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	<title>Costa Rica Archives - Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Wed, 26 Aug 2026 03:25:25 +0000</lastBuildDate>
	<language>pt-BR</language>
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	<title>Costa Rica Archives - Debates Indígenas</title>
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		<title>Costa Rica: uma continuidade que não promete nada de novo</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/costa-rica-uma-continuidade-que-nao-promete-nada-de-novo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Alancay Morales Garro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Costa Rica]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Neste país da América Central, a população indígena representa apenas 1,8% da população nacional, e sua participação política tem sido extremamente limitada. A recente vitória de Laura Fernández sinaliza uma mudança histórica rumo a um governo conservador e a uma presidente conservadora. Ao nomear o presidente cessante, Rodrigo Chaves Robles, como figura central em seu gabinete, ela prenuncia a continuidade das políticas dos últimos quatro anos. Assim, os povos indígenas não têm motivos para otimismo: tudo indica que a recuperação de terras continuará atolada em procedimentos burocráticos.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/costa-rica-uma-continuidade-que-nao-promete-nada-de-novo/">Costa Rica: uma continuidade que não promete nada de novo</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A República da Costa Rica, considerada uma das democracias mais sólidas da América Latina, atravessa significativas transformações econômicas, sociais e políticas. Em 1º de fevereiro, apenas três horas após o fechamento das urnas, foi anunciada a iminente vitória da candidata conservadora Laura Fernández Delgado. A eleição nacional revelou grandes mudanças no cenário político: foi decidida no primeiro turno e marcou a segunda vez que o povo elegeu uma mulher para a presidência. O presidente cessante, Rodrigo Chaves Robles, assumiu dois ministérios importantes: o da Fazenda e o da Presidência. Simultaneamente, o sistema multipartidário na Assembleia Legislativa foi enfraquecido.</p>



<p>Embora historicamente os costarriquenhos tenham preferido candidatos presidenciais centristas, a eleição de 2026 demonstrou uma mudança em direção a um governo conservador, com propostas de uma abordagem de “tolerância zero” contra o crime para os crescentes desafios que o país enfrenta. Da mesma forma, as diversas comunidades indígenas da Costa Rica apresentaram um padrão de votação semelhante ao do restante da população. Nos distritos eleitorais de Boruca (predominantemente Brunka) e Amubri (predominantemente Bribri), o apoio à presidente eleita girou em torno de 57%. <a href="https://semanariouniversidad.com/pais/un-58-de-la-poblacion-que-voto-en-territorios-indigenas-lo-hizo-por-laura-fernandez/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Em âmbito nacional, estima-se que 58% dos eleitores em territórios indígenas votaram em Laura Fernández</a>.</p>



<p>O amplo apoio da população indígena a um governo conservador levanta uma série de questões: quais foram os motivos para esse apoio; e esse governo representa progresso ou retrocesso em termos de direitos dos povos indígenas? Essas dúvidas surgem porque a presidente eleita prometeu &#8220;continuidade&#8221; ao governo anterior, cuja retórica buscava deslegitimar os processos de recuperação de terras indígenas. Além disso, ela anunciou sua intenção de dar prosseguimento ao controverso projeto hidrelétrico de Diquís. Esse projeto foi suspenso em 2011, durante uma visita do então Relator Especial sobre os Direitos dos Povos Indígenas, James Anaya, e posteriormente cancelado em 2016.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="823" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-1-1-1024x823.jpeg" alt="" class="wp-image-19037" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-1-1-1024x823.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-1-1-300x241.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-1-1-768x617.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-1-1.jpeg 1080w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A presidente Laura Fernández com seu antecessor, Rodrigo Chaves Robles, atual Ministro da Fazenda e Ministro da Presidência. <strong>Foto:</strong> <a href="https://x.com/laurapresi2026/status/2018849702599356821" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Twitter de Laura Fernández</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Os indígenas votam em uma presidente conservador</strong></h3>



<p>A presidente gozava de amplo apoio nas áreas costeira e rural. Historicamente, essas áreas têm sido relegadas a uma posição secundária nas políticas públicas e nas prioridades de investimento. Isso contrasta fortemente com a situação percebida no Vale Central, região do país que concentra mais de 60% da população e abriga quatro das principais cidades, incluindo a capital. <a href="https://www.iwgia.org/en/publications/iw-2025-costa-rica">Os oito povos indígenas, que habitam 24 territórios legalmente reconhecidos na Costa Rica, estão localizados longe da capital</a>. <a href="https://www.undp.org/es/costa-rica/atlas-de-desarrollo-humano-cantonal-costa-rica" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A maioria desses territórios situa-se nas costas do Pacífico e do Atlântico Sul, nas regiões com o menor Índice de Desenvolvimento Humano do país</a>. A retórica populista das administrações anteriores e da atual encontrou eco em uma grande parcela da população que se sente sem representação ou voz por parte do governo central.</p>



<p>Nos últimos anos, a Costa Rica tem enfrentado uma série de desafios crescentes: <a href="https://estadonacion.or.cr/wp-content/uploads/2025/08/PEN_Decimo_Informe_estado_educacion_IEE_2025.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma crise educacional apelidada de “apagão educacional”</a>; desigualdade crescente, sendo o país mais desigual da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); um custo de vida em ascensão; e uma crescente e sem precedentes crise de segurança. Nos últimos três anos, durante o governo de Chaves Robles, o país registrou as maiores taxas de homicídio de sua história: 907 homicídios em 2023; 880 em 2024; e 873 em 2025. <a href="https://cgrfiles.cgr.go.cr/publico/docs_cgr/2025/SIGYD_D/SIGYD_D_2025010114.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">De fato, 2023 foi o ano mais violento da história do país, com uma taxa de homicídios de 17,1 por 100.000 habitantes</a>. A maioria desses homicídios está ligada a disputas territoriais envolvendo o crime organizado e o narcotráfico.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">No cenário eleitoral, a presença limitada dos povos indígenas nos espaços de tomada de decisão não é novidade. Ao longo de mais de sete décadas da Segunda República, os oito povos indígenas não conseguiram alcançar influência proporcional na estrutura de poder.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A presença limitada de povos indígenas em espaços de tomada de decisão não é novidade. Em sete décadas, os oito povos indígenas não conseguiram influenciar a estrutura de poder.</p>
</blockquote>



<p>Os povos indígenas não estão imunes a essa escalada de violência. Dois defensores dos direitos indígenas foram assassinados no contexto da defesa de terras indígenas. Sergio Rojas, líder do povo Bribri, foi morto em 2019 por sua atuação e liderança na recuperação de terras ocupadas ilegalmente por não indígenas. Em um contexto semelhante, Jerhy Rivera, líder do povo Brörán (Teribe), foi assassinado em 2020. <a href="https://www.forestpeoples.org/fileadmin/uploads/fpp/migration/publication/2014/02/violationsterritorialrightscostaricaenglishfeb2014.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rojas e Rivera desempenharam um papel fundamental na defesa das terras indígenas na Costa Rica, das quais aproximadamente 43% estão em mãos de não indígenas</a>.</p>



<p>Na arena eleitoral, a limitada presença indígena nos espaços de tomada de decisão não é novidade. Ao longo de mais de sete décadas da Segunda República, os oito povos indígenas não conseguiram alcançar influência proporcional na estrutura de poder: o país nunca teve um ministro ou vice-ministro indígena e, na Assembleia Legislativa, apenas uma pessoa que se autodeclara indígena ocupou uma cadeira, e isso ocorreu durante o mandato de 2022-2026. Essa ausência não se deve apenas ao tamanho da população indígena (apenas 1,8% da população nacional se identifica com um grupo indígena específico), mas também a um sistema eleitoral que não oferece mecanismos diferenciados para a participação dos povos indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img decoding="async" width="1000" height="666" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-2-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19038" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-2-1.jpeg 1000w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-2-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-2-1-768x511.jpeg 768w" sizes="(max-width: 1000px) 100vw, 1000px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O líder Bribri Sergio Rojas foi assassinado em 2019 por sua luta para recuperar terras indígenas ocupadas ilegalmente por não indígenas. <strong>Foto: </strong><a href="https://surcosdigital.com/la-ucr-condena-el-asesinato-perpetrado-contra-el-lider-indigena/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Surcos Digital</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um plano governamental que não promete nada de novo</strong></h3>



<p>Nesse contexto, o plano de governo de Laura Fernández promete <a href="https://ride.tse.go.cr/xmlui/bitstream/handle/123456789/18146/Laura%20Fern%c3%a1ndez%20PPSO.pdf?sequence=1&amp;isAllowed=y" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&#8220;garantir a dignidade humana de nossa população indígena”</a>, incluindo um compromisso com o fortalecimento da participação política por meio de &#8220;mecanismos de consulta eficientes e eficazes&#8221;. Esse slogan parece vazio porque promete algo que, legalmente, já existe: desde 2018, a Costa Rica possui um mecanismo de consulta desenvolvido em conjunto com os oito povos indígenas.</p>



<p>O plano também promete &#8220;fortalecer o modelo de governança&#8221; da Comissão Nacional para Assuntos Indígenas (CONAI), instituição fundada em 1973 e alvo de críticas há décadas. <a href="https://www.ohchr.org/es/documents/country-reports/ahrc5128add1-visit-costa-rica-report-special-rapporteur-rights-indigenous">Após sua visita à Costa Rica em 2021, o então </a><a href="https://www.ohchr.org/es/documents/country-reports/ahrc5128add1-visit-costa-rica-report-special-rapporteur-rights-indigenous" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Relator Especial da ONU sobre os Direitos dos Povos Indígenas, José Francisco Calí Tzay, documentou que a CONAI é &#8220;mais uma instituição imposta aos povos indígenas pelo Estado e que se mostra ineficaz”</a>. Essa declaração reafirmou a posição do Comitê para a Eliminação da Discriminação Racial (CERD), que duas décadas antes já havia indicado que &#8220;no passado, a CONAI não cumpriu suas funções e tarefas&#8221;.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A desconfiança e o desencanto generalizado com o sistema político, que também se refletiram nas urnas: a abstenção nos territórios indígenas atingiu 56%, quase o dobro da média nacional de 30,92%.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A desconfiança e o descontentamento generalizado com o sistema político também se refletiram nas urnas: a abstenção nos territórios indígenas chegou a 56%.</p>
</blockquote>



<p>A promessa de &#8220;continuar com a recuperação e restituição de terras&#8221; carrega um histórico de má implementação. O plano elaborado em 2014 pelo Ministério da Justiça e da Paz avançou lentamente diante de um problema fundamental: aproximadamente 43% do território legalmente reconhecido como pertencente aos Povos Indígenas permanece nas mãos de não indígenas. <a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/reports/article/violaciones-de-los-derechos-territoriales-de-los-pueblos-indigenas-el-ejemplo-de-costa-rica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Esse problema é central e crítico. Há territórios indígenas como China Kichá, pertencente ao povo Bribri, e Altos de San Antonio, pertencente ao povo Ngöbe, onde os indígenas controlam apenas entre 2% e 3% das terras que legalmente lhes pertencem.</a> A falta de mecanismos eficazes, recursos e vontade política gerou conflitos que custaram a vida dos líderes Sergio Rojas e Jerhy Rivera.</p>



<p>Diante desse histórico, as promessas de campanha de Laura Fernández foram recebidas com desconfiança. A Frente Nacional dos Povos Indígenas (FRENAPI) acusou a então candidata de explorar as demandas de suas comunidades: <a href="https://www.facebook.com/frenapicostarica/posts/pfbid0w8PxLQKNcd5HnZM2qqEmstGRg61eAcpHbCvfRML2qM7DKS3ZF61Qp4gUwj15beBel" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&#8220;Condenamos a prática de Laura Fernández e Fernando Zamora de usar nossas necessidades e direitos como tática de campanha”</a>.A desconfiança e o desencanto generalizado com o sistema político também se refletiram nas urnas: <a href="https://semanariouniversidad.com/pais/un-58-de-la-poblacion-que-voto-en-territorios-indigenas-lo-hizo-por-laura-fernandez/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a abstenção nos territórios indígenas atingiu 56%, quase o dobro da média nacional de 30,92%</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="626" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1-1024x626.jpeg" alt="" class="wp-image-19039" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1-1024x626.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1-300x183.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1-768x469.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1-1536x939.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Costa-Rica-Agosto-2026-3-1.jpeg 1569w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Aproximadamente 43% do território legalmente reconhecido como pertencente aos Povos Indígenas permanece nas mãos de não indígenas. <strong>Foto: </strong>Alancay Morales Garro</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma contradição para os povos indígenas</strong></h3>



<p>Até que ponto se estende a &#8220;continuidade&#8221; prometida pela nova presidente? Laura Fernández oferece uma pista importante. Ela nomeou o ex-presidente Rodrigo Chaves Robles, cujo mandato presidencial terminou em maio de 2026, como Ministro da Presidência e Ministro da Fazenda. Essa é uma medida sem precedentes na política costarriquenha recente: ela manteve o ex-presidente como principal articulador político e econômico do novo governo. Ao fazer isso, estendeu sua imunidade às investigações abertas pelo Ministério Público e pelo Tribunal Supremo Eleitoral.</p>



<p>Consequentemente, o cenário deixado por este ciclo eleitoral parece ser de continuidades, e não de rupturas. Neste momento, existe uma contradição para os povos indígenas da Costa Rica. Por um lado, há um governo que venceu com amplo apoio nos territórios indígenas e cuja plataforma inclui promessas explícitas de participação política, fortalecimento institucional e restituição de terras. Por outro lado, há a continuidade de um governo cuja retórica e ações revelaram falta de apoio a questões-chave relacionadas às demandas de recuperação territorial.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Os próximos anos testarão se o &#8220;governo de continuidade&#8221; representa uma oportunidade real para avançar na implementação do mecanismo de consulta, na reforma da CONAI e na restituição de terras aos povos indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Os próximos anos testarão se o &#8220;governo de continuidade&#8221; representa uma oportunidade real para avançar na devolução de terras aos povos indígenas.</p>
</blockquote>



<p>Em suma, o apoio eleitoral das comunidades indígenas a Laura Fernández não parece derivar de uma profunda identificação com sua agenda para os povos indígenas. Em vez disso, reflete dinâmicas mais amplas, como o histórico descaso com as áreas rurais e costeiras distantes do Vale Central e o cansaço com um sistema partidário tradicional percebido como alienante.</p>



<p>Os próximos quatro anos testarão se o &#8220;governo de continuidade&#8221; representa uma oportunidade real para avançar na implementação do mecanismo de consulta, na reforma do Congresso Nacional Indígena (CONAI) e na efetiva restituição das terras aos povos indígenas. Por outro lado, os alertas de organizações como a Frente Nacional dos Povos Indígenas (FRENAPI) podem se concretizar, referentes a promessas de campanha que apenas exploram as necessidades indígenas sem abordar suas causas profundas. A alta taxa de abstenção nos territórios indígenas sugere que grande parte da população já não espera que nenhuma dessas soluções venha das urnas.</p>
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			</item>
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		<title>Recuperações de facto em territórios indígenas na Costa Rica</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/09/01/recuperacoes-de-facto-em-territorios-indigenas-na-costa-rica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Larry Salomon Pedro]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Sep 2024 06:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Costa Rica]]></category>
		<category><![CDATA[territorio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A nível regional, o país centro-americano é reconhecido pelos seus elevados índices de qualidade democrática e de desenvolvimento humano. No entanto, não consegue canalizar as disputas territoriais por meio do diálogo político. Enquanto os colonos mestiços ocupam as terras para a pecuária e a monocultura, os indígenas buscam recuperar seus territórios de fato. Perante a inação do Estado, o povo e os seus dirigentes clamam pela paz e pedem que os seus direitos territoriais sejam respeitados.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<blockquote class="wp-block-quote derecha is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite><em>“Não há nada de romântico na recuperação de terras quando o que emerge é a violência. Para nós é arriscar a nossa vida, a nossa segurança, perder o direito de viver em paz, de ter uma vida saudável.”</em><br><strong>Elides Rivera &#8211; líder indígena Bröran de Térraba</strong></cite></blockquote>



<p>Durante muitos séculos, os povos indígenas viveram diferentes episódios de violência estrutural e sistemática, tanto durante a colonização externa como durante a colonialidade interna, ou seja, a violência e a desapropriação sofridas após a independência das potências hegemônicas do século XIX. Dessa forma, foram criadas diferentes estruturas sociais, articuladas sob o manto do racismo e do controle do trabalho característico do capitalismo. <a href="https://papelesdetrabajo.unr.edu.ar/index.php/revista/article/view/122" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sem dúvida, a colonialidade do poder é o elemento central da estruturação da sociedade na América Latina</a>.</p>



<p>É neste contexto de colonialismo interno que se destaca a recuperação de terras ancestrais, empreendida por meios <em>de facto</em>, pelos povos indígenas da Costa Rica. Isto gerou ondas de violência contra a segurança destas cidades. Aqui há duas posições principais dicotômicas e contraditórias: por um lado, as comunidades procuram recuperar terras porque isso lhes daria paz com a natureza e garantiria a vida dos seus filhos; por outro lado, os assentados denunciam que os violentos são os indígenas e não eles. Então, estamos diante da ausência de uma cultura de paz.</p>



<p>Nestes processos de recuperação do território, desempenham um papel muito importante as mulheres indígenas, que contribuem com as suas formas de pensar e com as suas estratégias na resolução de conflitos numa perspectiva de gênero. Ressalta-se que as práticas dos não indígenas que ocupam legalmente (ou ilegalmente) terras ancestrais são incompatíveis com as culturas nativas. Isto causa conflitos que vão desde discussões sobre como a terra deve ser usada até confrontos frontais durante as recuperações reais.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Reconhecimento legal dos povos indígenas da Costa Rica</strong></h3>



<p>Oito povos indígenas vivem na Costa Rica: Huetar, Maleku, Bribri, Cabécar, Brunka, Ngäbe, Bröran e Chorotega. Segundo o Censo Nacional de 2010, são pouco mais de 100 mil pessoas que representam 2,4% da população e vivem em 3.344 quilômetros quadrados (7% do território nacional). Num país onde quase 20% da população vive abaixo do nível de pobreza, no caso dos povos indígenas esta percentagem atinge números alarmantes: Cabécar sobe para 94,3%; Ngäbe, 87%; Broran, 85%; Bribri, 70,8%; Brunka, 60,7%; Maleku, 44,3%; Chorotega, 35,5%; e Huétar, 34,2%.</p>



<p>A Constituição Política da República da Costa Rica reconhece a diversidade cultural do país no seu artigo 1: “A Costa Rica é uma República democrática, livre, independente, multiétnica e pluricultural”. Ao mesmo tempo, no artigo 76, o Estado reconhece as línguas indígenas e assume a obrigação de promovê-las: “O espanhol é a língua oficial da nação. No entanto, o Estado garantirá a manutenção e o cultivo das línguas indígenas nacionais.”</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Oito povos indígenas vivem na Costa Rica: Huetar, Maleku, Bribri, Cabécar, Brunka, Ngäbe, Bröran e Chorotega. De acordo com o Censo Nacional de 2010, são pouco mais de 100 mil pessoas que representam 2,4% da população.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Oito povos indígenas vivem na Costa Rica: Huetar, Maleku, Bribri, Cabécar, Brunka, Ngäbe, Bröran e Chorotega.</cite></blockquote>



<p>No que diz respeito ao reconhecimento do direito ao território, <a href="http://www.pgrweb.go.cr/scij/Busqueda/Normativa/Normas/nrm_texto_completo.aspx?param1=NRTC&amp;nValor1=1&amp;nValor2=38110&amp;nValor3=0&amp;strTipM=TC" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Lei Indígena nº 6.172 de 1977 </a>cunha a seguinte definição de povos indígenas: “Os povos indígenas são pessoas que constituem grupos étnicos descendentes diretos de civilizações pré-colombianas e que preservam sua própria identidade”. Por sua vez, o artigo 2º afirma que as comunidades têm plena capacidade jurídica para adquirir direitos e contrair obrigações de todos os tipos.</p>



<p>E o artigo 3º estabelece: “As reservas indígenas são inalienáveis e imprescritíveis, intransferíveis e exclusivas das comunidades indígenas que as habitam. Os não indígenas não poderão alugar, arrendar, comprar ou de qualquer outra forma adquirir terras ou propriedades incluídas nessas reservas. Os povos indígenas só poderão negociar suas terras com outros povos indígenas. Qualquer transferência ou negociação de terras ou benfeitorias das mesmas em reservas indígenas, entre indígenas e não indígenas, é absolutamente nula, com as consequências jurídicas do caso (&#8230;)”.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Recuperação por meios <em>de facto</em></strong></h3>



<p>Apesar das terras indígenas gozarem de proteção jurídica desde 1977 e de, além disso, a Costa Rica ser signatária da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que é o tratado com maior peso jurídico em termos de proteção de direitos coletiva e individualmente dos povos indígenas e tribais, as pessoas continuam a ser vítimas da desapropriação dos seus territórios ancestrais.</p>



<p>O líder indígena do povo Broran, Pablo Sibar, argumenta: “Temos documentação de 1940-1956, onde os mais velhos alegavam que os colonos estavam invadindo suas terras e pediam ao Governo que resolvesse o direito à terra o mais rápido possível porque eles estavam a perdê-las.” Embora as suas reivindicações sejam legítimas e legais, na ausência de respostas do Estado, as comunidades recorreram à recuperação através de meios <em>de facto</em> que levaram a confrontos violentos. Esses conflitos derivam de choques de interesses conflitantes, adversos e incompatíveis entre povos indígenas e não indígenas.</p>



<p>“Essas recuperações se tornam muito violentas, temos muitos riscos”, diz Sibar. O líder Broran não consegue esquecer o assassinato de seu companheiro Jhery Rivera, em fevereiro de 2020, cujo caso ainda não foi solucionado. “Foi muito violento, tiraram a gente de uma das fazendas que a gente acompanhava, tivemos que sair, praticamente fugindo, quase nos lincharam”. Essa forma de recuperação deixou, de fato, dois indígenas assassinados por colonos, proprietários de terras ou afetados por essas recuperações.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/08/Costa-Rica-Septiembre-2024-3-B-1-1024x682.jpg" alt="" class="wp-image-15922" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/08/Costa-Rica-Septiembre-2024-3-B-1-1024x682.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/08/Costa-Rica-Septiembre-2024-3-B-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/08/Costa-Rica-Septiembre-2024-3-B-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/08/Costa-Rica-Septiembre-2024-3-B-1.jpg 1400w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Pablo Sibar, um dos indígenas ameaçados que lidera a recuperação de terras, junto a Sergio Rojas em uma sessão da CIDH em 2013.<strong> Foto:</strong> <a href="https://www.flickr.com/photos/cidh/8562328471/in/photostream/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Oliver Contreras / Eddie Arrossi</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A perspectiva dos povos indígenas: o justo</strong></h3>



<p>Na Costa Rica encontramos uma disputa entre dois atores com um objetivo antagônico: manter o território para explorá-lo economicamente ou recuperá-lo para garantir a vida das próximas gerações. Este conflito reside em duas visões incompatíveis sobre a propriedade da terra: enquanto os colonos querem trabalhar a pecuária e a monocultura, os indígenas querem praticar relações harmoniosas com a natureza. Pior ainda, tendo esgotado as vias legais, os povos indígenas não têm outra escolha senão recorrer à ocupação <em>de facto</em>, que tem consequências de violência e morte.</p>



<p><a href="https://www.dw.com/es/la-larga-recuperaci%C3%B3n-de-las-tierras-ind%C3%ADgenas-en-costa-rica/a-56320768" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É assim que Pablo Sibar explica em entrevista à Deutsche Welle </a>: “Faço parte da recuperação. Aqui somos 16 famílias compostas por 100 pessoas que não tinham nada, não tínhamos onde plantar. Nos instalamos na fazenda e fizemos uma declaração dizendo que a fazenda foi recuperada de fato, e que quem usurpou a terra teve um prazo razoável para retirar tudo que lhe pertencia e que a terra nos pertencia.”</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Élides Rivera:“Em nenhum momento estamos infringindo a lei: estamos exigindo um direito que nos corresponde como pessoas e como mulheres”.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>“Em nenhum momento estamos infringindo a lei: estamos exigindo um direito que nos corresponde como pessoas e como mulheres”.</cite></blockquote>



<p><a href="https://costarica.unfpa.org/es/news/recuperadoras-de-tierras-y-de-paz" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O testemunho de Elides Rivera, líder do povo Bröran, também apela à paz e explica as recuperações </a><a href="https://costarica.unfpa.org/es/news/recuperadoras-de-tierras-y-de-paz"><em>de facto</em> devidas ao justo direito</a>: “Gostaria que na minha cidade tivéssemos terra suficiente para viver com os nossos filhos, onde possamos produzir nossa alimentação, onde vivemos sem tanta violência. Aproveitar o espaço, viver sem medo. Em nenhum momento estamos infringindo a lei: estamos exigindo um direito que nos corresponde como pessoas e como mulheres”.</p>



<p>Por sua vez, <a href="https://www.ucr.ac.cr/noticias/2020/8/09/voz-experta-la-persistente-violacion-de-los-derechos-de-los-pueblos-indigenas-costarricenses.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Universidade Central da Costa Rica destacou a persistente violação dos direitos dos povos indígenas do país</a>: “A grave situação nos territórios indígenas é injusta, insuportável e insustentável. Além disso, demonstra uma violação sistemática dos direitos fundamentais das pessoas destas comunidades, a inação e ineficácia do Estado e a complacência com os agressores. Tudo isso acarreta responsabilidades muito sérias que devem ser assumidas por toda a sociedade costarriquenha, mas especialmente pelas autoridades políticas, técnicas, legislativas, executivas e judiciais”.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="691" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/01/Costa-Rica-Sept-2024-4-1024x691.jpg" alt="" class="wp-image-13570" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/01/Costa-Rica-Sept-2024-4-1024x691.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/01/Costa-Rica-Sept-2024-4-300x202.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/01/Costa-Rica-Sept-2024-4-768x518.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/01/Costa-Rica-Sept-2024-4.jpg 1058w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O ativista indígena Sergio Rojas, morto a tiros em 2019, tornou-se um emblema da recuperação de terras na Costa Rica. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.ucr.ac.cr/noticias/2019/04/04/indigenas-bribris-y-broran-denuncian-miedo-a-la-violenta-lucha-por-sus-territorios.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Laura Rodríguez Rodríguez</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Direito e ocupações de fato</strong></h3>



<p>Enquanto os colonos vêem os indígenas como preguiçosos, preguiçosos e dificultadores do desenvolvimento, o povo vê os mestiços como usurpadores, invasores e destruidores da Mãe Terra. Esta disputa por interesses incompatíveis tem gerado níveis extremos de violência, que são mais graves devido à ineficácia dos funcionários, à inação do Estado e às falhas de gestão na distribuição de recursos escassos. Escusado será dizer que a violência afeta a paz e a harmonia da população.</p>



<p>A falta de resposta legal e a ausência de respostas estatais leva a que os atores envolvidos resolvam o conflito por meio dos seus próprios métodos, que na maioria dos casos se tornam violentos. Consequentemente, como a inação do Poder Judiciário é funcional aos interesses dos não indígenas, as comunidades indígenas optam pelas recuperações <em>de facto</em> como ação vingativa. O papel do Estado, das ONG e das organizações de direitos humanos é fundamental para alcançar a paz nos territórios indígenas da Costa Rica. Por sua vez, as mulheres indígenas desempenham um papel extremamente importante no diálogo, nos acordos e na segurança nos seus territórios: sabem que um ambiente de paz é o maior legado que podem deixar aos seus filhos e à natureza.<strong><br><br></strong></p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2024/09/01/recuperacoes-de-facto-em-territorios-indigenas-na-costa-rica/">Recuperações de facto em territórios indígenas na Costa Rica</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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