos: sujeitos de direito público com personalidade jurídica e bens próprios; autonomia para gerir recursos públicos; direito à Consulta Prévia, Livre e Informada em projetos que afetem seus territórios; a proteção do patrimônio cultural e territorial. A reforma acrescenta uma seção sobre os direitos específicos dos povos afro-mexicanos e outra especial para as mulheres indígenas e afro-americanas. Embora muitos destes direitos já tenham estatuto internacional, foram agora incorporados no quadro jurídico mexicano (positivista e estatista).</p>



<p>O processo de construção da reforma foi complexo, liderado pelo Instituto Nacional do Índio (INPI) e incluiu consultas a milhares de autoridades comunitárias. No entanto, não cumpriu os padrões de uma consulta no âmbito do mecanismo especializado. Consequentemente, podemos dizer que se tratou antes de uma série de fóruns onde se tomaram nota de opiniões.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-1-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-13482" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-1-1024x684.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-1-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-1.jpg 1402w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Painel sobre Reforma Constitucional e Povos Indígenas no México e na América Latina. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.gob.mx/inpi/articulos/reforma-indigena-y-afromexicana-un-paso-fundamental-para-el-reconocimiento-de-sus-derechos" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Instituto Nacional dos Povos Indígenas</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios e críticas à reforma constitucional</strong></h3>



<p>O reconhecimento dos povos indígenas e afro-mexicanos como sujeitos de direito público com personalidade jurídica e bens próprios levanta uma série de desafios e críticas que devem ser enfrentados para evitar que permaneçam num quadro jurídico sem impacto real nas suas condições de vida.</p>



<p>Em primeiro lugar, embora o estatuto de “sujeito de direito público” conceda às comunidades um maior controle sobre a gestão dos seus recursos, incluindo a possibilidade de receber e gerir diretamente fundos públicos, isso não garante automaticamente o seu empoderamento. A falta de capacidades administrativas, de infraestruturas e de acesso a formação adequada pode limitar gravemente a sua capacidade de exercer este direito de forma eficaz. Sem o apoio do Estado na formação em gestão financeira e administração pública, a autonomia prometida poderia permanecer vazia e, no pior dos casos, gerar problemas de má gestão ou dependência de atores externos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Embora a reforma dê um passo importante no sentido da formalização dos direitos coletivos, existe o risco de este reconhecimento ser utilizado como recurso retórico sem um compromisso real do Estado.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Existe o risco de que este reconhecimento seja utilizado como recurso retórico sem um compromisso real do Estado.</cite></blockquote>



<p>Outra crítica central é a potencial instrumentalização política do reconhecimento da personalidade jurídica como sujeito coletivo de direito público. Embora a reforma dê um passo importante no sentido da formalização dos direitos coletivos, existe o risco de que este reconhecimento seja utilizado como um recurso retórico sem um compromisso real do Estado em fornecer às comunidades as ferramentas necessárias para exercer esses direitos. Houve vários casos em que o reconhecimento legal não se traduziu numa mudança nas suas vidas, levando à frustração e à desconfiança no governo.</p>



<p>Os ativos próprios são outro componente fundamental, mas também complexo. O fato de as comunidades poderem gerir o seu patrimônio de forma autônoma implica que tenham a capacidade de tomar decisões sobre o uso das suas terras, recursos naturais e culturais. No entanto, na prática, isto pode ser limitado por desigualdades estruturais que tornaram os territórios indígenas precários devido à pressão de intervenientes externos que procuram explorar os seus recursos para projetos extrativistas ou de infraestruturas. A isso se soma a presença do crime organizado. Sem mecanismos claros para proteger os ativos, o reconhecimento da sua gestão autônoma poderia ser mais simbólico do que real.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="619" height="391" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-2.jpg" alt="" class="wp-image-13484" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-2.jpg 619w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-2-300x189.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 619px) 100vw, 619px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O processo de construção da reforma constitucional contou com a participação de 20 mil autoridades indígenas e afro-mexicanas. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.gob.mx/inpi/articulos/iniciativa-de-reforma-constitucional-sobre-derechos-de-los-pueblos-indigenas-y-afromexicano?idiom=es" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Governo do México</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O risco das consultas continuarem a ser realizadas como antes</strong></h3>



<p>A Consulta Prévia, Livre e Informada é um dos pilares mais importantes da reforma constitucional, pois visa garantir que as comunidades indígenas e afro-mexicanas participem ativamente nas decisões que afetam os seus territórios e modos de vida. No entanto, apesar da sua relevância, este mecanismo apresenta múltiplos desafios críticos que podem limitar a sua eficácia e, em alguns casos, perpetuar as desigualdades existentes. <a href="https://hchr.org.mx/comunicados/onu-dh-el-proceso-de-consulta-indigena-sobre-el-tren-maya-no-ha-cumplido-con-todos-los-estandares-internacionales-de-derechos-humanos-en-la-materia/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Por exemplo, que os protocolos sejam elaborados pelo Estado sem a participação do povo, como foi o caso das supostas consultas sobre o erroneamente denominado Trem Maia.</a></p>



<p>O principal risco é que as consultas continuem a ser realizadas como têm sido até agora, ou seja, que sejam meramente formais e não cumpram os padrões internacionais estabelecidos na Convenção 169 da OIT e no mecanismo de peritos. Em muitas ocasiões, as consultas prévias realizadas no contexto dos megaprojetos foram realizadas de forma superficial, sem garantir que as comunidades compreendessem verdadeiramente o âmbito dos projectos e os seus impactos a longo prazo. Isto tem gerado desconfiança em relação ao Estado e aos promotores dos projetos, o que enfraquece a finalidade do mecanismo e transforma a consulta num procedimento, em vez de um verdadeiro exercício de autodeterminação.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>As empresas e o Estado têm muitas vezes mais recursos e acesso à informação técnica, o que coloca as comunidades em desvantagem na negociação ou compreensão do impacto total dos projectos.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>As empresas e o Estado normalmente têm mais recursos e acesso à informação técnica, o que coloca as comunidades em desvantagem.</cite></blockquote>



<p>Um segundo risco é a falta de consentimento real por parte das comunidades. Embora a reforma estabeleça o direito à consulta, nem sempre garante que as comunidades tenham a opção de rejeitar projetos que considerem prejudiciais. Em muitos casos, a consulta é utilizada como mecanismo de legitimação de decisões já tomadas com muita antecedência pelo Estado ou pelas empresas, o que transforma as comunidades em simples observadores de um processo que não respeita necessariamente a sua vontade. Isto levanta uma contradição fundamental entre o direito à autodeterminação que a reforma promove e a prática real de como estes processos são realizados.</p>



<p>Além disso, o diferencial de poder entre as comunidades e os atores econômicos é outro obstáculo significativo. As empresas e o Estado têm muitas vezes mais recursos e acesso à informação técnica, o que coloca as comunidades em desvantagem na negociação ou compreensão do impacto total dos projetos. Sem apoio adequado, como intérpretes, aconselhamento jurídico ou advogados especializados, as comunidades ficam expostas a pressões externas que podem influenciar as suas decisões. Esta falta de equilíbrio nas consultas gera um cenário de desigualdade, onde os interesses econômicos tendem a prevalecer sobre os direitos territoriais e culturais das comunidades.</p>



<p>Da mesma forma, são recorrentes as críticas sobre a falta de monitoramento e cumprimento efetivo dos acordos alcançados durante as consultas. Mesmo quando as comunidades conseguem influenciar as decisões, muitas vezes os compromissos estabelecidos não são cumpridos, o que perpetua o sentimento de abandono e desconfiança. Sem mecanismos claros de responsabilização e supervisão independente, a consulta prévia torna-se um processo sem consequências reais para as empresas ou para o governo, reforçando a percepção de que se trata de uma formalidade e não de um verdadeiro exercício de justiça.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="563" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-3-1024x563.jpg" alt="" class="wp-image-13485" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-3-1024x563.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-3-300x165.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-3-768x422.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-3.jpg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>No México, a consulta prévia, livre e informada não é um direito indígena, mas sim uma exigência administrativa das empresas e do Estado para realizar intervenções nos territórios. <strong>Desenho: </strong><a href="https://lacoperacha.org.mx/rechazan-consulta-reforma-constitucional-sobre-derechos-pueblos-indigenas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">La Coperach</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O desafio de garantir que o pluralismo jurídico não permaneça no nível simbólico</strong></h3>



<p>A reforma estabelece também a proteção do patrimônio cultural e territorial das comunidades, reconhecendo os seus sistemas regulatórios e a pluralidade jurídica. No entanto, este reconhecimento legal coloca vários desafios que devem ser enfrentados para evitar que estes avanços permaneçam num nível simbólico. Em primeiro lugar, não está claro como é que estes sistemas irão interagir eficazmente com o sistema jurídico nacional. Mais ainda quando fica claro que o pluralismo jurídico constitucionalmente reconhecido no México é unitário e não igualitário. Não são os povos indígenas que estabelecem as suas regras de relacionamento com o Estado, é o Estado através do direito positivo mexicano que as estabelece.</p>



<p>A coexistência de dois sistemas jurídicos pode gerar tensões e conflitos de jurisdição, especialmente em contextos onde os direitos territoriais e os interesses econômicos colidem. Sem mecanismos claros para harmonizar as leis indígenas com as nacionais, este reconhecimento corre o risco de permanecer uma declaração sem impacto prático significativo. Além disso, a justiça intercultural exige uma formação aprofundada e empenhada dos operadores judiciais, desde juízes a advogados e defensores públicos, o que não foi desenvolvido com clareza suficiente na reforma.</p>



<p>No que diz respeito ao reforço da coesão social, é importante reconhecer que a pluralidade jurídica pode, em alguns casos, exacerbar as desigualdades dentro das comunidades. Nem todas as comunidades têm a mesma capacidade organizacional ou recursos, o que poderia gerar conflitos internos sobre a interpretação e aplicação dos seus próprios sistemas regulatórios. A reforma, embora permita um maior controle sobre os territórios, deve ser acompanhada de políticas que promovam a equidade dentro das próprias comunidades para evitar o aprofundamento das assimetrias existentes.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="650" height="440" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-4.jpg" alt="" class="wp-image-13456" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-4.jpg 650w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Mexico-Octubre-2024-4-300x203.jpg 300w" sizes="auto, (max-width: 650px) 100vw, 650px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A reforma promove a participação das mulheres indígenas e afro-mexicanas na tomada de decisões, mas deve ser acompanhada de medidas concretas. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.gob.mx/inpi/articulos/avanza-reconocimiento-de-los-derechos-inalienables-de-los-pueblos-indigenas-y-afromexicanos-373347" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Governo do México</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma reforma que só poderia ser simbólica</strong></h3>



<p>Em relação à justiça climática, o reconhecimento dos direitos territoriais e culturais das comunidades indígenas é um componente chave para a proteção ambiental, dado que estas comunidades têm sido historicamente guardiãs da biodiversidade. No entanto, esta abordagem enfrenta tensões com os interesses econômicos do Estado e das empresas extrativistas, que continuam a dar prioridade aos megaprojectos sem o consentimento real das comunidades afetadas. A justiça climática só será alcançável se a voz e o conhecimento tradicional das comunidades indígenas forem respeitados na tomada de decisões sobre os seus territórios, o que exige uma mudança profunda nas políticas de desenvolvimento.</p>



<p>No que diz respeito à equidade de gênero, a reforma inclui disposições para a participação das mulheres indígenas e afro-mexicanas na tomada de decisões. No entanto, estes progressos são insuficientes se não forem acompanhados de medidas concretas para garantir que estas disposições sejam implementadas na prática. Nas comunidades, as mulheres enfrentam barreiras tanto nos seus contextos culturais como na sua relação com o Estado, exigindo políticas específicas de empoderamento e apoio para garantir que a sua participação não seja simplesmente um ideal no papel. E isso só será possível com a participação dos povos indígenas como sistemas complexos.</p>



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<cite>Historicamente, o Estado mexicano concedeu reconhecimento formal aos direitos dos povos indígenas, mas sem se comprometer a transformar as dinâmicas de poder que perpetuam a exclusão e a marginalização.</cite></blockquote>



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<cite>Sem uma mudança real nas políticas econômicas que priorizem o extrativismo e os interesses comerciais, o impacto da reforma poderá ser limitado.</cite></blockquote>



<p>Um dos problemas mais notáveis é a falta de clareza sobre como será garantida a atribuição de recursos orçamentais específicos para implementar os direitos reconhecidos. Sem financiamento adequado, os mecanismos de Consulta Livre, Prévia e Informada poderiam tornar-se simples formalidades, sem verdadeiro poder de decisão para as comunidades. Além disso, a autonomia prometida poderá ser anulada se as comunidades não tiverem os recursos e infra-estruturas necessárias para gerir os seus próprios projectos.</p>



<p>Além disso, a reforma não aborda de forma abrangente as profundas desigualdades estruturais nas comunidades indígenas e afro-mexicanas. Algumas comunidades, mais bem organizadas e com mais acesso aos recursos, poderão beneficiar rapidamente dos novos direitos, enquanto outras, mais marginalizadas, continuarão a ser excluídas. Isto poderia perpetuar disparidades internas e limitar o impacto equitativo da reforma.</p>



<p>Finalmente, existe o risco de a reforma continuar a ser um reconhecimento simbólico ou retórico sem mudanças estruturais profundas. Historicamente, o Estado mexicano concedeu reconhecimento formal aos direitos dos povos indígenas, mas sem se comprometer a transformar as dinâmicas de poder que perpetuam a exclusão e a marginalização. Sem uma mudança real nas políticas econômicas que priorizem o extrativismo e os interesses comerciais, o impacto da reforma poderá ser limitado.</p>



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		<title>Indígenas da Nicarágua exilados na Costa Rica</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/10/01/indigenas-da-nicaragua-exilados-na-costa-rica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Kiki]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Oct 2024 06:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Caribe nicaraguense]]></category>
		<category><![CDATA[Exílio]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13458</guid>

					<description><![CDATA[<p>Após o aprofundamento de um modelo autoritário, poucos líderes indígenas ainda permanecem na Nicarágua. Devido à invasão dos colonos em seus territórios, os povos indígenas e afrodescendentes decidem migrar para preservar sua integridade física. O principal destino é a Costa Rica, país reconhecido internacionalmente pelos seus padrões democráticos e respeito pelos direitos humanos. Contudo, muitos vivem em condições precárias e superlotadas, especialmente quando não têm autorização de trabalho. No exílio, conseguem quebrar o silêncio e dar a conhecer o contexto torturante que atravessa o seu país.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante 44 anos, quando a Revolução Sandinista começou em 1980, a Costa Rica tornou-se o principal destino dos exilados indígenas da Nicarágua. Tomar a decisão de exilar-se é extremamente difícil porque significa deixar uma vida inteira para trás. Por esta razão, a decisão de exilar é tomada quando é a única solução para salvaguardar a sua segurança física e quando o exercício da sua liderança nas suas comunidades, territórios e regiões se torna uma atividade que ameaça a vida.</p>



<p><a href="https://eacnur.org/es/exilio-y-destierro-que-significan#:~:text=El%20exilio%20es%20la%20separaci%C3%B3n%20de%20una%20persona,sobre%20todo%2C%20para%20la%20expatriaci%C3%B3n%20por%20motivos%20pol%C3%ADticos." target="_blank" rel="noreferrer noopener">O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) define o exílio como “a separação de uma pessoa da terra onde vive”</a>. Desta forma, todos os refugiados e deslocados vivem no exílio até regressarem às suas casas. De acordo com esta definição, muitos povos e líderes indígenas foram separados das suas raízes, da sua família e da sua comunidade num <em>ambiente torturante </em>pelas suas ações em defesa dos seus territórios, do direito à autodeterminação e da identidade da comunidade indígena.</p>



<p>No âmbito do direito internacional, um <em>ambiente torturante </em>é entendido como tortura em sistemas prisionais degradantes, cruéis e desumanos. No entanto, também se aplica quando os governos procuram controlar a população por meio do exercício de um poder autoritário que fomenta o medo e manipula a verdade. Consequentemente, <a href="https://www.psicosocial.net/investigacion/escala-de-entornos-de-tortura-tes/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“é um conjunto de elementos, condições e práticas contextuais, que diminuem ou anulam a vontade e o controle da vítima sobre sua vida, e que comprometem o eu”</a>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O exílio como continuidade da resistência indígena</strong></h3>



<p>Os líderes indígenas e afrodescendentes, principalmente do Caribe nicaraguense, vivem num <em>ambiente torturante </em>que os leva a abandonar (forçado ou voluntariamente) as suas comunidades e territórios em busca de segurança pessoal. Neste contexto, o destino mais próximo e mais acolhedor tem sido a Costa Rica, devido aos seus elevados padrões de políticas públicas sobre migração em toda a América Central.</p>



<p>O problema agravou-se nos últimos cinco anos, quando o governo da Nicarágua começou a fechar espaços de democracia comunitária e a aumentar o controle (ou cooptação) das estruturas de governança e instituições representativas dos povos indígenas e afrodescendentes na costa das Caraíbas. Poucas lideranças genuínas, legítimas e naturais ainda permanecem no país; e não têm outra alternativa senão permanecer em silêncio diante da opressão, perseguição e criminalização das lutas indígenas.</p>



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<cite>Graças a estes líderes no exílio, ainda é possível conhecer as lacunas nos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais dos povos indígenas e comunidades étnicas da Nicarágua.</cite></blockquote>



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<cite>Graças a estes líderes no exílio, ainda é possível conhecer as lacunas nos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais da Nicarágua.</cite></blockquote>



<p>Portanto, as vozes das comunidades que resistem em silêncio só podem ser ouvidas por meio dos líderes que estão no exílio, principalmente na Costa Rica. Graças a estes líderes no exílio, ainda é possível aprender sobre os desafios e lacunas nos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais dos povos indígenas e comunidades étnicas da costa caribenha da Nicarágua.</p>



<p>O fato de terem preservado a sua integridade física não significa que as suas condições de vida sejam as mesmas que tinham nas suas comunidades de origem. Nem todos têm a sorte de ter um emprego digno: muitos têm de trabalhar como agricultores em monoculturas ou como pedreiros na construção para sobreviver. No caso dos ainda requerentes do estatuto de refugiado ou de asilo, a situação é ainda mais complicada por não terem autorização de trabalho.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Fatores históricos da migração e do exílio na Costa Rica</strong></h3>



<p>O exílio dos povos indígenas e afrodescendentes da costa caribenha da Nicarágua remonta à época da guerra civil na década de 1980. Nesta década, os povos indígenas e crioulos pegaram em armas para exigir os seus direitos autônomos, territoriais e coletivos. Produziu grandes ondas em direção a Honduras e Costa Rica. Em 1983, <a href="https://cidh.oas.org/countryrep/Miskitoeng/part1.htm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Comissão Interamericana de Direitos Humanos falou de &#8220;um êxodo em massa&#8221; de cerca de 10 mil </a><a href="https://cidh.oas.org/countryrep/Miskitoeng/part1.htm">pastores misquitos e morávios que cruzaram o rio Coco, e se estabeleceram num campo de refugiados localizado no departamento de Gracias a Dios</a>.</p>



<p>Uma das causas da migração dos Muskitias da Nicarágua para o exterior, especialmente na Costa Rica, deve-se ao deslocamento interno sofrido pelas comunidades indígenas Miskitus e Mayangna. <a href="https://www.vozdeamerica.com/a/sin-tierras-y-exiliados-por-que-algunos-miskitos-nicaraguenses-viven-hacinados-en-costa-rica-/7060152.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A defensora dos territórios indígenas da Nicarágua, Becky McCrea, atribui a saída massiva dos misquitos e de outros povos indígenas à invasão de colonos não indígenas que os despojam de suas terras</a>. O advogado destaca que boa parte da responsabilidade recai sobre o Estado que não impede a invasão.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Nos últimos cinco anos, desde a crise democrática, a quebra do Estado de direito e a crise social de 2018, o exílio e a migração intensificaram-se.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Desde a crise democrática, a quebra do Estado de direito e a crise social de 2018, o exílio e a migração intensificaram-se.</cite></blockquote>



<p>A gravidade desta situação é partilhada por diversas organizações reconhecidas internacionalmente. <a href="https://www.vozdeamerica.com/a/sin-tierras-y-exiliados-por-que-algunos-miskitos-nicaraguenses-viven-hacinados-en-costa-rica-/7060152.html">O IWGIA </a>informa que o desmatamento e o deslocamento são causados por empresas transnacionais localizadas em territórios indígenas e pela colonização de mestiços do interior do país. Por sua vez, <a href="https://www.acnur.org/noticias/briefing-notes/el-numero-de-nicaraguenses-desplazados-en-costa-rica-se-ha-duplicado-en">o ACNUR </a>afirma: “Nos últimos oito meses, o número de refugiados e requerentes de asilo da Nicarágua na Costa Rica duplicou. O número de deslocados é superior a 150.000, 3% da população total da Costa Rica de 5.000.000.”</p>



<p>Nos últimos cinco anos, desde a crise democrática, a quebra do Estado de direito e a crise social de 2018, o exílio e a migração intensificaram-se. “A Costa Rica é o principal destino dos nicaraguenses deslocados à força, abrigando cerca de 200 mil cidadãos, sendo um desafio gigantesco em termos de segurança cidadã que o Estado costarriquenho enfrenta”, detalha o <a href="https://colectivodhnicaragua.org/wp-content/uploads/2022/06/290622-NICARAGUA-ENTRE-REPRESION-Y-RESISTENCIA-CIUDADANA-finalisimo.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Relatório Nicarágua: entre a repressão e a resistência cidadã</em></a>, do <em>Colectivo de Derechos Humanos y Nicaragua Nunca</em>.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A invasão de colonos e deslocamentos forçados</strong></h3>



<p>Deve-se notar que a situação dos povos indígenas e afrodescendentes da Nicarágua é estrutural. Em todos os governos, sofreram diferentes ataques de natureza política, social, econômica e ambiental. Esta situação de vulnerabilidade vem se agravando desde 2015, após ataques armados perpetrados por colonos que invadiram as terras indígenas de Tasba Raya, no município de Waspam, região autônoma da costa norte do Caribe.</p>



<p>O panorama é complexo. Os colonos organizaram-se em gangues criminosas e atacam sistematicamente com armas de fogo. Embora tenha havido feridos, raptos e mortes, mais de 1.000 pessoas deslocadas estão privadas dos seus meios de subsistência e enfrentam insegurança alimentar e fome. Neste sentido, as comunidades indígenas das Regiões Autônomas foram obrigadas a deslocar-se à força para zonas fronteiriças com Honduras e Costa Rica. As atividades extrativistas, a pecuária e a monocultura são as principais causas destes deslocamentos.</p>



<p>Exilada desde 2021, a líder misskitu Susana Marley, conhecida como <em>Mamagrande</em>, <a href="https://www.vozdeamerica.com/a/sin-tierras-y-exiliados-por-que-algunos-miskitos-nicaraguenses-viven-hacinados-en-costa-rica-/7060152.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">explica que existem pelo menos 300 famílias indígenas deslocadas na Costa Rica, que vivem em condições precárias e superlotadas</a>, especialmente nas áreas de Carpio, Las Pavas e Alajuelita. Além disso, devem enfrentar dificuldades de comunicação com as suas famílias que permaneceram na Nicarágua e desconhecimento das leis de imigração. Por esta razão, sofrem exploração laboral, maus-tratos, detenções, deportações, depressão e marginalização.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A precariedade da vida na Costa Rica</strong></h3>



<p>Uma organização indígena nicaraguense no exílio estima que existam cerca de 800 famílias indígenas exiladas na Costa Rica. A maioria eram famílias Miskitu, embora também houvessem Mayangna, Rama e afrodescendentes. Entre as constatações, destaca-se a vulnerabilidade das mulheres indígenas e afrodescendentes em solo costarriquenho, especialmente pela falta de emprego formal e de documentos legais de permanência.</p>



<p>Por outro lado, existem muito poucas organizações indígenas que abordam os problemas dos migrantes. Atualmente, a líder Susana Marley Cunningham lidera uma plataforma de organizações de mulheres indígenas e afrodescendentes da Muskitia da Nicarágua e articula esforços de coordenação com outras organizações não-governamentais e as autoridades de imigração na Costa Rica.</p>



<p>O número de indígenas exilados na Costa Rica continua a aumentar. Porém, não existe um diagnóstico oficial sobre a quantidade de indígenas que vivem na Costa Rica, já que muitos a escolhem apenas como país de trânsito. Depois, mudam-se para outros países, principalmente para os Estados Unidos, por meio do programa de mobilidade segura.</p>
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