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	<title>Brasil Archives - Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 11 Nov 2025 14:54:15 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Brasil Archives - Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>COP-30 em Belém: um debate sobre a Amazônia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/11/01/cop-30-em-belem-um-debate-sobre-a-amazonia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Brenda Cardoso de Castro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Nov 2025 04:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[COP-30]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Recentemente, veículos de comunicação sediados nos centros econômicos do Brasil começaram a debater a adequação da realização da conferência em Belém do Pará, cidade amazônica que exemplifica décadas de subinvestimento em infraestrutura. O debate revela tensões históricas sobre quem pode falar em nome da Amazônia, cujas vozes são legitimadas e como as desigualdades regionais do país são evidenciadas. Por outro lado, os povos indígenas e as comunidades locais devem desempenhar um papel de liderança no debate internacional sobre justiça climática e o modelo de desenvolvimento.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/11/01/cop-30-em-belem-um-debate-sobre-a-amazonia/">COP-30 em Belém: um debate sobre a Amazônia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em um cenário marcado pela escalada das crises climáticas e pelo fracasso reiterado das metas globais, a COP-30 chega cercada de um misto de urgência extrema e profunda descrença. O evento, sediado na cidade brasileira de Belém, ocorre em um momento crucial, no qual a lacuna entre as promessas diplomáticas e a realidade das mudanças climáticas nunca foi tão vasta. A comunidade internacional se aproxima do encontro com o ônus de provar que <a href="https://theconversation.com/cop-30-cria-possibilidade-inedita-de-inclusao-de-vozes-da-amazonia-no-debate-global-sobre-o-clima-252799" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as Conferências das Partes são mais do que meros rituais de retórica vazia</a>, onde compromissos ambiciosos são anunciados para, em seguida, serem diluídos pela inação política e pelos interesses geopolíticos e corporativos. A expectativa, portanto, é um teste definitivo para a própria relevância do multilateralismo no combate às mudanças climáticas.</p>



<p>Enquanto o mundo debate o futuro do planeta, Belém passa por uma jornada de intensas transformações desde o anúncio da sede. A cidade, a população, o poder público e o setor empresarial foram tomados por um movimento quase sísmico de preparação. Agora, a poucos dias do evento, os ânimos parecem se acalmar, mas é a calmaria que antecede a tempestade, um sinal de que todos—de diferentes formas—se preparam para o que está por vir.</p>



<p>Desenvolveu-se um certo sensacionalismo geográfico em torno de Belém, geralmente propagado por veículos de comunicação e comentaristas de outras regiões do Brasil, acostumados com a infraestrutura do eixo Sul-Sudeste. Por um momento, a agenda desviou-se da emergência climática para o conforto dos participantes que chegavam para a conferência. O fato de isso ter ocorrido de forma tão desproporcional no caso da COP realizada em Belém (apesar de problemas semelhantes terem surgido em locais anteriores) é profundamente simbólico.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="680" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-1024x680.jpg" alt="" class="wp-image-16888" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-1024x680.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-300x199.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-768x510.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-1536x1021.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-1B-2048x1361.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A zona portuária de Belém do Pará. A cidade recebeu investimentos significativos para poder acolher os milhares de participantes da COP-30. <strong>Foto:</strong> Brenda Cardoso de Castro</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O debate brasileiro sobre a cidade sede</strong></h3>



<p>&#8220;É muito longe&#8221;: uma afirmação que amazônidas costumam ouvir com frequência quando em outros lugares e indagados sobre suas origens. Dizer isso carrega em si uma hierarquia territorial implícita. Longe de onde? Para quem sempre viveu na Amazônia, o custo e a dificuldade de deslocamento para centros decisórios são uma realidade normalizada. Quando o fluxo se inverte, problemas historicamente enfrentados pela população amazônica &#8211; como acessibilidade e custos elevados &#8211; repentinamente se convertem em &#8220;ameaças&#8221; à realização de um evento global.</p>



<p>Nacionalmente, <a href="https://oglobo.globo.com/brasil/cop-30-amazonia/noticia/2025/10/07/marina-silva-minimiza-criticas-a-hospedagens-para-a-cop30-o-tempo-todo-a-gente-so-fala-de-colchao-de-beliche.ghtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a preparação para a COP-30 tem repercutido muito mais nos aspectos </a><a href="https://oglobo.globo.com/brasil/cop-30-amazonia/noticia/2025/10/07/marina-silva-minimiza-criticas-a-hospedagens-para-a-cop30-o-tempo-todo-a-gente-so-fala-de-colchao-de-beliche.ghtml">logísticos do que em propostas substantivas para o debate climático</a>. Esta ênfase revela um paradoxo significativo: enquanto cientistas alertam sobre o ponto de não retorno na destruição do bioma amazônico, e <a href="https://insustentaveis.sumauma.com/a-empresa-enricou-e-tirou-a-nossa-riqueza-a-luta-de-ribeirinhos-que-perderam-o-rio-para-a-alcoa/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">multinacionais seguem contaminando rios sem adequada responsabilização</a>, a discussão midiática frequentemente se concentra na suposta incapacidade da cidade de sediar o evento.</p>



<p>A infraestrutura é essencial para a realização de eventos e o bom andamento das negociações, mas as disputas sobre sediar ou transferir a COP-30 para cidades “mais estruturadas” revelam quem é considerado apto a participar do debate climático. Mesmo com negociações restritas, o simples fato de Belém sediar o evento tornou o tema central para a população local. Esse acontecimento inédito no Pará reforça a importância de descentralizar eventos globais e evidencia os múltiplos impactos que uma COP pode gerar, muito além de suas metas e declarações oficiais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-16889" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/COP-Noviembre-2025-2-2048x1365.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Obras na cidade de Belém do Pará para a COP-30. <strong>Foto:</strong> <a href="https://agenciapara.com.br/galeria/23150/avanco-das-obras-do-parque-da-cidade-drone" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Cássio Matos &#8211; Agência Pará</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que aqueles que se indignam com os custos em Belém não veem</strong></h3>



<p>A indignação com os custos em Belém parece circunscrever-se ao limite do conforto dos participantes externos, sem aprofundar-se nas causas estruturais que tornam a vida na região historicamente cara.<a href="https://solucoes.edp.com.br/blog/tarifas-de-energia-no-brasil/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> A conta de luz no Estado do Pará é a mais cara do Brasil</a>, apesar da concentração de hidrelétricas. Belém, é a <a href="https://www.terra.com.br/planeta/sede-da-cop30-belem-e-a-6-capital-menos-arborizada-do-brasil-revela-censo-do-ibge,8abf21fdaf27d4b2c32de8f3596aa661xm96ijb5.html">6ª capital menos arborizada do país</a>, agravando o desconforto térmico e revelando uma contradição com as expectativas e imaginários sobre a região.</p>



<p>A preparação revela choques de pautas, protagonismos e narrativas. De um lado, movimentos sociais e povos indígenas afirmam seu espaço político e tornam mais visíveis as tentativas de silenciar suas demandas, especialmente em eventos na Amazônia. De outro, há um esvaziamento da voz amazônida como identidade legitimadora, usada retoricamente por autoridades locais que, na prática, defendem outros interesses políticos e econômicos.</p>



<p>A preparação para a COP-30 vai além da logística e infraestrutura, revelando tensões históricas sobre quem pode falar pela Amazônia, quais vozes são legitimadas e como as desigualdades regionais brasileiras se evidenciam, inclusive em debates sobre justiça climática global. <a href="https://amazoniavox.com/artigos/view/18/cop30_em_belem_afinal_precaria_e_a_cidade_ou_a_visao_sobre_o_que_significa_sediar_uma_cop" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sediar o evento em Belém é, por si só, um ato político que obriga o mundo a confrontar suas próprias contradições</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="680" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-1024x680.jpg" alt="" class="wp-image-16890" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-1024x680.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-300x199.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-768x510.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-1536x1021.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-3-2048x1361.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A população de Belém paga as tarifas mais altas do país e tem poucos espaços verdes para amenizar as altas temperaturas da região amazônica. <strong>Foto:</strong> Brenda Cardoso de Castro</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O peso de um culturalismo desgastado</strong></h3>



<p>Durante a COP, o risco é que se criem duas bolhas de realidade: a dos centros climatizados dos locais oficiais e a da cidade real, com seus desafios cotidianos. Espera-se que eventuais limitações de infraestrutura não ofusquem as pautas urgentes, mas que ponham em xeque o próprio <a href="https://www.scielo.br/j/ea/a/DzYjwpvT3vxySGCnwpK6BDw/?lang=pt">modelo de desenvolvimento</a> que levou a região a essa situação. Afinal, o que acontece dentro das salas de negociação e o que se vive fora delas são partes de uma mesma história: a da distância entre o discurso e a prática, entre a diplomacia e o território.</p>



<p>Algo que apareceu no fim da COP-29 em Baku, e que se confirmou na 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB62), em Bonn, em junho de 2025, é o acúmulo de pautas adiadas, revisadas e novamente postergadas — um ciclo de frustrações que agora deságua em Belém. É notável, pelas discussões na SB62, que muitos temas centrais de conferências anteriores permanecem em debate e avançam lentamente: o Balanço Global, o financiamento climático e a transição para além dos combustíveis fósseis mostram que a COP-30 carrega o peso de um multilateralismo desgastado, que ainda corre atrás de seus próprios atrasos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Um exemplo concreto é a criação do G9 Indígena: um grupo formado por nove organizações indígenas de diferentes regiões da Amazônia, que trabalham juntas para defender seus territórios, direitos e modos de vida.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Um exemplo é a criação do G9 Indígena: um grupo formado por nove organizações indígenas de diferentes regiões da Amazônia em prol da defesa de seus territórios, direitos e modos de vida.</cite></blockquote>



<p>Os impasses se repetem — o legado inconcluso do Acordo de Paris, as disputas sobre ritmo e financiamento da transição energética e as promessas de mitigação e adaptação que se renovam ano após ano sem sair do papel —, enquanto cerca de <a href="https://cop30.br/pt-br/sobre-a-cop30/contribuicoes-nacionalmente-determinadas-ndcs" target="_blank" rel="noreferrer noopener">60 países apresentam novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs)</a>, revelando mais cálculo do que coragem.</p>



<p>Independente do resultado das negociações, já se afirma que a COP-30 será uma das conferências com maior envolvimento e participação da sociedade civil. Um exemplo histórico é o G9 Indígena, <a href="https://www.globalcitizen.org/pt/content/the-g9-indigenous-leadership-uniting-nine-nations/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">grupo formado por nove organizações que representam povos indígenas de diferentes regiões da Amazônia</a> e que atuam conjuntamente na defesa de seus territórios, direitos e modos de vida.</p>



<p><a href="https://apiboficial.org/files/2025/08/250804-NDC-Ind%C3%ADgena-Documento-Final.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O G9 apresentou também sua própria NDC</a>, reafirmando o protagonismo dos povos originários na agenda climática. Nas suas propostas, o destaque é para a proteção territorial, restauração de florestas e fortalecimento de modos de vida sustentáveis, mostrando que soluções climáticas efetivas dependem da participação ativa de quem habita e protege a Amazônia há séculos. A presença do G9 evidencia que o compromisso climático genuíno exige ouvir vozes historicamente silenciadas e reconhecer sua autoridade política e ambiental.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1000" height="667" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-4.webp" alt="" class="wp-image-16891" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-4.webp 1000w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-4-300x200.webp 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-4-768x512.webp 768w" sizes="auto, (max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>“COP 30 na Amazônia. A resposta somos nós”. <strong>Foto:</strong> Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB)</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Nada jamais será como antes</strong></h3>



<p>Embora nem todos os pontos da COP-30 devam avançar significativamente, espera-se que o evento resulte em ações concretas, metas claras e mecanismos eficientes de implementação. Os debates devem se traduzir em resultados práticos nos níveis internacional, nacional e local, promovendo políticas climáticas que beneficiem tanto as comunidades vulneráveis quanto o meio ambiente</p>



<p>Da nossa perspectiva, esperamos que as COPs sejam diferentes depois de Belém. Que quem venha à cidade saia daqui entendendo que a Amazônia é muito mais complexa do que um imaginário idílico de floresta ou um “inferno verde” de destruição; que existem pessoas que vivem aqui, historicamente impactadas pelo sistema internacional, e que a região é constantemente explorada — minério e madeira saem daqui em grande volume, áreas são desmatadas para a produção de soja e outros produtos —, refletindo relações econômicas e políticas globais que frequentemente ignoram seus direitos e saberes. Que a experiência de Belém pressione cada vez mais as partes a ouvir efetivamente as populações atingidas, como povos indígenas e comunidades tradicionais, e que se repensem a estrutura e os impactos do evento, evitando que futuras conferências se limitem a centros tradicionais do Norte Global ou das regiões mais ricas de países em desenvolvimento.</p>



<p>Belém também será diferente depois da COP. Receber um evento dessa magnitude impactou a vida da população de diferentes formas, especialmente nos centros urbanos e nas periferias, onde os efeitos sobre transporte, habitação, serviços públicos e espaços públicos se tornam mais visíveis. Além das marcas das obras e dos transtornos, espera-se que a população local não esqueça como os governos conseguiram implementar diversas mudanças na cidade que, em condições normais, teriam levado anos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-16892" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5-1024x682.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5-1536x1023.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/11/Cop-Noviembre-2025-5.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Foto</strong>: Brenda Cardoso de Castro</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que esperar então?</strong></h3>



<p>Que nos sintamos mais parte da cidade, mais parte do mundo, e saibamos nossa capacidade de participar das decisões que moldam seu território. Cobrando e fiscalizando principalmente políticos eleitos na região que mais tem atuado contra o nosso futuro do que a favor dele. Por fim, que reconheçamos que as mudanças climáticas não são um tema distante ou exclusivo de países ricos: afetam diretamente milhões de pessoas que vivem aqui, diversas entre si, com diferentes experiências, modos de vida e perspectivas, cujas prioridades nem sempre coincidem ou visam os mesmos interesses.</p>



<p>O poder local tem responsabilidade e, sobretudo, capacidade de articular políticas e iniciativas que respondam a esses desafios, envolvendo comunidades, povos indígenas e demais atores locais. A experiência da cidade deve servir como ponto de reflexão sobre <a href="https://www.dw.com/pt-br/como-bel%C3%A9m-caminha-para-destino-clim%C3%A1tico-infernal/a-71468990" target="_blank" rel="noreferrer noopener">como os impactos climáticos se entrelaçam com desigualdades históricas e urbanas</a>, e como decisões tomadas globalmente reverberam aqui, reforçando a necessidade de protagonismo local e de mecanismos que conectem políticas internacionais às realidades concretas da população amazônica.</p>



<p>A presença maciça de delegações, jornalistas e observadores deveria servir para escutar as vozes que historicamente foram silenciadas — não para reproduzir, em plena Amazônia, a distância entre quem negocia o futuro do planeta e quem o habita. O risco é que a COP se torne um enclave diplomático temporário, climatizado e desconectado da realidade da região, onde as decisões se tomam longe da floresta, do calor e das pessoas que sustentam a vida neste território. Que a Conferência não sirva de cortina para os problemas, mas sim como espelho das contradições que as originam.</p>



<p>Daqui, acenamos.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A Cartografia na formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/09/01/a-cartografia-na-formacao-dos-agentes-agroflorestais-indigenas-do-acre/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Renato Antonio Gavazzi]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 04:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<category><![CDATA[Cartografía]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=16212</guid>

					<description><![CDATA[<p>Na Amazônia brasileira, povos indígenas realizam oficinas de cartografia para aprender a elaborar seus próprios mapas de seus territórios. Além de gerar suas próprias ferramentas de gestão e controle de suas terras, eles acabam criando verdadeiras obras de arte a partir de sua própria visão de mundo. Diferentemente dos mapas produzidos por acadêmicos, os mapas indígenas são repletos de cores, símbolos e desenhos. Dessa forma, a cartografia indígena reforça a cultura e a identidade.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Há quase três décadas, uma nova e estratégica categoria social surgiu no Acre, estado da região norte do Brasil: os Agentes Agroflorestais Indígenas; trata-se de uma nova geração nas sociedades indígenas desse Estado, fruto de processos educativos interculturais, da aquisição da escrita e de uma segunda língua, além do acesso a conhecimentos que exigem contato com a sociedade não indígena. Capacitados pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), organização da sociedade civil responsável pela gestão territorial e ambiental de suas terras, esses profissionais têm prestado um importante serviço às suas comunidades e ao país, promovendo iniciativas de desenvolvimento e subsistência por meio de novas políticas e projetos.</p>



<p>Esta experiência de formação para Agentes Agroflorestais Indígenas busca empoderar os próprios Povos Indígenas para que assumam o controle da gestão de seus territórios. Muitas dessas práticas visam implementar ações concretas em Terras Indígenas: promoção do desenvolvimento local com foco na soberania alimentar e agroecologia; conservação dos recursos naturais; preoteção das florestas; conscientização da comunidade sobre questões socioambientais; monitoramento e controle do território; e a implementação de programas de saúde, educação, cultura e produção que busquem diversificar as fontes de alimentos e as alternativas socioeconômicas disponíveis.</p>



<p>Neste contexto, a Cartografia Indígena tem sido um elemento importante na formação de Agentes Agroflorestais, visto que o mapeamento contribui para (re)pensar e compreender o espaço geográfico e a organização dos territórios.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="739" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-Portada-1-1024x739.jpg" alt="" class="wp-image-16216" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-Portada-1-1024x739.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-Portada-1-300x216.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-Portada-1-768x554.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-Portada-1.jpg 1167w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Agente Agroflorestal Indígena Antonio Tuī Huni Kuĩ, oficina de etnomapeamento na Terra Indígena Kaxinawa do Rio Humaitá. <strong>Foto: </strong>Marcos Rocha</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A construção de mapas</strong></h3>



<p>Durante a confecção dos mapas nas aulas de Cartografia Indígena, são utilizados diversos tipos de papel: canson, arches, madeira, sulfite e cartolina de diferentes tamanhos. Isso oferece ao Agente Agroflorestal maiores oportunidades de expressar seus conhecimentos geográficos. O uso de folhas grandes sempre foi valorizado, pois permite um melhor processamento das informações representadas no mapa. Desde o início dessa experiência, fica evidente o prazer que os indígenas demonstram em desenhar, utilizando diversas cores em seus mapas. Nas sociedades indígenas, a arte permeia a vida por toda parte, e isso também se reflete em seus mapas, que em muitos casos constituem verdadeiras obras de arte.</p>



<p>As artes sempre tiveram um lugar especial no currículo dos Agentes Agroflorestais, e as aulas de cartografia buscam destacar o aspecto artístico das atividades de cartografia. Diversos materiais para pintura são oferecidos, como lápis de cor, têmpera, aquarela, nanquim e giz de cera (este último acompanhado de óleos vegetais para dissolver a cera no papel). No entanto, devido à sua facilidade de uso e baixo custo, o material mais utilizado são os marcadores de 12 cores.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Desenhar um mapa mental de uma Terra Indígena em cartolina leva mais de dois dias. Os Agentes Agroflorestais geralmente continuam trabalhando depois das aulas e até tarde da noite.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Leva mais de dois dias para completar um mapa de uma Terra Indígena. Muitas vezes, o trabalho continua depois do horário escolar e até tarde da noite.</cite></blockquote>



<p>Antes de iniciar a criação de cada mapa, é realizada uma discussão sobre como trabalhar com ele na página. Os alunos são orientados sobre onde colocar o título e a legenda, garantindo que o espaço esteja organizado de forma que todas as informações necessárias possam ser inseridas. O desenho também é organizado na página, embora os Agentes Agroflorestais o façam à sua maneira. O mapa começa com lápis e borracha e é finalizado com o contorno das figuras com caneta nanquim ou caneta esferográfica preta de ponta fina, o que realça as figuras. Uma vez desenhado, o mapa é pintado: primeiro, com as cores estipuladas pela legenda indígena e, posteriormente, permitindo um processo criativo livre.</p>



<p>O planejamento do tempo é um aspecto muito importante a ser considerado. Como os Agentes Agroflorestais se esforçam para fazer tudo com muito cuidado, bem-acabado e com riqueza de detalhes e informações, os mapas exigem um tempo considerável para serem concluídos. Esse refinamento exige o mesmo cuidado e beleza que os povos indígenas dedicam à produção de seus artefatos culturais. Um mapa mental de uma Terra Indígena feito em papelão leva mais de dois dias para ser concluído. Frequentemente, os Agentes Agroflorestais continuam trabalhando depois da escola e até tarde da noite. Em outros casos, os mapas levam mais de quatro dias para serem concluídos, dependendo do seu tamanho e do número de Agentes Agroflorestais envolvidos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="928" height="658" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-1-1.jpg" alt="" class="wp-image-16217" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-1-1.jpg 928w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-1-1-300x213.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-1-1-768x545.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 928px) 100vw, 928px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mapa Indígena do Sistema Agroflorestal com o nome de diversas espécies de árvores do território. <strong>Foto: </strong>Agente Agroflorestal José Francisco Huni Kuĩ</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A estética da cartografia indígena</strong></h3>



<p>Os Agentes Agroflorestais são orientados na nomeação dos mapas que produzem. O título é escrito em língua indígena ou em português. São discutidos os conceitos da legenda indígena, aplicando as cores acordadas pelos professores indígenas, que são as mesmas utilizadas nos materiais didáticos de geografia nas escolas. Como já conhecem o significado dos símbolos que representam as feições do mapa, têm liberdade para criar a sua própria legenda. Discute-se a necessidade de identificar os meios de orientação utilizados pelos povos indígenas: oeste, leste, cursos de água e estrelas, mas também se trabalha o conhecimento ocidental, utilizando os pontos cardeais e a rosa dos ventos.</p>



<p>Os mapas indígenas são bilíngues, elaborados em línguas indígenas e em português. Novos termos criados em línguas indígenas são frequentemente discutidos entre os Agentes Agroflorestais até que um consenso seja alcançado. Os Huni Kuĩ chamam o mapa em sua língua <em>mae dami</em>, que significa &#8220;desenho da terra&#8221;. Eles também usam <em>maewã tanati</em>, que significa &#8220;grande espaço com muita informação&#8221;. Os Agentes Agroflorestais Huni Kuĩ chamam o mapa do sistema agroflorestal <em>de bai hanu mibã tibi husia </em>(&#8220;caminho de plantas mistas&#8221;). Mais tarde, eles recriaram outro termo para traduzir &#8220;Sistema Agroflorestal&#8221;, que ainda é usado hoje: <em>mibã haya txakama </em>(&#8220;existência de muitas plantas diferentes&#8221;). Para se referir à legenda, eles usam a palavra <em>unãti</em>, que significa &#8220;sinal&#8221;, &#8220;marca&#8221; ou &#8220;relógio que marca as horas&#8221;.</p>



<p>No início da disciplina de cartografia, muito se trabalha com neologismos em línguas indígenas para criar novos termos que serão integrados aos mapas, contribuindo assim para a construção do próprio conceito. Um mapa em línguas indígenas não só facilita a compreensão para quem o cria, mas também para outros povos indígenas. Ser escrito em sua própria língua — e não na do colonizador — constitui uma marca étnica e política de valorização da cultura e das línguas minoritárias. Além disso, serve como meio de compreensão das relações de poder e dominação: uma forma de descolonizar ideologias de opressão.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1005" height="645" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-3-1.jpg" alt="" class="wp-image-16218" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-3-1.jpg 1005w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-3-1-300x193.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-3-1-768x493.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1005px) 100vw, 1005px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mapa do Diagnóstico Ambiental da Terra Indígena Kaxinawa Seringal Independência. <strong>Mapa: </strong>Edson Ixã Huni Kuĩ</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O mapa como arte indígena</strong></h3>



<p>Nas sociedades indígenas, a arte é um elemento muito importante na formação da própria identidade. No caso dos mapas indígenas, a composição de cores, sua plasticidade e seu apelo estético são marcantes. Acredita-se que esse aspecto significativo de beleza se deve ao prazer que esses &#8220;novos cartógrafos&#8221; sentem ao desenhá-los. Essa arte de cartografar é caracterizada pela naturalidade, originalidade, simplicidade, liberdade e informalidade, já que técnicas acadêmicas como perspectiva, composição e uso da cor estão ausentes dessa atividade. Isso permite o registro, com beleza e vitalidade, de uma visão de mundo, uma experiência social que demonstra o conhecimento e a habilidade indígenas, tanto em relação às artes visuais quanto aos ecossistemas e à biodiversidade locais.</p>



<p>Imbuídos de arte, esses mapas revelam o pensamento indígena sobre o território e sua terra. Ao mesmo tempo, possuem uma dimensão política, pois são constantemente elaborados e retrabalhados ao longo dos anos, um dinamismo que acompanha e expressa a própria vida dos Agentes Agroflorestais. Alguns chegam a utilizar letras desenhadas em forma de animais, pessoas ou plantas em seus mapas e decoram as bordas com arcos e flechas. Outros povos, como os Ashaninka, utilizam desenhos de seus trajes tradicionais.</p>



<p>Em suma, os mapas indígenas são peças únicas que refletem a inspiração de seus criadores. Raramente são meras representações geográficas: vêm com uma série de significados e emblemas personalizados. O papel simbólico da decoração está presente em muitos mapas indígenas. Por exemplo, nas molduras, os Agentes Agroflorestais marcam seus mapas com <em>kene kuĩ </em>(&#8220;desenhos verdadeiros&#8221;): desenhos geométricos tradicionais que representam o conhecimento ancestral transmitido de geração em geração e ensinado às mulheres Huni Kuĩ pela jiboia. Esses grafismos retratam elementos da natureza, como animais e plantas, e fazem parte tanto de pinturas corporais quanto daquelas feitas em tecidos, cerâmicas, cestarias, bancos e ornamentos (hoje também podem ser vistos em suas casas, pintados em paredes e pisos).</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="944" height="571" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-4-1.jpg" alt="" class="wp-image-16219" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-4-1.jpg 944w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-4-1-300x181.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Brasil-Septiembre-2025-4-1-768x465.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 944px) 100vw, 944px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mapa da área de pesca na Terra Indígena Kaxinawa do Rio Jordão. <strong>Mapa: </strong>José Moisés, Vania, Alcione Melo, José Melo Francisco Pinheiro e Anastacio Pinheiro</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Imagens que simbolizam esperança</strong></h3>



<p>Com o tempo, o estilo único de cada comunidade na produção de seus mapas torna-se perceptível. É evidente que cada uma possui uma estética, uma tendência estilística e um estilo de linha distintos dos demais. Os diferentes estilos são claramente distinguíveis: Huni Kuĩ, Noke Koī, Yawanawa, Manxineru ou Ashaninka. Assim como nos desenhos em papel, no caso dos mapas, a arte gráfica contemporânea revela a concepção de universo dos povos indígenas, além de representar a reafirmação de sua identidade étnica e uma preocupação essencialmente estética.</p>



<p>Os mapas criados por Agentes Agroflorestais têm a característica singular de combinar o estético com o político. Muitas vezes, há dificuldade em reconhecer os mapas indígenas como instrumentos políticos devido à sua beleza estética, pois acabam sendo vistos apenas como obras de arte. No entanto, o aspecto político se evidencia no aspecto linguístico, quando as legendas e os títulos são escritos em línguas indígenas. Também está presente nas demandas para que o Estado responda aos seus problemas, estabelecendo um diálogo político com a sociedade nacional e internacional. Também aparece em demandas relacionadas à terra, à saúde, à conservação dos recursos naturais e ao reconhecimento da própria identidade cultural.</p>



<p>Os mapas criados pelos povos indígenas transmitem significados, conhecimentos e demandas. Além de serem materiais para uso interno de suas respectivas comunidades, tornam-se instrumentos para sua relação com a sociedade ocidental moderna. No entanto, esses mapas não são estáticos: cada um não é um mero produto acabado, mas o resultado de um processo contínuo de diálogo entre comunidades indígenas, seus conselheiros, vizinhos e o Estado brasileiro. Tais mapas são também sonhos de um futuro diferente, imagens simbólicas de esperança por um país mais justo, plural e inclusivo.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/09/01/a-cartografia-na-formacao-dos-agentes-agroflorestais-indigenas-do-acre/">A Cartografia na formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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		<title>Os povos indígenas na luta contra as mudanças climáticas no Brasil: o distanciamento entre o Plano Nacional de Adaptação e as estratégias autônomas</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/11/01/os-povos-indigenas-na-luta-contra-as-mudancas-climaticas-no-brasil-o-distanciamento-entre-o-plano-nacional-de-adaptacao-e-as-estrategias-autonomas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Martha Fellows]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2024 20:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[alterações climáticas]]></category>
		<category><![CDATA[Brasil]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13140</guid>

					<description><![CDATA[<p>O Brasil está enfrentando eventos climáticos extremos sem precedentes, como secas severas e incêndios florestais. Enquanto isso, o governo federal revisa seu Plano Nacional de Adaptação, uma oportunidade para incluir as perspectivas indígenas nas políticas públicas e mudar o cenário futuro. Demorou mais de 500 anos para que os povos indígenas tivessem o seu próprio ministério: a questão é quantos anos mais serão necessários para que a sua visão de mundo seja incorporada nas políticas públicas.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>No seu último relatório, <a href="https://www.ipcc.ch/report/sixth-assessment-report-cycle/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas (IPCC) </a>observou que, embora as alterações climáticas sejam um fenômeno global, alguns grupos são mais afetados pelos seus impactos. O <a href="https://www.bloomsbury.com/us/climate-justice-9781632869289/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">debate sobre justiça climática</a> levanta preocupações de que os grupos que suportam um fardo desproporcional são muitas vezes aqueles que menos contribuíram para a crise climática. Embora os países do Norte Global sejam historicamente responsáveis pelo cenário atual, o Brasil está entre os <a href="https://seeg.eco.br/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dez maiores emissores</a> de gases de efeito estufa.</p>



<p>A nível nacional e regional, as comunidades indígenas desempenham um papel essencial no esforço de combate à crise climática. Reconhecidos pela sua relação intrínseca com o meio ambiente e seus territórios, os conhecimentos ancestrais têm contribuído para manter os ciclos naturais e o clima equilibrados. Na Amazônia, <a href="https://www.pnas.org/doi/full/10.1073/pnas.1913321117" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as Terras Indígenas apresentam baixas taxas de desmatamento (&lt;2%)</a>, o que torna essas áreas críticas para impedir a perda florestal e manter o carbono no solo. <a href="https://ipam.org.br/bibliotecas/pl-2903-e-a-tese-do-marco-temporal-ameacas-aos-direitos-indigenas-e-ao-clima/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Além disso, a temperatura média nos territórios indígenas da Amazônia brasileira é 2 graus mais baixa e a evapotranspiração pode ser até três vezes maior do que nas pastagens e monoculturas vizinhas.</a></p>



<p>Embora os povos indígenas sejam um grupo crucial na contenção da crise climática, estão mais expostos aos seus impactos devido à sua interdependência com os recursos naturais. Com a mudança no padrão de chuvas, aumenta o risco de perda das colheitas, resultando em insegurança alimentar. <a href="https://www.nature.com/articles/s43247-024-01530-4" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Nos anos anteriores, comunidades inteiras ficaram isoladas devido à grave seca na Amazônia</a>, limitando o seu acesso a bens e recursos essenciais. Da mesma forma, o racismo estrutural acrescenta outra barreira que exclui as comunidades indígenas dos processos de tomada de decisão onde são definidas soluções climáticas, como a preparação de Planos Nacionais de Adaptação (PAN).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="851" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-Portugues-1024x851.png" alt="" class="wp-image-13145" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-Portugues-1024x851.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-Portugues-300x249.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-Portugues-768x638.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-Portugues.png 1148w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A taxa de desmatamento em Terras Indígenas é uma das mais baixas entre as categorias de terras na Amazônia brasileira. <strong>Imagem: </strong><em>Alencar et al, 2023</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Plano Nacional de Adaptação do Brasil</strong></h3>



<p>Em 2016, o Brasil lançou a primeira versão do seu Plano Nacional de Adaptação. Naquela época, o recém-formado Comitê Indígena de Mudanças Climáticas (CIMC) participou de diversas reuniões para apresentar suas contribuições para esta nova política pública. Contudo, o formato do PAN brasileiro incluiu os povos indígenas no setor “<a href="https://www.gov.br/mma/pt-br/assuntos/mudanca-do-clima/clima/arquivos/livro_pna_plano-nacional_v2_copy_copy.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">População e Povos Vulneráveis</a>”. O CIMC, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e outras organizações da sociedade civil, como o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), contribuíram para a concepção do subcapítulo “População e Povos Vulneráveis”, seguindo as limitações então impostas.</p>



<p>O atual momento político tem demonstrado maior disposição para incluir os povos indígenas no mesmo nível de outros setores na revisão do PNA brasileiro. O Ministério dos Povos Indígenas (MPI) está entre outros 25 ministérios que estão redesenhando o processo do PNA. Sob a liderança da Ministra Sonia Guajajara, uma líder indígena de renome internacional, o MPI reuniu organizações e representantes indígenas para moldar o setor dos povos indígenas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Sob a liderança da Ministra Sonia Guajajara, uma líder indígena de renome internacional, o Ministério dos Povos Indígenas reuniu organizações e representantes indígenas para moldar o setor dos povos indígenas.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Sob a liderança da Ministra Sonia Guajajara, o Ministério dos Povos Indígenas reuniu organizações indígenas para moldar o setor dos povos indígenas.</cite></blockquote>



<p>Porém, mesmo com a participação da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) no processo, alguns representantes indígenas tiveram dificuldade em contribuir, uma vez que o PAN tinha um cronograma rígido e sua metodologia restringia a participação de muitos.</p>



<p>Espera-se que o novo Plano Nacional de Adaptação do Brasil, a ser publicado no final de 2024, tenha feito progressos consideráveis em conteúdo e participação; contudo, as expectativas das organizações indígenas podem não ser atendidas devido ao formato de participação que lhes é concedido. Menos de 30 representantes indígenas puderam participar do workshop que teve como objetivo integrar suas perspectivas sobre esta política climática. Embora aqueles que não puderam estar presentes tenham tido a oportunidade de submeter a sua contribuição por meio de uma plataforma aberta, a maioria das comunidades carece de conectividade, o que pode restringir a sua participação no processo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-13146" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-2.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Workshop promovido pelo MPI para incorporar perspectivas indígenas no Plano Nacional de Adaptação do Brasil. <strong>Foto: </strong><em>Washington Costa</em></em> / <em>Ministério dos Povos Indígenas</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Estratégias autônomas dos povos indígenas</strong></h3>



<p>Muito antes do governo brasileiro ou organizações internacionais estabelecerem a necessidade de construção de estratégias nacionais de adaptação, <a href="https://www.researchgate.net/publication/323370456_A_GESTAO_AMBIENTAL_E_TERRITORIAL_DE_TERRAS_INDIGENAS_DA_AMAZONIA_BRASILEIRA_UMA_QUESTAO_CLIMATICA">os povos indígenas se </a><a href="https://www.researchgate.net/publication/323370456_A_GESTAO_AMBIENTAL_E_TERRITORIAL_DE_TERRAS_INDIGENAS_DA_AMAZONIA_BRASILEIRA_UMA_QUESTAO_CLIMATICA" target="_blank" rel="noreferrer noopener">organizaram</a><a href="https://www.researchgate.net/publication/323370456_A_GESTAO_AMBIENTAL_E_TERRITORIAL_DE_TERRAS_INDIGENAS_DA_AMAZONIA_BRASILEIRA_UMA_QUESTAO_CLIMATICA"> de diversas formas para combater os impactos das mudanças climáticas</a>. O Conselho Indígena de Roraima (CIR) é um modelo de como os povos indígenas se destacam ao combinar seu conhecimento ancestral com a ciência não indígena.</p>



<p>Localizada no Nordeste da Amazônia brasileira, a etnia Serra da Lua abrange três territórios indígenas e serviu de estudo de caso para ações sobre mudanças climáticas. No final da década de 1990 e início da década de 2000, três eventos climáticos extremos atingiram duramente estas comunidades. Primeiro, uma seca severa seguida de incêndios florestais devastou uma parte significativa da vegetação nativa nas aldeias indígenas. Em 2011, o rio mais importante de Roraima transbordou, batendo recordes históricos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O Conselho Indígena de Roraima (CIR) é um modelo de como os povos indígenas se destacam ao combinar seu conhecimento ancestral com a ciência não indígena.</cite></blockquote>



<p>Diante dessas situações, o CIR elaborou um estudo de caso sobre como os povos indígenas percebem as mudanças climáticas e quais são os seus mecanismos para combatê-las. Após três anos de intenso trabalho, <a href="https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/amazad-panaadinhan-percepcoes-das-comunidades-indigenas-sobre-mudancas-climaticas">a publicação </a><a href="https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/amazad-panaadinhan-percepcoes-das-comunidades-indigenas-sobre-mudancas-climaticas" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Amazad Pana&#8217;Adinhan </em></a><a href="https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/amazad-panaadinhan-percepcoes-das-comunidades-indigenas-sobre-mudancas-climaticas">apresenta o contexto socioambiental desses territórios e seu calendário de acordo com os ciclos naturais</a>. O estudo termina com um capítulo dedicado a apresentar os seus planos para enfrentar as consequências das alterações climáticas: mapearam os impactos mais frequentes, como e quando promoverão ações climáticas específicas e responsabilidades partilhadas entre a comunidade e os seus parceiros.</p>



<p>Pela sua importância, essa experiência foi citada no primeiro Plano Nacional de Adaptação do Brasil como exemplo de como os povos indígenas podem promover ações de adaptação. Em 2023, durante a 58ª sessão do Órgão Subsidiário de Aconselhamento Científico e Tecnológico da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, este estudo ressurgiu como um modelo chave.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-3.png" alt="" class="wp-image-13147" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-3.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-3-300x225.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Brasil-Noviembre-2024-3-768x576.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O Conselho Indígena de Roraima (CIR) alia conhecimentos ancestrais e ciência não indígena com o objetivo de enfrentar as mudanças climáticas. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.survival.es/noticias/8759" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Ianukula Kaiabi Suia, presidente de ATIX</em></a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Comentários finais</strong></h3>



<p>O atual Plano Nacional de Adaptação do Brasil mostra progressos significativos em comparação com sua versão anterior. Inclui os povos indígenas no mesmo nível que outros setores e convida as organizações representativas indígenas a fazerem parte do processo. A sua duração, prevista para funcionar até 2035, também demonstra a vontade política de incorporar os seus objetivos como uma política de estado relevante.</p>



<p>Contudo, ainda carrega velhos vícios na forma de construção de políticas públicas, o que tem limitado o comprometimento pleno. As questões climáticas são complexas e poucos estão familiarizados com elas. Neste sentido, para alcançar a participação efetiva da sociedade civil, <a href="https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/eet.523" target="_blank" rel="noreferrer noopener">é essencial criar uma base sólida que permita uma colaboração frutífera</a>. Embora o Ministério dos Povos Indígenas liderasse legitimamente o processo, as organizações indígenas de base tiveram pouco espaço para contribuir diretamente com suas iniciativas no terreno, como a apresentada pelo Conselho Indígena de Roraima.</p>



<p>O atual ciclo político demonstra apoio a uma agenda progressista, mas mudanças reais nas políticas públicas ainda estão muito distantes. Demorou mais de 500 anos para que os povos indígenas no Brasil tivessem seu próprio ministério. A questão é quantos mais serão necessários para descolonizar as políticas climáticas.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2024/11/01/os-povos-indigenas-na-luta-contra-as-mudancas-climaticas-no-brasil-o-distanciamento-entre-o-plano-nacional-de-adaptacao-e-as-estrategias-autonomas/">Os povos indígenas na luta contra as mudanças climáticas no Brasil: o distanciamento entre o Plano Nacional de Adaptação e as estratégias autônomas</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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