Recentemente, veículos de comunicação sediados nos centros econômicos do Brasil começaram a debater a adequação da realização da conferência em Belém do Pará, cidade amazônica que exemplifica décadas de subinvestimento em infraestrutura. O debate revela tensões históricas sobre quem pode falar em nome da Amazônia, cujas vozes são legitimadas e como as desigualdades regionais do país são evidenciadas. Por outro lado, os povos indígenas e as comunidades locais devem desempenhar um papel de liderança no debate internacional sobre justiça climática e o modelo de desenvolvimento.
Em um cenário marcado pela escalada das crises climáticas e pelo fracasso reiterado das metas globais, a COP-30 chega cercada de um misto de urgência extrema e profunda descrença. O evento, sediado na cidade brasileira de Belém, ocorre em um momento crucial, no qual a lacuna entre as promessas diplomáticas e a realidade das mudanças climáticas nunca foi tão vasta. A comunidade internacional se aproxima do encontro com o ônus de provar que as Conferências das Partes são mais do que meros rituais de retórica vazia, onde compromissos ambiciosos são anunciados para, em seguida, serem diluídos pela inação política e pelos interesses geopolíticos e corporativos. A expectativa, portanto, é um teste definitivo para a própria relevância do multilateralismo no combate às mudanças climáticas.
Enquanto o mundo debate o futuro do planeta, Belém passa por uma jornada de intensas transformações desde o anúncio da sede. A cidade, a população, o poder público e o setor empresarial foram tomados por um movimento quase sísmico de preparação. Agora, a poucos dias do evento, os ânimos parecem se acalmar, mas é a calmaria que antecede a tempestade, um sinal de que todos—de diferentes formas—se preparam para o que está por vir.
Desenvolveu-se um certo sensacionalismo geográfico em torno de Belém, geralmente propagado por veículos de comunicação e comentaristas de outras regiões do Brasil, acostumados com a infraestrutura do eixo Sul-Sudeste. Por um momento, a agenda desviou-se da emergência climática para o conforto dos participantes que chegavam para a conferência. O fato de isso ter ocorrido de forma tão desproporcional no caso da COP realizada em Belém (apesar de problemas semelhantes terem surgido em locais anteriores) é profundamente simbólico.

O debate brasileiro sobre a cidade sede
“É muito longe”: uma afirmação que amazônidas costumam ouvir com frequência quando em outros lugares e indagados sobre suas origens. Dizer isso carrega em si uma hierarquia territorial implícita. Longe de onde? Para quem sempre viveu na Amazônia, o custo e a dificuldade de deslocamento para centros decisórios são uma realidade normalizada. Quando o fluxo se inverte, problemas historicamente enfrentados pela população amazônica – como acessibilidade e custos elevados – repentinamente se convertem em “ameaças” à realização de um evento global.
Nacionalmente, a preparação para a COP-30 tem repercutido muito mais nos aspectos logísticos do que em propostas substantivas para o debate climático. Esta ênfase revela um paradoxo significativo: enquanto cientistas alertam sobre o ponto de não retorno na destruição do bioma amazônico, e multinacionais seguem contaminando rios sem adequada responsabilização, a discussão midiática frequentemente se concentra na suposta incapacidade da cidade de sediar o evento.
A infraestrutura é essencial para a realização de eventos e o bom andamento das negociações, mas as disputas sobre sediar ou transferir a COP-30 para cidades “mais estruturadas” revelam quem é considerado apto a participar do debate climático. Mesmo com negociações restritas, o simples fato de Belém sediar o evento tornou o tema central para a população local. Esse acontecimento inédito no Pará reforça a importância de descentralizar eventos globais e evidencia os múltiplos impactos que uma COP pode gerar, muito além de suas metas e declarações oficiais.

O que aqueles que se indignam com os custos em Belém não veem
A indignação com os custos em Belém parece circunscrever-se ao limite do conforto dos participantes externos, sem aprofundar-se nas causas estruturais que tornam a vida na região historicamente cara. A conta de luz no Estado do Pará é a mais cara do Brasil, apesar da concentração de hidrelétricas. Belém, é a 6ª capital menos arborizada do país, agravando o desconforto térmico e revelando uma contradição com as expectativas e imaginários sobre a região.
A preparação revela choques de pautas, protagonismos e narrativas. De um lado, movimentos sociais e povos indígenas afirmam seu espaço político e tornam mais visíveis as tentativas de silenciar suas demandas, especialmente em eventos na Amazônia. De outro, há um esvaziamento da voz amazônida como identidade legitimadora, usada retoricamente por autoridades locais que, na prática, defendem outros interesses políticos e econômicos.
A preparação para a COP-30 vai além da logística e infraestrutura, revelando tensões históricas sobre quem pode falar pela Amazônia, quais vozes são legitimadas e como as desigualdades regionais brasileiras se evidenciam, inclusive em debates sobre justiça climática global. Sediar o evento em Belém é, por si só, um ato político que obriga o mundo a confrontar suas próprias contradições.

O peso de um culturalismo desgastado
Durante a COP, o risco é que se criem duas bolhas de realidade: a dos centros climatizados dos locais oficiais e a da cidade real, com seus desafios cotidianos. Espera-se que eventuais limitações de infraestrutura não ofusquem as pautas urgentes, mas que ponham em xeque o próprio modelo de desenvolvimento que levou a região a essa situação. Afinal, o que acontece dentro das salas de negociação e o que se vive fora delas são partes de uma mesma história: a da distância entre o discurso e a prática, entre a diplomacia e o território.
Algo que apareceu no fim da COP-29 em Baku, e que se confirmou na 62ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB62), em Bonn, em junho de 2025, é o acúmulo de pautas adiadas, revisadas e novamente postergadas — um ciclo de frustrações que agora deságua em Belém. É notável, pelas discussões na SB62, que muitos temas centrais de conferências anteriores permanecem em debate e avançam lentamente: o Balanço Global, o financiamento climático e a transição para além dos combustíveis fósseis mostram que a COP-30 carrega o peso de um multilateralismo desgastado, que ainda corre atrás de seus próprios atrasos.
Um exemplo concreto é a criação do G9 Indígena: um grupo formado por nove organizações indígenas de diferentes regiões da Amazônia, que trabalham juntas para defender seus territórios, direitos e modos de vida.
Um exemplo é a criação do G9 Indígena: um grupo formado por nove organizações indígenas de diferentes regiões da Amazônia em prol da defesa de seus territórios, direitos e modos de vida.
Os impasses se repetem — o legado inconcluso do Acordo de Paris, as disputas sobre ritmo e financiamento da transição energética e as promessas de mitigação e adaptação que se renovam ano após ano sem sair do papel —, enquanto cerca de 60 países apresentam novas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), revelando mais cálculo do que coragem.
Independente do resultado das negociações, já se afirma que a COP-30 será uma das conferências com maior envolvimento e participação da sociedade civil. Um exemplo histórico é o G9 Indígena, grupo formado por nove organizações que representam povos indígenas de diferentes regiões da Amazônia e que atuam conjuntamente na defesa de seus territórios, direitos e modos de vida.
O G9 apresentou também sua própria NDC, reafirmando o protagonismo dos povos originários na agenda climática. Nas suas propostas, o destaque é para a proteção territorial, restauração de florestas e fortalecimento de modos de vida sustentáveis, mostrando que soluções climáticas efetivas dependem da participação ativa de quem habita e protege a Amazônia há séculos. A presença do G9 evidencia que o compromisso climático genuíno exige ouvir vozes historicamente silenciadas e reconhecer sua autoridade política e ambiental.

Nada jamais será como antes
Embora nem todos os pontos da COP-30 devam avançar significativamente, espera-se que o evento resulte em ações concretas, metas claras e mecanismos eficientes de implementação. Os debates devem se traduzir em resultados práticos nos níveis internacional, nacional e local, promovendo políticas climáticas que beneficiem tanto as comunidades vulneráveis quanto o meio ambiente
Da nossa perspectiva, esperamos que as COPs sejam diferentes depois de Belém. Que quem venha à cidade saia daqui entendendo que a Amazônia é muito mais complexa do que um imaginário idílico de floresta ou um “inferno verde” de destruição; que existem pessoas que vivem aqui, historicamente impactadas pelo sistema internacional, e que a região é constantemente explorada — minério e madeira saem daqui em grande volume, áreas são desmatadas para a produção de soja e outros produtos —, refletindo relações econômicas e políticas globais que frequentemente ignoram seus direitos e saberes. Que a experiência de Belém pressione cada vez mais as partes a ouvir efetivamente as populações atingidas, como povos indígenas e comunidades tradicionais, e que se repensem a estrutura e os impactos do evento, evitando que futuras conferências se limitem a centros tradicionais do Norte Global ou das regiões mais ricas de países em desenvolvimento.
Belém também será diferente depois da COP. Receber um evento dessa magnitude impactou a vida da população de diferentes formas, especialmente nos centros urbanos e nas periferias, onde os efeitos sobre transporte, habitação, serviços públicos e espaços públicos se tornam mais visíveis. Além das marcas das obras e dos transtornos, espera-se que a população local não esqueça como os governos conseguiram implementar diversas mudanças na cidade que, em condições normais, teriam levado anos.

O que esperar então?
Que nos sintamos mais parte da cidade, mais parte do mundo, e saibamos nossa capacidade de participar das decisões que moldam seu território. Cobrando e fiscalizando principalmente políticos eleitos na região que mais tem atuado contra o nosso futuro do que a favor dele. Por fim, que reconheçamos que as mudanças climáticas não são um tema distante ou exclusivo de países ricos: afetam diretamente milhões de pessoas que vivem aqui, diversas entre si, com diferentes experiências, modos de vida e perspectivas, cujas prioridades nem sempre coincidem ou visam os mesmos interesses.
O poder local tem responsabilidade e, sobretudo, capacidade de articular políticas e iniciativas que respondam a esses desafios, envolvendo comunidades, povos indígenas e demais atores locais. A experiência da cidade deve servir como ponto de reflexão sobre como os impactos climáticos se entrelaçam com desigualdades históricas e urbanas, e como decisões tomadas globalmente reverberam aqui, reforçando a necessidade de protagonismo local e de mecanismos que conectem políticas internacionais às realidades concretas da população amazônica.
A presença maciça de delegações, jornalistas e observadores deveria servir para escutar as vozes que historicamente foram silenciadas — não para reproduzir, em plena Amazônia, a distância entre quem negocia o futuro do planeta e quem o habita. O risco é que a COP se torne um enclave diplomático temporário, climatizado e desconectado da realidade da região, onde as decisões se tomam longe da floresta, do calor e das pessoas que sustentam a vida neste território. Que a Conferência não sirva de cortina para os problemas, mas sim como espelho das contradições que as originam.
Daqui, acenamos.
Brenda Cardoso de Castro é doutora em Sociologia e Antropologia (UFPA) e docente em Relações Internacionais (UEPA). Coordenadora do Observatório da COP na Amazônia (OCA), desenvolve pesquisas com ênfase na Amazônia, Desenvolvimento, Estudos de Gênero, Estudos Pós-Coloniais, Abordagens Feministas das Relações Internacionais e Identidade Cultural.
Matheus Silveira é mestre em Relações Internacionais (UNILA) e membro do Observatório da COP na Amazônia. Editor da versão em português da Debates Indígenas, desenvolve pesquisas com ênfase em Saúde Global, Povos Indígenas, Interculturalidade e Abordagens Críticas dos Direitos Humanos.