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	<title>Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Sat, 26 Sep 2026 19:02:27 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pramasti Ayu Kusdinar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Embora a Indonésia represente apenas cerca de 1,3% da superfície terrestre, o país abriga a terceira maior extensão de florestas tropicais do mundo. Essas florestas ostentam alguns dos mais altos níveis de biodiversidade, abrigando 17% de todas as espécies de aves e 12% de todas as espécies de mamíferos. Para as comunidades indígenas que as habitam, as florestas fornecem todo o alimento, medicamentos e materiais de que necessitam, além de sustentar seus valores culturais e preservar o conhecimento ancestral transmitido de geração em geração.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/">A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As florestas tropicais da Indonésia estão desaparecendo rapidamente. <a href="https://auriga.or.id/press_release/detail/65/status-of-deforestation-in-indonesia-2025" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório sobre o estado do desmatamento na Indonésia 2025, elaborado pela Auriga Nusantara, registrou a perda de 433.751 hectares de floresta, 66% a mais do que os 261.575 hectares desmatados em 2024.</a> Papúa apresentou o maior aumento na perda florestal em todo o país, com um acréscimo de 348%, totalizando 60.337 hectares. A maior parte dessa perda ocorreu em Merauke, onde um projeto nacional de produção de alimentos e bioetanol, sob controle militar, ameaça aproximadamente dois milhões de hectares de floresta tropical e os direitos dos povos indígenas.</p>



<p>Da mesma forma, <a href="https://www.aman.or.id/publication-documentation/330" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Relatório de Fim de Ano de 2025 da Aliança dos Povos Indígenas do Arquipélago (AMAN) registrou 135 casos de desapropriação de territórios indígenas, em comparação com 121 no ano anterior</a>. O setor de mineração foi responsável pelo maior número de casos, com 69 incidentes afetando 1,06 milhão de hectares. O setor de plantações causou os danos mais extensos, atingindo 1,95 milhão de hectares. Nesse mesmo ano, as comunidades indígenas perderam 3,8 milhões de hectares de seus territórios ancestrais e as autoridades criminalizaram 162 indígenas por defenderem seus espaços de vida.</p>



<p>Em termos gerais, três mecanismos interrelacionados impulsionam tanto a degradação ecológica quanto às violações dos direitos indígenas. Primeiro, a legislação reduz a realidade ecológica em categorias administrativas, como florestas estatais e zonas industriais. Segundo, <em>o extrativismo </em>concebe a natureza como capital a ser explorado: a Lei de Mineração de Minerais e Carvão, a Lei de Plantações e a Lei de Criação de Empregos fornecem a base legal para a expansão da mineração e das plantações de palma de óleo. Terceiro, as políticas de conservação e climáticas que excluem a participação indígena frequentemente reproduzem a mesma lógica extrativista: os mercados de carbono restringem o acesso indígena às suas florestas por meio de proibições que afetam a agricultura itinerante e a coleta de lenha.</p>



<p>Esses três mecanismos convergem no mesmo ponto: os corpos das mulheres indígenas, que dia após dia cuidam e sustentam suas terras e comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="691" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg" alt="" class="wp-image-19569" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-300x202.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-768x518.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1536x1037.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2.jpg 1760w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres secando café em Tebat Pulau, Sumatra. Até 2025, as comunidades indígenas na Indonésia terão perdido 3,8 milhões de hectares de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Arquivo Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O fardo que recai sobre os corpos das mulheres indígenas</strong></h3>



<p>As mulheres indígenas buscam água, coletam lenha e plantas medicinais e cuidam das culturas de rotação. Quando os ecossistemas se degradam, essas tarefas se tornam mais árduas e perigosas. Quando os rios são poluídos, as mulheres precisam percorrer distâncias maiores para encontrar água limpa. Quando as florestas desaparecem, as plantas medicinais também desaparecem, deixando as mulheres cuidando de parentes doentes sem os remédios que tradicionalmente utilizam.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também está ligada a problemas de saúde. <a href="https://www.liputan6.com/regional/read/4016058/perempuan-baja-di-pusaran-tambang" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mulheres que vivem perto de minas de carvão em Kalimantan Oriental relatam que a poeira das estradas usadas para o transporte de materiais de mineração interfere em seus ciclos menstruais e afeta a saúde de seus filhos</a>. A água contaminada com metais pesados causa infecções de pele e distúrbios reprodutivos. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) raramente coletam esses dados, pois medem parâmetros de qualidade da água e limites de emissão, mas não o impacto do trabalho doméstico sobre as mulheres ou sua saúde reprodutiva.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Quando as florestas são substituídas por plantações, as mulheres perdem a renda que obtêm dos produtos florestais e sua posição no lar fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p>Por sua vez, a deterioração dos ecossistemas interrompe a transmissão do conhecimento ecológico indígena. Durante gerações, as mulheres indígenas adquiriram conhecimento sobre épocas de frutificação, ciclos de migração animal e a localização de plantas medicinais por meio da observação direta. Nos territórios indígenas Rejang, Serawai e Malin Deman, em Bengkulu, as mulheres indígenas identificam centenas de espécies de plantas florestais que utilizam como alimento e remédio. Quando as florestas são desmatadas para plantações ou mineração, as gerações mais jovens perdem a oportunidade de adquirir esse conhecimento em primeira mão.</p>



<p>Por fim, os territórios indígenas também constituem espaços para a vida ritual e as atividades econômicas das mulheres. Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família é enfraquecida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19395" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-2048x1365.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Com a degradação dos ecossistemas, a carga de trabalho e os riscos para as mulheres indígenas na Indonésia aumentam. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A crise climática agrava a dupla carga</strong></h3>



<p>As crises da biodiversidade e do clima estão intimamente ligadas. O desmatamento libera o carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. As mulheres indígenas são as mais afetadas por ambas as crises. Com o desaparecimento das florestas, o solo perde sua capacidade de reter água. As estações secas tornam-se mais secas e as estações chuvosas trazem um risco maior de inundações. As mulheres, responsáveis por garantir água para suas famílias, precisam percorrer distâncias cada vez maiores durante a estação seca e enfrentam danos às suas plantações e poluição da água durante a estação chuvosa.</p>



<p>As mudanças nas épocas de plantio também afetam o conhecimento das mulheres indígenas sobre os indicadores ecológicos. Quando os ciclos sazonais se tornam imprevisíveis, as colheitas diminuem. Em muitas famílias indígenas, as mulheres são as primeiras a reduzir suas próprias porções de comida para garantir que seus filhos tenham o suficiente para comer. Os mecanismos do mercado de carbono acrescentam ainda mais riscos. Eles exigem grandes extensões de floresta e, como consequência direta, muitas vezes impõem restrições de acesso que não levam em consideração as necessidades das mulheres indígenas de praticar a agricultura itinerante e coletar resina e lenha.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também ameaça espécies-chave que são parte integrante dos sistemas de conhecimento das mulheres indígenas. O tigre-de-sumatra, o orangotango e o elefante estão perdendo seus habitats à medida que as florestas são convertidas em plantações de palma de óleo e áreas de mineração. Para as mulheres indígenas, a presença de certas espécies serve como indicador da qualidade da floresta e da água. Quando essas espécies desaparecem, as mulheres perdem uma das ferramentas que usam diariamente para interpretar e compreender seu ambiente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19571" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2.jpg 1840w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Floresta tropical em Bengkulu.O desmatamento libera carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mulheres e a recuperação de bens comuns</strong></h3>



<p>Mulheres indígenas estão liderando a resistência contra projetos extrativistas e desenvolvendo práticas de conservação baseadas em conhecimentos tradicionais. Em <a href="https://www.voaindonesia.com/a/protes-pabrik-semen-9-perempuan-semen-kakinya-/3282635.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Kendeng, elas cobriram os pés com cimento em frente ao Palácio Presidencial para protestar contra a construção de uma fábrica de cimento nas montanhas</a> e, em seguida, continuaram seu trabalho de ativismo monitorando a qualidade e o fluxo da água das nascentes. Enquanto isso, <a href="https://www.konde.co/2026/04/salib-merah-dan-anyaman-keteguhan-perlawanan-mama-mama-menolak-psn-di-merauke/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres em Papúa resistiram à expansão de um projeto agroindustrial em larga escala em Merauke e documentaram seu conhecimento sobre o processamento do sagu para evitar sua perda</a>.</p>



<p>Em Bengkulu, <a href="https://akar.or.id/konsolidasi-perempuan-akar-rumput-bengkulu-merawat-ruang-hidup-memperkuat-solidaritas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as mulheres Rejang preservam sementes de variedades locais de arroz entre as épocas de plantio, criando um banco de germoplasma vivo, ao mesmo tempo que mantém a rotação de culturas para restaurar a fertilidade do solo</a>. Nas aldeias de Merpas e Linau, na costa sul de Bengkulu, as mulheres evitaram usar equipamentos de pesca destrutivos e concordaram em estabelecer áreas de desova na lagoa. Essas práticas demonstram que a conservação não exige o deslocamento de pessoas de áreas protegidas. A conservação baseada no conhecimento das mulheres indígenas depende de sua participação ativa, e não da restrição de acesso.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas, promove o trabalho conjunto com organizações jurídicas e pressiona por políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas e promove o trabalho com organizações jurídicas como o escritório de advocacia Akar.</p>
</blockquote>



<p>A Akar Global Initiative desenvolveu a estrutura <a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Reconstruindo os Bens Comuns (Rebuilding the Commons</em></a><a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/">)</a> para fortalecer as contribuições das mulheres em quatro dimensões. <em>A Gestão Comum da Terra </em>reivindica terras indígenas como espaços para gestão coletiva por meio de mapeamento participativo, restauração baseada em espécies locais e formas de governança coletiva que incluam mulheres indígenas na tomada de decisões. A <em>Gestão Comum do Cuidado </em>reconhece o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres como trabalho ecológico e promove sua sustentabilidade por meio de infraestrutura de água potável, documentação do trabalho de cuidado e serviços de saúde reprodutiva nas áreas afetadas.</p>



<p><em>A Cultura do Comunismo </em>recupera práticas rituais indígenas e conhecimentos ecológicos por meio da documentação oral e de programas educacionais intergeracionais, permitindo que as gerações mais jovens recebam a sabedoria dos mais velhos. <em>O Movimento do Comunismo </em>constrói solidariedade entre as comunidades de mulheres indígenas, promove a colaboração com organizações jurídicas como o Escritório de Advocacia Akar e defende políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas para a obtenção de licenças relacionadas a projetos de mineração, plantações e energia. Essas quatro dimensões se reforçam mutuamente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="758" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg" alt="" class="wp-image-19397" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-300x222.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-768x568.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam desproporcionalmente as mulheres indígenas, que interagem com a natureza diariamente. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios no terreno</strong></h3>



<p>Essa estrutura de ação coletiva enfrenta três desafios específicos . Em muitas regiões, as estruturas tradicionais posicionam os homens como representantes da comunidade, de modo que a participação formal das mulheres indígenas frequentemente encontra resistência. Os programas de conservação ainda medem seus resultados com base no tamanho das áreas protegidas ou no volume de carbono armazenado, em vez de nas mudanças nas condições de vida das mulheres indígenas. Enquanto esses indicadores permanecerem inalterados, as contribuições das mulheres indígenas continuarão sem o devido reconhecimento. Além disso, a expansão da mineração e dos projetos estratégicos aumenta ano após ano, o que significa que os processos de recuperação liderados pelas comunidades enfrentam novas ameaças cuja escala excede a capacidade dos povos indígenas de responderem por conta própria.</p>



<p>Por sua vez, a restauração e a recuperação da biodiversidade e dos ecossistemas exigem mudanças legais, e não apenas programas de reabilitação técnica. As avaliações de impacto ambiental devem incorporar indicadores que levem em conta os efeitos sobre os corpos das mulheres indígenas, como a distância que precisam percorrer para encontrar água potável ou o número de plantas medicinais que deixaram de estar disponíveis em seu ambiente cotidiano. Os marcos legais devem reconhecer o conhecimento ecológico das mulheres indígenas sobre as estações do ano, as sementes e os indicadores ecológicos em pé de igualdade com os estudos científicos, por meio do Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas como requisito para a validade das licenças.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam principalmente as mulheres indígenas, que buscam água, conservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p>Os paradigmas do direito ambiental também devem ir além de uma abordagem baseada na soberania estatal sobre os recursos naturais e caminhar em direção à governança compartilhada, na qual as mulheres indígenas participem da tomada de decisões e não sejam meramente consideradas participantes nos processos de consulta. A justiça ecológica exige reparações, não apenas compensação financeira. Isso implica a restauração de terras indígenas, fontes de água, espaços rituais e espécies extintas, juntamente com programas de regeneração ecológica liderados por mulheres indígenas.</p>



<p>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam os rituais ecológicos que conectam suas comunidades à natureza diariamente. A recuperação da biodiversidade da Indonésia só será possível quando as políticas reconhecerem as mulheres indígenas como agentes fundamentais dessa recuperação, e não como beneficiárias passivas de programas de conservação concebidos sem a sua participação.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>A meta 30&#215;30 e os territórios indígenas: a contradição da Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-meta-30x30-e-os-territorios-indigenas-a-contradicao-da-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nelfi Fernandez Reyes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19419</guid>

					<description><![CDATA[<p>A Bolívia chega para a COP17 com territórios indígenas como parte de sua estratégia de conservação da biodiversidade. Mas o desmatamento, a grilagem de terras, as disputas fundiárias e a falta de informações sobre a posse da terra evidenciam uma tensão fundamental: não será possível atingir as metas globais de conservação se os direitos dos povos indígenas continuarem a ser garantidos de forma incompleta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em outubro, o mundo se reunirá na Armênia para avaliar uma promessa feita há quatro anos em Montreal, no Canadá: deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Na metade do caminho para esse prazo, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os governos terão que demonstrar o progresso alcançado no cumprimento das 23 metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal</a>, incluindo o ambicioso desafio de conservar pelo menos 30% das terras e águas do planeta.</p>



<p>Em outras palavras, os governos serão postos à prova para responder a uma pergunta simples, mas crucial para a saúde da Terra: estão realmente cumprindo o que prometeram para deter a destruição da natureza e restaurar a biodiversidade perdida? A Bolívia é um dos países chamados a demonstrar seu progresso. Para se preparar para esse teste, durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), em Yerevan, Armênia, de 19 a 30 de outubro de 2026, os países foram obrigados a apresentar um relatório prévio de prestação de contas. <a href="https://www.cbd.int/doc/c/5611/c35f/aa96bdcd816f5952d586a777/sbstta-28-02-add1-rev1-en.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizeram isso por meio de seu Sétimo Relatório Nacional (7RN), um documento no qual cada governo detalha as medidas tomadas e os resultados alcançados</a>.</p>



<p>O prazo para envio foi no dia 28 de fevereiro de 2026. Esses relatórios servirão de base para a primeira avaliação global do progresso coletivo. A Bolívia também enviou seu relatório, um documento que nos permite reconstruir (da perspectiva oficial do Estado) o progresso que alega ter alcançado e onde reconhece dificuldades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19422" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Líderes do território indígena Monte Verde, uma das áreas mais afetadas pelo desmatamento e pelos incêndios, se reúnem para organizar a defesa de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O grande desafio</strong></h3>



<p>Em 2022, durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os países adotaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e delinearam um roteiro para alcançar um mundo em harmonia com a natureza até 2050.</a> Para enfrentar esse desafio, estabeleceram 23 metas para 2030 que não apenas comprometem os governos a deter a perda de biodiversidade, mas também colocam os povos indígenas e as comunidades locais no centro, como detentores de direitos e atores-chave na conservação de seus territórios e modos de vida.</p>



<p>Essa relação entre conservação e direitos indígenas é um tema transversal em todo o Marco. Isso fica particularmente evidente nas metas 1 e 3. A meta 1 exige um planejamento territorial que reduza a perda de áreas importantes para a biodiversidade, respeitando os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, enquanto a meta 3, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets/3" target="_blank" rel="noreferrer noopener">conhecida como meta 30&#215;30</a>, estabelece que a conservação de pelo menos 30% das terras e águas do planeta deve respeitar o direito desses povos aos seus territórios tradicionais. A mensagem é clara: a conservação da biodiversidade não pode ser dissociada dos povos indígenas. Diante disso, o que a Bolívia fez nos últimos quatro anos para cumprir seus compromissos?</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>
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<p class="destacado cel-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas?</p>
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<p><a href="https://ort.cbd.int/national-reports/nr7/E2690700-50D7-C02E-AB16-083EC3E80939" target="_blank" rel="noreferrer noopener">No Sétimo Relatório Nacional, elaborado pela Direção-Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas, o Estado boliviano afirma que os territórios indígenas fazem parte de sua estratégia de conservação</a>. O documento, sem especificar números, relata avanços na titulação de novas Terras de Origem Comunitária (TOCs)/Territórios Indígenas Nativos Camponeses (TIOCs), no desenvolvimento de planos de vida e no fortalecimento das estruturas de governança indígena. Destaca também a criação de áreas de conservação sob gestão indígena e experiências em manejo florestal, uso sustentável, restauração e monitoramento territorial.</p>



<p>Mas o mesmo relatório revela um cenário mais complexo. A Bolívia reconhece a existência de grilagem de terras, conflitos pelo uso da terra e sobreposição de direitos, além das pressões decorrentes de atividades extrativistas, expansão agrícola e assentamentos ilegais. Admite também dificuldades na atualização e harmonização dos planos de vida e, sobretudo, a falta de informações para mensurar as mudanças no uso da terra e a posse da terra em territórios ancestrais e comunidades locais. O documento afirma: “Não há dados disponíveis”.</p>



<p>O paradoxo é significativo. A Bolívia apresenta os territórios indígenas como um elemento-chave para a conservação e para a meta internacional de proteger pelo menos 30% das terras e águas do planeta, mas, quando se trata de mostrar o que está acontecendo dentro deles, o próprio Estado reconhece que ainda não possui os dados necessários para relatar um dos indicadores estabelecidos pelo Quadro Global de Biodiversidade. Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia de conservação da biodiversidade da Bolívia, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19423" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Monte Verde é um dos 28 territórios na bacia amazônica boliviana que registraram conflitos envolvendo grilagem de terras e tráfico de pessoas<strong>. Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazônia Tráficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Florestas sob pressão</strong></h3>



<p><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/">Uma investigação da </a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Amazonía Traficada</em></a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/"> (um projeto jornalístico apoiado pelo Pulitzer Center, Mongabay Latam, RAI Bolívia e Asuntos Centrales) examinou uma região fundamental para a conservação — a Amazônia Indígena Boliviana — utilizando dados de satélite.</a> A pesquisa analisou o desmatamento em 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica boliviana e constatou que, entre 1986 e 2024, essas terras ancestrais sofreram uma perda cumulativa de 257 mil hectares de floresta. Esse número representa 3,4% da área total desmatada na Bolívia durante o mesmo período, que atingiu 7,6 milhões de hectares.</p>



<p>Para determinar em que medida o desmatamento ocorreu dentro da legalidade, as informações foram cruzadas com as licenças de desmatamento emitidas pela Autoridade de Controle e Fiscalização Social de Florestas e Terras (ABT) entre 2003 e 2023. Os registros mostram que, durante essas duas décadas, a instituição aprovou o desmatamento de quase 80.000 hectares de floresta em 41 territórios indígenas. No entanto, apenas 17.900 hectares dessa área autorizada perderam efetivamente sua cobertura florestal. A maior parte da perda ocorreu fora das áreas permitidas.</p>



<p>Em outras palavras, entre 2003 e 2023, o desmatamento em áreas não autorizadas atingiu 168.670 hectares. Essa proporção coloca o problema em perspectiva: para cada hectare desmatado dentro de uma área autorizada, mais de nove foram desmatados fora dela. Isso significa que quase 90% da perda florestal registrada em territórios indígenas da Amazônia durante esse período ocorreu fora dos mecanismos de autorização estatal. A pressão sobre esses territórios faz parte de uma tendência nacional. <a href="https://es.mongabay.com/2026/05/perdida-bosque-tropical-2025-latinoamerica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório do World Resources Institute (WRI) mostra que, em 2025, a Bolívia voltaria a ocupar o segundo lugar no ranking mundial de perda de florestas primárias, atrás apenas do Brasil</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg" alt="" class="wp-image-19424" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg 819w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-240x300.jpg 240w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-768x960.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1229x1536.jpg 1229w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1638x2048.jpg 1638w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Amazonía Traficada analisou dados de satélite para mostrar as pressões enfrentadas pelos territórios indígenas na Amazônia boliviana. <strong>Infográfico: </strong>José Arias e Lily Soruco</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma reivindicação territorial que nunca termina</strong></h3>



<p>A pressão sobre os territórios indígenas não se limita à floresta; ela se estende também à posse da terra e à segurança jurídica. Em seu Sétimo Relatório Nacional, a Bolívia afirma ter ampliado a área de Terras de Comunidades Indígenas (TCOs/TIOCs) por meio de novos títulos de propriedade, embora não especifique quantos hectares foram incorporados.</p>



<p>No entanto, o cruzamento de dados de pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisa Social <a href="http://iwgia.org/images/documentos/Libros/ATLAS%202019.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CEJIS)</a> e pelo Centro de Pesquisa e Promoção do Campesinato <a href="https://cipca.org.bo/publicaciones-e-investigaciones/cuadernos-de-investigacion/saneamiento-de-la-tierra-en-seis-regiones-de-bolivia-1996-2007-cuadernos-de-investigacion-n-69" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CIPCA)</a> revela que a luta dos povos indígenas das terras baixas pelo reconhecimento, titulação e defesa de seu território ancestral está longe de terminar.</p>



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<p class="destacado pc-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continua a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
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<p class="destacado cel-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a conceder terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
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<p>Desde a década de 1990 até os dias atuais, os 48 territórios indígenas da bacia amazônica, em conjunto, solicitaram o reconhecimento legal de aproximadamente 22,7 milhões de hectares. No entanto, o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) concedeu títulos de propriedade para apenas 11,7 milhões de hectares, o que corresponde a meros 52% da área solicitada. Ou seja, mais de 11 milhões de hectares permaneceram sem título.</p>



<p>Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas. Entre 2009 e 2019, o INRA repassou aproximadamente 318.500 hectares a grupos interculturais e camponeses (organizações sociais ligadas ao partido político que governou a Bolívia entre 2006 e 2015) para o estabelecimento de 236 comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1005" height="771" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19425" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg 1005w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-300x230.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-768x589.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1005px) 100vw, 1005px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Desmatamento acumulado até 2024 (marrom) e assentamento de comunidades interculturais e agricultores (vermelho) no Território Indígena de Monte Verde. <strong>Foto: </strong>Captura de tela do VISTA/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando a proteção é insuficiente</strong></h3>



<p>A discrepância entre a proteção declarada pelo Estado e o que de fato ocorre nos territórios indígenas também se reflete no próprio Sétimo Relatório Nacional. A Bolívia reconhece a falta de informações para mensurar, entre outros aspectos, a posse da terra nos territórios ancestrais dos povos indígenas e comunidades locais. Admite ainda a existência de problemas de grilagem de terras e ocupação ilegal.</p>



<p>Além da pressão exercida por comunidades terceirizadas instaladas com autorização do Instituto Nacional de Reforma Agrária em torno dos territórios indígenas titulados, esses povos ancestrais enfrentam a invasão de seus espaços legalmente reconhecidos pelo Estado, ou seja, nos territórios que possuem título de propriedade coletiva.</p>



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<p class="destacado pc-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico.</p>
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<p class="destacado cel-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam caindo e os territórios indígenas continuam sendo alvo de tráfico.</p>
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<p>Uma análise de entrevistas com líderes de 30 dos 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica conclui que 28 dessas terras ancestrais sofreram grilagem nas últimas duas décadas e, em 22 casos, os conflitos permanecem sem solução. Segundo os líderes entrevistados, essas ocupações são impulsionadas por redes que buscam ativar um mercado ilegal de terras na Amazônia boliviana, principalmente para desmatar e viabilizar atividades agrícolas em larga escala.</p>



<p>Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico. Mas essa não é a única pressão. Os 30 líderes indígenas também apontaram conflitos e ameaças ligados aos mercados de carbono, à mineração ilegal, ao tráfico de madeira e ao tráfico de drogas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19426" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto de julho de 2025 documentando o desmatamento ilegal realizado pelas colônias menonitas em Monte Verde. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Preservando além do mapa</strong></h3>



<p>Em Yerevan, a Bolívia terá que demonstrar seu progresso rumo à meta 30&#215;30. Poderá falar em territórios titulados, governança indígena e conservação sob a gestão de povos indígenas. No entanto, por trás desses números, existem territórios onde árvores continuam a cair, onde persistem disputas de terras e onde comunidades indígenas aguardam há anos uma resposta do Estado em relação à invasão e ao tráfico de suas terras.</p>



<p>A meta de 30&#215;30 pode parecer alcançável quando vista em um mapa, mas a conservação não acontece em um mapa; ela acontece em territórios concretos onde os povos indígenas defendem suas florestas, seus direitos e seus modos de vida. A questão que a Bolívia levará à COP17 não é apenas quantos hectares pode declarar como conservados, mas quanto daquilo que alega proteger está de fato seguro e quanto pode conter ou controlar o que ela mesma reconhece em seu Sétimo Relatório Nacional: a expansão da fronteira agrícola, as atividades extrativistas e os assentamentos humanos como as principais causas da perda de biodiversidade e do desmatamento.</p>



<p>Em outras palavras, além do teste que deve passar em outubro, o Estado boliviano (independentemente de quem estiver no poder em La Paz) deve ser capaz de fazer cumprir as regras que criou e garantir a proteção das florestas e daqueles que habitam essas terras ancestrais. Isso não é apenas uma obrigação para com os bolivianos, mas também uma responsabilidade para com um planeta que não tem mais tempo para esperar que promessas se transformem em ações.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-meta-30x30-e-os-territorios-indigenas-a-contradicao-da-bolivia/">A meta 30&#215;30 e os territórios indígenas: a contradição da Bolívia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Guardiões da natureza e da conservação da biodiversidade nas florestas tropicais de Myanmar</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/guardioes-da-natureza-e-da-conservacao-da-biodiversidade-nas-florestas-tropicais-de-myanmar/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Debates Indígenas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Myanmar]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19428</guid>

					<description><![CDATA[<p>A sobrevivência dos ecossistemas mais resilientes do planeta depende do reconhecimento dos povos indígenas que os protegem e cuidam há milênios. Nos corredores florestais tropicais de Myanmar, os compromissos internacionais estabelecidos pela Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica e seu Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (MMBKM) não são ideais abstratos, mas uma questão de sobrevivência imediata. A documentação produzida pela comunidade indígena Gheba Karen demonstra como os sistemas tradicionais preservam a integridade dos ecossistemas em meio a crises complexas. Proteger a biodiversidade exige garantir os direitos dos povos indígenas e respeitar seus sistemas tradicionais de posse da terra.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Situada nas paisagens montanhosas da floresta tropical do estado de Kayin (Karen), Taung Pat Lal (Khlo Do) é uma aldeia histórica do povo indígena Karen Gheba. Formou-se a partir da união histórica de dois assentamentos ancestrais: Du Plo Kho (Ywa Soe Kone) e Za Wa Loe Poo (Kee Kan Kyauk Khaung). Hoje, a comunidade é composta por 60 famílias e tem uma população de 245 pessoas (124 homens e 121 mulheres). Opera sob um sistema tradicional de autogoverno, no qual as autoridades são escolhidas com base no seu compromisso com a comunidade, no respeito que inspiram e na sua influência, em vez de por sucessão hereditária.</p>



<p>Os limites territoriais de Taung Pat Lal são demarcados pelos riachos Tho Doe The Loe e Chein Loe Yo (Riacho do Tigre), El Bra Loe Chee, Chein Loe Htit (Rocha do Tigre), Thaw Kha Loe Chee e pelas cristas das montanhas YaeKa Hday e Kyar Mwe. A comunidade administra um sofisticado sistema de zoneamento que integra harmoniosamente a produção de alimentos, a conservação da biodiversidade e a proteção espiritual. Este sistema compreende terras destinadas à agricultura rotativa (<em>Shwe Pyaung Taung Ya</em>), jardins agroflorestais perenes geridos por famílias e terras comunitárias: áreas de bacias hidrográficas protegidas e locais sagrados como a Montanha da Oração (<em>Su Taung Taung</em>), uma gruta mariana (<em>Mae Taw Gu</em>) e o cemitério comunitário.</p>



<p>A posse consuetudinária da terra é regida por princípios de equidade. A herança de pomares e terras familiares é distribuída igualmente entre filhas e filhos, sem discriminação de gênero. Os limites das terras são respeitados por meio de acordos orais consuetudinários e marcos geográficos naturais. Para proteger os territórios ancestrais, o direito consuetudinário proíbe a venda de terras herdadas a pessoas de fora. Se uma família precisar transferir suas terras, elas devem permanecer nas mãos de parentes ou membros da comunidade. A resolução de conflitos é conduzida por anciãos da aldeia, autoridades locais e líderes religiosos, e culmina em práticas tradicionais de reconciliação, como apertos de mão simbólicos e orações coletivas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19430" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Processo tradicional de secagem por defumação na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Conhecimento indígena e conservação de ecossistemas</h3>



<p>O valor das terras indígenas para a conservação deriva diretamente do profundo conhecimento ecológico transmitido de geração em geração. Em Taung Pat Lal, a gestão tradicional de recursos inclui mecanismos que regulam o uso dos recursos e protegem a flora e a fauna da floresta.</p>



<p><strong>1. Agrobiodiversidade e controle biológico de pragas</strong></p>



<p>Em seus sistemas de rotação de arroz, os agricultores Gheba Karen praticam a agricultura diversificada plantando <em>Phor Li Phor Par </em>(flores de crista-de-galo) nas margens dos arrozais. Segundo o conhecimento tradicional, essas flores de cores vibrantes atraem insetos e os repelem do arroz, proporcionando um controle biológico natural que minimiza os danos à lavoura sem o uso de pesticidas químicos. Além disso, os sistemas de rotação permitem o cultivo de uma grande variedade de alimentos, preservando assim um banco genético de plantas e espécies locais resistentes.</p>



<p><strong>2. Conservação de sementes e liderança de mulheres indígenas</strong></p>



<p>As mulheres (<em>Maetaw Thami</em>) desempenham um papel vital na manutenção da agrobiodiversidade. Após a colheita, elas selecionam cuidadosamente sementes tradicionais, secam-nas ao sol, defumam-nas em fogueiras para protegê-las de insetos e, finalmente, armazenam-nas para a época do plantio. Rituais tradicionais reforçam a preservação das sementes: quando os grãos colhidos são levados para o celeiro da família, um punhado de arroz e um buquê de flores são amarrados ao poste principal da casa e permanecem lá durante todo o ano, garantindo que o espírito das colheitas (<em>Saba Leik Pyar</em>) permaneça conectado à terra e seja semeado novamente na primavera.</p>



<p><strong>3. Normas para uso sustentável</strong></p>



<p>A comunidade aplica regras sazonais e biológicas rigorosas para a colheita de produtos florestais não madeireiros. Os brotos de bambu (<em>Myit</em>) são essenciais para a subsistência e o sustento das famílias, que os colhem sazonalmente, preservando a integridade das raízes. Plantas medicinais, como as raízes <em>de Bhon Ma Ra Za </em>e orquídeas silvestres, são colhidas seletivamente para evitar o esgotamento dos recursos.</p>



<p><strong>4. Patrimônio e práticas da medicina tradicional indígena</strong></p>



<p>O Comitê de Assuntos Gheba Karen e jovens da comunidade documentaram uma grande variedade de plantas medicinais. Entre as espécies documentadas, os curandeiros locais utilizam <em>Dwi Yin Kaung </em>(uma samambaia silvestre), que é triturada para preparar uma cataplasma com óleo de gergelim, cúrcuma e aglutinantes locais para tratar fraturas ósseas graves e lesões nos tecidos. Outras espécies silvestres, comofolhas de <em>Yae Yin Pyar</em>, folhas de jaca silvestre e raízes de gengibre, são utilizadas para cuidados pós-parto e tratamento de traumas físicos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19431" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Árvore de betel na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Ameaças crescentes: conflito, destruição e vulnerabilidade climática</h3>



<p>Apesar dessas práticas sustentáveis, os povos indígenas em regiões de floresta tropical enfrentam ameaças estruturais crescentes que colocam em risco tanto seus direitos quanto seus ecossistemas.</p>



<p><strong>1. Intensificação do conflito e violações dos direitos humanos</strong></p>



<p>O contexto no estado de Kayin (Karen) é marcado por intenso conflito militar e deslocamento forçado. A população civil sofre frequentes ataques aéreos, bombardeios de artilharia pesada e incêndios em aldeias perpetrados pelo regime militar, que deslocaram milhares de pessoas para áreas florestais, impedindo-as de retornar às suas aldeias. Diversos relatos documentam inúmeras vítimas, incluindo as causadas pelos ataques aéreos do regime em 29 de abril de 2026, em Thandaunggyi, que deixaram 20 civis mortos. Essas condições impedem a manutenção de ciclos agrícolas regulares e ameaçam a segurança da população. Além disso, as comunidades indígenas Gheba Karen precisam assumir a responsabilidade de abrigar e auxiliar outros deslocados, o que impõe uma pressão ainda maior sobre seus recursos e sua resiliência.</p>



<p><strong>2. Perda de biodiversidade e conhecimento indígena</strong></p>



<p>O desmatamento e a destruição de habitats, intensificados por um longo histórico de exploração comercial, levaram a um declínio acentuado em espécies raras de plantas medicinais. À medida que os anciãos falecem sem que seus conhecimentos sejam devidamente documentados, o saber indígena sobre saúde corre o risco de desaparecer para sempre. Documentar essas práticas é crucial para evitar a perda do saber indígena e garantir que os futuros mecanismos de repartição de benefícios respeitem a propriedade comunitária desse saber.</p>



<p><strong>3. Eventos climáticos extremos e crises de roedores</strong></p>



<p>As comunidades das florestas tropicais estão na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas. Em 2024, chuvas de monção extremas desencadearam deslizamentos de terra severos em Taung Pat Lal, destruindo arrozais de montanha, plantações de cúrcuma e valiosos sistemas agroflorestais tradicionais de cardamomo. Essa vulnerabilidade é agravada por crises ecológicas cíclicas. Em 1975 e 2016, a floração em massa do bambu (ciclos <em>Mautam</em>) levou a aumentos repentinos nas populações de roedores, que devastaram os arrozais de montanha e forçaram as comunidades a processos prolongados de recuperação econômica.</p>



<p><strong>4. Conservação imposta e exclusão das políticas públicas</strong></p>



<p>Historicamente, os modelos e iniciativas de conservação liderados pelo Estado, concebidos por aqueles que detêm o poder, ignoraram os sistemas tradicionais de posse da terra e consideraram os povos indígenas como uma ameaça às florestas, em vez de reconhecê-los como seus principais guardiões. Os atuais mecanismos de conservação orientados pelo mercado, como créditos e compensações de carbono e biodiversidade, correm o risco de reproduzir modelos de “conservação de fortaleza” se implementados sem respeitar o direito dos povos indígenas ao Consentimento Livre, Prévio e Informado. Isso pode levar ao deslocamento de comunidades de suas terras ancestrais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19432" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Moagem tradicional de arroz na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">A necessidade de alinhar os objetivos globais com as realidades locais</h3>



<p>As evidências de Taung Pat Lal (Khlo Do) demonstram que as metas globais de biodiversidade não podem ser alcançadas por meio de imposições de cima para baixo ou estratégias corporativas de compensação. Enquanto as Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) negociam a implementação do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (MMBKM) na COP17 na Armênia, a experiência das comunidades indígenas em Myanmar destaca uma série de prioridades políticas críticas.</p>



<p><strong>1. Aplicar medidas de segurança e obter o consentimento livre, prévio e informado</strong></p>



<p>Todos os projetos de conservação, mitigação das mudanças climáticas e compensação de carbono devem aplicar as salvaguardas da Seção C. A expansão de áreas protegidas, projetos de infraestrutura verde e sistemas de créditos de carbono e biodiversidade só deve prosseguir após a obtenção do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) dos Povos Indígenas em relação aos seus territórios ancestrais. Os sistemas de conservação, créditos de carbono e biodiversidade que levam à desapropriação dos Povos Indígenas devem ser eliminados.</p>



<p><strong>2. Reconhecimento direto dos territórios indígenas</strong></p>



<p>A Meta 3 (30&#215;30) não deve ser interpretada apenas como uma expansão de áreas protegidas ou parques nacionais geridos pelo Estado exclusivamente para a conservação. As Partes da CDB devem reconhecer formalmente e proteger legalmente os Territórios Indígenas como áreas de conservação distintas e autogovernadas. Sistemas como a gestão tradicional de terras em pousio e a proteção das florestas comunitárias Taung Pat Lal constituem modelos de conservação eficazes que contribuem para a preservação dos territórios de floresta tropical e sua biodiversidade. Por exemplo, áreas sagradas, jardins e bacias hidrográficas mantêm a cobertura florestal intacta.</p>



<p><strong>3. Proteção dos defensores dos direitos humanos ambientais</strong></p>



<p>A participação plena e equitativa dos povos indígenas na tomada de decisões deve ser garantida, e seus direitos de posse da terra devem ser plenamente respeitados. Além disso, é fundamental garantir proteção legal e mecanismos de financiamento para os defensores dos direitos humanos. Em regiões de floresta tropical afetadas por conflitos, os povos indígenas que protegem suas terras representam a última linha de defesa contra a exploração madeireira ilegal, a extração de recursos e o colapso dos ecossistemas. A implementação da Meta 22 exige mecanismos operacionais que protejam os guardiões locais contra conflitos violentos, ataques aéreos e apropriação indevida de terras.</p>



<p><strong>4. Financiamento direto para o clima e a biodiversidade</strong></p>



<p>Apesar de protegerem importantes sumidouros de carbono e áreas de grande relevância para a biodiversidade, as organizações comunitárias locais e as organizações indígenas enfrentam barreiras sistêmicas ao acesso direto a financiamento. Os mecanismos financeiros internacionais devem estabelecer vias de financiamento diretas e acessíveis para organizações indígenas de base, contornando os canais estatais centralizados, a fim de apoiar o mapeamento liderado pela comunidade, a preservação do conhecimento tradicional e iniciativas de resiliência climática.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19433" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Agricultura rotativa em Taung Pat Lal, comunidade de Gheba Karen. <strong>Foto: </strong><em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Gestão resiliente de florestas tropicais</h3>



<p>As florestas tropicais de Myanmar sobrevivem graças aos povos indígenas que as gerem e protegem. A governança consuetudinária da terra, as práticas de agrobiodiversidade e o património e as práticas de medicina tradicional da comunidade Gheba Karen de Taung Pat Lal (Khlo Do) fornecem provas convincentes de que a conservação da biodiversidade e os direitos humanos estão intrinsecamente ligados.</p>



<p>Enquanto líderes internacionais se reúnem na COP17 para avaliar o progresso no âmbito do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (KMBMF), as políticas internacionais devem estar fundamentadas nessas realidades locais. A plena concretização dos objetivos do KMBMF exige o reconhecimento formal dos territórios indígenas, a proteção legal dos sistemas tradicionais de posse da terra, o investimento em mecanismos de monitoramento liderados por indígenas e salvaguardas robustas para os defensores ambientais que atuam na linha de frente.</p>



<p><strong>Devido à sensibilidade dos temas abordados neste artigo, a Debates Indígenas prefere manter o anonimato do(s) autor(es).</strong></p>



<p></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Ouro, territórios e direitos: mineração ilegal na Amazônia e no Escudo das Guianas</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/ouro-territorios-e-direitos-mineracao-ilegal-na-amazonia-e-no-escudo-das-guianas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Javier Palummo Lantes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Sistema Interamericano]]></category>
		<category><![CDATA[CIDH]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19438</guid>

					<description><![CDATA[<p>A Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) está elaborando um relatório sobre os impactos da mineração ilegal de ouro, violações de direitos humanos, povos indígenas e governança territorial. Contaminação por mercúrio, vínculos com outras economias ilegais, rastreabilidade do ouro e cooperação transfronteiriça são temas centrais. O processo visa reunir o conhecimento e as perspectivas das comunidades afetadas e fortalecer sua capacidade de participação.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Rios contaminados com mercúrio, florestas transformadas em áreas de extração a céu aberto e comunidades testemunhando a deterioração dos territórios dos quais dependem para sua vida material, cultural e espiritual: a expansão da mineração ilegal de ouro tornou-se um dos desafios socioambientais mais complexos na Amazônia e no Escudo das Guianas. Seus impactos vão muito além da extração mineral, afetando água, saúde, alimentação, florestas, segurança e formas de governança territorial. Para os povos indígenas, essa dinâmica também pode colocar em risco seus direitos territoriais, seus modos de vida, sua autodeterminação e seus sistemas de autogoverno.</p>



<p>O alto preço internacional do ouro reforçou os incentivos econômicos para a expansão dessas atividades. Segundo o Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), a região amazônica perdeu mais de 736 mil hectares de floresta primária até 2025, e uma parcela significativa das áreas afetadas pela mineração está localizada em áreas protegidas e territórios indígenas. Em resposta a essa realidade, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) está elaborando um relatório regional que analisará a relação entre mineração ilegal de ouro, violações de direitos humanos, territórios e governança em diversos países da Amazônia e do Escudo das Guianas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-1-1-1024x683.jpeg" alt="" class="wp-image-19439" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-1-1-1024x683.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-1-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-1-1-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-1-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O diálogo regional &#8220;Territórios em Prontidão&#8221;, realizado em Tena, Equador, contou com a participação da REDESCA. <strong>Foto: </strong>Lanceros Digitales</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>De alertas a análises regionais</strong></h3>



<p>A decisão de elaborar este relatório faz parte de um processo de monitoramento e documentação que a Comissão Interamericana e sua Relatora Especial vêm desenvolvendo há vários anos em resposta a uma crescente preocupação na região, que a REDESCA identificou como área prioritária de atenção em seu Plano de Trabalho 2024-2026. Em 2019, em seu relatório sobre <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/Panamazonia2019.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os povos indígenas e tribais da região panamazônica</a>, a CIDH alertou sobre a exposição a altos níveis de mercúrio e seus efeitos sobre a água, a biodiversidade e a saúde. Em 2021, a Resolução <a href="https://www.oas.org/es/CIDH/jsForm/?File=%2Fes%2Fcidh%2Fprensa%2Fcomunicados%2F2022%2F045.asp" target="_blank" rel="noreferrer noopener">3/21 sobre Emergência Climática</a> identificou a degradação ambiental como uma das principais ameaças aos direitos humanos na região.</p>



<p>Em abril de 2024, durante uma visita <em>in loco </em>à Colômbia, a Comissão e sua Relatoria Especial identificaram a mineração ilegal como causa de poluição da água, deslocamento forçado e financiamento de organizações criminosas. Em outubro do mesmo ano, <a href="https://www.oas.org/es/cidh/jsForm/?File=/es/cidh/prensa/comunicados/2024/257.asp" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a CIDH e a REDESCA (Comissão Especial de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) emitiram um alerta sobre a situação do povo Yanomami no Arco Mineiro do Orinoco</a>, que enfrenta deslocamento, contaminação por mercúrio e a presença de grupos armados. Em março de 2025, a Relatora Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (REDESCA) instou ao fortalecimento da cooperação internacional, da rastreabilidade do ouro e do controle do comércio de insumos como o mercúrio. Em março de 2026, emitiu um novo alerta sobre os impactos da mineração ilegal no direito humano à água. Esse problema também tem sido reiteradamente documentado nos relatórios anuais da Relatoria sobre diversos países da região.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A REDESCA dedica especial atenção aos impactos diferenciados sobre os povos indígenas, as comunidades afrodescendentes e tribais, as mulheres, as meninas, os meninos e os adolescentes, bem como os defensores dos direitos humanos e do meio ambiente.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A REDESCA dedica especial atenção ao impacto sobre os povos indígenas, comunidades afrodescendentes e tribais, mulheres, meninas, meninos e adolescentes.</p>
</blockquote>



<p>O objetivo deste relatório é analisar, sob a perspectiva dos direitos humanos, e em particular sob a perspectiva dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, os impactos da mineração ilegal de ouro, bem como as dinâmicas territoriais, transfronteiriças e de governança que acompanham sua expansão. A REDESCA (Relatoria Especial para os Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) dedica especial atenção aos impactos diferenciados sobre os Povos Indígenas (incluindo aqueles em isolamento voluntário e em contato inicial), comunidades afrodescendentes e tribais, mulheres, crianças e adolescentes, e defensores dos direitos humanos e do meio ambiente.</p>



<p>Sem antecipar as conclusões do relatório, atualmente em preparação, as informações coletadas permitem identificar dimensões particularmente relevantes para a análise: contaminação por mercúrio e outros impactos na saúde e na alimentação; desmatamento e degradação dos ecossistemas; perda do controle territorial; expansão das economias ilícitas e de atores armados; fragilidades na resposta institucional; e dificuldades em garantir a rastreabilidade e a devida diligência em toda a cadeia de suprimentos do ouro.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-19440" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1-1024x684.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-2-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Visita in loco à Colômbia, em Buenaventura, durante abril de 2024. <strong>Foto: </strong>CIDH</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Um processo construído a partir do diálogo e da consulta</h3>



<p>O processo de elaboração combinou diversos mecanismos de diálogo, consulta e coleta de informações. Como parte desse trabalho, a CIDH convocou uma audiência regional por iniciativa própria durante sua 195ª Sessão, realizada na Cidade da Guatemala, com a participação de organizações da sociedade civil, representantes de comunidades e povos indígenas. Posteriormente, a REDESCA enviou pedidos de informação aos Estados e lançou uma chamada para contribuições de organizações, comunidades afetadas e especialistas.</p>



<p>Entre 15 e 19 de junho de 2026, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (REDESCA) realizou uma visita de trabalho ao Brasil, com encontros em Brasília e Boa Vista, Roraima, com autoridades e organizações da sociedade civil. Durante a visita, participou da 8ª Assembleia Geral da Associação Hutukara Yanomami, juntamente com líderes indígenas. Em julho, a Relatoria realizou uma consulta híbrida com especialistas em Bogotá e participou do Encontro Regional sobre Mineração, Governança Territorial e Direitos Indígenas na Amazônia, realizado em Tena, Equador. O encontro foi organizado pela PAKKIRU, FOIN Equador e o Instituto Quíchua de Biotecnologia Sacha Supay, com o apoio do IWGIA. Lá, ocorreu o diálogo com líderes indígenas da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru.</p>



<p>Esses espaços permitiram a incorporação não apenas de informações sobre os impactos, mas também das experiências, conhecimentos e respostas desenvolvidas pelos próprios povos indígenas. Em diferentes territórios, comunidades, organizações e autoridades indígenas têm promovido mecanismos de monitoramento e proteção territorial, ferramentas de mapeamento e documentação ambiental, sistemas de alerta precoce e estratégias de diálogo com as autoridades. Incorporar esse conhecimento e essas experiências é fundamental para compreender a dinâmica territorial da mineração ilegal e para elaborar respostas que reconheçam a autonomia, a participação efetiva e as prioridades definidas pelos próprios povos indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19441" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-3-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Audiência regional sobre os impactos da mineração ilegal nos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais durante a 195ª Sessão na Cidade da Guatemala. <strong>Foto:</strong> <a href="https://www.flickr.com/photos/cidh/55151982010/in/album-72177720332466915" target="_blank" rel="noreferrer noopener">CIDH</a> </em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">DESCA, território e continuidade da vida comunitária</h3>



<p>Os impactos da mineração ilegal de ouro não se limitam à poluição ou à perda da cobertura florestal. Em territórios indígenas, o desmatamento, a alteração dos cursos d&#8217;água e a degradação dos ecossistemas podem afetar as relações territoriais que sustentam a segurança alimentar, a saúde, os meios de subsistência, as práticas culturais e espirituais e, de forma mais ampla, as condições necessárias para a continuidade da vida comunitária. De uma perspectiva interamericana de direitos humanos, a proteção florestal está, portanto, intimamente ligada à proteção dos territórios, dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESC), da identidade cultural e da autodeterminação dos povos indígenas.</p>



<p>Entre as principais preocupações decorrentes das informações coletadas está a poluição por mercúrio. Uma vez liberado no meio ambiente, o mercúrio pode se transformar em metilmercúrio, acumular-se em peixes e outros organismos aquáticos e, por meio deles, entrar na cadeia alimentar dos habitantes da Amazônia. Assim, a poluição dos rios também compromete o direito à alimentação, afetando a dieta de inúmeras comunidades indígenas e ribeirinhas e colocando em risco as práticas alimentares tradicionais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Bacias hidrográficas e territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela e outros países ilustram a relação entre a expansão da mineração, o desmatamento, a degradação dos recursos hídricos e a pressão sobre áreas protegidas e territórios indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador e Venezuela ilustram a relação entre a expansão da mineração, o desmatamento e a degradação dos recursos hídricos.</p>
</blockquote>



<p>A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para graves danos neurológicos associados à exposição ao metilmercúrio e para riscos particularmente elevados em crianças e gestantes. Estudos citados nas informações revisadas pela REDESCA detectaram altos níveis de mercúrio em comunidades indígenas no <a href="https://www.fiotec.fiocruz.br/pt/noticias/outros/yanomamis-de-nove-aldeias-assediadas-pelo-garimpo-estao-contaminados-por-mercurio">Brasil</a> e no <a href="https://cincia.org/estudio-confirma-alta-exposicion-a-mercurio-en-comunidades-indigenas-y-riberenas-de-loreto/">Peru</a>. Além disso, existem outros impactos na saúde: <a href="https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41537954/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a transformação do solo associada à mineração pode criar condições para a proliferação de vetores de doenças, como os transmissores da malária</a>.</p>



<p>O desmatamento e a fragmentação de habitats constituem outra dimensão central dos problemas enfrentados pela Amazônia. Bacias e territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela e outros países demonstram a relação entre a expansão da mineração, a perda florestal, <a href="https://www.oas.org/es/CIDH/jsForm/?File=/es/cidh/prensa/comunicados/2026/048.asp" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a degradação dos recursos hídricos</a> e a pressão sobre áreas protegidas e territórios indígenas. Essas dinâmicas são exacerbadas quando convergem com outras economias ilícitas e com atores que disputam o controle territorial.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-4-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19442" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-4-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-4-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-4-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-4-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A deputada estadual equatoriana Mariana Yumbay em territórios disputados. Durante o diálogo regional, representantes de povos indígenas compartilharam experiências e propostas sobre direitos humanos e atividades extrativistas com a REDESCA. <strong>Foto: </strong>IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Mineração ilegal, economias ilícitas e governança territorial</h3>



<p>A mineração ilegal de ouro não opera isoladamente. Em diferentes regiões da Amazônia, <a href="https://amazonwatch.org/news/2026/0420-amazon-under-siege" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a atividade está ligada a redes de narcotráfico, extração ilegal de madeira, contrabando, tráfico de suprimentos e outras economias ilícitas</a>. Essa convergência pode resultar no controle territorial por grupos armados, ameaças a comunidades e autoridades indígenas, restrições à circulação e enfraquecimento da capacidade do Estado de prevenção, fiscalização e proteção.</p>



<p>O ouro apresenta características que facilitam sua incorporação em circuitos comerciais aparentemente legais: possui alto valor por peso, pode ser derretido e misturado com produtos de origem legal e pode circular com documentação irregular ou por jurisdições com controles insuficientes. Portanto, a resposta não pode se limitar ao local de extração. Requer mecanismos eficazes de rastreabilidade, cooperação transfronteiriça e coordenação entre as autoridades ambientais, aduaneiras, financeiras e judiciais. Requer também responsabilidades claras para os agentes comerciais envolvidos na cadeia de suprimentos.</p>



<p><a href="https://voragine.co/historias/reportaje/acorralado-por-mineros-y-narcos-el-unico-pueblo-no-contactado-identificado-en-colombia-podria-extinguirse/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Os riscos são especialmente graves para os povos indígenas em isolamento voluntário e em fase inicial de contato</a>, visto que qualquer interferência externa pode ter consequências irreversíveis. Os impactos também afetam desproporcionalmente mulheres, crianças e adolescentes, comunidades afrodescendentes e tribais, bem como defensores dos direitos humanos e do meio ambiente. Em contextos adversos, esses indivíduos enfrentam ameaças, assédio e violência.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19443" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/CIDH-Sept-2026-5-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Povos indígenas e a sociedade civil denunciaram perante a CIDH os impactos da mineração ilegal de ouro sobre os direitos humanos e os territórios. Audiência regional no âmbito da 195ª Sessão. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.flickr.com/photos/cidh/55151767193/in/album-72177720332466915" target="_blank" rel="noreferrer noopener">CIDH</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Um relatório concebido como uma ferramenta</h3>



<p>O desafio não termina com a documentação do avanço da mineração ilegal ou com a identificação de seus impactos. A questão central é como traduzir os padrões de direitos humanos em respostas capazes de proteger efetivamente os territórios, prevenir danos adicionais e fortalecer a capacidade das comunidades de participar das decisões que afetam seus modos de vida.</p>



<p>O relatório regional que está sendo preparado pela REDESCA busca contribuir para esse objetivo, sistematizando normas e formulando recomendações para Estados, empresas e outros atores relevantes. Ao mesmo tempo, seu desenvolvimento visa incorporar as experiências, o conhecimento e as perspectivas dos povos indígenas e das comunidades afetadas, não apenas como fontes de informação, mas também como atores essenciais para a compreensão do território e o desenvolvimento de respostas adequadas.</p>



<p>Diante de uma economia ilícita que atravessa fronteiras, cadeias de abastecimento e territórios, as respostas devem ser também coordenadas, preventivas e transfronteiriças. O objetivo é que as conclusões e normas do relatório se tornem ferramentas úteis para o diálogo, a promoção dos direitos e a adoção de medidas que priorizem a proteção dos direitos humanos, das florestas e o direito dos povos de decidir sobre o presente e o futuro dos seus territórios.</p>



<p><strong>As opiniões expressas neste artigo são pessoais e não representam necessariamente a posição da REDESCA, da CIDH ou da Organização dos Estados Americanos (OEA).</strong></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>As florestas da Bacia do Congo em Camarões e os direitos do povo Baka</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/as-florestas-da-bacia-do-congo-em-camaroes-e-os-direitos-do-povo-baka/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Hawe Hamman Bouba]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Camarões]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19450</guid>

					<description><![CDATA[<p>No coração da África Central encontra-se a segunda maior floresta tropical do mundo, depois da floresta amazônica. Abrangendo vários países, ela abriga uma biodiversidade extraordinária e é um dos maiores sumidouros de carbono do planeta. A Bacia do Congo é um espaço de cultura e identidade para diversos povos indígenas da região e de Camarões. As florestas tropicais equatoriais são os territórios ancestrais do povo indígena Baka, cuja presença e conhecimento estão profundamente entrelaçados com esses ecossistemas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Para o povo indígena Baka, a floresta não é simplesmente uma área a ser conservada nem uma fonte de recursos econômicos a ser explorada. É seu território ancestral, a fonte de sua espiritualidade e o sustento de seus meios de subsistência: plantas medicinais, mel, peixe, caça e produtos florestais não madeireiros. Os sistemas de conhecimento são transmitidos de geração em geração. O território Baka inclui a Reserva de Vida Selvagem de Dja, declarada Reserva da Biosfera e Patrimônio Mundial da UNESCO, reconhecida por sua rica biodiversidade e florestas tropicais intactas. A profunda relação entre a floresta e o povo Baka, seu conhecimento ecológico e suas práticas tradicionais constituem uma parte importante do patrimônio cultural da região.</p>



<p>No entanto, essa relação de longa data está sob crescente pressão. Em várias partes do sul e leste de Camarões, os territórios florestais estão sendo impactados pela exploração madeireira, expansão agrícola, atividades extrativas, desenvolvimento de infraestrutura e ampliação de áreas de conservação. Com a deterioração da floresta, o povo Baka precisa percorrer distâncias cada vez maiores para encontrar certas frutas, plantas medicinais e outros produtos florestais não madeireiros. Peixes e animais de caça estão se tornando cada vez mais escassos, enquanto o acesso a certas áreas tradicionalmente utilizadas está se tornando mais difícil.</p>



<p>No sul e leste dos Camarões, as restrições de acesso aos recursos florestais e as dificuldades na garantia dos direitos territoriais impactam diretamente os meios de subsistência das comunidades. O povo Baka depende fortemente de produtos florestais não madeireiros, e o declínio desses recursos, especialmente quando resultante de restrições de acesso às florestas, pode alterar profundamente seus padrões de produção e consumo. Essa situação demonstra que a proteção florestal não pode ser dissociada da garantia dos direitos territoriais dos povos indígenas que delas dependem.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="859" height="702" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-4.jpg-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19454" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-4.jpg-1.jpeg 859w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-4.jpg-1-300x245.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-4.jpg-1-768x628.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 859px) 100vw, 859px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Para as mulheres do povo Baka, a floresta é seu território ancestral, a fonte de sua espiritualidade e o sustento de seus meios de vida. <strong>Foto: </strong>AIWO-CAN</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Quando a conservação se torna uma questão de justiça</h3>



<p>O desafio é particularmente evidente em certas áreas protegidas. A conservação da biodiversidade é essencial para a preservação das florestas da Bacia do Congo, mas modelos de conservação que excluem populações indígenas de seus territórios podem ter efeitos adversos sobre os direitos humanos. <a href="https://arcjournals.org/international-journal-of-research-in-sociology-and-anthropology/volume-5-issue-1/7" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Pesquisas realizadas no sul e leste de Camarões documentaram as consequências socioeconômicas de modelos de “conservação-fortaleza”, nos quais as comunidades Baka têm pouca oportunidade de negociar seu acesso às áreas florestais</a>.</p>



<p>Portanto, a questão não é escolher entre florestas e comunidades indígenas, mas sim como proteger a floresta em conjunto com essas comunidades. O povo Baka possui conhecimento ancestral sobre espécies, ciclos sazonais, fontes de água, plantas medicinais e áreas de caça e coleta. Esse conhecimento constitui um patrimônio ecológico que pode contribuir para os objetivos de conservação. Ao mesmo tempo, as comunidades indígenas devem ser consideradas detentoras de direitos e não meramente beneficiárias de projetos ambientais.</p>



<p>Essa abordagem exige, em particular, assegurar a participação efetiva e significativa do povo Baka nas decisões relativas aos seus territórios. Além disso, os governos da região devem respeitar o seu direito ao Consentimento Livre, Prévio e Informado quando medidas ou projetos possam afetar as suas terras, recursos ou modos de vida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="711" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1-1024x711.jpeg" alt="" class="wp-image-19455" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1-1024x711.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1-300x208.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1-768x534.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1-1536x1067.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-2-1.jpeg 2034w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As mulheres Baka consideram a conservação da biodiversidade e a preservação das florestas da Bacia do Congo dois fatores essenciais para suas vidas. <strong>Foto: </strong>AIWO-CAN</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Conservação baseada em direitos</strong></h3>



<p>A experiência da Rede de Organizações de Mulheres Indígenas Africanas da África Central (AIWO-CAN) demonstra que a participação indígena pode assumir formas muito concretas. Em 2010, um grupo de líderes indígenas Baka e Bagyeli participou da criação de um jardim florestal tropical apresentado no <a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/des-leaders-baka-et-bagyeli-exposent-les-problemes-de-leur-forets-aupres-des-medias-et-du-public" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Chelsea Flower Show, em Londres</a>. As mulheres compartilharam suas tradições, bem como os desafios enfrentados por suas comunidades: desmatamento, expansão industrial, discriminação e perda de acesso à biodiversidade de suas florestas. Mapas criados pelo povo Baka para representar seus usos tradicionais da floresta também foram incorporados ao projeto.</p>



<p>Este exemplo é importante porque demonstra que os povos indígenas podem documentar sua relação com seus territórios e transmitir suas próprias mensagens em fóruns internacionais. Um mapa, portanto, não é simplesmente uma ferramenta técnica: torna-se um meio de dar visibilidade a um território e a formas de uso da floresta que podem estar ausentes de mapas administrativos ou planos de manejo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Um projeto de conservação não pode ser sustentável se as comunidades afetadas não tiverem os meios para expressar suas preocupações, questionar uma decisão ou buscar reparação quando acreditarem que seus direitos foram violados.</p>



<p class="destacado cel-only">Um projeto de conservação não pode ser sustentável se as comunidades afetadas não tiverem os meios para expressar suas preocupações.</p>
</blockquote>



<p>Mais recentemente, a região de Dja oferece um exemplo interessante desse progresso rumo a uma governança mais inclusiva. No âmbito do programa GEF-8 dedicado à região de Dja, a AIWO-CAN foi incumbida de contribuir para o estabelecimento de um Mecanismo de Queixas e Reclamações, concebido para permitir que os povos indígenas e as comunidades locais <a href="https://www.congolandscapes.org/news/dja-landscape-project-launches-new-grievance-and-redress-mechanism-strengthen-community-rights">expressem</a><a href="https://www.congolandscapes.org/news/dja-landscape-project-launches-new-grievance-and-redress-mechanism-strengthen-community-rights" target="_blank" rel="noreferrer noopener">suas preocupações e acessem um mecanismo de reclamações acessível</a>. Esse mecanismo visa complementar o processo de Consentimento Livre, Prévio e Informado dos Povos Indígenas.</p>



<p>Essa experiência é especialmente importante para a conservação da Bacia do Congo. Um projeto de conservação não pode ser sustentável se as comunidades afetadas não tiverem os meios para expressar suas preocupações, contestar uma decisão ou buscar reparação quando acreditam que seus direitos foram violados. O estabelecimento de mecanismos culturalmente apropriados para diálogo e reparação pode, portanto, transformar a conservação: passando de um modelo em que as comunidades indígenas são vistas como passivas para um em que elas podem participar, questionar, propor e exigir responsabilização.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="858" height="620" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026.jpg-1-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19456" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026.jpg-1-1.jpeg 858w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026.jpg-1-1-300x217.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026.jpg-1-1-768x555.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 858px) 100vw, 858px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A participação permite que os povos indígenas documentem sua relação com seus territórios e transmitam suas próprias mensagens em fóruns internacionais. <strong>Foto: </strong>AIWO-CAN</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Mulheres indígenas no centro da conservação</h3>



<p>A participação das mulheres também é fundamental. As mulheres indígenas em Camarões desempenham um papel vital na transmissão de conhecimentos relacionados a plantas, alimentos, medicina tradicional e uso de recursos naturais. Elas também são diretamente afetadas pelas consequências econômicas e sociais da degradação desses recursos.</p>



<p>A experiência da AIWO-CAN demonstra a importância de fortalecer as capacidades das mulheres indígenas para que possam participar nos processos de tomada de decisão, defender os seus direitos territoriais e contribuir para as políticas climáticas e ambientais. Esta abordagem é particularmente relevante na Bacia do Congo, onde a conservação e a adaptação às alterações climáticas devem estar alicerçadas nas realidades das comunidades locais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A conservação sustentável da Bacia do Congo deve ser baseada em direitos: uma conservação que proteja os ecossistemas sem deslocar os povos indígenas que tradicionalmente os protegem.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A conservação sustentável da Bacia do Congo deve ser uma conservação baseada em direitos: uma conservação que valorize o conhecimento indígena.</p>
</blockquote>



<p>O Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal oferece uma importante oportunidade para repensar as políticas de conservação a partir de uma perspectiva baseada em direitos. Sua implementação em Camarões não deve ser avaliada apenas com base no número de áreas protegidas ou espécies conservadas, mas também na medida em que os direitos e a participação dos povos indígenas são garantidos.</p>



<p>Portanto, alcançar as metas globais de conservação não deve levar a uma maior exclusão das comunidades indígenas das florestas. Pelo contrário, as políticas de biodiversidade devem reconhecer seus conhecimentos, garantir sua participação efetiva e significativa, proteger seus territórios e assegurar seu envolvimento nas decisões que afetam suas terras e recursos. A 17ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica oferece uma oportunidade para reiterar que a conservação da Bacia do Congo não pode ser dissociada dos direitos dos povos que a habitam.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="636" height="447" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-3.jpg-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19457" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-3.jpg-1.jpeg 636w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Camerun-Sept-2026-3.jpg-1-300x211.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 636px) 100vw, 636px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenassão diretamente afetadas pelas consequências econômicas e sociais da degradação desses recursos. <strong>Foto: </strong>AIWO-CAN</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Em direção à conservação com os povos indígenas</h3>



<p>Toda essa situação evidencia uma realidade fundamental em matéria de direitos humanos. A perda de acesso aos territórios florestais, ou as restrições impostas a esse acesso, afeta os direitos à cultura, à alimentação, à saúde e aos meios de subsistência dos povos indígenas da Bacia do Congo. Da mesma forma, afeta o seu direito de participar nas decisões relativas às suas terras e recursos naturais. Por fim, o desmatamento também pode prejudicar a transmissão do conhecimento ancestral.</p>



<p>O futuro das florestas da Bacia do Congo dependerá não apenas de políticas florestais, investimentos internacionais ou da expansão de áreas protegidas. Dependerá também da capacidade dos Estados e dos atores da conservação de reconhecerem os Povos Indígenas como parceiros em condições de igualdade e detentores de direitos. Em Camarões, a experiência do povo Baka demonstra que a floresta pode ser um espaço de subsistência, cultura, transmissão de conhecimento e conservação da biodiversidade. As iniciativas para as quais a AIWO-CAN contribuiu demonstram que a participação indígena pode se materializar de forma concreta: mapeamento comunitário, participação em políticas florestais, mecanismos de reclamação, Consentimento Livre, Prévio e Informado e fortalecimento do papel das mulheres indígenas.</p>



<p>Portanto, a questão não é mais simplesmente como proteger as florestas da Bacia do Congo, mas também quem decide o seu futuro e que garantias são oferecidas àqueles que as habitam há gerações. A conservação sustentável na Bacia do Congo deve ser baseada em direitos: uma conservação que proteja os ecossistemas sem deslocar os povos indígenas que tradicionalmente os protegem, que valorize o conhecimento indígena sem explorá-lo e que faça das comunidades florestais indígenas verdadeiras parceiras na governança da biodiversidade.</p>
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		<item>
		<title>A bola voltou para o México, e as pessoas desaparecidas?</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/a-bola-voltou-para-o-mexico-e-as-pessoas-desaparecidas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Andrea de la Serna Alegre]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[México]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19084</guid>

					<description><![CDATA[<p>Este título se refere ao slogan que inspirou os protestos de familiares de pessoas desaparecidas no México durante a Copa do Mundo da FIFA de 2026, que adotaram a propaganda oficial que mencionava a terceira Copa do Mundo do país. O México vive uma das piores crises de direitos humanos de sua história contemporânea, enquanto, simultaneamente, desperta um fervor nacionalista profundo por meio do esporte.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><a href="https://versionpublicarnpdno.segob.gob.mx/Dashboard/ContextoGeneral" target="_blank" rel="noreferrer noopener">A existência de mais de 133 mil pessoas desaparecidas coloca o México em primeiro lugar na América Latina em número de desaparecimentos contemporâneos</a>. Essa situação, por sua vez, deu origem a um movimento social de famílias que, em todo o México, criaram <a href="https://www.iwgia.org/es/publicaciones/exhumar-la-esperanza-una-etnograf%C3%ADa-feminista-en-el-pa%C3%ADs-de-las-fosas" target="_blank" rel="noreferrer noopener">coletivos de busca e se apropriaram de conhecimentos forenses e jurídicos</a> para realizar as tarefas que o Estado se mostrou relutante ou incapaz de cumprir. <a href="https://revista.drclas.harvard.edu/a-review-of-exit-wounds-how-americas-guns-fuel-violence-across-the-border-2/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">É importante lembrar que a crise de direitos humanos no México não é apenas um “problema local”, mas sim parte de uma cultura global de militarismo na qual o mercado de armas desregulamentado desempenha um papel fundamental.</a></p>



<p>O desaparecimento forçado é uma forma contínua de tortura que foi utilizada contra dissidentes políticos e guerrilheiros nas décadas de 1960 e 1970, tanto no México quanto em outras regiões de Abya Yala. A partir de 2006, passou a ser amplamente utilizado por grupos armados, legais e ilegais, como estratégia de punição, controle territorial e terror, quando o então presidente Felipe Calderón (2006-2012) iniciou o que é coloquialmente conhecido como a “guerra às drogas”. Essa estratégia militarizou a sociedade, levou a uma maior circulação de armas no país e incorporou técnicas de tortura e manipulação de corpos que os militares haviam aprendido no contexto de conflitos armados.</p>



<p>Enquanto governos de direita iniciaram a “guerra às drogas”, os governos de centro-esquerda de Andrés Manuel López Obrador (2018–2024) e Claudia Sheinbaum (2024–presente) deram continuidade a essa estratégia, <a href="https://www.intersecta.org/posts/inventario-nacional-de-lo-militarizado-actualizacion" target="_blank" rel="noreferrer noopener">concedendo mais poder e impunidade ao exército mexicano</a>. Embora a retórica utilizada por esses governos tenha se concentrado na luta contra a desigualdade, nos direitos das mulheres, nos direitos das vítimas e nos direitos dos povos indígenas, na prática eles mantiveram as políticas de militarização da segurança pública, desapropriação e violações de direitos humanos por parte das forças policiais, militares e de imigração. Isso foi denunciado por coletivos de busca durante suas mobilizações na Copa do Mundo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19090" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-6.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Famílias em busca de seus entes queridos desaparecidos continuam sua marcha, carregando fotografias deles, algumas feitas para se assemelhar a figurinhas da Copa do Mundo. <strong>Foto</strong>: Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mais de 70.000 corpos não identificados</strong></h3>



<p>Entre as reivindicações desse movimento está a identificação dos mais de 70 mil corpos sob custódia do Estado: em necrotérios, institutos médico-legais, hospitais e valas comuns mantidas pelas procuradorias. <a href="https://www.oas.org/es/CIDH/jsForm/?File=/es/cidh/prensa/comunicados/2026/082.asp" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Com 133 mil pessoas desaparecidas e o Estado detendo os restos mortais de 70 mil, as famílias sabem que muitos de seus entes queridos podem estar aguardando identificação para retornarem à casa</a>. A resposta do Estado a essa reivindicação tem sido a de que não possui os recursos financeiros e materiais necessários para realizar essa tarefa. O então Subsecretário de Direitos Humanos, Alejandro Encinas, referiu-se a essa situação como &#8220;a crise forense mexicana&#8221;.<br>No entanto, os resultados financeiros da Copa do Mundo falam por si: <a href="https://plataforma.transparencia.cdmx.gob.mx/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">não há dinheiro para procurar e identificar pessoas desaparecidas, mas há o suficiente para investir US$1,323 bilhão em projetos de infraestrutura para viabilizar o evento</a>. Diante dessa realidade, grupos de familiares de pessoas desaparecidas foram às ruas das três cidades-sede, gritando &#8220;México, campeão dos desaparecimentos&#8221;. Enquanto os estádios da Copa estavam repletos de cartazes anunciando o retorno da bola para casa, as famílias exigiam: &#8220;A bola está voltando para casa, mas quando nossos entes queridos desaparecidos serão encontrados?&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19092" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-3.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Durante uma partida informal de &#8220;jogo da memória contra o esquecimento&#8221;, Verónica Rosas cola uma réplica de um adesivo da Copa do Mundo com a foto de seu filho Diego Maximiliano, desaparecido em 2015. <strong>Foto: </strong>Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência em territórios indígenas, desapropriação e desaparecimentos</strong></h3>



<p>No contexto da Copa do Mundo, grupos de familiares de pessoas desaparecidas buscaram expor esse outro lado dos chamados governos da &#8220;Quarta Transformação&#8221;: <a href="https://vanguardia.com.mx/noticias/mexico/mexico-supera-las-130-mil-desapariciones-51-con-amlo-y-sheinbaum-40-por-dia-EJ16865742" target="_blank" rel="noreferrer noopener">governos de centroesquerda que deram continuidade a políticas de morte e impunidade, possibilitando o desaparecimento de 67 mil pessoas apenas nos seis anos do governo de López Obrador e nos dois primeiros anos do governo de Claudia Sheinbaum</a>. Embora não tenhamos um número exato de quantas dessas pessoas desaparecidas pertencem a comunidades indígenas, devido à falta de dados desagregados por origem étnica, sabemos que a violência extrema tende a se concentrar em territórios pobres e racializados, onde essas comunidades vivem.</p>



<p><a href="https://adondevanlosdesaparecidos.org/2019/04/25/las-multiples-ausencias-de-los-indigenas-desaparecidos-en-mexico/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">As histórias de indígenas desaparecidos em Sinaloa, Guerrero, Oaxaca, Michoacán, Chiapas e Chihuahua revelam um <em>continuum </em>de violência que inclui a violência estrutural, a qual precede o desaparecimento forçado e faz parte da injustiça generalizada</a>. O racismo contribui para a concentração de desaparecimentos nas regiões mais pobres e marginalizadas do país. A estrutura colonial coloca certos grupos em territórios específicos, que recebem menos recursos e menos atenção nas políticas públicas. Em uma sociedade racista e racializada como o México, a identidade indígena é um fator que duplica a probabilidade de vivenciar violência. Denunciar, buscar e acessar a justiça tornam-se um desafio ainda maior quando o espanhol não é falado (e não há tradução disponível) e os recursos são escassos para viajar até as cidades onde se localizam as instituições judiciais e de busca.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Este é o outro lado da Copa do Mundo do México que os mecanismos de busca decidiram mostrar: que nas proximidades dos estádios de futebol existem valas comuns clandestinas onde os corpos daqueles de quem sentimos falta estão escondidos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Este é o outro lado da Copa do Mundo no México: nas proximidades dos estádios de futebol, existem valas comuns clandestinas onde os corpos daqueles de quem sentimos falta estão escondidos.</p>
</blockquote>



<p>Por isso, falamos das múltiplas ausências de indígenas desaparecidos, pois, além da ausência física das comunidades a que pertenciam, até recentemente havia um desrespeito à sua identidade étnica nas estatísticas oficiais sobre desaparecimentos, bem como um silêncio sobre o fenômeno dentro das mobilizações indígenas. Muitos de seus corpos acabaram em valas comuns administradas pelo Estado, sem registros forenses que permitissem que suas famílias os encontrassem.</p>



<p><a href="https://adondevanlosdesaparecidos.org/2024/12/12/reclutamiento-forzado-y-desaparicion-una-deuda-pendiente-a-las-juventudes-mexicanas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Ao lado dos milhares de jovens indígenas anônimos recrutados à força pelo crime organizado e desaparecidos</a>, ou assassinados por resistirem ao recrutamento, existem as histórias documentadas de <a href="https://aristeguinoticias.com/0908/mexico/46-defensores-indigenas-asesinados-o-desaparecidos-en-mexico-desde-2019-onu-dh/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">46 defensores indígenas da terra que, desde 2019, foram mortos ou desapareceram por defenderem seus territórios da desapropriação por projetos de mineração ou desenvolvimento</a>. Este é o outro lado do México da Copa do Mundo, que coletivos de busca decidiram revelar indo às ruas e lembrando aos torcedores que, nas proximidades dos estádios de futebol, existem valas comuns clandestinas onde os corpos daqueles que sentimos falta estão escondidos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="742" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-2-C-1024x742.jpeg" alt="" class="wp-image-19093" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-2-C-1024x742.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-2-C-300x217.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-2-C-768x556.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-2-C.jpeg 1066w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Enquanto acontece a “pelada pela memória e contra o esquecimento”, Verónica Rosas cola a réplica de uma figurinha da Copa do Mundo com a foto de seu filho, Diego Maximiliano, desaparecido em 2015. Foto: Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Grupos de famílias procuram seus filhos desaparecidos antes da Copa do Mundo</strong></h3>



<p>A Cidade do México sediou a cerimônia de abertura e a partida inaugural da Copa do Mundo FIFA de 2026, especificamente no Estádio Azteca, uma sede da Copa do Mundo localizada na área de Santa Úrsula Coapa, uma comunidade indígena cujo território foi fragmentado pela construção do estádio. Pela terceira vez em sua história, a comunidade de Santa Úrsula teve que sediar uma Copa do Mundo com acesso restrito e obstruído ao seu território. Além disso, como em Copas do Mundo anteriores, o contexto social do México não corresponde à imagem que o governo tenta projetar para o mundo.</p>



<p>Diante de uma cidade cada vez mais hostil aos seus habitantes e de uma FIFA sob suspeita de corrupção e tráfico de influência, aqueles que buscam seus entes queridos desaparecidos prepararam uma série de mobilizações e ações memoriais para ocupar o gramado verde do estádio e exigir justiça. Assim, mesmo sob ameaças e repressão do governo, as famílias dos desaparecidos encontraram uma maneira de participar da euforia da Copa do Mundo sem atacá-la, porque, como elas mesmas dizem, seus filhos e filhas, maridos e esposas, irmãos e irmãs, e amigos também são torcedores de futebol. Por isso, as famílias dos desaparecidos foram às ruas para expressar que não querem outra Copa do Mundo sem que seus entes queridos voltem para casa.</p>



<p>Esses protestos ocorreram na Cidade do México, Guadalajara e Monterrey (as três cidades-sede da Copa do Mundo em nosso país) e atraíram a atenção da mídia nacional e internacional. O caso de Guadalajara foi um dos mais notórios, não apenas pelas manifestações, mas também porque <a href="https://elpais.com/mexico/2025-12-17/un-estadio-mundialista-rodeado-de-cadaveres.html">grupos de busca documentaram a descoberta de diversas valas comuns clandestinas nas proximidades do Estádio de Akron</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19094" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-4.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Um grupo de praticantes de diversas espiritualidades e tradições religiosas guia os manifestantes em um ritual para reacender a esperança de encontrar as mais de 133 mil pessoas desaparecidas no país. <strong>Foto: </strong>Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<p>As mobilizações e ações das famílias foram numerosas: a caminhada e a vigília noturna antes da partida de abertura; a marcha realizada no dia da abertura, na qual algumas famílias conseguiram chegar às proximidades do Estádio Azteca após ultrapassarem a cerca que impedia o acesso; as intervenções gráficas e visuais da cultura da Copa do Mundo; os cartazes com os rostos dos desaparecidos, como as figurinhas do álbum <em>da Panini</em>; a distribuição massiva de panfletos de pessoas desaparecidas; as “<em>cascaritas</em> [como são chamadas as partidas entre amigos no México] pela memória e contra o esquecimento”; a criação do mascote “<em>Ajolote buscador</em>” (um anfíbio endêmico das lagoas do Vale do México e uma divindade no mundo mexica).</p>



<p>Diante desse clima de protestos, eventos memoriais, atividades culturais e celebrações inter-religiosas, o governo federal, liderado por Claudia Sheinbaum, ofereceu uma resposta muito diferente do que se poderia esperar: <a href="https://www.unotv.com/nacional/sheinbaum-gobernacion-informara-investigacion-madres-buscadoras-cdmx/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">chegou ao ponto de sugerir que os grupos haviam participado das manifestações com financiamento ilícito</a>. Em vez de se comprometer a investigar os desaparecimentos de pessoas (muitos dos quais ocorreram durante seu governo), o discurso oficial anunciou que esse financiamento seria investigado, uma medida denunciada pelas famílias dos desaparecidos como revitimização.</p>



<p>Consequentemente, o discurso oficial, os cordões policiais e as diversas tentativas de limitar os protestos fizeram parte da resposta estadual e federal. Dentre os incidentes, destaca-se a deplorável ação repressiva perpetrada pela polícia da Cidade do México contra famílias que buscavam seus entes queridos desaparecidos e contra apoiadores que se manifestavam pacificamente em uma das avenidas que ligam o centro da cidade ao Estádio Azteca, no dia da partida entre México e Equador. Como resultado, Fernando Vargas, pai de Olin Hernando Vargas, desaparecido em 2024, ficou ferido. Enquanto isso, as mobilizações pela memória e contra o esquecimento continuam.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19095" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-5.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Criação coletiva de um &#8220;apanhador de esperança&#8221;, um símbolo elaborado como parte de uma iniciativa interreligiosa para apoiar espiritualmente a mobilização de famílias. Ao fundo, o mascote &#8220;Ajolote buscador&#8221; anima uma partida informal de futebol. <strong>Foto: </strong>Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Todos ao estádio!: Crônica da marcha noturna que antecedeu a inauguração</strong></h3>



<p>Em 10 de junho de 2026, uma marcha ocorreu na Cidade do México. Sob o lema &#8220;Vamos iluminar a busca&#8221;, partiu da estação de metrô Registro Federal com o objetivo de chegar ao Estádio Azteca. Às oito horas da noite, iniciamos a marcha, com forte presença da mídia nacional e internacional. Um dos familiares que coordenavam o evento pegou o megafone e gritou: &#8220;Pedimos a todos que mantenham os rostos descobertos!&#8221;. Esse pedido enfatizava o caráter pacífico da manifestação e buscava impedir que agentes externos desacreditassem o verdadeiro propósito da ação.</p>



<p>A poucos metros de chegarmos à extremidade do &#8220;último quilômetro&#8221; — um perímetro de acesso restrito ao redor do estádio, permitido apenas a moradores locais e frequentadores dos jogos — a marcha tornou-se mais cautelosa. Os manifestantes deram-se as mãos e decidiram continuar caminhando. Ao percorrermos esses últimos metros, uma imagem estranha começou a se formar à distância. Em uma elevação da rua, o reflexo de luzes bloqueava o caminho. Alguns de nós pensaram que poderiam ser flashes de câmeras da imprensa, mas, à medida que nos aproximávamos, a visão se tornou mais nítida. Pelo menos dez fileiras de policiais bloqueavam a passagem, enquanto a luz dos postes refletia na superfície de seus escudos. De um lado, então, estavam os coletes à prova de balas da polícia; do outro, as famílias com seus megafones gritando: &#8220;Por que estamos procurando por eles? Porque os amamos!&#8221;.</p>



<p>Ao chegarmos às fileiras da polícia, as famílias mantiveram o ânimo. Algumas cantavam e rezavam juntas, enquanto outras improvisavam um altar, onde colocavam as velas que haviam recolhido durante a marcha. Também organizaram partidas informais de futebol no meio da rua. Aos poucos, com a chegada da noite, a multidão começou a se dispersar e a área ao redor do estádio se esvaziou de manifestantes. Contudo, justamente quando a Copa do Mundo estava prestes a começar, os protestos do lado de fora do estádio também foram considerados oficialmente iniciados.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19096" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-7.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Após chegarem ao final do “último quilômetro”, as famílias que participavam das buscas compartilham um momento de oração. <strong>Foto: </strong>Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Vamos lá!: um jogo de memória para combater o esquecimento</strong></h3>



<p>Perto da <em>Glorieta de las y los Desaparecidos</em>, assim chamada pelas famílias que procuram seus entes queridos, o asfalto se transformou espontaneamente em um estádio onde a partida de hoje é disputada &#8220;pela memória e contra o esquecimento&#8221;. Tinta branca marca os limites do campo. As traves são indicadas por algumas mochilas. Em campo, os jogadores vestem camisas da seleção nacional modificadas para conscientizar e denunciar a situação: algumas trazem os rostos e nomes de pessoas desaparecidas; outras, slogans que protestam contra a crise dos desaparecimentos. Os times não se enfrentam como rivais: colaboram para &#8220;marcar um gol contra o esquecimento&#8221;. Cada gol marcado é um gol pela memória.</p>



<p>Entre os torcedores e os jogadores, faixas e cartazes exibem os rostos e nomes daqueles que sentimos falta, aqueles por quem este jogo amistoso está sendo disputado. Verónica, Benita e Dioni, mulheres que buscam seus filhos desaparecidos e integrantes do coletivo &#8220;Unindo Esperanças&#8221;, jogam no time adversário. Seus uniformes trazem os nomes de seus filhos desaparecidos: Diego Maximiliano, Fernando Iván e Guillermo David. Completam o time Leo, neto de Benita, e um grupo de jovens que se solidarizam com elas na busca por seus filhos. Com habilidade e tenacidade, eles se entregam completamente em campo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O jogo de lembrar e lutar contra o esquecimento, pela verdade e pela justiça, continua todos os dias, até encontrarmos todos aqueles de quem precisamos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O jogo de lembrar e lutar contra o esquecimento, pela verdade e pela justiça, continua todos os dias, até encontrarmos todos aqueles que estão desaparecidos.</p>
</blockquote>



<p>O placar ainda está ativo. Os times se revezam na entrada em campo. Cada gol é comemorado. Qualquer falta de solidariedade é inaceitável. Em um momento tenso em campo, a Irmã Pao, árbitra voluntária e freira católica que acompanha as famílias na busca por seus entes queridos desaparecidos, mostra com firmeza um cartão vermelho para a injustiça. Ela rapidamente recoloca a bola em jogo, lembrando a todos os presentes que este é um jogo de solidariedade. Entre os desafiantes, estão jogadores que também se dedicam ao máximo em campo por diversas causas justas. A colaboração entre todos os jogadores é fundamental para marcar gols pela justiça.</p>



<p>Poucos instantes antes da chuva começar, o último gol deste dia de futebol de rua mexicano é marcado. A partida improvisada termina. Os jogadores correm para se abrigar da chuva onde quer que seja possível. No entanto, este não é o fim da partida principal. Aquela jogada diariamente pelas famílias que buscam seus entes queridos desaparecidos. O jogo de rua pela memória e contra o esquecimento, pela verdade e pela justiça, continua todos os dias, até encontrarmos todos os desaparecidos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19097" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Mexico-Agosto-2026-10.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Durante a “partida de futebol em memória dos entes queridos”, o coletivo &#8220;Unindo Esperanças&#8221; afixou réplicas de figurinhas da Copa do Mundo com fotos de seus familiares desaparecidos. <strong>Foto: </strong>Sarusi Bahena</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A possibilidade de jogar mais uma partida</strong></h3>



<p>Durante os 39 dias da Copa do Mundo, as famílias que buscam seus entes queridos desaparecidos nunca deixaram de levantar suas vozes, marcando gols em memória deles e lembrando o público de que a nação mexicana está incompleta e fragmentada: pelo menos 133 mil pessoas ainda estão desaparecidas. Diante de um nacionalismo exacerbado pelo futebol que muitas vezes demonstrou pouca empatia pela dor das famílias, os coletivos de busca revelaram o outro lado do México durante a Copa do Mundo. Diante de um governo e uma sociedade que negam a crise dos desaparecimentos, as famílias que buscam seus entes queridos continuam a desvendar a face de um México profundamente ferido.</p>



<p>Os territórios indígenas continuam sendo desapropriados, ocupados e transformados em estádios de futebol ou cemitérios clandestinos, enquanto o governo inunda a mídia com propaganda indígena sobre leis e políticas públicas que não respondem às reais políticas de desapropriação, violência e impunidade vivenciadas pelos povos indígenas do México.</p>



<p>Enquanto este país tenta esconder sua face marcada por desaparecimentos, valas comuns e inúmeras violações dos direitos humanos, as famílias que buscam seus entes queridos desaparecidos continuam a tornar visíveis os nomes e rostos das mais de 133.000 pessoas que ainda estão desaparecidas. Suas ações e mobilizações são atos de lembrança e de luta contra o esquecimento. Esperemos que cada uma dessas ausências seja lembrada não apenas pelas famílias que buscam diariamente, mas também por todos nós que acreditamos que todas as pessoas merecem um tratamento justo, uma lembrança digna e a igualdade de oportunidades para ver (ou jogar) uma partida com aqueles que amam.</p>



<p><br></p>
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			</item>
		<item>
		<title>Peru: o desafio de confrontar um governo autoritário</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/peru-o-desafio-de-confrontar-um-governo-autoritario/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jorge Agurto]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Perú]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A coligação parlamentar liderada por Keiko Fujimori estabeleceu gradualmente uma ditadura parlamentar que, desde 2022, capturou quase todas as instituições capazes de limitar seu poder. Sob sua influência, assumiu o controle do Conselho Nacional de Justiça, do Tribunal Constitucional, da Ouvidoria, da Junta Nacional Eleitoral e, por fim, da Procuradoria-Geral da República. Após a derrota [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A coligação parlamentar liderada por Keiko Fujimori estabeleceu gradualmente uma ditadura parlamentar que, desde 2022, capturou quase todas as instituições capazes de limitar seu poder. Sob sua influência, assumiu o controle do Conselho Nacional de Justiça, do Tribunal Constitucional, da Ouvidoria, da Junta Nacional Eleitoral e, por fim, da Procuradoria-Geral da República. Após a derrota nas eleições gerais de 2021, o fujimorismo dedicou-se a sabotar o governo de Pedro Castillo Terrones e a coordenar ações com grupos poderosos e grandes veículos de comunicação para isolá-lo e conseguir sua destituição do cargo.</p>



<p>O professor rural de Cajamarca só conseguiu governar por 1 ano e 132 dias, entre 28 de julho de 2021 e 7 de dezembro de 2022. Ele foi destituído do cargo irregularmente por “incapacidade moral permanente” e acusado de um suposto “golpe de Estado” que nunca se concretizou. Como essa conduta não foi classificada como crime, a acusação foi posteriormente modificada para “conspiração para cometer rebelião”. A destituição de Pedro Castillo permitiu que o chamado “pacto mafioso” nomeasse governos fantoches sob sua influência direta, como os de Dina Boluarte (2022-2025), José Jerí León (2025-2026) e José María Balcázar (2026).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19076" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-1-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Marcha “Pela memória e dignidade, Fujimori nunca mais” em Cusco. Mobilização de 5 de abril em memória do golpe de Estado liderado por Alberto Fujimori. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O voto rural e o voto costeiro</strong></h3>



<p>Desde o primeiro mandato de Alberto Fujimori, em 1990, o Peru vive uma crise de representação política caracterizada pelo colapso do sistema partidário. Nesse contexto, o processo eleitoral de 2026 foi concebido pelo fujimorismo para criar as condições mais favoráveis ao seu próprio benefício. A Lei 30.995 reduziu drasticamente os requisitos para o registro de partidos: de aproximadamente 700.000 assinaturas de apoiadores para cerca de 25.000 membros registrados (0,1% do cadastro eleitoral). Essa redução vigorou entre 2019 e o início de 2024, permitindo que dezenas de organizações iniciassem ou concluíssem seu registro.</p>



<p>Como resultado, o Registro de Organizações Políticas contava com 43 partidos inscritos para as eleições de 2026, um recorde histórico. Além disso, a suspensão das Eleições Primárias Abertas, Simultâneas e Obrigatórias (PASO) fragmentou ainda mais o cenário eleitoral, resultando em 35 candidatos à presidência e uma cédula eleitoral interminável. Nesse contexto, Keiko Fujimori concorreu à presidência pela quarta vez, apesar de enfrentar sérias acusações de corrupção e ter cumprido três mandatos em prisão preventiva por suposta lavagem de dinheiro e contribuições irregulares de campanha no caso Odebrecht. Entre 2018 e 2020, Keiko acumulou 16 meses e meio de prisão. <a href="https://nuso.org/articulo/keiko-fujimori-elecciones-peru/">“A principal acusação foi anulada em 2025 pelo Tribunal Constitucional, cujos membros foram nomeados por um Congresso com forte influência de Fujimori”, observa o cientista político Omar Coronel</a>.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Roberto Sánchez conquistou a maioria nos distritos rurais e Keiko venceu principalmente nas áreas costeiras densamente povoadas, além da vantagem dos votos dos peruanos residentes no exterior.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Roberto Sánchez conquistou a maioria dos votos em distritos rurais, enquanto Keiko venceu principalmente em áreas costeiras densamente povoadas.</p>
</blockquote>



<p>Os resultados das eleições revelam um país dividido, fragmentado e até mesmo polarizado, desconfiado do sistema democrático. No primeiro turno, Keiko Fujimori avançou para o segundo turno com 17,8% dos votos válidos, enquanto Roberto Sánchez (Juntos pelo Peru) obteve apenas 12,03%. Ambos os candidatos conquistaram menos de 30% dos votos válidos no primeiro turno. A grande maioria dos 35 candidatos recebeu menos de 10% dos votos, o que ilustra a dispersão e a fragmentação do eleitorado. Embora Roberto Sánchez tenha vencido o segundo turno por uma margem estreita no âmbito nacional, a vantagem de Fujimori entre os eleitores peruanos no exterior reverteu o resultado final.</p>



<p>A coligação Juntos pelo Peru venceu em 18 dos 25 distritos eleitorais regionais (24 departamentos e a Província Constitucional de Callao), enquanto a Força Popular venceu em apenas sete. Além disso, Roberto Sánchez obteve maioria nos distritos rurais, e Keiko Fujimori venceu principalmente em áreas costeiras densamente povoadas, além de se beneficiar dos votos de peruanos residentes no exterior.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1009" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-B-1-1009x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-19152" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-B-1-1009x1024.jpeg 1009w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-B-1-296x300.jpeg 296w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-B-1-768x779.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-B-1.jpeg 1352w" sizes="auto, (max-width: 1009px) 100vw, 1009px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Total de províncias conquistadas por Keiko Fujimori e Roberto Sánchez. <strong>Fonte: </strong>Servindi com dados de Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE)</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A agenda indígena e ambiental à deriva</strong></h3>



<p>No debate eleitoral, as questões indígenas e ambientais estiveram ausentes e careceram de propostas concretas. Isso reflete a deterioração dessas questões ao longo da última década, um período marcado por profunda instabilidade política, no qual o Peru teve oito presidentes em dez anos. Entre os principais retrocessos, destacam-se as modificações na Lei de Florestas e Vida Selvagem por meio da Lei 31.973 de 2024, conhecida como Lei Antiflorestal, apesar dos alertas sobre suas consequências desastrosas. A reação pública foi enorme, e a lei foi criticada até mesmo por instituições públicas. Em março de 2025, o Tribunal Constitucional declarou dois artigos da lei inconstitucionais por maioria de cinco votos a dois, mantendo, porém, a disposição mais prejudicial: a Disposição Única Complementar Final.</p>



<p>Manuel Pulgar Vidal, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), resume o debate eleitoral: “Nos últimos dez anos, vimos um enfraquecimento dos padrões ambientais no país. Isso também é uma consequência indireta dos dez anos de instabilidade política no Peru. Isso resultou na completa ausência de questões ambientais, inclusive na mídia. Nenhum partido governista tem uma agenda ambiental sólida em seus planos, nem um funcionário competente que possa delinear sequer os elementos básicos de tal agenda.” Além disso, uma séria preocupação para as comunidades indígenas e para a natureza é o aumento da criminalidade, particularmente a mineração ilegal. <a href="https://es.mongabay.com/2026/06/elecciones-peru-mineria-ilegal-segunda-vuelta-entrevista/">Diante desse fenômeno, os candidatos não apresentaram propostas firmes e, em vez disso, se mostraram conciliadores</a>.</p>



<p>Por sua vez, Isabel Calle, <a href="https://spda.org.pe/noticia/dia-mundial-del-ambiente-una-agenda-pendiente-para-el-peru-que-viene/">Diretora Executiva da Sociedade Peruana de Direito Ambiental (SPDA)</a>, destaca:“A mineração ilegal tornou-se uma das principais ameaças à Amazônia, à governança e à segurança nacional. Ela é agravada pela extração ilegal de madeira, pelo tráfico de animais silvestres, pelo tráfico de terras e pela expansão descontrolada de atividades que operam à margem da lei. Essas atividades não são meramente problemas ambientais: são expressões de redes criminosas que se apropriam de territórios, corrompem instituições, geram violência e corroem a confiança pública. Combatê-las exige muito mais do que operações isoladas. Requer inteligência financeira, uma presença estatal efetiva, fortalecimento institucional, coordenação entre os níveis de governo e alternativas econômicas sustentáveis para as comunidades locais.”</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="839" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1-1024x839.jpeg" alt="" class="wp-image-19077" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1-1024x839.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1-300x246.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1-768x629.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1-1536x1259.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-2-1.jpeg 1579w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>“Pela vida e dignidade dos nossos povos indígenas.” A mineração ilegal, a indústria madeireira e o tráfico de animais silvestres tornaram-se uma das principais ameaças à Amazônia, à governança e à segurança nacional. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O modelo peruano e a desigualdade estrutural</strong></h3>



<p>Quem observa os indicadores macroeconômicos à distância se surpreende com o “modelo peruano”, que se mostra bem-sucedido e promissor. Durante as duas primeiras décadas do século XXI, o país foi uma das economias de crescimento mais rápido da América Latina. Entre 2000 e 2019, o Produto Interno Bruto praticamente triplicou devido ao boom das exportações de mineração, ao investimento privado e à estabilidade macroeconômica, que se refletiu no aumento do orçamento público. No entanto, esse crescimento foi desigual e concentrado em Lima e no litoral. Muitas províncias andinas e amazônicas mantêm economias baseadas em atividades de baixa produtividade e com presença estatal limitada.</p>



<p>O emprego informal continua sendo um dos principais obstáculos para uma distribuição de renda mais equitativa. Cerca de sete em cada dez trabalhadores estão empregados em trabalhos informais, com baixos salários e sem acesso à seguridade social, pensões ou seguro-desemprego. Outro fator é a desigualdade no acesso aos serviços públicos. Embora o orçamento nacional tenha aumentado significativamente nas últimas duas décadas, a qualidade da educação, da saúde, do acesso à água potável, ao saneamento básico e à internet permanece extremamente desigual, mesmo entre distritos da mesma região.</p>



<p>Além disso, o Peru mantém uma das menores cargas tributárias da América Latina e uma alta dependência de atividades extrativas e da economia informal. Isso limita a capacidade redistributiva do Estado e reduz os recursos disponíveis para sustentar políticas públicas universais e de longo prazo. De fato, uma das características definidoras do país é a persistência de desigualdades históricas e culturais. As populações indígenas, afroperuanas e rurais continuam a enfrentar barreiras no acesso a serviços, mercados e oportunidades. Essas lacunas decorrem de processos de longa data associados ao centralismo, à exclusão territorial e à discriminação.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19079" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-4-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A presidente eleita Keiko Fujimori durante uma reunião no Palácio do Governo com o ex-presidente José María Balcázar Zelada. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/ope_peru/status/2077791311235522818">Reunião da Presidente Eleita</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Alertas sobre a tendência autoritária</strong></h3>



<p>O cenário projetado pelo fujimorismo no poder é o mesmo dos últimos anos: regulamentações que favorecem a criminalidade e o pacote de leis que concedem anistia e impunidade às Forças Armadas e à Polícia estão criando as condições para um regime de terror. O analista e fotógrafo <a href="https://www.servindi.org/02/07/2026/los-primeros-cien-dias">Ezio Macchione</a> alerta: “Não vejo motivos para otimismo. Vejo um país cansado, fragmentado e amedrontado, sobrecarregado por enormes necessidades acumuladas, e uma classe política que repetidamente se mostrou muito aquém da gravidade do momento. E, acima de tudo, vejo o risco de confundir ordem com autoritarismo, segurança com repressão, estabilidade com silêncio e governabilidade com captura do Estado.”</p>



<p>Por sua vez, Omar Coronel, professor da Pontifícia Universidade Católica do Peru, escreve: <strong>“</strong>Desde 2022, o país é governado por uma coalizão autoritária na qual o fujimorismo desempenhou um papel fundamental; as eleições de 2026 conferem a essa liderança a legitimidade das urnas. A presidente conta com o apoio de associações empresariais, das Forças Armadas e de uma força policial que se beneficia de garantias de impunidade para violações de direitos humanos. Se ela governar com baixa popularidade e for abalada por protestos sociais, seu histórico sugere que recorrerá à repressão como sua principal ferramenta de governo, com o apoio da grande mídia. O fujimorismo é, em última análise <strong>, </strong>a ameaça mais organizada e poderosa à democracia do país.”</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">“A democracia peruana terá que continuar lutando para recuperar as instituições formais que a definem minimamente como tal e, além disso, também para garantir que ela volte a ser representativa em um grau aceitável&#8221;.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">“A democracia peruana terá que continuar lutando para recuperar as instituições formais que, no mínimo, a definem como tal”.</p>
</blockquote>



<p>De forma semelhante, o analista estadunidense <a href="https://idehpucp.pucp.edu.pe/boletin-eventos/entrevista-steven-levitsky-si-ganara-el-fujimorismo-la-oposicion-tendra-que-luchar-como-nunca-antes-para-defender-derechos-basicos/">Steven Levitsky</a> enfatiza a concentração de poder: “Fujimori controlaria o Poder Executivo, exerceria influência no Congresso e, como sabemos, influenciaria outras instituições, incluindo o Judiciário, as autoridades eleitorais e setores das Forças Armadas e de segurança. Além disso, ele teria um governo aliado em Washington sob a administração de Donald Trump. Isso lhe permitiria consolidar um poder considerável, e a oposição teria que se organizar e trabalhar com muito mais seriedade se quiser defender os direitos fundamentais e um sistema competitivo no Peru.”</p>



<p>De forma semelhante, o Instituto para a Democracia e os Direitos Humanos da Pontifícia Universidade Católica do Peru alerta: <a href="https://idehpucp.pucp.edu.pe/boletin-eventos/editorial-una-sola-certeza-la-democracia-seguira-bajo-asedio/">“A democracia peruana terá que continuar lutando, antes de tudo, para manter ou recuperar as instituições formais que a definem minimamente como democracia e, além disso, também para garantir que ela volte a ser representativa em um grau aceitável</a>”. Enquanto isso, a ativista social e comunitária <a href="https://www.servindi.org/seccion-politica-actualidad-opinion/04/07/2026/el-desafio-de-producir-un-sujeto-politico-amplio">Nury García</a> destaca: “Penso no desafio de uma nova articulação política que possa conectar memória, precariedade, violência criminal, extrativismo, desigualdade, crise ecológica, trabalho de cuidado e novas formas de sofrimento social. É o desafio de conseguir produzir um sujeito político amplo sem apagar as memórias específicas de cada luta”.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-19080" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1-1024x682.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1-1536x1023.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Peru-Agosto-2026-5-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mobilização em Cusco contra a posse de Dina Boluarte na presidência em 2022. Antes da vitória presidencial de Keiko Fujimori, o fujimorismo governava o Peru por meio de sua maioria parlamentar. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A saída é coletiva</strong></h3>



<p>Um dos principais desafios pragmáticos para a oposição no Congresso, que defende os direitos humanos e as liberdades democráticas, é manter-se unida e coordenar plataformas ativas com os movimentos sociais e a sociedade civil. Para tanto, será crucial manter uma mobilização persistente, ativa e não violenta, a fim de evitar dar ao governo o pretexto repressivo que busca. O movimento indígena e as organizações da sociedade civil correm o risco de serem subjugados pelo poder autoritário se permanecerem fragmentados e isolados, cada um seguindo sua própria agenda, sem construir diálogos e alianças frutíferas que ampliem o escopo de cada perspectiva.</p>



<p>O sectarismo, o oportunismo e o individualismo continuam sendo fardos que dividem e enfraquecem a capacidade de resistência e luta daqueles que defendem os direitos e as liberdades em um mundo cada vez mais devastado pelo negacionismo, por tendências autoritárias tanto da esquerda quanto da direita e pela polarização em favor de interesses transnacionais. É vantajoso para os setores populares que as promessas eleitorais e as ilusões do fujimorismo comecem a se chocar com a realidade e as expectativas. A incapacidade de atender a essas expectativas gerará descrédito e aumentará a frustração.</p>



<p>O fraco discurso de posse e as primeiras nomeações para o gabinete demonstram a falta de experiência política e técnica necessária para uma governança eficaz. Além disso, o amplo pedido de poderes legislativos por decreto deixa claro que o governo de Keiko Fujimori pretende tomar decisões importantes a portas fechadas, afastados da cidadania e do escrutínio público.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/peru-o-desafio-de-confrontar-um-governo-autoritario/">Peru: o desafio de confrontar um governo autoritário</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Narrativas de estigmatização e racismo na Colômbia: o risco de retrocesso nos direitos coletivos</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/narrativas-de-estigmatizacao-e-racismo-na-colombia-o-risco-de-retrocesso-nos-direitos-coletivos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Diana M. Ramírez Rosales]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Colombia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19064</guid>

					<description><![CDATA[<p>Surpreendentemente, nas eleições presidenciais, o candidato de extrema-direita, Abelardo de la Espriella, derrotou o candidato de esquerda, Iván Cepeda, em uma eleição marcada pela polarização. Com base nas propostas de campanha, no plano de governo e nas primeiras nomeações ministeriais, o cenário dos direitos coletivos apresenta riscos de sérios retrocessos. A agenda da mineração e da exploração extrativista pode afetar particularmente a autodeterminação, a governança, a proteção territorial e até mesmo a sobrevivência dos mais de 115 povos indígenas da Colômbia.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O segundo turno das eleições presidenciais na Colômbia deixou um alto nível de polarização, questões sérias e profundas sobre o sistema eleitoral e uma ameaça latente de confrontos violentos em um espaço cívico com alto risco de retração. Isso não é apenas resultado do que aconteceu durante o período de campanha, mas também de um processo que se estende por vários anos, no qual projetos políticos em toda a América Latina, onde a direita e a extrema-direita convergem, vencendo disputas eleitorais que tiveram sérias consequências em termos de retrocessos em direitos. Dessa forma, o pluralismo, o livre exercício das liberdades e os direitos coletivos, territoriais e culturais das comunidades indígenas foram corroídos.</p>



<p>Durante o governo de Gustavo Petro (2022-2026), houve uma mudança progressiva no reconhecimento dos direitos étnico-territoriais e da governança ambiental das comunidades indígenas. Uma de suas prioridades foi a proteção e a garantia dos direitos territoriais, culturais e ambientais dos povos indígenas, com <a href="https://www.dnp.gov.co/LaEntidad_/subdireccion-general-prospectiva-desarrollo-nacional/direccion-gobierno-ddhh-paz/Paginas/pueblos-etnicos-pnd.aspx" target="_blank" rel="noreferrer noopener">”avanços legislativos na autonomia territorial, fortalecimento dos sistemas de conhecimento tradicional e reconhecimento das autoridades ambientais”</a>. Além disso, nos últimos quatro anos, as reivindicações de terras em reservas indígenas foram promovidas por meio de reparações coletivas, restauração dos direitos territoriais étnicos e restituição de terras. Atualmente, <a href="https://www.iwgia.org/es/articulos/mi-2026-colombia?lang=en" target="_blank" rel="noreferrer noopener">existem 935 territórios coletivos legalmente reconhecidos e designados como reservas indígenas</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="645" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1-1024x645.jpeg" alt="" class="wp-image-19067" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1-1024x645.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1-300x189.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1-768x484.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1-1536x968.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-1-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A comunidade de Teyuna, na Serra Nevada de Santa Marta. <strong>Foto: </strong>Diana M. Ramírez Rosales</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A política do racismo e da estigmatização</strong></h3>



<p>Durante a campanha política, o projeto de extrema-direita tomou forma por meio de retórica discriminatória, ameaças e estigmatização. O racismo aflorou de forma oportunista em comentários dirigidos à candidata a vice-presidente na chapa do candidato de esquerda, Aida Quilcué, senadora indígena do povo Nasa. Abelardo de la Espriella declarou que a liderança era incapaz de assumir o cargo de segundo mais importante do país: <a href="https://www.instagram.com/reel/DZqFR17gm23/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Vocês ficariam calmos se algo acontecesse com o senhor Cepeda e sua candidata a vice-presidente </a><a href="https://www.instagram.com/reel/DZqFR17gm23/">assumisse? Deixo-lhes essa reflexão; pensem nisso. Isso não é responsável para com o país, isso não é responsável para com a Colômbia”</a>.</p>



<p>A situação foi agravada por declarações estigmatizantes, ameaças e potenciais restrições aos protestos e mobilizações legítimas dos povos indígenas: “Comigo, eles se organizarão e se tornarão verdadeiros cidadãos, ou também aprenderão como o tigre morde forte. Não permitirei essa desordem entre os povos indígenas, essa extorsão constante e essa pressão. Eles detêm 33% das terras na Colômbia e continuam exigindo mais, uma dívida ancestral que, na opinião deles, não pode ser paga. <a href="https://www.instagram.com/p/DOntT42ivM7/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Os povos indígenas devem entender que bloquear a rodovia sem o tigre é uma coisa, mas fazer isso com o tigre no poder é outra, porque eu sou um dos tigres que rugem e mordem”</a>.</p>



<p>Essas falsas alegações geraram discriminação, ódio e racismo entre seus eleitores, ignorando os processos históricos de restauração dos direitos coletivos dos Povos Indígenas, cujos direitos têm sido sistematicamente violados e segregados da política nacional, apesar de suas contribuições para o cuidado e a restauração de ecossistemas vitais para a sobrevivência não apenas de seus povos, mas também das comunidades humanas e não humanas do país. <a href="https://elpais.com/america-colombia/elecciones-presidenciales/2026-05-15/los-indigenas-que-apuestan-por-la-derecha-en-las-elecciones-muchos-no-nos-sentimos-representados-por-petro.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Isso sem mencionar a instrumentalização e a fragmentação dos processos organizacionais e comunitários, explorando o descontentamento de algumas comunidades devido ao descumprimento dos compromissos do governo anterior, e recrutando líderes indígenas em sua campanha para obter capital político e tentar mitigar as ameaças e a estigmatização racista</a>.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="Gobierno de Abelardo De La Espriella buscaría anular las entidades territoriales indígenas" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/0T5PMzdSQ7k?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div><figcaption class="wp-element-caption"><em>Entidades territoriais indígenas perante o governo de Abelardo De La Espriella.</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Propostas que afetam os povos indígenas</strong></h3>



<p>A partir de sua plataforma, o projeto político de extrema-direita anunciou retrocessos perigosos na garantia e proteção dos direitos coletivos relacionados à consulta prévia, livre e informada. Consequentemente, desconsidera a jurisprudência existente sobre esse direito e, ao mesmo tempo, dá rédea solta a processos extrativistas que teriam um impacto significativo nos ecossistemas bioculturais do país.</p>



<p>Na área de “Economia”, suas propostas sugerem que as licenças ambientais e a consulta prévia, livre e informada às comunidades são obstáculos e entraves para o setor empresarial, propondo, portanto, processos de licenciamento mais ágeis e consultas mais rápidas. Em relação à “Política de Mineração e Energia”, <a href="https://defensoresdelapatria.com/wp-content/uploads/2026/04/PROPUESTAS-DEL-TIGRE.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">ele apresenta um suposto tratamento preferencial ao setor extrativo baseado em vieses ideológicos e desvaloriza os esforços para promover uma transição energética justa e inclusiva</a>, que já vinham avançando sob a atual administração em consulta com as comunidades locais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A ausência de menção ao multiculturalismo e à diversidade étnica e cultural não só torna invisíveis as contribuições dos grupos étnicos para a política cultural nacional, como também pode prenunciar um possível corte de financiamento para iniciativas voltadas aos povos indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A ausência de menção ao multiculturalismo e à diversidade étnica e cultural do país torna invisíveis as contribuições dos povos étnicos para a política cultural nacional <strong>.</strong></p>
</blockquote>



<p>No setor rural, especificamente na seção sobre &#8220;O Campo&#8221;, o programa governamental afirma que ocorreu uma <a href="https://www.somosjacarandas.com/articulos/el-gran-cambio-esto-hacen-los-ultraderechistas-en-sus-primeros-100-dias-de-gobierno" target="_blank" rel="noreferrer noopener">&#8220;falsa reforma agrária&#8221;</a>, que ignora o alcance dos processos de restituição e transferência de terras para as comunidades rurais, particularmente as reservas indígenas. Propõe também &#8220;expandir a fronteira agrícola produtiva&#8221;, presumivelmente por meio de extensas monoculturas industriais, o que colocaria em grave risco os ecossistemas essenciais para a sobrevivência e integridade dos territórios indígenas e seus recursos vitais.</p>



<p>Por fim, a seção sobre cultura propõe <a href="https://defensoresdelapatria.com/wp-content/uploads/2026/04/PROPUESTAS-DEL-TIGRE.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“apoio fiscal para novas empresas culturais e megaeventos culturais e esportivos que </a><a href="https://defensoresdelapatria.com/wp-content/uploads/2026/04/PROPUESTAS-DEL-TIGRE.pdf">atraiamreceita estrangeira”</a>. Isso reduziria a cultura às forças do mercado. A ausência de menção ao multiculturalismo e à diversidade étnica e cultural do país não apenas invisibiliza as contribuições dos grupos étnicos para a política cultural nacional, como também pode prenunciar um potencial subfinanciamento de iniciativas indígenas. Em última análise, a falta de recursos pode comprometer a proteção de seus próprios conhecimentos, a revitalização de suas línguas e a sobrevivência de práticas ancestrais, fatores que contribuem diretamente para sua sobrevivência física.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="792" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-3-1-1024x792.jpeg" alt="" class="wp-image-19068" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-3-1-1024x792.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-3-1-300x232.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-3-1-768x594.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-3-1.jpeg 1140w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Protesto do CRIC durante a Conferência sobre Biodiversidade (COP16) em Cali. Os povos indígenas exigiram participação efetiva e governança de seus territórios. <strong>Foto: </strong>Diana M. Ramírez Rosales</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Designações que anunciam o furacão</strong></h3>



<p>Além disso, as recentes nomeações para pastas ministeriais importantes para a proteção dos direitos das comunidades étnicas, como o Ministério do Interior e o Ministério do Meio Ambiente, parecem ser o prelúdio de futuras decisões de extrema-direita. <a href="https://www.somosjacarandas.com/articulos/el-gran-cambio-esto-hacen-los-ultraderechistas-en-sus-primeros-100-dias-de-gobierno" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Essas políticas, que representam uma reversão completa, poderiam ser implementadas rapidamente por meio de decretos presidenciais durante os primeiros 90 a 100 dias do novo governo, que tomará posse em 7 de agosto</a>.</p>



<p>Em primeiro lugar, o então Ministro do Interior, Rodrigo Lara Restrepo, foi coautor <a href="https://leyes.senado.gov.co/p-ley/2018-2019/PL%20134-18%20Consulta%20Previa.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">do Projeto de Lei nº 134 em 2018, quando era senador.</a> Este projeto visava regulamentar o direito à consulta prévia. Buscava regular os procedimentos, prazos, competências das autoridades e efeitos da consulta prévia, bem como a coordenação entre o Estado e as comunidades étnicas. Durante o debate sobre os artigos do projeto, foram levantadas críticas quanto aos mecanismos potencialmente restritivos para o exercício desse direito e à ausência de disposições para amplas consultas com as comunidades diretamente afetadas. Consequentemente, Lara Restrepo poderia potencialmente estabelecer uma agenda legislativa que busca restringir a consulta prévia e outros direitos coletivos.</p>



<p>Por sua vez, o então Ministro do Meio Ambiente, Fabio Arjona Hincapié, já havia se pronunciado sobre a consulta prévia como um mecanismo <a href="https://www.lafm.com.co/politica/fabio-arjona-ministro-designado-ministerio-ambiente-fracking-tecnologia-colombia-403931?utm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“absolutamente transacional”</a>. Chegou a afirmar que “o tempo de consulta prévia não pode continuar como um mecanismo extorsivo”, comprometendo seriamente a legitimidade desse direito. <a href="https://www.noticiascaracol.com/politica/fabio-arjona-ministro-de-ambiente-designado-habla-sobre-el-fracking-se-hara-en-areas-protegidas-ex40?utm" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Segundo ele, as consultas têm criado dificuldades para o desenvolvimento de infraestrutura</a>. É evidente que esse tipo de declaração pode incentivar a estigmatização das comunidades indígenas por supostamente se oporem ao modelo de desenvolvimento neoliberal e extrativista, que ignora seus próprios projetos de vida e o exercício da autodeterminação dos povos para o seu bem-estar.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19069" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Colombia-Agosto-2026-4-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O presidente eleito com seu novo gabinete. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/ABDELAESPRIELLA/status/2078654027710013687">C</a><a href="https://x.com/ABDELAESPRIELLA/status/2078654027710013687" target="_blank" rel="noreferrer noopener">onta do Twitter de Abelardo de la Espriella</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Estão sendo emitidos alertas sobre o futuro</strong></h3>



<p>Nos primeiros meses do governo, a nomeação de ministros com esses perfis provavelmente facilitará a implementação de políticas voltadas à concretização do modelo extrativista em larga escala proposto no plano governamental. Foi exatamente isso que Abelardo de la Espriella anunciou durante sua campanha: <a href="https://www.facebook.com/periodicoeldiario/videos/%EF%B8%8Fel-gobierno-del-tigre-va-a-explotar-el-subsuelo-a-lo-que-d%C3%A9-fue-lo-que-dijo-abe/1795182151445304/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“No governo do tigre, vamos explorar o subsolo ao máximo!”.</a> Essa postura não só ignora, como também ameaça, modelos alternativos de bem-estar que se consolidaram por meio da governança territorial em comunidades étnicas, através de suas próprias iniciativas para a subsistência.</p>



<p>Por fim, gostaria de reiterar o alerta <a href="https://www.youtube.com/live/P8lcFsEpE5A?si=d8ubJ8kLU6Ckjtmb" target="_blank" rel="noreferrer noopener">emitido pela oposição liderada por Iván Cepeda</a> a respeito da potencial repressão e criminalização dos protestos sociais sob o novo governo. Isso poderia se traduzir em limitações às diversas expressões de mobilização indígena e popular. A história colombiana inclui movimentos <a href="https://revistarfjpuce.edu.ec/index.php/rfj/article/view/483/347" target="_blank" rel="noreferrer noopener">indígenas emblemáticos, como os Minga, </a>que impulsionaram a mobilização civil nas estradas e ruas do país, exigindo respeito e garantias aos direitos étnico-territoriais coletivos e ao direito à autodeterminação, essenciais para a construção da paz a partir de uma perspectiva territorial na Colômbia.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/narrativas-de-estigmatizacao-e-racismo-na-colombia-o-risco-de-retrocesso-nos-direitos-coletivos/">Narrativas de estigmatização e racismo na Colômbia: o risco de retrocesso nos direitos coletivos</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fim do grande bloqueio nacional na Bolívia: sem vencedores nem vencidos?</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/fim-do-grande-bloqueio-nacional-na-bolivia-sem-vencedores-nem-vencidos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Tamburini]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19053</guid>

					<description><![CDATA[<p>Partindo de uma exigência do agronegócio para converter pequenas propriedades rurais em médias, movimentos sociais lançaram uma mobilização contra o governo de Rodrigo Paz que durou várias semanas. Camponeses da Amazônia e organizações indígenas da Amazônia/Chaco foram acompanhados por cooperativas de mineração, professores, a Central Operária Boliviana (COB), os Ponchos Rojos del Altiplano e produtores de coca leais a Evo Morales. Após um mês de má gestão do conflito, o descontentamento dos setores mobilizados levou a um acordo com o governo. Um mês após o acordo, a perspectiva para a Bolívia permanece incerta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 25 de junho, a Central Operária Boliviana (COB) assinou um acordo com o presidente Rodrigo Paz, pondo fim a 53 dias de bloqueios de estradas em todo o país. Esse conflito custou a vida de 22 pessoas e aproximadamente 3 bilhões de bolivianos (US$300 milhões). Uma das primeiras questões que surge é o que motivou a mobilização, a fim de compreender a natureza radical das medidas e a duração prolongada do conflito. Nesse sentido, é necessário questionar por que o presidente declarou estado de emergência após a assinatura do acordo, em vez de adotar uma medida para conter os protestos, permitindo que crescessem e persistissem por tanto tempo.</p>



<p>Por fim, permanece a questão de saber se o conflito serviu para interromper as medidas estruturais destinadas a modificar o modelo econômico (que inicialmente implicavam em um retrocesso nas conquistas sociais) ou se, ao contrário, serviu para fortalecer a demanda pela renúncia do presidente por parte das organizações mobilizadas (uma reivindicação central na última fase do conflito). Quanto a esta última hipótese, diversos líderes de organizações e comunidades camponesas explicaram que a demanda seria canalizada para a renúncia do presidente, seguida da sucessão constitucional do vice-presidente, Edman Lara, e a convocação de novas eleições em até três meses. Alguns chegaram a propor a reeleição do ex-presidente Evo Morales, uma medida atualmente rejeitada pelos tribunais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="716" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-1024x716.jpg" alt="" class="wp-image-19054" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-1024x716.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-300x210.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-768x537.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1.jpg 1406w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Rodrigo Paz, ainda criança, participando de uma marcha do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), fundado por seu pai e ex-presidente, Jaime Paz Zamora. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2068812838311956769/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conta do Twitter de Rodrigo Paz</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um presidente que ninguém previu</strong></h3>



<p>Rodrigo Paz Pereira, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, chegou à presidência de forma totalmente inesperada. Vindo de uma família de esquerda e guerrilheira, seu pai foi presidente e líder do antigo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), graças a um acordo político incomum com o ex-ditador de direita Hugo Banzer após as eleições de 1989. Em 2025, Paz Pereira venceu o segundo turno das eleições contra o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga com votos dispersos após o fim do Movimento para o Socialismo (MAS): esses eleitores, de origem operária, jamais teriam optado por um candidato de extrema-direita como “Tuto”.</p>



<p>Ao assumir o cargo, Paz amenizou temporariamente a crise de escassez de combustível por meio de acordos com os Estados Unidos e países aliados da região. No entanto, logo começou a assinar decretos e resoluções com o objetivo de desmantelar o que ele próprio chamava de &#8220;Estado bloqueador&#8221;. Na realidade, tratavam-se de medidas que favoreciam os poderosos setores econômicos da região leste, ignorando seu eleitorado nos Andes. Assim, aprovou a eliminação do imposto sobre grandes fortunas e promulgou o Decreto Supremo 5503, que, em seus 121 artigos, estabeleceu um procedimento acelerado (<em>fast-track</em>) para a aprovação de contratos de investimento estrangeiro em infraestrutura e desenvolvimento de recursos naturais, sem aprovação parlamentar ou o consentimento prévio dos povos indígenas afetados. Além disso, eliminou quase completamente o subsídio aos hidrocarbonetos líquidos, o que dobrou o preço da gasolina e triplicou o do diesel.</p>



<p>Foi precisamente nesses primeiros dias que se pode traçar um dos antecedentes do conflito subsequente. O presidente e seu governo distanciaram-se do vice-presidente, Edman Lara, um ex-policial com amplo apoio popular. Mesmo antes da posse, Lara acusou o presidente, pelas redes sociais, de quebrar promessas acordadas e de formar um governo sem a sua participação. Quando a disputa se intensificou, o governo aprovou um decreto que eliminou os poderes constitucionais do vice-presidente e cortou quase todo o seu financiamento. Enquanto Paz acusava Lara de ser inapto para o cargo, uma parcela significativa de seu eleitorado interpretou isso como uma traição de classe: especialmente a classe trabalhadora andina, representada por agricultores, comerciantes, autônomos, transportadores e operários, que se mostram mais resistentes às classes média e alta das cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz, que consideram de &#8220;direita&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="552" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1024x552.jpg" alt="" class="wp-image-19055" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1024x552.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-300x162.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-768x414.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1536x828.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O conflito encontrou o presidente e seu vice-presidente já em desacordo. Nesse contexto, ganharam força rumores de que, com a renúncia de Paz, Lara abriria caminho para uma futura candidatura de Evo Morales. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/VPEP_Bol/status/2062303255544152264/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vice-Presidência da Bolívia</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma soma de demandas</strong></h3>



<p>A composição da mobilização mudou ao longo do tempo. Em abril, o presidente aprovou unilateralmente a Lei 1720, que visava converter pequenas propriedades agrícolas em médias por meio de um processo administrativo e conceder uma moratória na verificação da função econômica e social dessas propriedades. O governo e o setor agroindustrial tentaram posicioná-la como uma lei benéfica para os pequenos agricultores, embora fosse evidente que ela se dirigia diretamente aos proprietários de terras da região leste. De fato, o principal empresário e senador dessa região assumiu a responsabilidade de promover e defender sua aprovação.</p>



<p>Nesse contexto, o primeiro protesto foi liderado por organizações camponesas do norte da Amazônia, que iniciaram uma marcha exigindo a revogação da Lei 1720. Ao longo do caminho, organizações indígenas da região de Beni se uniram a elas, distanciando-se dos acordos firmados pela Confederação de Nações e Povos Indígenas do Leste da Bolívia, do Chaco e da Amazônia (CIDOB) com o governo, que tentava minimizar a marcha camponesa. Essa mobilização, por sua vez, incentivou mineradores cooperativistas e professores a se mobilizarem com suas próprias reivindicações. Até então, o governo havia caracterizado os protestos como uma série de conflitos setoriais atribuídos ao legado dos &#8220;20 anos de MAS&#8221; (Movimento pelo Socialismo) e às tentativas de líderes políticos, depostos do poder e ligados ao ex-presidente Evo Morales, de desestabilizar o governo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">No dia 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) apresentou sua lista de reivindicações em El Alto, e o conflito entrou em outra fase: assumiu um caráter estrutural e intensificou a polarização social, que se manifestou nas ruas, na mídia e nas redes sociais.</p>
</blockquote>



<p class="destacadp cel-only">1º de maio.A Central Operária Boliviana apresentou sua lista de reivindicações e o conflito entrou em outra fase: assumiu um caráter estrutural e intensificou a polarização social.</p>
</blockquote>



<p>Com a revogação parcial da Lei 1720 e a assinatura do Decreto 5613, que permite a destinação de áreas fiscais com potencial florestal para comunidades camponesas e indígenas da Amazônia, o governo declarou que as mobilizações não tinham mais um caráter reivindicatório, mas sim político. Principalmente porque a exigência da renúncia do presidente começou a ganhar força: uma exigência da qual as organizações indígenas se distanciaram após a revogação parcial da Lei 1720. Além disso, o governo aprovou uma resolução ministerial que concede aos mineradores a regularização de contratos em áreas protegidas e territórios indígenas sem consulta prévia. Dessa forma, consolidou-se a violação dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição, com a única intenção de neutralizar um dos setores mais fortes do movimento de protesto.</p>



<p>Em 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) apresentou sua lista de reivindicações em El Alto, e o conflito entrou em uma nova fase: adquiriu um caráter estrutural e intensificou a polarização social, que se manifestou nas ruas, na mídia e nas redes sociais. Nessa nova etapa, diferentes organizações se mobilizaram: os cultivadores de coca de Chapare, que iniciaram uma marcha em direção a La Paz, e os camponeses do histórico movimento &#8220;Túpac Katari&#8221;, que reúne os chamados &#8220;Ponchos Vermelhos&#8221;, um dos setores mais combativos do país. Bloqueios se espalharam por quase toda a região andina, e camponeses de base comunitária aderiram em massa às mobilizações em seus territórios. Agora, a única reivindicação era a renúncia de Rodrigo Paz devido à venda de combustíveis líquidos de baixa qualidade, à falta de dólares e à inflação crescente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="692" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-1024x692.jpg" alt="" class="wp-image-19056" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-1024x692.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-300x203.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-768x519.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3.jpg 1442w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A entrada da Central Operária Boliviana (COB) no conflito deu estrutura e organização às mobilizações, permitindo que elas se prolongassem por mais tempo. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/photo?fbid=1627668799365370&amp;set=a.496939219105006" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Central Operária Boliviana</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um conflito que parecia não ter fim</strong></h3>



<p>Outro aspecto do conflito é o impacto sobre a classe trabalhadora andina da aliança de Rodrigo Paz com setores poderosos das terras baixas do leste (após sua vitória eleitoral). Além das políticas neoliberais que corroeram as conquistas sociais consagradas na Constituição, a classe trabalhadora percebeu esse acordo como uma traição ao voto que levou Paz ao poder. Isso foi agravado pela ausência de elementos simbólicos indígenas nos símbolos do Estado e por uma mudança na linguagem e nas práticas utilizadas pelo governo para dialogar com os setores mobilizados: sem interlocutores que compreendessem as questões sociais, o conflito permaneceu sem solução e se arrastou.</p>



<p>O governo priorizou consistentemente o diálogo, recusando-se a ceder às exigências de renúncia do presidente, e tratou o conflito como uma questão setorial. Durante várias semanas, a renúncia do presidente foi a única maneira de pôr fim aos quase 100 bloqueios de estradas que começavam a paralisar La Paz, a capital do governo. Discursos xenófobos e discriminatórios dirigidos aos manifestantes tornaram-se comuns nas redes sociais e na mídia tradicional, que se mostrou totalmente tendenciosa a favor do governo. Por sua vez, os manifestantes responderam com uma agressividade justificada apenas por sua frustração.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Tal como noutros conflitos liderados por organizações populares na região andina, a polarização manifestou-se na exacerbação das divisões históricas da Bolívia, principalmente as de natureza étnica e regional.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Assim como em outros conflitos liderados pela região andina, a polarização se expressou nas divisões históricas da Bolívia, principalmente de natureza étnica e regional.</p>
</blockquote>



<p>Assim, o governo recorreu a uma estratégia de desgaste e evitou declarar estado de emergência, para não inflamar outros setores e gerar maior caos. Embora a ausência de repressão armada (como a vivenciada durante as presidências de Jeanine Añez ou Gonzalo Sánchez de Lozada, com seu rastro de mortes, feridos e prisões) tenha mantido os protestos dentro de canais institucionais controláveis, a propagação do conflito causou ao presidente danos políticos significativos perante a sociedade como um todo, o que exigiu que ele mobilizasse o exército para as ruas.</p>



<p>Assim como em outros conflitos liderados por organizações populares na região andina, a polarização manifestou-se na exacerbação das divisões históricas da Bolívia, principalmente as de natureza étnica e regional. Em Santa Cruz, o bloqueio foi interpretado como uma medida dirigida contra aquela região, dada a sua importância como fornecedor de muitos produtos consumidos no Oeste. Enquanto isso, da perspectiva da intelectualidade indígena urbana, particularmente aimará e quéchua, o conflito trouxe à tona o racismo e a discriminação contra a população indígena dos Andes, que mais uma vez se via marginalizada na administração pública. Além disso, argumentava-se amplamente que as conquistas consagradas na Constituição estavam em risco.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19057" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">As assembleias populares realizadas na cidade de El Alto exigiram repetidamente a renúncia de Rodrigo Paz. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/CentralObreraBolivianaOficial/posts/pfbid03R41bk7curyLqirG9JzS8XfTGf1R2PvxLxQKdHJ8rV8grp7ksEsDFiMP5uLZW2FSl" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Central Operária Boliviana</a></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O papel de Evo Morales</strong></h3>



<p>No âmbito da campanha de descredibilização midiática, o governo acusou Evo Morales de orquestrar uma tentativa de sedição e de financiar os bloqueios por meio do narcotráfico, com o único objetivo de permitir sua participação em supostas eleições após sua renúncia. Na realidade, além da mobilização dos produtores de coca de Chapare, o ex-presidente teve mais presença na mídia do que participação efetiva nos protestos, dado o seu conflito com diversos setores que participaram das manifestações. Embora convergissem para a principal reivindicação do conflito, a multiplicidade de atores reunidos pela Central Operária Boliviana (COB) e pelos camponeses foi maior do que a mobilização dos próprios produtores de coca, que marcharam de seu histórico reduto em Chapare em direção à sede do governo.</p>



<p>Os momentos mais tensos ocorreram em maio, com a chegada de diversas marchas a La Paz e o bloqueio total da cidade. Os grupos de protesto intensificaram seus ataques contra estabelecimentos comerciais que se recusavam a fechar e até mesmo contra cidadãos comuns que rejeitavam o caráter radical das medidas e os pedidos de renúncia de Rodrigo Paz, apenas seis meses após sua posse. Em todo o país, <a href="https://eldia.com.bo/2026-06-15/pais/sube-a-22-la-cifra-de-fallecidos-a-causa-de-los-bloqueos.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os bloqueios paralisaram a economia e causaram, direta e indiretamente, a morte de 22 pessoas</a>: tanto por impedir a chegada de ambulâncias aos bloqueios (dificultando, assim, o atendimento médico) quanto pela escassez de suprimentos que não chegaram aos hospitais para pacientes em estado grave.</p>



<p>A sociedade urbana também criticou o presidente pela sua gestão ineficiente da crise, que revelou uma falta de compreensão dos setores que reivindicavam direitos, especialmente em relação à terra e ao território. Nesse caso, o porta-voz foi o senador e empresário latifundiário Branko Marincovic, do partido <em>Alianza Libre</em>, do ex-candidato presidencial de extrema-direita Jorge “Tuto” Quiroga. Esse foi outro fator que alimentou os protestos, já que Marincovic era visto como descendente de imigrantes, proprietário de terras, branco e da região leste, promovendo uma reforma que claramente prejudicava os pequenos agricultores, com argumentos que careciam de credibilidade perante a população.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1024x682.jpg" alt="" class="wp-image-19058" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1024x682.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1536x1023.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Entrega de paralelepípedos nas avenidas de El Alto. Após o conflito, Rodrigo Paz tenta reconstruir seu relacionamento com os eleitores da cidade aimará que o elegeram presidente. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2081109470902382802/photo/1">C</a><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2081109470902382802/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">onta do Twitter de Rodrigo Paz</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A trégua e a incerteza</strong></h3>



<p>O conflito terminou com a assinatura do acordo em 26 de junho. Embora não represente uma agenda política para o movimento popular, pode ser um ponto de virada na relação entre o Estado e um amplo espectro social no que diz respeito às suas conquistas históricas: soberania nacional; respeito aos povos indígenas; consulta e participação em decisões que possam afetá-los; e a proibição de atividades de mineração em áreas protegidas e territórios indígenas. Um ponto fundamental foi o compromisso de Rodrigo Paz de não abrir mão dos recursos naturais (gás e lítio) nem privatizar empresas nacionais estratégicas. Por fim, o acordo incluiu indenização por danos a veículos causados por combustível contaminado, medidas para proteger a cesta básica e reajustes salariais e previdenciários .</p>



<p>Quase um mês após a assinatura do acordo, fica claro que diversas demandas permanecem sem solução. Politicamente, o presidente Rodrigo Paz não renunciou e declarou estado de emergência, o que, em todo caso, não foi o mecanismo utilizado para desmantelar os bloqueios. Além disso, a fragmentação no Congresso persiste, e as organizações populares não se recuperaram nem se fortaleceram: negociaram demandas específicas e retornaram às suas regiões. Economicamente, não há clareza na política de desenvolvimento, que combina retórica bombástica com uma dependência indispensável de empréstimos internacionais para cobrir os déficits orçamentários decorrentes da queda na receita do gás.</p>



<p>Com o passar dos dias e meses, ficará claro quem venceu este conflito. O governo está gradualmente reintegrando vários pontos de sua agenda econômica: permitindo a flutuação da taxa de câmbio para &#8220;ajustar&#8221; seu valor; propondo regulamentações para atrair investimento estrangeiro direto; e flexibilizando impostos e barreiras estatais. A conversão de pequenas propriedades rurais em médias, que desencadeou o conflito, foi recentemente restabelecida por meio de dois projetos de lei, com diversas revisões e uma salvaguarda explícita para a propriedade coletiva de territórios indígenas. Não está claro se essa iniciativa partiu do agronegócio ou do próprio governo. Neste último caso, seria realmente brincar com fogo, visto que ainda não se recuperou da crise gerada pelos bloqueios.</p>
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		<title>As leis do mercado?: a política indígena sob o governo Kast</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/as-leis-do-mercado-a-politica-indigena-sob-o-governo-kast/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Verónica Figueroa Huencho]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Chile]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19042</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nos seus primeiros meses como Presidente do Chile, José Antonio Kast enquadrou a política indígena numa agenda centrada na segurança, no investimento, na revogação da Lei Lafkenche e no enfraquecimento do sistema de posse da terra estabelecido na Lei Indígena. Por meio da retórica do desenvolvimento, o discurso oficial apresenta os direitos coletivos dos povos indígenas como um obstáculo ao crescimento econômico.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em seu <a href="https://www.gob.cl/cuentapublica2026/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">primeiro discurso</a>, José Antonio Kast apresentou sua política indígena logo após anunciar medidas relativas à segurança e ao controle territorial da chamada &#8220;Macrozona Sul&#8221;. Nessa região do país, com forte presença Mapuche, que administrativamente compreende as regiões de Biobío e Los Lagos, o novo governo buscou concentrar sua estratégia de segurança estatal nas demandas de restituição territorial das comunidades que habitam o território ancestral Mapuche.</p>



<p>Seguindo a mesma lógica dos governos anteriores, a atual administração <a href="https://www.interior.gob.cl/noticias/2026/03/24/29391/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">prorrogou a vigência do estado de emergência constitucional</a> neste território. Durante a apresentação do Discurso sobre o Estado da Nação, o Presidente Kast declarou: “A Araucanía é uma das regiões mais belas e promissoras do Chile. Seu povo merece viver em paz, trabalhar sem preocupações e ver sua terra prosperar. Nesta região, como em todo o Chile, precisamos de maior turismo, retorno dos investimentos e retomada do desenvolvimento. Para alcançar isso, essas medidas são acompanhadas pela elaboração de uma política indígena coerente, na qual já estamos trabalhando.”</p>



<p>Nesse contexto, não é surpreendente que a propriedade e a exploração de terras indígenas tornaram-se o foco do anúncio referente a como será a política indígena deste governo: “Uma reforma da Lei Indígena que conceda maiores liberdades e ferramentas para o desenvolvimento, eliminando restrições ao uso de suas terras e permitindo que as arrendem e hipotequem em igualdade de condições com os demais cidadãos chilenos”. Para tanto, o processo de consulta para o novo sistema fundiário será reformulado e o sistema de compra de terras será reorganizado, estabelecendo avaliações de valor de mercado e rastreabilidade para cada aquisição.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19043" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-1-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A propriedade e a exploração de terras indígenas emergem como o foco principal da nova política indígena do governo. <strong>Foto: </strong>Paula Huenchumil Jerez</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Terras indígenas e a institucionalização da desapropriação</strong></h3>



<p>A Lei Indígena (Lei nº 19.253) foi promulgada em 1993, durante o governo de Patricio Aylwin, após a restauração da democracia. Embora algumas limitações tenham sido apontadas em sua definição de terras indígenas, qualquer modificação tem sido vista como uma ameaça potencial, especialmente em um contexto no qual os povos indígenas não possuem reconhecimento constitucional nem representação política dentro do Estado-nação. Essa lei criou a Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena (CONADI) e estabeleceu regulamentos para a proteção, promoção e desenvolvimento dos povos indígenas. Ela define terras indígenas como aquelas detidas por meio de concessões de terras, títulos de comissário ou outros títulos listados no <a href="https://www.bcn.cl/leychile/navegar?idNorma=30620" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Artigo 12</a>, bem como aquelas correspondentes à ocupação histórica.</p>



<p>Nesse contexto, a proposta de reforma da lei para permitir arrendamentos e hipotecas é apresentada em termos de liberdade individual e igualdade perante o mercado. Contudo, a legislação vigente já permite o arrendamento de terras indígenas individuais por até cinco anos e a constituição de ônus reais com a autorização da CONADI (Corporação Nacional de Desenvolvimento Indígena). Ela também proíbe o arrendamento de terras comunitárias e as protege contra alienação, confisco e aquisição externa. De fato, quando <a href="https://www.memoriachilena.gob.cl/602/articles-122901_recurso_4.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as restrições às terras indígenas desapareceram no Chile, principalmente entre 1943 e 1947, aproximadamente um quinto delas foram alienadas</a>. Posteriormente, durante a ditadura, os arrendamentos por 99 anos privaram famílias e comunidades indígenas do uso de suas terras.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O atual governo busca não apenas reduzir as reivindicações territoriais a uma questão de mercado, mas o faz sem considerar as 21 recomendações apresentadas pela Comissão sobre reparações territoriais, marco institucional, participação e desenvolvimento.</p>



<p class="destacado cel-only">O governo atual busca reduzir as demandas territoriais a uma questão de mercado, sem considerar recomendações sobre reparações territoriais, seu arcabouço institucional, participação e desenvolvimento.</p>
</blockquote>



<p>Para implementar essa reforma, o Poder Executivo indicou que reformulará o processo de consulta sobre o novo sistema fundiário, que o governo Gabriel Boric “abandonou sem resultados”, aludindo às propostas apresentadas pela Comissão para a Paz e o Entendimento (CPPyE). Essa Comissão, criada pelo <a href="https://www.bcn.cl/leychile/navegar?idNorma=1194148" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Decreto Supremo nº 14</a>, tinha como principal missão “realizar um diagnóstico das demandas fundiárias do povo Mapuche, das terras já concedidas pelo Estado chileno e das lacunas persistentes nessa área, a fim de quantificar tais demandas”.</p>



<p>Para cumprir esse mandato, a CPPyE realizou uma avaliação abrangente das demandas de terras, das lacunas existentes nessa área e das limitações do mecanismo atual . A avaliação concluiu que esse mecanismo foi utilizado “virtualmente em sua totalidade” pelas comunidades Mapuche nas quatro regiões designadas, representando 99,59% das aquisições realizadas até 2024, enquanto mais de 1.100 solicitações permanecem pendentes. Nesse contexto, a Comissão recomendou a adoção de um novo sistema fundiário que harmonize o Direito Indígena com a Convenção nº 169 da OIT, incluindo mecanismos de reparação territorial, critérios de priorização, reformas institucionais e instrumentos para fortalecer a relação entre o Estado e o povo Mapuche.</p>



<p>Dado que essas medidas impactaram diretamente as comunidades e organizações Mapuche, foi criada uma vulnerabilidade a danos diretos, o que obrigou o Estado a realizar um processo de consulta. No entanto, <a href="https://www.bcn.cl/leychile/navegar?idNorma=1216992&amp;idVersion=2025-09-30" target="_blank" rel="noreferrer noopener">esse processo foi amplamente rejeitado pelas comunidades e se mostrou ineficaz</a>. Assim, o governo atual busca não apenas reduzir as reivindicações territoriais a uma questão de mercado, mas também fazê-lo sem considerar as 21 recomendações apresentadas pela Comissão a respeito de reparações territoriais, seus marcos institucionais, participação e desenvolvimento.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19044" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-2-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Sem reconhecimento constitucional ou representação política para os povos indígenas, qualquer reforma da Lei Indígena é percebida como uma ameaça. <strong>Foto: </strong>Paula Huenchumil Jerez</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Espaços marinhos costeiros indígenas sob pressão</strong></h3>



<p>Contudo, as políticas do governo de José Antonio Kast vão além do anúncio da reforma da Lei Indígena. O foco na terra e em sua propriedade deve ser entendido como parte de uma estratégia mais ampla que busca limitar os direitos dos povos indígenas e o poder de decisão de suas comunidades sobre os recursos. Sob uma perspectiva neoliberal, esses recursos devem ser explorados pelo capital privado; ao mesmo tempo, a propriedade da terra é vinculada a uma política de segurança. Assim, paralelamente a esse anúncio, o Poder Executivo promoveu alterações na chamada Lei Lafkenche.</p>



<p>Por sua vez, a Lei 20.249 (2008) criou os Espaços Marinhos Costeiros dos Povos Indígenas (EMCPO) para salvaguardar os usos consuetudinários e transferir sua administração às comunidades indígenas que os habitam ancestralmente. Embora o EMCPO não implique a propriedade desses territórios, exige-se um plano de gestão que permita a coexistência de diferentes atores ligados à pesca (industrial e artesanal), ao turismo e à navegação. Esse plano deve ser aprovado pela Comissão Regional de Uso da Zona Costeira (CRUBC) na etapa final. Contudo, as comunidades têm enfrentado oposição de empresas pesqueiras, principalmente de aquicultura de salmão, e dos próprios órgãos de aprovação do Estado. Nesse contexto, emergiu um discurso que questiona a eficiência das comunidades, suas demandas desproporcionais, a estagnação dos investimentos e sua apropriação exclusiva da zona costeira.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacadp pc-only">Organizações indígenas defenderam a lei como um instrumento de memória, soberania alimentar e proteção intergeracional, rompendo com o mito de que a administração comunitária não pode coexistir com atividades produtivas.</p>



<p class="destacado cel-only">O que está em jogo é como o Chile escolhe se relacionar com o mar, os territórios e as comunidades.</p>
</blockquote>



<p>Somente em 2024, 80% dos pedidos apresentados por comunidades indígenas ou associações comunitárias foram rejeitados pela Comissão Regional de Gestão da Zona Costeira (CRUBC), onde <a href="https://www.latercera.com/pulso/noticia/ley-lafkenche-los-36-miembros-y-una-vacancia-de-la-comision-que-definira-futuro-de-mitad-del-borde-costero-de-aysen/CLO5447IXRHGHENTVTOZTNP7KY/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as instituições estatais têm sido as principais opositoras à criação de novas áreas costeiras marinhas</a>. Assim, as rejeições baseiam-se principalmente em fundamentos políticos, e não técnicos, uma vez que <a href="https://www.elmostrador.cl/cultura/2024/08/25/ley-lafkenche-bajo-ataque-en-2024-han-rechazado-el-80-de-concesiones-maritimas-a-indigenas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a CRUBC intervém antes mesmo de as comunidades apresentarem seus planos de gestão</a>. De fato, as <a href="https://drive.google.com/file/d/1m9BPK9YWOXNgsLOqerzL4FMwNccgRSMO/view" target="_blank" rel="noreferrer noopener">evidências disponíveis refutam a ideia de que as Áreas Costeiras Marinhas tenham paralisado a indústria de cultivo de salmão</a>, que continuou a expandir sua produção e exportações.</p>



<p>Organizações indígenas, como a <a href="https://observatorio.cl/nuestros-proyectos/red-de-mujeres-originarias-por-la-defensa-del-mar/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede de Mulheres Indígenas para a Defesa do Mar</a>, têm enfatizado essa inversão de responsabilidades e defendido a lei como um instrumento de memória, soberania alimentar e proteção intergeracional, rompendo com o mito de que a gestão comunitária não pode coexistir com atividades produtivas. Em vez disso, argumentam que o que está em jogo é como o Chile escolhe se relacionar com o mar, seus territórios e suas comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19045" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Chile-Agosto-2026-3-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Lei dos Espaços Marinhos Costeiros protege os usos tradicionais dos povos indígenas. <strong>Foto: </strong>Paula Huenchumil Jerez</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Políticas indígenas e o mercado: duas faces da mesma moeda</strong></h3>



<p>Em quatro meses de governo, a mercantilização das terras e recursos indígenas, valorizados por corporações, emergiu como o foco central da formulação de políticas indígenas. No caso das terras, a proteção coletiva deve ser justificada pelo princípio da liberdade contratual. Em relação às áreas costeiras, o uso tradicional deve justificar sua expansão em detrimento do investimento. Em ambos os casos, o ônus da prova recai sobre os povos indígenas, que devem demonstrar que esses recursos não são “inexplorados”. Portanto, não se tratam de duas políticas isoladas.</p>



<p>No Chile, o mercado é apresentado como sinônimo de desenvolvimento, enquanto os direitos coletivos se tornam restrições que precisam ser corrigidas. Assim, a terra deixa de ser entendida como a base material para a continuidade histórica e cultural dos povos indígenas; ao mesmo tempo, o território marítimo deixa de ser reconhecido como um espaço de memória, soberania alimentar e proteção intergeracional. Portanto, o problema não reside em discutir mecanismos para melhorar as condições de vida das famílias e comunidades indígenas. O ponto crucial é que essas necessidades não podem ser usadas para enfraquecer os direitos coletivos ou para impedir que as comunidades tomem decisões sobre seus territórios sob o pretexto do desenvolvimento.</p>



<p>Portanto, os primeiros meses deste governo não apenas abrem um debate legislativo sobre a Lei Indígena e a Lei Lafkenche, mas também levantam uma questão mais profunda sobre o respeito às políticas indígenas no Chile e a aplicação dos direitos internacionalmente garantidos. Se o ponto de partida é a segurança, o investimento e a certeza para os interesses privados, os direitos indígenas são relegados a um segundo plano sob o olhar de um Estado colonial. Consequentemente, o que está em jogo não é apenas a propriedade, a terra ou o litoral, mas a possibilidade de vislumbrar uma relação diferente entre o Estado, o mercado e os povos indígenas, uma relação na qual seus direitos não sejam moeda de troca. Por ora, tudo indica que estamos longe desse horizonte.</p>



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