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	<title>Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Thu, 08 Oct 2026 04:32:03 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>Autonomia indígena no sistema interamericano: cinco anos após o relatório da CIDH sobre autodeterminação</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/autonomia-indigena-no-sistema-interamericano-cinco-anos-apos-o-relatorio-da-cidh-sobre-autodeterminacao/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Riyad Insanally]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 02:22:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Sistema Interamericano]]></category>
		<category><![CDATA[CIDH]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O sistema interamericano reconhece a autonomia dos povos indígenas e tribais como um direito preexistente. Portanto, não deve ser entendida como uma concessão ou um direito concedido. A decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos em favor da autonomia do povo U'wa da Colômbia é a expressão mais recente do direito dos povos indígenas à autogovernança, à definição de suas próprias instituições e à tomada de decisões sobre seus assuntos internos.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/autonomia-indigena-no-sistema-interamericano-cinco-anos-apos-o-relatorio-da-cidh-sobre-autodeterminacao/">Autonomia indígena no sistema interamericano: cinco anos após o relatório da CIDH sobre autodeterminação</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 4 de julho de 2024, a Corte Interamericana de Direitos Humanos condenou o Estado colombiano no <a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_530_esp.pdf">caso do </a><a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_530_esp.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">povo indígena U&#8217;wa</a><a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_530_esp.pdf"> e seus membros</a> por não garantir consulta prévia, livre e informada sobre dezenas de projetos extrativistas que se sobrepõem ao seu território ancestral. Proferida três décadas após o povo U&#8217;wa ter resistido publicamente à exploração de petróleo em seu território, a sentença reafirmou princípios fundamentais da autodeterminação indígena: o vínculo indissolúvel entre território, identidade cultural e a capacidade de um povo de decidir seu próprio destino.</p>



<p>Essa declaração não surgiu do nada. Ela confirma e aplica padrões que a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) havia sistematizado cinco anos antes, quando, em 28 de dezembro de 2021, aprovou seu relatório temático <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>“Direito à Autodeterminação dos Povos Indígenas e Tribais”</em></a>. Nesse relatório, a Comissão identificou a autonomia, ou seja, o direito dos povos à autogovernança, à definição de suas próprias instituições e à tomada de decisões sobre seus assuntos internos, como um dos elementos constitutivos da autodeterminação, juntamente com a autoidentificação, a identidade cultural, a propriedade coletiva, os direitos políticos e participativos, e a consulta e o consentimento prévios, livres e informados.</p>



<p>Cinco anos após esse relatório, e com um caso recente que recolocou o tema na agenda regional, vale a pena rever o que o sistema interamericano tem dito especificamente sobre o direito à autonomia e ao autogoverno dos povos indígenas e tribais, em suas diversas dimensões. Esse é o propósito deste artigo: examinar os padrões desenvolvidos pela Comissão e pela Corte, demonstrando que o caso U&#8217;wa não é um evento isolado, mas sim a expressão mais recente de uma linha de trabalho institucional sustentada por mais de duas décadas, por meio de relatórios temáticos e casos da CIDH, e por meio de uma jurisprudência interamericana em constante evolução.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="684" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-1024x684.jpg" alt="" class="wp-image-19683" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-1024x684.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-1536x1026.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-2-2048x1368.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Audiência sobre a extração de combustíveis fósseis. <strong>Foto: </strong>CIDH</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Autonomia, o cerne da autodeterminação</strong></h3>



<p>A autodeterminação dos povos indígenas e tribais não se limita ao reconhecimento da sua propriedade coletiva sobre as suas terras. Como salientou a CIDH, este direito implica também o poder de autogovernar os seus territórios por meio das suas próprias autoridades, no exercício do direito à autonomia ou autogoverno expressamente reconhecido no Artigo XXI da <a href="https://www.oas.org/es/sadye/documentos/res-2888-16-es.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas</a> (ADRIP) e no Artigo 4 da <a href="https://www.un.org/esa/socdev/unpfii/documents/DRIPS_es.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas</a> (UNDRIP). A Comissão observa que o exercício da <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">governação territorial</a> é uma das expressões mais relevantes da autodeterminação indígena e tribal, porque implica o reconhecimento de sistemas de autogoverno que assumem o controle, a gestão e a administração dos seus territórios ancestrais.</p>



<p>Esse controle não se limita a um título de propriedade. A CIDH enfatiza que um componente essencial da autonomia indígena e tribal é o <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">controle efetivo</a> dos territórios ancestrais e dos recursos naturais neles encontrados, pois estes constituem a base material da existência desses povos como sujeitos coletivos, e não uma mercadoria: são “a base de sua subsistência econômica” e também “a fonte de sua identidade cultural e bem-estar espiritual”. No entanto, a Comissão observa com preocupação que, até o momento, muito poucos Estados da região estabeleceram <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mecanismos legais ou administrativos</a> que garantam a autonomia dos povos indígenas e tribais sobre seus recursos naturais e meios de subsistência. Pelo contrário, aponta que os sistemas jurídicos nacionais, em geral, impedem que esses povos detenham direitos sobre os recursos naturais de seu próprio habitat.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em 2001, no caso da Comunidade Mayagna (Sumo) Awas Tingni vs Nicarágua, a Corte Interamericana já havia reconhecido a estreita relação entre o território e a subsistência dos povos indígenas como coletivos organizados.</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado cel-only">Já em 2001, a Corte Interamericana reconheceu a estreita relação entre território e a subsistência dos povos indígenas enquanto coletivos organizados.</p>
</blockquote>
</blockquote>



<p>A essa dificuldade soma-se a <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">fragmentação territorial</a>. A Comissão identificou que a concessão de títulos de propriedade a comunidades isoladas, em vez de a povos ou territórios inteiros, pode excluir áreas fundamentais para a vida dessas comunidades e dificultar seriamente o exercício de sua autonomia. Além disso, a fragmentação causada pelas próprias fronteiras estatais limita o exercício de direitos vinculados a uma territorialidade histórica de mobilidade que transcende as fronteiras nacionais, particularmente no caso de comunidades transfronteiriças e binacionais (como ocorre no corredor amazônico entre Colômbia, Equador e Peru).</p>



<p>Essa compreensão da autonomia como controle territorial não é nova para o sistema interamericano. Já em 2001, no caso da <a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/Seriec_79_esp.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Comunidade Mayagna (Sumo) Awas Tingni contra a Nicarágua</em></a>, a Corte Interamericana reconheceu a estreita relação entre território e a subsistência dos povos indígenas enquanto coletivos organizados. Ao fazê-lo, lançou as bases sobre as quais a Comissão, duas décadas depois, desenvolveria um corpo de trabalho específico sobre autonomia e autogoverno.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="685" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-1024x685.jpg" alt="" class="wp-image-19684" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-1024x685.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-300x201.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-768x514.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-1536x1028.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-3-2048x1371.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Visita in loco da CIDH a La Guajira, Colômbia. <strong>Foto: </strong>CIDH</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Autogoverno interno, participação externa</strong></h3>



<p>A CIDH entende que o direito à autonomia ou autogoverno tem uma <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dupla dimensão</a>. Por um lado, implica que os povos indígenas e tribais tenham um governo autônomo; por outro, implica o seu direito de participar nas estruturas sociais e políticas mais amplas em que estão inseridos, incluindo o próprio Estado.</p>



<p>A <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dimensão interna</a> envolve o reconhecimento e a manutenção das instituições indígenas de tomada de decisão, incluindo a eleição livre de suas autoridades tradicionais, sem interferência externa; enquanto o Estado tem o dever geral de não interferir no funcionamento dessas instituições. A Comissão é explícita em um ponto: quando um sistema jurídico exige que uma autoridade estatal certifique a eleição de uma autoridade indígena, essa certificação constitui um mero registro declaratório da vontade do povo, expressa em sua respectiva assembleia territorial ou comunitária, e de modo algum pode substituir, revogar ou sobrepor-se à decisão tomada coletivamente.</p>



<p>A Comissão documentou que o descumprimento dessa norma tem consequências concretas: tanto a ação quanto a omissão do Estado que promovem a criação de governos “paralelos” aos legitimamente eleitos pelo povo constituem violações do direito à autodeterminação. Isso mina seriamente a <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">autodeterminação</a>, enfraquece as estruturas tradicionais e pode levar a episódios de conflito social dentro das próprias comunidades.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em um ponto particularmente relevante, a Comissão rejeita expressamente a ideia de enquadrar o consentimento como um “direito de veto”: considera que essa visão simplifica a questão e ignora a autodeterminação dos povos indígenas e tribais.</p>
</blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado cel-only">A Comissão rejeita expressamente a ideia de enquadrar o consentimento como um “direito de veto”: essa visão ignora a autodeterminação.</p>
</blockquote>



<p>Em sua <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">dimensão externa</a>, o direito à participação política significa que os povos indígenas e tribais, por meio de suas próprias autoridades e instituições, fazem parte dos processos decisórios do Estado que podem afetar seus direitos. A Comissão esclarece que essa participação deve ser efetiva, e não meramente formal: não basta atribuir o diálogo a uma autoridade governamental local ou regional que não necessariamente conheça as prioridades e os problemas dos povos em questão. A esse respeito, a CIDH também observou com preocupação que as cotas de participação política nem sempre garantem representação real e que, em certos contextos, processos de cooptação partidária levaram à perda de autonomia política dos povos indígenas.</p>



<p>Estreitamente ligado a essa dimensão externa, o direito à <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">consulta e ao consentimento livre, prévio e informado</a> constitui, para a CIDH, uma manifestação direta da autodeterminação, e não meramente um procedimento administrativo: é a premissa fundamental que permite aos povos definir como desejam exercer seus direitos. Em um ponto particularmente relevante, a Comissão rejeita expressamente a ideia de enquadrar o consentimento como um “direito de veto”: considera que essa visão simplifica demais a questão e desconsidera a autodeterminação dos povos indígenas e tribais, ao assumir erroneamente que o processo decisório do Estado tem a capacidade de impor coercitivamente uma atividade específica.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19685" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-4-2048x1153.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Visita in loco da CIDH na Guatemala. <strong>Foto: </strong>CIDH</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Duas décadas de normas interamericanas</strong></h3>



<p>Esses desenvolvimentos da Comissão baseiam-se em (e fundamentam) um conjunto de jurisprudência da Corte Interamericana construído ao longo de mais de 20 anos. No caso de 2007, <a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/Seriec_172_esp.pdf"><em>Povo </em></a><a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/Seriec_172_esp.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Saramaka vs. Suriname</em></a>, a Corte estabeleceu que, ao lidar com planos de desenvolvimento ou investimento em larga escala que teriam um impacto significativo em territórios indígenas ou tribais, o Estado tem a obrigação não apenas de consultar, mas também de obter o consentimento prévio, livre e informado do povo, de acordo com seus próprios costumes e tradições. Cinco anos depois, no caso <a href="about:blank" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Povo Indígena Kichwa de Sarayaku vs. Equador</em></a>, a Corte explorou ainda mais a relação entre território, identidade cultural e a capacidade de um povo de desenvolver e realizar seus próprios planos de vida.</p>



<p>Em 2020, no caso da <a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_400_esp.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Associação de Membros das Comunidades Indígenas de Lhaka Honhat (Nuestra Tierra) vs. </em></a><a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_400_esp.pdf"><em>Argentina</em></a>, a Corte deu um passo adiante: vinculou amplamente os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais (o direito a um meio ambiente saudável, alimentação adequada, água e identidade cultural) à autonomia e ao gozo efetivo do território coletivo, reconhecendo a interdependência entre esses direitos. Esse desenvolvimento é o que a CIDH <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">sistematiza</a> em seu relatório de dezembro de 2021, quando dedica uma seção específica às dimensões interna e externa da autonomia, vinculadas aos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais. O <a href="https://www.corteidh.or.cr/docs/casos/articulos/seriec_530_esp.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">caso U&#8217;wa</a>, com o qual este artigo se inicia, segue essa mesma linha de raciocínio e a confirma em um contexto muito atual: o de projetos extrativistas que se sobrepõem a territórios ancestrais, uma das situações que a própria CIDH identifica como <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">recorrente</a> na região.</p>



<p>Todo esse desenvolvimento por parte da Comissão e do Tribunal se baseia em <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">quatro abordagens</a> que a CIDH aplica de forma abrangente ao direito à autodeterminação, e que também fornecem uma estrutura para a autonomia. A primeira é sua natureza reparadora: a autodeterminação é entendida como uma resposta corretiva às injustiças históricas de desapropriação, colonização e negação de direitos sofridas por esses povos. A segunda é a interculturalidade, que exige uma mudança da assimilação para a coexistência baseada no respeito por diferentes visões de mundo, com uma distribuição genuína do poder de decisão em relação às suas próprias prioridades de desenvolvimento. A terceira é a natureza transversal: para a Comissão, a autodeterminação deve estabelecer o padrão de como o Estado garante os demais direitos desses povos e não deve ser tratada como uma questão isolada. A quarta e última abordagem combina uma perspectiva de gênero com uma intergeracional: a CIDH destacou a participação de mulheres indígenas em espaços de autogoverno e liderança comunitária, e a solidariedade intergeracional como garantia de que suas próprias formas de organização serão sustentadas ao longo do tempo.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="519" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-5.jpeg" alt="" class="wp-image-19686" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-5.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/CIDH-Octubre-2026-5-300x203.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Encontro com autoridades ancestrais em Totonicapán. Em náuatle, Totonicapán significa “acima, na água quente”. <strong>Foto: </strong>CIDH</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma distância para fechar</strong></h3>



<p>Cinco anos após o relatório da CIDH, o padrão interamericano sobre a autonomia dos povos indígenas e tribais está claramente estabelecido: não se trata de uma concessão discricionária dos Estados, mas de um direito <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">preexistente</a> que, como a própria Comissão recorda, “não deve ser entendido como uma concessão ou uma questão concedida”. O que persiste, no entanto, é a lacuna entre esse padrão e sua efetiva implementação: a Comissão observa que <a href="https://www.oas.org/es/cidh/informes/pdfs/LibreDeterminacionES.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">muito poucos Estados</a> da região possuem atualmente mecanismos legais ou administrativos que garantam a autonomia indígena sobre seus territórios e recursos naturais.</p>



<p>Superar essa lacuna exige que os Estados alinhem seus marcos legais e institucionais aos padrões desenvolvidos pelo sistema interamericano, em vez de tratar o reconhecimento da autonomia indígena como uma exceção ou uma concessão. Nesse esforço, tanto a CIDH (por meio de seus relatórios temáticos e de casos, e de seu monitoramento contínuo) quanto a Corte Interamericana (por meio de sua jurisprudência em constante evolução, da qual o caso U&#8217;wa é apenas um exemplo recente) continuam a fornecer a estrutura para que os povos indígenas e tribais das Américas exerçam efetivamente seu direito à autogovernança.</p>



<p></p>



<p><strong>Agradeço o valioso apoio de Mishkila Rojas, especialista na Relatoria das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas da CIDH, na preparação deste artigo.</strong></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Quem constitui quem? Lições do povo Naga sobre autonomias na América Latina</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/quem-constitui-quem-licoes-do-povo-naga-sobre-autonomias-na-america-latina/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Gam Angkang Shimray]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<category><![CDATA[India]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19691</guid>

					<description><![CDATA[<p>O reconhecimento constitucional dos povos indígenas não garante, por si só, a autogovernança. Com base nas experiências da Bolívia e do Equador, este artigo examina a relação entre poder constituinte, controle territorial, recursos materiais e capacidade institucional. A comparação busca identificar quais lições da América Latina podem contribuir para um possível acordo de autogovernança para o povo Naga com o Estado indígena.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No início do século, o Estado Plurinacional da Bolívia e a República do Equador iniciaram processos de transformação constitucional que reconheceram o caráter plurinacional de seus Estados, ampliaram os direitos indígenas e adicionaram formas de autonomia aos povos indígenas. Contudo, esse reconhecimento não alterou uma questão fundamental: o poder de criar ou reformular a ordem constitucional permaneceu nas mãos do eleitorado nacional como um todo. Nenhuma das constituições concede aos povos indígenas poder constituinte próprio.</p>



<p>O caso do povo Naga, que habita o nordeste da Índia e o noroeste de Mianmar, apresenta um desafio diferente: a reivindicação de autoridade política que nenhum Estado lhes concede há décadas, mas que também não foi formalizada em um ato constitucional consolidado. Da perspectiva Naga, ambos os problemas fazem parte da mesma questão: de onde vem a autoridade de um povo e como ele pode recuperá-la?</p>



<p>Este artigo busca compreender com o que os processos plurinacionais da Bolívia e do Equador alcançaram e, inversamente, com o que não conseguiram preservar. A análise não visa avaliar exaustivamente essas experiências, mas sim identificar algumas condições que podem ser relevantes para o processo Naga. A comparação, portanto, tem um propósito específico: considerar o que um acordo de autogoverno deve garantir para que a autoridade reconhecida possa ser sustentada ao longo do tempo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="547" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1-1024x547.png" alt="" class="wp-image-19692" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1-1024x547.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1-300x160.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1-768x410.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1-1536x820.png 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1.png 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Na Índia e no noroeste de Mianmar, a reivindicação de autoridade política não foi conferida nem traduzida em uma lei constituinte consolidada. <strong>Foto: </strong>Signe Leth / IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Duas experiências e uma mesma pergunta</strong></h3>



<p>Em 2009, a Bolívia foi restabelecida como um Estado plurinacional com base em uma Assembleia Constituinte na qual os povos indígenas participaram como atores-chave. A Constituição reconheceu 36 línguas indígenas, jurisdição indígena, distritos eleitorais especiais e, o foco deste artigo, autonomia indígena, como expressão de autoridade preexistente e não simplesmente como uma concessão do governo central.</p>



<p>Contudo, o que foi oficialmente reconhecido não coincidiu inteiramente com o que permaneceu sob controle estatal. Os direitos sobre o subsolo, a renda proveniente de recursos naturais e uma parcela significativa do poder tributário permaneceram nas mãos do Estado. As autonomias indígenas que foram estabelecidas estavam sujeitas a procedimentos legais complexos (e demorados) e, que de modo geral, dependem de transferências estatais, possuindo autonomia econômica limitada. A jurisdição indígena, por sua vez, foi posteriormente restringida por legislação ordinária.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Os casos da Bolívia e do Equador, embora por caminhos diferentes, ilustram a mesma dificuldade. O reconhecimento constitucional pode ser importante, mas continua dependente de instituições que estão além do controle do povo.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A questão que interessa ao processo Naga é quanta autonomia um Estado pode reconhecer, quem constitui essa autonomia e quais condições permitem que ela seja exercida.</p>
</blockquote>



<p>No caso do Equador, o caminho foi diferente. A Constituição de 2008 estabeleceu a plurinacionalidade e a interculturalidade, reconheceu a jurisdição indígena e incluiu circunscrições territoriais indígenas. No entanto, essa estrutura institucional nunca foi construída de maneira equivalente à da Bolívia: nenhuma circunscrição territorial indígena foi estabelecida. Enquanto a Bolívia construiu e depois restringiu, o Equador declarou direitos indígenas sem jamais implementá-los plenamente.</p>



<p>Ambos os casos, embora diferentes, ilustram a mesma dificuldade. O reconhecimento constitucional pode ser importante, mas permanece contingente a instituições que estão além do controle dos povos indígenas. Se a autoridade indígena depende da legislação nacional, da interpretação judicial ordinária, das transferências fiscais e da vontade política do governo, a autonomia mantém sua forma legal, mas perde sua capacidade efetiva. Consequentemente, a questão relevante para o processo Naga não é meramente quanta autonomia um Estado pode reconhecer, mas quem constitui essa autonomia e sob quais condições ela pode ser exercida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19693" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-2.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Na Bolívia, a Constituição reconhece a autonomia indígena como uma expressão de autoridade preexistente, e não simplesmente como uma concessão do governo central. <strong>Foto: </strong>Alejandro Parellada / IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um povo que ainda não foi chamado a exercer seu poder</strong></h3>



<p>Antes do domínio colonial, a autoridade política no território ancestral Naga era organizada por aldeias, que administravam suas terras, resolviam disputas e se autogovernavam por meio de suas próprias instituições e direito consuetudinário. A administração britânica gradualmente incorporou esses territórios a diferentes jurisdições e, em 1947, a transferência de poder os dividiu novamente entre a Índia e a Birmânia (atual Mianmar). Um plebiscito foi realizado em 1951; posteriormente, um conflito armado eclodiu; e, desde 1997, um cessar-fogo está em vigor, acompanhado por um longo processo de negociação.</p>



<p>Em 1963, o Artigo 371A da Constituição da Índia estabeleceu proteções especiais para as práticas religiosas e sociais Naga, o direito consuetudinário e a propriedade e transferência de terras e recursos. Neste último aspecto, a Constituição protege um sistema de propriedade comunitária que antecede a ordem constitucional indiana. Contudo, trata-se de uma salvaguarda, não de um fundamento: faz parte da Constituição da Índia e opera por meio de uma legislatura estadual. Portanto, não cria a instituição Naga que reconhece, nem constitui a fonte de sua autoridade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">De onde vêm os poderes que estão sendo negociados? Se um acordo visa estabelecer uma nova relação política, o povo deve poder exercê-lo. Portanto, um documento negociado em sigilo não pode constituir um ato constitutivo.</p>



<p class="destacado cel-only">Se um acordo visa estabelecer uma nova relação política, o povo (cuja autoridade está em jogo) deve poder exercê-la.</p>
</blockquote>



<p>Essa distinção é central para as negociações em curso. O Acordo-Quadro de 2015 refere-se ao princípio de que, em uma democracia, a soberania reside no povo e à troca de poderes soberanos, embora seu significado continue sujeito a diferentes interpretações entre o Governo da Índia e a liderança do Conselho Nacional Socialista de Nagaland (NSCN), grupo Isak-Muivah (NSCN-IM). A questão, então, passa a ser: de onde se originam os poderes que estão sendo negociados? Se um acordo visa estabelecer uma nova relação política, o povo (cuja autoridade está em jogo) deve poder exercê-la. Portanto, um documento negociado em segredo não pode, por si só, constituir um ato constitutivo.</p>



<p>A história Naga ilustra essa dificuldade. O plebiscito de 1951 sobre a independência de Nagaland expressou uma decisão sobre o status político, mas não estabeleceu instituições nem conferiu um mandato para criá-las. Da mesma forma, os acordos de 1960 e 1975 sobre o status político de Nagaland dentro da Índia e, posteriormente, a aceitação da estrutura constitucional indiana, foram questionados quanto à autoridade daqueles que os assinaram. Atualmente, os poderes em negociação estão sendo determinados por negociadores cujo mandato é negociar, não constituir. Após décadas de negociação, o processo Naga corre o risco de resolver o funcionamento do governo antes de resolver a origem de sua autoridade.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="460" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1024x460.jpeg" alt="" class="wp-image-19694" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-1024x460.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-300x135.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-768x345.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Uma multidão se reuniu para dar as boas-vindas a Th. Muivah, líder do Conselho Nacional Socialista de Nagalim. <strong>Foto: </strong>Tennoson Pheiray</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A base material do autogoverno</strong></h3>



<p>A experiência latinoamericana oferece uma segunda lição: o autogoverno não pode ser reduzido a um título legal. Ele exige controle efetivo sobre o território e seus recursos. O caso zapatista em Chiapas demonstra que a autonomia indígena pode ser sustentada por décadas sem reconhecimento estatal ou transferências fiscais, quando o controle territorial e a capacidade organizacional de fato existem. Os direitos reconhecidos permitem a defesa desse controle, mas não o substituem.</p>



<p>A escala também importa. A autonomia confinada a unidades excessivamente pequenas pode se tornar administração municipal sob outro nome. Na Bolívia, a escala municipal e o controle estatal sobre os recursos do subsolo limitam a capacidade das autonomias indígenas de construir sua própria base econômica. Para o povo Naga, essa questão é especialmente relevante devido à fragmentação de seus territórios entre diferentes unidades administrativas. Uma autonomia territorialmente viável poderia sustentar melhor as instituições e os recursos necessários para a autogovernança.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A lição é que a propriedade da terra, sem instituições para controlá-la, é vulnerável. Um acordo deve garantir não apenas a terra e os recursos, mas também os poderes, as receitas e as instituições para controlá-los.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A lição é que a propriedade da terra, sem instituições para exercer controle territorial, é vulnerável.</p>
</blockquote>



<p>Mas a integração também implica obrigações para com outros povos cujos territórios seriam incluídos nessa configuração. Sempre que existirem territórios ou recursos compartilhados, as condições de inclusão devem ser acordadas com os povos vizinhos e o Estado correspondente. O caso de Changpang, no território Lotha Naga, em Nagaland, demonstra que a propriedade comunitária por si só não garante o controle dos recursos: a extração de petróleo entre 1981 e 1994 deixou em aberto uma disputa sobre quem tinha a autoridade para autorizar e controlar o subsolo.</p>



<p>A lição é que a propriedade territorial, sem instituições para exercer o controle territorial, é vulnerável. Um acordo duradouro deve garantir não apenas a terra e os recursos, mas também os poderes, as receitas e as instituições necessárias para controlá-los. No entanto, a base material por si só não democratiza o autogoverno: os recursos podem concentrar poder dentro de um território. Portanto, recursos, instituições e mecanismos de responsabilização são todos necessários simultaneamente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19695" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-4-B.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A experiência de Nagaland mostra que a propriedade comunitária por si só não garante o controle dos recursos. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.flickr.com/photos/201931054@N04/54188049362/in/album-72177720322433449" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Alejandro Parellada / IWGIA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A condição que nenhum acordo pode garantir</strong></h3>



<p>As experiências da Bolívia e do Equador demonstram, em última análise, que nenhum texto constitucional, por si só, consegue gerar a capacidade política necessária para garantir os direitos e as garantias constitucionalmente consagrados. As constituições em si não mudaram entre 2009 e 2026, mas os governos e as condições políticas sob as quais deveriam ser implementadas, sim. Quando as instituições responsáveis por garantir o reconhecimento se tornam hostis, as garantias constitucionais podem ser enfraquecidas. Isso representa uma armadilha: se o autogoverno precisa esperar que o Estado seja plenamente democrático para se sustentar, o próprio Estado mantém o poder de veto sobre ele.</p>



<p>Portanto, a resposta não pode ser simplesmente esperar por uma transformação externa. O autogoverno indígena é também uma prática democrática: pressupõe que uma ordem política possa conter mais de uma fonte legítima de autoridade e permanecer unificada. Isso requer uma condição que não pode ser confundida com unanimidade: a capacidade de um povo agir coletivamente em meio a divergências. Um povo que só pode agir quando não há diferenças produz um sujeito silenciado, não um sujeito constituinte. Nesse sentido, as mulheres indígenas demonstram que a defesa dos direitos pode se desenvolver dentro da autonomia e não necessariamente contra ela.</p>



<p>Por outro lado, a experiência boliviana oferece um alerta. Embora o reconhecimento constitucional dos Povos Indígenas permaneça em vigor, a coalizão política que o promoveu fragmentou-se entre organizações camponesas andinas e organizações territoriais das Terras Baixas. A experiência demonstra que o reconhecimento constitucional, por si só, não garante a existência de uma capacidade política capaz de sustentá-lo e desenvolvê-lo. Para o processo Naga, isso sugere que tal capacidade institucional deve ser construída antes de qualquer acordo com o Estado. As aldeias Naga mantêm uma tradição de autogoverno, mas décadas de militarização, desestruturação institucional e divisões internas têm dificultado sua integração em uma estrutura política, fiscal e administrativa de maior escala.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="687" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-ED-1024x687.png" alt="" class="wp-image-19697" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-ED-1024x687.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-ED-300x201.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-ED-768x515.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-ED.png 1440w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A luta das mulheres indígenas demonstra que a defesa dos direitos pode se desenvolver dentro da autonomia e não necessariamente contra ela. <strong>Foto: </strong>Signe Leth / IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Reservar o poder constituinte</strong></h3>



<p>A primeira proposta que emerge dessa comparação é a de reservar ao povo a capacidade de reabrir os termos fundamentais de sua relação com o Estado. Bolívia e Equador contemplam mecanismos para convocar novos processos constituintes, mas a iniciativa e a ratificação são organizadas por meio do eleitorado nacional. Nenhuma das constituições reserva essa iniciativa a cada povo constituinte em si. Aqui reside uma tensão interna no projeto plurinacional: múltiplos povos são reconhecidos como sujeitos da ordem constitucional, mas um único povo eleito é mantido como autor dessa ordem.</p>



<p>Uma cláusula de reabertura poderia estabelecer que cada povo tem a capacidade de iniciar um procedimento relativo aos termos fundamentais de sua relação com o Estado. Isso não implicaria a reabertura permanente de toda a Constituição, mas sim a revisão de questões como a distribuição de poderes, a organização territorial, a base material e o próprio mecanismo de revisão. A ativação poderia ocorrer em caso de violação substancial, mudança fundamental nas circunstâncias ou por meio de revisões periódicas. Esta última possibilidade é especialmente importante: tornaria a reconsideração uma opção constitucional normal, e não apenas uma resposta a uma crise.</p>



<p>O procedimento deve combinar deliberação no seio da comunidade, tomada de decisão por meio de suas próprias instituições, negociação com o Estado e ratificação por ambas as partes. A iniciativa não seria unilateral, mas também não dependeria da autorização da outra parte. Além disso, tal cláusula deveria declarar expressamente que não constitui um direito à secessão, mas sim um mecanismo para renegociar os termos de uma relação existente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="665" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-1024x665.jpg" alt="" class="wp-image-19698" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-1024x665.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-300x195.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-768x498.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6-1536x997.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-6.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O Equador, assim como a Bolívia, está considerando mecanismos para promover novos processos constituintes, embora sua iniciativa e ratificação dependam do eleitorado nacional. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.flickr.com/photos/201931054@N04/54188479511/in/album-72177720322433359" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Alejandro Parellada / IWGIA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que um acordo com o Estado indiano deve garantir?</strong></h3>



<p>O direito internacional oferece alguns elementos para a compreensão desse quadro. Bolívia e Equador são Estados Partes da Convenção 169 da OIT, enquanto a Índia não a ratificou. Além das diferenças decorrentes deste instrumento, a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas reconhece os direitos às terras, territórios e recursos, e estabelece a necessidade de consentimento livre, prévio e informado para projetos que afetem esses territórios. No caso Naga, o ponto crucial é que a discussão não deve se limitar à consulta: a questão fundamental é quem tem autoridade sobre o território e os recursos, e quais instituições permitem o exercício dessa autoridade.</p>



<p>Com base em experiências comparativas, um acordo de autogoverno deve garantir pelo menos dez elementos: reconhecer a origem da autoridade no próprio povo; ser adotado pelo povo e não apenas pelos negociadores; estabelecer um mecanismo para sua revisão; garantir terras, subsolo e recursos em escala viável; impedir a redução das proteções existentes; assegurar que os poderes não possam ser esvaziados por meio de legislação ou interpretação; permitir que a forma de governo derive das próprias tradições do povo; garantir a prestação de contas ao povo; criar mecanismos permanentes para as relações com o Estado e com os povos vizinhos; e desenvolver continuamente a capacidade institucional necessária para governar.</p>



<p>Este último ponto é especialmente relevante. Um acordo pode garantir autoridade, território, recursos e poderes, mas não pode conferir capacidade política. Essa capacidade deve ser construída por meio de instituições capazes de administrar, arrecadar receitas, deliberar, resolver conflitos e reformar suas próprias estruturas. Onde a autonomia funcionou de forma sustentável na América Latina, as práticas de organização e governança muitas vezes precederam seu reconhecimento legal. O arcabouço legal consolidou capacidades que já existiam. Ao mesmo tempo, os Estados têm usado a falta de capacidade como argumento para manter poderes. Portanto, esperar que o acordo gere essa capacidade pode reproduzir o próprio problema que busca evitar.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19699" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/India-Octubre-2026-7.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Índia não ratificou a Convenção 169 da OIT. <strong>Foto:</strong> <a href="https://www.flickr.com/photos/201931054@N04/54189379275/in/album-72177720322433449" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Alejandro Parellada / IWGIA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A Lição latinoamericana</strong></h3>



<p>As experiências da Bolívia e do Equador mostram que o reconhecimento constitucional pode transformar profundamente a relação entre os povos indígenas e o Estado, mas também que esse reconhecimento pode ser limitado quando a base material permanece sob controle estatal, quando suas próprias instituições não adquirem capacidade suficiente ou quando os povos que idealizaram o projeto não conseguem mais agir coletivamente.</p>



<p>O processo Naga apresenta uma situação diferente. Há décadas, mantém a reivindicação de uma autoridade que não acredita ter transferido para o Estado indiano. Mas essa continuidade também tem um custo: negociações prolongadas podem substituir a participação política e concentrar a autoridade nas mãos dos negociadores, enquanto as instituições necessárias para um autogoverno em larga escala permanecem incompletas.</p>



<p>A lição latino-americana, vista da perspectiva do povo Naga, não se trata de replicar os modelos do Estado Plurinacional da Bolívia ou da República do Equador. Trata-se de aprender com suas conquistas e limitações: o reconhecimento deve ser acompanhado por uma base material efetiva, instituições independentes e uma capacidade constituinte que não se extingue no momento da fundação. A questão que une essas experiências não é quanta autonomia um Estado está disposto a conceder. É outra: quem constitui quem, e essa questão pode ser reformulada depois de respondida?</p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>México: regiões autônomas sob ataque em contextos de extrema violência</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/mexico-regioes-autonomas-sob-ataque-em-contextos-de-extrema-violencia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Araceli Burguete Cal y Mayor]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<category><![CDATA[México]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19759</guid>

					<description><![CDATA[<p>Diante do crescente avanço do crime organizado, os territórios indígenas tornaram-se espaços de conflito, apresentando novos desafios ao exercício da autonomia e erodindo as formas de governança comunitária. Em resposta a esse cenário, os povos indígenas estão desenvolvendo mecanismos de defesa e controle para sustentar seus modos de vida e organização. O livro “México: Autonomias de Norte ao Sul em Cenários Diversos” explora experiências que colocam a segurança territorial, a defesa comunitária e a persistência dos povos indígenas no centro do debate.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No México, observa-se um fenômeno paradoxal. Embora significativos progressos tenham sido feitos nos últimos anos no reconhecimento legal dos direitos à autodeterminação e à autonomia, esses direitos enfrentam dificuldades em sua implementação. Ao mesmo tempo, vastas regiões indígenas vivenciam uma crescente expansão da violência criminal. Assim, as autonomias indígenas se desenvolvem em meio a economias ilegais e interesses extrativistas. Em muitos casos, sofrem pressão de agentes governamentais que colaboram com esses grupos. Portanto, o crime não é um fenômeno externo aos territórios indígenas, mas sim uma força que penetra nesses territórios, captura as instituições locais, reconfigura as relações comunitárias e ameaça os fundamentos do autogoverno indígena.</p>



<p>O livro <a href="https://www.iwgia.org/joomlatools-files/docman-files/documents/Mexico%20autonomias%20de%20norte%20a%20sur%20en%20escenarios%20violentos.pdf">“</a><a href="https://www.iwgia.org/joomlatools-files/docman-files/documents/Mexico%20autonomias%20de%20norte%20a%20sur%20en%20escenarios%20violentos.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>México: Autonomias de Norte ao Sul em Cenários Diversos</em></a><a href="https://www.iwgia.org/joomlatools-files/docman-files/documents/Mexico%20autonomias%20de%20norte%20a%20sur%20en%20escenarios%20violentos.pdf">”</a>, publicado pelo IWGIA (2026) e coordenado pelas autoras deste artigo, demonstra que a violência criminal não se limita a um problema de segurança pública: o crime organizado constitui um mecanismo de controle territorial que busca dominar recursos naturais, rotas estratégicas, atividades produtivas e estruturas de governança comunitária. Estudos de caso mostram que, em muitos lugares, as autonomias indígenas se tornaram espaços de disputa política entre projetos comunitários de autodeterminação e atores criminosos interessados em controlar os territórios.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19761" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-Portada-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Os direitos à autodeterminação e à autonomia dos povos indígenas enfrentam dificuldades em sua concretização, ao mesmo tempo em que a violência criminal aumenta. <strong>Foto: </strong>María del Carmen Ventura Patiño</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um livro que explica a erosão da autonomia indígena</strong></h3>



<p>Carlos Rafael Rea, doutor em Sociologia, revela que, no estado de Nayarit, as comunidades indígenas são atingidas pelo fogo cruzado do conflito armado entre organizações criminosas, resultando em deslocamento forçado, recrutamento de jovens, controle econômico sobre o cotidiano e erosão de suas próprias instituições. A autonomia não desaparece imediatamente, mas sofre um processo de erosão e enfraquecimento progressivos diante de poderes criminosos capazes de substituir ou influenciar as autoridades comunitárias.</p>



<p>Em Guerrero, o caso da Coordenadoria Regional das Autoridades Comunitárias &#8211; Polícia Comunitária (CRAC-PC), analisado por Evangelina Sánchez e Claudia Rangel, ilustra as complexidades da relação entre criminalidade e autonomia. A experiência demonstra como as formas de segurança e justiça baseadas na comunidade podem se tornar alvos prioritários para criminosos e interesses externos que buscam enfraquecer e fragmentar esses esforços de resistência. A violência contra líderes, a cooptação e as tentativas de desmantelar a organização emergem como mecanismos recorrentes para reduzir a capacidade de defesa da comunidade.</p>



<p>Estudos de caso mostram como grupos criminosos instrumentalizam práticas e mecanismos organizacionais indígenas para obter legitimidade ou acesso ao poder local, produzindo uma profunda transformação na vida comunitária. A análise de Enriqueta Lerma sobre o povo Yaqui introduz a noção de &#8220;narcoetnocídio&#8221; para explicar como o crime organizado não apenas exerce violência física, mas também intervém nas estruturas políticas, simbólicas e culturais da comunidade. De forma semelhante, Medardo Tapia desenvolve o conceito de &#8220;acumulação social de violência&#8221;, que explica o aumento de homicídios, extorsão e outras formas de insegurança que afetam a vida comunitária em Coatetelco, Xoxocotla e Hueyapan, no estado de Morelos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19762" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Comunidades indígenas são apanhadas no fogo cruzado entre organizações criminosas. <strong>Foto: </strong>María del Carmen Ventura Patiño</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Ataques à autogovernança indígena</strong></h3>



<p>Ao longo dos capítulos, as linhas tênues entre a violência criminosa e a violência estatal também são documentadas. A professora e pesquisadora Carmen Ventura examina as lutas das comunidades Nahua e Purépecha para defender seus territórios e construir autonomia em contextos de violência estrutural e desapropriação. A autora documenta como os povos indígenas no México enfrentam ameaças decorrentes de economias ilegais, megaprojetos extrativistas e políticas estatais excludentes.</p>



<p>Outros estudos destacam a desapropriação de terras, a tomada de poder por governos locais, ameaças contra autoridades tradicionais, o assassinato de líderes comunitários, o recrutamento forçado de jovens e o deslocamento populacional. Os artigos demonstram que esses mecanismos não operam isoladamente, mas sim como parte de estratégias complexas destinadas a controlar territórios indígenas e neutralizar formas autônomas de organização.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">As diversas evidências apresentadas demonstram que o crime organizado ataca diretamente instituições de autogoverno, formas de organização comunitária e projetos de autodeterminação de povos indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O crime organizado ataca diretamente instituições de autogoverno, formas de organização comunitária e a autodeterminação indígena.</p>
</blockquote>



<p>Outros povos indígenas estão passando por processos de desmantelamento e enfraquecimento de seus órgãos decisórios e de mecanismos de proteção comunitária. Eles enfrentam uma “captura comunitária” que envolve a compra de lealdade de suas autoridades, que então se tornam porta-vozes dos interesses de atores econômicos hegemônicos e economias ilegais, seja por meio de subornos ou pelo uso da força.</p>



<p>As múltiplas evidências apresentadas demonstram que o crime organizado não apenas produz homicídios, deslocamentos e medo, mas também ataca diretamente as instituições de autogoverno, as formas de organização comunitária e os projetos de autodeterminação dos povos indígenas. Esta análise contribui para reformular o debate sobre as autonomias indígenas, indo além das discussões focadas na dimensão jurídica e inserindo-o na perspectiva da segurança territorial, da defesa comunitária e da persistência dos povos indígenas em contextos de extrema violência.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19763" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-3-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Crime organizado combinado com violência estatal. <strong>Foto: </strong>María del Carmen Ventura Patiño</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As respostas dos povos indígenas</strong></h3>



<p>As comunidades estão reconfigurando seus governos locais, criando novos mecanismos para a construção de consenso, fortalecendo laços regionais e forjando alianças para se posicionarem em processos de negociação e estratégias de mobilização política. Em outros casos, recorrem à justiça: entram com ações judiciais contra violações de seu direito à consulta prévia e a desapropriaçao de seus territórios; solicitam a suspensão de projetos de construção; impedem a aplicação de leis contra suas práticas autônomas; denunciam a poluição de seus ecossistemas; exigem a libertação de seus presos políticos; e buscam justiça para os desaparecidos e assassinados. Por fim, recorrem a organizações de direitos humanos em busca de proteção e exigem o respeito ao seu direito à autodeterminação.<strong></strong></p>



<p>Experiências organizacionais regionais, como a Coordenadoria Regional das Autoridades Comunitárias &#8211; Polícia Comunitária (CRAC-PC), na região da Costa Montaña, em Guerrero, garantiram com sucesso a proteção de seus habitantes e estabeleceram um sistema de justiça amplamente reconhecido por mais de 30 anos. No entanto, atualmente enfrenta uma situação crítica devido à expansão de empresas de mineração, à erosão das políticas governamentais voltadas para sua institucionalização e às constantes incursões armadas do crime organizado, que levaram ao deslocamento de mais de 30.000 pessoas de suas comunidades, a dezenas de assassinatos e à prisão de seus defensores.</p>



<p>Em Nayarit, as comunidades implementaram diversas estratégias em resposta à imposição de megaprojetos e à violência extrema, como a revitalização da força policial comunitária no município de Del Nayar, que teve repercussão regional. No entanto, seus líderes foram presos e encarcerados sob a acusação de associação criminosa, o que levou ao seu desmantelamento.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-19764" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B-1024x682.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B-1536x1023.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-2-B.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Apresentação do livro. Em resposta ao crime organizado, os povos indígenas reagiram de diversas maneiras, incluindo a reestruturação de seus governos comunitários e a criação de novos mecanismos para a construção de consensos. <strong>Foto: </strong>Suprema Corte de Justiça da Nação</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Alternativas coletivas para a segurança territorial</strong></h3>



<p>Os territórios dos povos indígenas no sul e sudeste do México foram o foco de projetos geoestratégicos do governo durante o período de 2018 a 2024: o Corredor Interoceânico do Istmo de Tehuantepec (compreendendo dez polos de desenvolvimento) e o Trem Maia (com seus impactos ambientais e sociais em larga escala). A estratégia estatal consistiu em uma combinação de programas de assistência social e ações legais, como a publicação de um decreto que declarou os megaprojetos como de interesse público e segurança nacional, com o objetivo de suprimir uma série de liminares contra esses projetos. Além disso, foram empregadas medidas coercitivas, incluindo prisões, ameaças contra defensores e militarização da região.</p>



<p>Outras iniciativas comunitárias existem em estados como Hidalgo, Veracruz, San Luis Potosí e Michoacán, onde, exercendo sua autonomia, as comunidades criaram guardas comunitárias ou forças policiais para proteger seus territórios. Os membros são nomeados e regulamentados por assembleias comunitárias e sistemas normativos, e prestam um serviço à comunidade: combatem crimes, furtos, extração ilegal de madeira e defendem-se contra incursões armadas. A experiência de San Luis Potosí é particularmente notável: em 90 de suas 389 comunidades, a venda de álcool foi proibida e, em 22 de seus municípios indígenas, existem aproximadamente 5.500 policiais comunitários. Essas ações permitem que mantenham certo controle sobre a segurança e exerçam sua autonomia.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A desapropriação de territórios pelo capital da mineração e da agroexportação, juntamente com a presença de atores armados, põe em risco os processos de autonomia.</p>
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<p class="destacado cel-only">A desapropriação de territórios pelo capital da mineração e da agroexportação, juntamente com atores armados, põe em risco os processos de autonomia.</p>
</blockquote>



<p>Em Michoacán, foi reconhecido o direito ao exercício do que se conhece como &#8220;orçamento direto&#8221;. Isso envolve a administração comunitária dos recursos municipais alocados a cada comunidade com base no tamanho da população. Esses recursos têm sido significativos para a prestação de serviços básicos em mais de 50 comunidades e para a criação de novas instituições de governança (algumas das quais fortaleceram os governos comunitários, enquanto outras foram desmanteladas devido a disputas administrativas).</p>



<p>Por outro lado, apenas essas mais de 50 comunidades têm direito a forças de segurança, o que coloca as mais de 300 comunidades restantes em situação de ilegalidade e as expõe à criminalização. Contudo, a violência está presente em toda a região. Consequentemente, a desapropriação de territórios por empresas de mineração e agroexportação, juntamente com a presença de grupos armados, põe em risco os processos de autonomia.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19765" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Mexico-Octubre-2026-6-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A mobilização comunitária é uma das respostas às ameaças à autonomia indígena. <strong>Foto: </strong>María del Carmen Ventura Patiño</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma situação de emergência permanente</strong></h3>



<p>No estado de Sonora, a construção de um aqueduto e um gasoduto que atravessam terras Yaqui desencadeou uma mobilização generalizada. No entanto, a organização foi infiltrada por agentes do crime organizado, que cooptaram jovens e enfraqueceram a governança tradicional e a força coletiva. Enquanto isso, em Chiapas, a presença paramilitar contínua em territórios indígenas (como parte de uma estratégia de contrainsurgência), aliada a líderes locais autoritários e à presença de atores envolvidos em economias ilegais, representa novos desafios à consolidação dos processos de autonomia de fato. Esses desafios são agravados por megaprojetos, programas sociais liderados pelo Estado e a cooptação de líderes comunitários.</p>



<p>Entretanto, a criação de novos municípios indígenas em Morelos, como meio político de exercer poder e alcançar segurança, também enfrentou contratempos: disputas entre líderes locais, negociações com autoridades governamentais e a incursão do crime organizado enfraqueceram esses processos. Por fim, em Baja California, os Kumiai resistem à violência estrutural que reduziu e fragmentou seu vasto território. Consequentemente, estão construindo alianças com outros povos indígenas, mantendo seus laços espaciais e emocionais, revitalizando sua língua, protestando contra o muro na fronteira, rejeitando o saque de seus sítios arqueológicos, continuando a realizar cerimônias em seus locais sagrados e praticando seu conhecimento do deserto.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Apesar do cerco, os povos indígenas continuam a produzir suas próprias formas de governo, memória e resistência, que constituem uma das expressões mais significativas de democracia e pluralismo político.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Os povos indígenas continuam a produzir suas próprias formas de governo, memória e resistência, que constituem uma das expressões mais significativas da democracia e do pluralismo político.</p>
</blockquote>



<p>Esta breve análise permite destacar que as sociedades indígenas contemporâneas vivem em estado de emergência permanente. Elas não são apenas sujeitos de direito, mas também atores políticos com capacidade para participar ativamente na elaboração de leis que atendam às suas demandas, visando a construção de horizontes de esperança. Os casos documentados no livro México: Autonomias de Norte ao Sul em Cenários Diversos <em><a href="https://www.iwgia.org/joomlatools-files/docman-files/documents/Mexico%20autonomias%20de%20norte%20a%20sur%20en%20escenarios%20violentos.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(</a></em><a href="https://www.iwgia.org/joomlatools-files/docman-files/documents/Mexico%20autonomias%20de%20norte%20a%20sur%20en%20escenarios%20violentos.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>México: autonomías de norte a sur en escenarios diversos),</em></a> ilustram essa realidade. Elas demonstram que as autonomias indígenas não podem ser compreendidas apenas em termos de vulnerabilidade. Diante de contextos de extrema adversidade, essas comunidades continuam a empregar estratégias de resistência, reconstrução organizacional e produção de alternativas políticas.</p>



<p>A principal contribuição deste trabalho reside em demonstrar que o futuro das autonomias indígenas no México dependerá não apenas de novos reconhecimentos constitucionais ou reformas legais, mas também da capacidade de construir condições efetivas para garantir a segurança territorial, a proteção das autoridades comunitárias, o acesso à justiça e o respeito irrestrito às decisões coletivas dos povos indígenas. Pensar as autonomias no século XXI exige reconhecer que a luta central não se trava mais apenas no âmbito dos direitos, mas também na defesa dos territórios contra as múltiplas formas de violência que buscam desmantelar os projetos comunitários. Apesar desse cerco, os povos indígenas continuam a desenvolver suas próprias formas de governança, memória e resistência, que constituem uma das expressões mais significativas de democracia e pluralismo político.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/mexico-regioes-autonomas-sob-ataque-em-contextos-de-extrema-violencia/">México: regiões autônomas sob ataque em contextos de extrema violência</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A autonomia marítima e terrestre do povo Gunadule no Panamá</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/a-autonomia-maritima-e-terrestre-do-povo-gunadule-no-panama/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Bernal Damián Castillo Díaz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:41:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Pueblo Guna]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19749</guid>

					<description><![CDATA[<p>Para o povo Guna, a Avó-Mar é parte integrante de sua identidade. Não é apenas uma fronteira, mas uma extensão vital da Mãe Terra que lhes fornece inúmeros recursos. Um século após conquistarem sua autonomia, os Guna enfrentam o desafio das mudanças climáticas, que estão elevando o nível do mar e impactando seu território de ilhas e litorais. Olhando para o futuro, eles acompanham de perto os projetos de infraestrutura, a educação de seus jovens e a falta de espaço físico nas ilhas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A autonomia do povo Gunadule foi consolidada em 1925 com a Revolução Dule, também conhecida como <em>Bila Igala</em>. Este evento estabeleceu um precedente pioneiro para todos os povos indígenas da América Latina, obrigando um Estado-nação a reconhecer os direitos territoriais e culturais de um povo indígena. Hoje, seu legado continua vivo por meio do autogoverno em seus três territórios: Gunayala, Madungandi e Wargandi, bem como no território ancestral de Dagargunyala e nos territórios de Arquia e Caimán Nuevo, na Colômbia.</p>



<p>Gunayala abrange tanto a terra quanto o mar. Por meio do <em>negsedi </em>(autonomia), o povo Gunadule controla o território terrestre, o espaço marítimo, as ilhas e os recursos marinhos de <em>Muubilli </em>(Avó-Mar). Dessa forma, diante do impacto acelerado das mudanças climáticas, regulamentamos a pesca, o transporte terrestre e marítimo e o turismo de acordo com nossas próprias regras. A comarca de Gunayala consolidou sua autonomia por meio de seus dois congressos principais: o Congresso Geral, de natureza política e administrativa, e o Congresso da Cultura. Dentro dessa estrutura, surgem leis autônomas vitais, como as dedicadas ao cuidado de <em>Nabgwana </em>(Mãe Terra) e <em>Muubilli</em>, que são o cerne da economia, da segurança alimentar e do bem-estar.</p>



<p>Atualmente, é urgente repensar a saúde e a educação para fortalecer a autonomia do povo Gunadule. Embora tenha havido progresso significativo na formação de profissionais Guna, esse esforço tem sido insuficiente para alcançar a autodeterminação, pois fortaleceu o modelo estatal em detrimento de seus próprios sistemas. Os modelos atuais de saúde e educação impõem uma visão colonial e eurocêntrica de controle estatal. Esses sistemas ignoram a medicina sagrada e o conhecimento ancestral Gunadule. Portanto, nosso povo Gunadule deve se unir e dialogar para criar seus próprios sistemas de saúde, educação e gestão territorial. Estes devem ser baseados em sua sabedoria e no espírito da luta de 1925.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19751" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Para o povo Guna, o espaço marinho, as ilhas e os recursos marinhos de Muubilli (Avó-Mar) são parte essencial de seu território ancestral. <strong>Foto: </strong>Bernal Damián Castillo Díaz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Negsedi Igala e Muubilli: autonomia territorial e marítima</strong></h3>



<p>A autonomia Guna é um processo histórico de lutas, negociações e acordos de paz profundamente enraizados na história do povo Gunadule. Consolidou-se em 1925 como resposta em defesa de sua identidade, espiritualidade e da <em>mola </em>(vestimenta tradicional feminina), contra as políticas de aculturação e a imposição forçada do governo panamenho da época. No que diz respeito ao autogoverno, os Congressos Gerais Guna são os órgãos políticos, administrativos, culturais e espirituais da mais alta instância. São responsáveis pelo controle dos recursos, regulamentação da agricultura, planejamento de investimentos e gestão do uso da terra na região.</p>



<p>Entretanto, nossa perspectiva sobre <em>Muubilli </em>(autonomia marítima) está enraizada em uma visão holística: o mar não é meramente uma fronteira, mas uma extensão vital da Mãe Terra. O mar é parte indivisível de nossa identidade ancestral, sustento e sobrevivência. A Secretaria de Transporte Marítimo do Congresso Geral Guna é responsável por exercer essa autonomia, coordenando a navegação e as atividades comerciais dentro do mar territorial. Consequentemente, atividades turísticas como cabanas, barcos e guias também operam sob as regulamentações do Congresso Guna e das autoridades locais. O mesmo se aplica às regulamentações comunitárias relativas à conservação e aos períodos de defeso para a pesca artesanal de lagostas, caranguejos-reais e conchas-rainha, com o objetivo de prevenir a exploração externa.</p>



<p>No entanto, a defesa de seu território marítimo continua sendo um dos principais desafios à autonomia Guna. Em 1987, o Congresso Geral Guna proclamou o território terrestre e marítimo como <em>Reserva da Biosfera Kuna Yala e Patrimônio Mundial</em>, mas o Estado panamenho não reconheceu a totalidade de <em>Muubilli</em>. Em vez disso, por meio de legislação de 1994, declarou apenas um setor do distrito de Narganá como Área de Vida Selvagem Protegida, deixando, assim, de reconhecer a concepção abrangente do povo Kuna sobre seu território marítimo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19752" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-2-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulher Guna chorando. Representação teatral do estupro e da violência perpetrados pela polícia colonial panamenha contra a vestimenta mola. <strong>Foto: </strong>Bernal Damián Castillo Díaz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>As ameaças e os desafios à autonomia</strong></h3>



<p>Assim como em outros territórios da América Latina, o principal desafio para a região insular de Gunayala reside nos megaprojetos. Atualmente, o Contrato de Autorização para o cabo submarino de fibra óptica ARCOS-1 está em revisão. Embora este projeto beneficie exclusivamente empresas internacionais, as comunidades Guna permanecem sem acesso à internet. Simultaneamente, o Congresso Geral Guna autorizou um processo de consulta junto às comunidades a respeito do projeto de Interconexão Elétrica Colômbia-Panamá (tanto marítima quanto terrestre), que faz parte do Projeto de Governo Binacional. Esta consulta está sendo realizada no exercício da autodeterminação e segundo as normas próprias do povo Guna; seu objetivo é informar as comunidades para que uma decisão final possa ser tomada.</p>



<p>Estão também previstas duas estradas: uma entre Mordi e Sasardi Muladub, condicionada ao projeto de interligação elétrica; e uma segunda de Usdub-Ogobsuggun a Wala-Nurra, defendida por várias comunidades e que poderá perturbar o ecossistema. Por fim, tem-se verificado um aumento no número de operadores de iates e veleiros que monopolizam o turismo náutico. Todos estes projetos estão sob análise e deliberação das autoridades Guna, que avaliam a sua compatibilidade com os seus próprios costumes e com a preservação do território Gunayala.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Um segundo desafio reside no crescimento populacional. Atualmente, há falta de espaço físico nas ilhas, o que agrava o desafio de gerenciar resíduos e proteger os recifes marinhos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Um dos desafios reside no crescimento populacional. Atualmente, há falta de espaço físico nas ilhas, o que agrava o desafio de proteger os recifes marinhos.</p>
</blockquote>



<p>Em relação aos desafios da autonomia, o principal deles é a mudança climática. A elevação do nível do mar forçou a realocação de comunidades insulares para o continente, como ocorreu com a realocação da Ilha de Gardi Sugdub. Da mesma forma, a comunidade de Ugguba teve que ser transferida para outra parte da costa devido a inundações e ao impacto das ondas. Consequentemente, desenvolvemos um Plano Estratégico para Gunayala (PEGY), que integra terra e mar para alcançar a consolidação da Reserva da Biosfera de Gunayala.</p>



<p>Um segundo desafio reside no crescimento populacional. Atualmente, há escassez de espaço físico nas ilhas, o que agrava o desafio da gestão de resíduos e da proteção dos recifes marinhos. Também vivenciamos um êxodo constante de membros da comunidade para cidades fora do território devido à falta de oportunidades de emprego e educação adequadas à realidade da região. Por fim, devemos adaptar às novas gerações à modernidade por meio da Educação Bilíngue Intercultural (sem perder a identidade cultural do povo Gunadule), capacitar os jovens na defesa de sua autonomia, promover o uso responsável da inteligência artificial (IA) e fomentar a produção agrícola sustentável e a pesca artesanal para alcançar a soberania alimentar.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="702" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-1024x702.jpg" alt="" class="wp-image-19753" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-1024x702.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-300x206.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-768x526.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-1536x1052.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Panama-Octubre-2026-3-2048x1403.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><strong> </strong><em>As bandeiras de Bila (revolução de 1925) nas comunidades mártires de Yandub e Aggwanusadub. <strong>Foto: </strong>Bernal Damián Castillo Díaz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Reforçar a casa</strong></h3>



<p>A autonomia indígena está viva e forte. No caso do povo Gunadule, indica-se que é hora de embarcar em uma nova <em>Bila </em>(revolução); não mais por meio de armas, mas por meio de palavras, história e sabedoria. Como expressam os anciãos Guna: “<em>Anmar Bila Nongi Uroe</em>” (“Nossa luta será com sabedoria”). Nesta etapa, a resistência passa do confronto físico para a defesa do território por meio do conhecimento, da formação acadêmica, da organização comunitária e da ação política, preparando as novas gerações para preservar a autonomia Gunadule.</p>



<p>Os principais desafios contemporâneos que a autonomia de Gunayala enfrenta são bastante claros: a defesa de <em>Muubilli</em>, a proteção do conhecimento e da sabedoria ancestral e o fortalecimento de <em>Negsedi</em>. Diante dessa situação, afirmamos que o <em>Bila Igar </em>(caminho da guerra) está no espírito de cada Gunadule: está no corpo, no sangue e na própria essência que continua a guiar a defesa da vida, do território e da autonomia do povo Gunadule.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Camilo Niño Izquierdo: “Não é possível falar de autonomia sem falar de território”</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/camilo-nino-izquierdo-nao-e-possivel-falar-de-autonomia-sem-falar-de-territorio/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Laura Camila Galvis Santacruz]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Colombia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19742</guid>

					<description><![CDATA[<p>O líder do povo Arhuaco da Sierra Nevada de Santa Marta (Colômbia) atua há mais de uma década como secretário técnico indígena da Comissão Nacional de Territórios Indígenas (CNTI), órgão de coordenação territorial entre o Governo Indígena e o Governo Nacional. Para Camilo Niño, falar de autonomia significa ir além da linguagem do reconhecimento: ela não se mede em artigos da Constituição, mas na capacidade de um povo de decidir efetivamente sobre assuntos que dizem respeito ao seu território. O anúncio do novo governo de reverter a criação de entidades territoriais indígenas demonstra que reconhecer a autonomia é uma coisa, e aceitar suas implicações para a distribuição do poder territorial é outra bem diferente.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><strong>Laura Galvis Santacruz (LGS): Quando falamos de autonomia indígena na Colômbia hoje, o que isso significa na prática?</strong></p>



<p><strong>Camilo Niño Izquierdo (CNI): </strong>A autonomia é um dos princípios e padrões fundamentais dos direitos dos Povos Indígenas e abrange diversas esferas. Há milênios, lutamos para que nossas diferenças sejam reconhecidas e vinculadas dentro do Estado colombiano. Falar de autonomia é falar de ser indígena a partir de nossos espaços, de nossos territórios. É a autonomia que sustenta a sobrevivência e a continuidade de nossos povos. E dentro desses &#8220;nossos territórios&#8221; reside o direito fundamental que nós, Povos Indígenas, temos ao pleno reconhecimento, que ainda não se concretizou. O território é o fundamento de todos os direitos: sem ele, os demais não poderiam ser realizados. É nele que residem nossos sistemas de conhecimento, onde nossas práticas espirituais e culturais são realizadas, onde se encontram a governança, a autogestão, a saúde e a educação.</p>



<p><strong>LGS: Desde a Constituição de 1991, houve um reconhecimento significativo dessa autonomia. Mais de 30 anos depois, qual é a situação atual?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>A Colômbia fez progressos significativos com a Constituição de 1991. Os povos indígenas tornaram-se atores-chave, e isso se materializou no reconhecimento de nossos territórios, na proteção constitucional das reservas indígenas, na criação de entidades territoriais indígenas, na participação política e na incorporação de normas internacionais que fazem parte do marco constitucional. A Colômbia consagrou os direitos em sua expressão mais plena. Agora, que progressos foram feitos? Em questões territoriais, já havia progresso antes de 1991, porque o sistema de reservas indígenas é anterior à Constituição. Foi na década de 1980 que a maior parte do território foi reconhecida sob esse sistema. Desde então, mais reservas foram reconhecidas, mas em menos terras: mais resoluções e menos hectares. Portanto, mais direitos foram consagrados, mas, na prática, o território titulado permanece desprotegido.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-1024x576.jpeg" alt="" class="wp-image-19744" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-1024x576.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-300x169.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-768x432.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-1536x864.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-1-2048x1152.jpeg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Para o povo Arhuaco, que vive na Sierra Nevada de Santa Marta, o conceito de autonomia abrange seu território. <strong>Foto: </strong>Camilo Niño Izquierdo</em></figcaption></figure>



<p><strong>LGS: Então, onde está a lacuna entre o reconhecimento constitucional e a prática real?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>Poderíamos falar de dois grandes desafios que ainda não foram superados: por um lado, a adaptação institucional; por outro, a necessária adaptação regulatória para agilizar os procedimentos. Mas por trás de ambos está a vontade política. Um exemplo de adaptação regulatória é a modificação do Decreto 2164 de 1995, que durante 30 anos regulamentou a criação, expansão e regularização de reservas indígenas por meio de procedimentos que tornavam seu processamento mais lento. Passamos mais de cinco anos discutindo sua modificação. O decreto que o substituiu, o 1392, foi assinado em 22 de dezembro de 2025, mas, para implementá-lo, a Agência Nacional de Terras precisa emitir suas diretrizes internas. Essas diretrizes definem, na prática, o que se exige de uma comunidade. Já estamos em agosto e ainda não conseguimos discuti-las. Além disso, é aí que, às vezes, acabam surgindo exigências não previstas no decreto.</p>



<p>Em relação à adequação institucional, a Agência Nacional de Terras possui uma Diretoria de Assuntos Étnicos, mas não uma subdiretoria para Assuntos Indígenas. Essa Diretoria atende tanto os povos indígenas quanto às comunidades afrodescendentes e também é responsável pela aquisição de terras. Da forma como os requisitos estão estruturados atualmente, é muito mais fácil para um indivíduo adquirir terras por meio da Agência do que para um povo indígena. Parece haver um ônus adicional quando se trata de nós.</p>



<p><strong>LGS: Pode haver autonomia efetiva sem segurança jurídica e controle real sobre o território?</strong></p>



<p><strong>CNS: </strong>É impossível falar de autonomia sem território. A segurança jurídica vai além de um título. A Agência Nacional de Terras concede o título de um território coletivo por meio de uma resolução que cumpre todos os trâmites legais. Essa resolução é registrada na Superintendência de Notariado e Registro, mas isso não significa que haja proteção integral. O caso mais conhecido é o do povo Nukak, que possui um território reconhecido pelo Estado e uma resolução que lhe garante esse direito, mas não pode exercê-lo porque outros atores estão invadindo-o. Da mesma forma, em Putumayo, o povo Inga recebeu um território, mas nenhum Inga vive lá: eles foram deslocados e outros ocupam esse território. É por isso que insistimos que os territórios devem ser protegidos de forma integral.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="670" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-670x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-19745" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-670x1024.jpeg 670w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-196x300.jpeg 196w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-768x1174.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-1005x1536.jpeg 1005w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-1340x2048.jpeg 1340w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-2-scaled.jpeg 1675w" sizes="auto, (max-width: 670px) 100vw, 670px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Niño Izquierdo destaca que, para os povos indígenas, a aquisição de terras por meio da Agência Nacional de Terras é mais difícil do que para um indivíduo. <strong>Foto: </strong>Camilo Niño Izquierdo</em></figcaption></figure>



<p><strong>LGS: As entidades territoriais indígenas são uma das expressões mais concretas dessa autonomia. Elas representam um ponto final ou são uma ferramenta dentro de um processo mais amplo?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>A Colômbia tem uma dívida histórica. A Constituição estabeleceu a criação de entidades territoriais indígenas e, enquanto isso acontecia, o Artigo Transitório 56 foi incorporado para orientar seu desenvolvimento. Após 34 anos, sua implementação ainda não foi concluída. Houve progresso. O Decreto 1953 de 2014, fruto de uma mobilização, permite que os Povos Indígenas administrem diretamente os recursos do Sistema Geral de Participações, retirando-os dos municípios, que anteriormente os recebiam e firmavam acordos com as reservas. No ano passado, após uma grande mobilização nacional liderada por povos amazônicos, oito entidades territoriais indígenas foram criadas, além de uma em La Guajira. O objetivo é que esses povos exerçam sua autonomia e governança, e tenham financiamento direto, sob a mesma fiscalização que qualquer outra entidade territorial. Para mim, é um ponto de partida, mais do que um destino. Isso foi consagrado na Constituição há 34 anos: é um desenvolvimento do marco constitucional, não obra de um governo específico. Os decretos criam as entidades territoriais, mas não especificam quando ou como elas entrarão em operação. Esse é o desafio.</p>



<p><strong>LGS: O mesmo território pode estar sujeito a diferentes jurisdições, como direitos de superfície, direitos de subsolo, uma área protegida ou uma concessão mineira. O que acontece à autonomia quando essas decisões são fragmentadas?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>O reconhecimento vai além do título concedido, pois muitas vezes ele é reconhecido, mas não vinculativo. Na prática, os municípios não reconhecem o status das reservas indígenas, porque para uma autoridade local é muito difícil reconhecer outra que esteja no mesmo nível. E uma autoridade indígena, além de sê-lo segundo o costume, deve cumprir o procedimento perante a prefeitura e estar registrada no Ministério do Interior. Sem esse requisito, não se trata de uma autoridade. Além disso, há a questão das concessões de mineração e energia. O exemplo mais claro é Putumayo: concentra o maior número de pedidos de expansão, criação e regularização de reservas indígenas, de proteção territorial ancestral e de restituição de terras, ao mesmo tempo que concentra o maior número de pedidos de exploração e produção de energia. Nesse conflito, o que se define como interesse nacional geralmente prevalece.</p>



<p><strong>LGS: E quanto ao conceito de parques naturais nacionais?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>Uma área protegida não salvaguarda o subsolo; a única coisa que o faz é um parque nacional natural. Parece que vivemos a dois metros do solo: só conseguimos ver um pouco lá embaixo, mal onde estamos, e nada mais. E é lá, abaixo de onde estamos, que o Estado concede concessões. Defendemos a proteção integral do espaço aéreo, do espectro eletromagnético usado para comunicações e do subsolo. É por isso que nossa autonomia é limitada: ela só vai até onde a outra parte permite. Em territórios que se sobrepõem a parques, qualquer atividade das comunidades exige a certificação de que não afeta a missão do parque. Há uma perda de autonomia aí, mesmo que nos consideremos coadministradores. Alguns de nossos irmãos e irmãs criticam a designação de parque nacional natural, enquanto outros a veem como uma oportunidade, pois protege territórios. É o caso de Yaigojé Apaporis, onde o Tribunal Constitucional confirmou o estatuto do parque e suspendeu o projeto da mineira Cosigo, e o da Sierra Nevada, face à proposta de construção de uma barragem em Los Besotes. A nação U&#8217;wa, contudo, exige a abolição do parque.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="681" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-1024x681.jpeg" alt="" class="wp-image-19746" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-1024x681.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-300x199.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-768x510.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-1536x1021.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Colombia-Sept-2026-3-2048x1361.jpeg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A designação de Parque Nacional ajudou a interromper a construção da barragem em Los Besotes, Sierra Nevada. <strong>Foto: </strong>Camilo Niño Izquierdo</em></figcaption></figure>



<p><strong>LGS: Há anúncios do novo governo sobre a reversão da criação de entidades territoriais indígenas e um discurso público que as apresenta como “territórios federados” ou como uma ameaça à unidade do país. Como você interpreta esse cenário para a autonomia indígena?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>Há grande preocupação. No direito, existe o princípio da progressividade e não regressão. Há muita desinformação na mídia e falta de informação. Diz-se que as entidades territoriais indígenas serão governos separados, como se um estado estivesse sendo criado dentro do estado colombiano. Há atores pressionando para criar essa desinformação. A realidade é que reconhecer e implementar esses direitos é uma obrigação do Estado. Está previsto na Constituição Política; não é algo novo. Revogar esse marco legal em um Estado com 115 povos indígenas, que reconhece e protege a diversidade étnica e cultural, é violar a própria Constituição.</p>



<p>Entretanto, o governo já está revogando alguns instrumentos: revogou a resolução que reservava a microbacia de La Baja, fora do páramo de Santurbán, e outras resoluções do Ministério do Trabalho que reconheciam os direitos trabalhistas. Muitos instrumentos relacionados aos povos indígenas foram emitidos no final do mandato presidencial anterior, o que levanta preocupações sobre a proteção da Sierra Nevada de Santa Marta, onde mais de 1,5 milhão de hectares foram reservados para fins de mineração e extração de hidrocarbonetos. Também circularam rumores de que o país se retiraria da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, que consagra o direito fundamental à consulta prévia.</p>



<p><strong>LGS: Você sentiu alguma abertura por parte do governo atual, pelo menos para sentar e conversar?</strong></p>



<p><strong>CNI: </strong>Até agora, o governo não nos procurou; só agora estão nomeando diretores e vice-diretores. Mas a consulta sobre o Plano Nacional de Desenvolvimento é uma obrigação do Estado e, para isso, precisamos nos reunir com eles. A Comissão Nacional para os Territórios Indígenas existe e estamos prontos para participar. Caso contrário, buscaremos outras formas de protesto. Sempre buscamos o diálogo e o consenso, mas também o pleno exercício da autonomia e da mobilização. Tudo o que conquistamos foi fruto de reivindicações históricas. Sobrevivemos por mais de 500 anos e entendemos que os governos são temporários, que o Estado é o que permanece. E é importante que os números sejam claros: hoje existem 974 reservas indígenas, com mais de 35 milhões de hectares. Teremos quatro anos para defender o que conquistamos. Um governo pode revogar uma lei, mas não pode apagar anos de luta.</p>
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		<item>
		<title>Das reivindicações territoriais à autogestão indígena: progressos, tensões e perspectivas na Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/das-reivindicacoes-territoriais-a-autogestao-indigena-progressos-tensoes-e-perspectivas-na-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fredy Villagomez]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19729</guid>

					<description><![CDATA[<p>Desde a Constituição Política de 2009 e após um longo processo, foram estabelecidos nove Governos Autônomos Indígenas Camponeses, cada um em diferentes estágios de implementação e administração pública. Esse processo gerou normas, regulamentos, procedimentos e instrumentos baseados nas experiências concretas dos próprios territórios. No entanto, seu estabelecimento não garante sua capacidade efetiva de exercer o poder e tomar decisões sobre questões estratégicas que afetam seus territórios.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Mais de 15 anos se passaram desde a aprovação da Constituição Política do Estado de 2009, que reconheceu o direito dos Povos Indígenas e Nativos Camponeses à autodeterminação, autonomia e autogoverno. Esse reconhecimento abriu um novo capítulo na história das lutas indígenas na Bolívia e permitiu o progresso rumo à institucionalização de suas próprias formas de governo dentro da estrutura do Estado Plurinacional.</p>



<p>Contudo, as Autonomias Camponesas Indígenas (ACII) não surgiram com a Constituição de 2009. Elas são o resultado de um longo processo de reivindicação territorial, recuperação de poderes, reconstrução de instituições comunitárias e busca por reconhecimento político. Assim, após mais de 15 anos de implementação, a questão atual não é mais se as autonomias foram institucionalmente estabelecidas, mas sim em que medida essas instituições transformaram as relações de poder e fortaleceram a capacidade dos Povos Indígenas de governar seus territórios.</p>



<p>Dessa perspectiva, a trajetória das autonomias indígenas deve ser entendida como uma reforma política e administrativa do Estado e como uma luta histórica pelo poder territorial. A questão central é se a institucionalização das regiões autônomas indígenas está permitindo que as estruturas históricas de autogoverno sejam efetivamente orientadas para a gestão pública e territorial, ou se existe o risco de que os governos autônomos reproduzam a lógica administrativa das instituições estatais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19731" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-1-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Miskinchada (círculo de dança) no território do Governo Indígena Challa<strong>. </strong>As Autonomias Indígenas Camponesas são resultado da recuperação territorial e do restabelecimento das autoridades e instituições comunitárias. <strong>Foto: </strong>CENDA / Nilda Pérez</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Das reivindicações territoriais à busca por autoridade</strong></h3>



<p>Ao longo da história, os povos indígenas da Bolívia desenvolveram diversas estratégias de luta, resistência e negociação para defender e reivindicar suas terras e territórios. Essa defesa não se limitou ao acesso à terra, mas também esteve ligada às suas próprias formas de organização, autoridade, gestão de recursos e reprodução da vida comunitária. Nesse processo, a Marcha por Território e Dignidade de 1990 representou um momento significativo para colocar as demandas indígenas em primeiro plano e incorporar o território como uma questão central na agenda política nacional. A reivindicação por territórios indígenas também incluía o reconhecimento de suas próprias formas de organização e seu direito de decidir sobre assuntos que afetam sua vida coletiva.</p>



<p>Posteriormente, essas demandas se traduziram em processos de titulação coletiva de terras, como as Terras de Origem Comunitária (<em>Tierras Comunitarias de Origen</em>, ou TCOs). A titulação contribuiu para o fortalecimento da segurança territorial, da coesão organizacional e da identidade cultural, e possibilitou o desenvolvimento de processos e planos de gestão territorial. Dessa forma, a titulação coletiva de terras constituiu uma base fundamental para o subsequente processo de autonomia, permitindo a transição da reivindicação e defesa do território para uma demanda mais ampla: o exercício da autoridade, a tomada de decisões e a governança do próprio território. Contudo, cabe ressaltar que a propriedade coletiva nem sempre foi suficiente para garantir o controle efetivo contra pressões externas, particularmente aquelas ligadas às atividades extrativistas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A Constituição Política de 2009 inaugurou uma nova era. A Autonomia Camponesa Indígena foi reconhecida como uma forma de organização territorial do Estado e como uma expressão do direito dos Povos Indígenas à autogovernança.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A experiência municipal demonstrou as limitações da participação indígena no município e a necessidade de avançar em direção a formas de governo com maior capacidade de decisão sobre o território.</p>
</blockquote>



<p>Uma segunda fase ocorreu durante a década de 1990, com a municipalização e a participação popular. As organizações indígenas começaram a buscar mecanismos para intervir na administração pública local e orientar as instituições municipais de acordo com as demandas de suas comunidades. A participação no planejamento e na fiscalização social, a criação de distritos municipais indígenas, a eleição de subprefeitos por meio de seus próprios procedimentos e a incorporação de mecanismos comunitários na administração pública foram experiências significativas. No entanto, as limitações da participação indígena dentro do município motivaram a necessidade de avançar em direção a formas de governança com maior poder de decisão sobre seus territórios.</p>



<p>A promulgação da Constituição Política do Estado em 2009 inaugurou uma nova era. A Autonomia Camponesa Indígena foi reconhecida como uma forma de organização territorial do Estado e como expressão do direito dos Povos Indígenas à autogestão. Os primeiros processos (Charagua, Uru Chipaya e Raqaypampa) vivenciaram diferentes formas de articulação entre as estruturas históricas de autogestão e os novos governos autônomos. As assembleias territoriais e outros órgãos comunitários mantiveram um papel central na deliberação, na tomada de decisões e na condução da administração pública.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="652" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x652.jpg" alt="" class="wp-image-19732" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x652.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-300x191.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-768x489.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-1536x978.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-2-1-2048x1304.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Encontro das Autonomias Indígenas das Terras Altas na Assembleia Ordinária<strong>. </strong>A titulação coletiva da terra foi uma base fundamental para o subsequente processo de autonomia. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabé Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A construção do autogoverno indígena</strong></h3>



<p>O estabelecimento dos nove governos autônomos representa um avanço institucional nas formas de governança que estão sendo desenvolvidas. Um elemento primordial é a eleição das autoridades por meio de normas e procedimentos próprios, sem a intervenção de partidos políticos. As eleições são realizadas em assembleias e reuniões públicas, empregando mecanismos como aclamação, o sistema tradicional de votação em fila e outras práticas locais. Em Charagua, os métodos de eleição <em>das capitanias </em>(as estruturas organizacionais territoriais do povo Guarani) são integrados ao sufrágio universal nas áreas urbanas, criando uma experiência de democracia intercultural. Outras regiões autônomas também incorporam princípios como a rotação ou <em>muyu</em>, o reconhecimento da experiência e da trajetória expressos no <em>thaki </em>e a complementaridade entre homens e mulheres.</p>



<p>Um segundo elemento é a representação política vinculada à estrutura territorial. Os ayllus, as capitanias, os subcentros e os centros têm representação nos órgãos governamentais. Em Raqaypampa, a representação legislativa é distribuída entre os cinco subcentros; em Challa, a Assembleia Indígena é composta por representantes dos três ayllus, e o Conselho de Justiça também incorpora essa representação territorial. Outro aspecto é o reconhecimento da assembleia territorial como um espaço de deliberação, tomada de decisões e controle social. Assim, as autoridades do governo autônomo não substituem necessariamente as estruturas comunitárias, mas devem trabalhar em conjunto com elas.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em conjunto, essas experiências demonstram que as comunidades autônomas estão introduzindo elementos de estruturas comunitárias dentro do Estado e gerando novas formas de exercício do poder local.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Comunidades autônomas estão introduzindo elementos de estruturas comunitárias dentro do Estado e gerando novas formas de exercício do poder local.</p>
</blockquote>



<p>Além disso, a democracia comunitária é praticada no âmbito de instituições autônomas. Práticas como deliberação coletiva, representação territorial, rodízio de cargos, eleições com normas e procedimentos próprios e fiscalização comunitária são integradas ao governo autônomo. Essas práticas são articuladas com mecanismos de democracia representativa, como ocorre em Charagua. Um último desenvolvimento significativo é a incorporação da Jurisdição Camponesa Indígena (<em>Jurisdicción Indígena Originario Campesina</em>, ou JIOC) como parte do exercício do autogoverno. Seus estatutos incorporam normas, procedimentos e autoridades próprias para a resolução de conflitos, em conjunto com as estruturas territoriais.</p>



<p>Em conjunto, essas experiências demonstram que as regiões autônomas estão introduzindo elementos e mecanismos de estruturas comunitárias no Estado e gerando novas formas de exercício do poder local. Por meio do exercício do seu direito ao autogoverno, os povos indígenas estão definindo, em nível local, os termos de sua participação e integração ao Estado, embora ainda seja necessário superar inúmeras barreiras burocráticas, exigências administrativas e obstáculos regulatórios. Consequentemente, eles têm construído progressivamente um roteiro para a implementação.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19733" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-3-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Aprovação do Manifesto da Assembleia Ordinária da CONAIOC no GAIOC Yura. As eleições para as autoridades são realizadas em assembleias e reuniões públicas. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabé Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Tensões e limites da autonomia indígena</strong></h3>



<p>Apesar desses avanços, ainda existem limitações significativas na transformação do reconhecimento formal da autogestão em uma capacidade efetiva de gestão e controle territorial. Uma das principais limitações é que a administração pública continua fortemente condicionada por normas e procedimentos nacionais. Isso reduz a autonomia dos governos indígenas na definição da alocação de recursos de acordo com suas prioridades, potencial e práticas de gestão próprias. A gestão de recursos ainda apresenta características semelhantes à gestão municipal, situação que levou as organizações indígenas autônomas a proporem uma Lei de Gestão Pública que permita a incorporação de mecanismos locais.</p>



<p>Outra dificuldade reside na limitada geração de recursos próprios, o que restringe sua capacidade de desenvolver políticas e ações com maior autonomia em relação aos poderes e recursos fornecidos pelo governo central. Isso é agravado pelo longo e complexo processo burocrático, administrativo e jurídico necessário para alcançar e implementar a autonomia indígena. Por fim, existem conflitos e tensões internas relacionados à representação política, à localização das sedes governamentais, ao reconhecimento de diferentes setores, às visões de desenvolvimento, à sobreposição de modelos de organização territorial e à presença de diversos atores e interesses.</p>



<p>Essas limitações revelam uma tensão fundamental: a institucionalização da autonomia não garante, por si só, o exercício efetivo do autogoverno. Após mais de quinze anos de implementação, é necessário analisar em que medida os governos autônomos indígenas estão fortalecendo sua capacidade efetiva de exercer poder e tomar decisões sobre seus territórios. Essas entidades autônomas possuem estatutos, poderes, órgãos legislativos e executivos, orçamentos e sistemas administrativos; contudo, ainda enfrentam limitações para intervir em questões estratégicas que afetam seus territórios.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19734" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-4-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Raquel Antunez, presidente da CONAIOC. A geração limitada de recursos próprios restringe a capacidade de desenvolver políticas e ações com maior autonomia. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabé Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do governo autônomo ao controle territorial</strong></h3>



<p>Atualmente, os governos autônomos indígenas estão em processo de construção e fortalecimento de seus próprios mecanismos de gestão pública, buscando integrar a administração de recursos econômicos às suas estruturas institucionais e territoriais. Essas iniciativas incluem a contratação de fornecedores locais, mecanismos de planejamento e fiscalização comunitária, protocolos de consulta prévia e regulamentações relacionadas ao cuidado e uso de recursos comuns. Esses mecanismos demonstram um esforço para adaptar progressivamente a gestão pública às características e prioridades de cada território.</p>



<p>O estabelecimento de governos autônomos também levou a uma reconfiguração das relações de poder nesses territórios. A institucionalização de novas formas de representação e tomada de decisão abriu espaços para a participação e a redistribuição do poder político. As assembleias territoriais adquiriram um papel significativo na eleição de autoridades, na definição de prioridades de planejamento e na supervisão da gestão de recursos públicos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">No Ayllu Jatun Ayllu Yura, organizações levantaram reivindicações relacionadas aos benefícios econômicos derivados das atividades hidrelétricas desenvolvidas em seu território.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">No Ayllu Jatun Ayllu Yura, organizações levantaram demandas relacionadas aos benefícios econômicos derivados das atividades hidrelétricas.</p>
</blockquote>



<p>Contudo, o controle territorial efetivo por meio do autogoverno ainda está em seus estágios iniciais. Grande parte do poder concedido aos governos autônomos concentra-se na gestão administrativa, enquanto as decisões estratégicas relativas a certos recursos naturais e atividades econômicas permanecem fortemente regulamentadas ou reservadas ao governo central. Isso cria uma tensão entre o reconhecimento da autogovernança e a capacidade efetiva dos povos indígenas de decidir sobre processos que afetam diretamente seus territórios.</p>



<p>Existem, no entanto, experiências que demonstram possibilidades de ampliar essa capacidade de ação. Em Charagua Iyambae, foram desenvolvidos mecanismos para intervir na defesa territorial e em processos relacionados à proteção de áreas de conservação. No Ayllu Jatun Ayllu Yura, organizações levantaram reivindicações relacionadas aos benefícios econômicos derivados das atividades hidrelétricas realizadas em seu território. Em Challa, a criação do Conselho de Justiça abre possibilidades para fortalecer o papel das autoridades indígenas na resolução de conflitos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19735" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Bolivia-Sept-2026-5-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Encontro das autonomias indígenas das Terras Altas em Raqaypampa.Atualmente,os governos autônomos indígenas estão em processo de construção e fortalecimento de seus próprios mecanismos de gestão pública. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabé Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Do autogoverno ao Estado Plurinacional: um horizonte a ser construído</strong></h3>



<p>A trajetória das autonomias indígenas na Bolívia pode ser entendida como um processo que vai das reivindicações territoriais à busca pelo poder de governar o território. Primeiro, por meio da defesa, mobilização social e recuperação territorial; segundo, por meio da recuperação e fortalecimento de suas próprias autoridades e mecanismos; terceiro, por meio da participação e apropriação dos espaços de gestão municipal; e, finalmente, após a promulgação de uma nova Constituição Política, por meio da institucionalização do autogoverno por meio das autonomias indígenas.</p>



<p>O resultado é significativo e evidente no estabelecimento de nove governos indígenas, com estatutos, estruturas institucionais, mecanismos de democracia comunitária, representação territorial e experiências na articulação de formas históricas de autogoverno e administração pública. Apesar de muitas limitações, esses avanços contribuem para a construção do Estado Plurinacional, ainda que de forma minimalista, e também para a concretização da democracia intercultural. O desafio continua sendo avançar rumo a um autogoverno genuíno e a um controle territorial efetivo.</p>



<p>Contudo, o reconhecimento institucional da governança indígena não é sinônimo de autogoverno. O desafio atual reside em consolidar essas novas instituições para que contribuam efetivamente para a transformação das relações de poder e, ao mesmo tempo, para o fortalecimento das estruturas territoriais indígenas como espaços de tomada de decisão política. Em última análise, trata-se de passar da governança formal para o exercício efetivo da autoridade sobre o território e, a partir daí, contribuir para a construção de um Estado plurinacional.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Autonomias sociais e a crise da modernidade colonial</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/10/01/autonomias-sociais-e-a-crise-da-modernidade-colonial/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Roberto Espinoza]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 01 Oct 2026 00:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19720</guid>

					<description><![CDATA[<p>As experiências de autonomia e autodeterminação dos povos e nações indígenas constituem processos diversos, abertos e em constante evolução. De seus territórios ancestrais às cidades, suas práticas de autogoverno e organização comunitária são reproduzidas, interagem e inspiram novas experiências de autonomia social. Sua expansão impõe novos desafios aos Estados-nação e abre debates sobre formas de organização, territórios e os horizontes da mudança social. Podem ser contidos e reprimidos, mas não há como voltar atrás. Vieram para ficar, para se adaptar e para mudar, como acontece com qualquer processo social complexo.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Autonomias, autogovernos e autodeterminações podem ser amazônicas, andinas, de terras altas ou costeiras. Mas a maioria é rural. Isso evoca a imagem de sermos como ilhas à deriva em vastos mares de poder colonial, conhecimento e existência. Os perigos do naufrágio surgem quando adicionamos as intensas tempestades globais e nacionais de violência racista e extrativista da modernidade colonial, que foram ocultadas por um tempo sob a aparente “democracia liberal” e que hoje aprofundam a desapropriação aberta de territórios e a marginalização de direitos.</p>



<p>A modernidade colonial deu origem e multiplicou dois grandes monstros globais que enfrentamos hoje: a crise climática e o autoritarismo racista. Ambos afetam desproporcionalmente os povos indígenas e os movimentos sociais, impactando seus territórios, modos de vida e direitos, mas também porque encontram neles sociedades em movimento, capazes de construir resistência contra essas ameaças. A expansão das atividades extrativistas e as novas formas de autoritarismo não são fenômenos isolados: aprofundam as condições de desapropriação e desigualdade que historicamente afligem esses povos.</p>



<p>As autonomias rurais, urbanas, indígenas ou sociais podem ser formalmente estabelecidas e proclamadas após uma assembleia, congresso ou outro evento coletivo. No entanto, suas origens são frequentemente muito mais profundas e precedem em muito esse momento de proclamação. Suas forças motrizes geralmente se encontram em conflitos de grande escala e lutas pela defesa de direitos, territórios, recursos comuns e seus próprios modos de vida. Nesse sentido, a autonomia não começa com uma declaração: ela se constrói por meio da organização cotidiana, da capacidade de tomada de decisão coletiva e da experiência acumulada no enfrentamento de ameaças e na defesa de direitos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19722" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-1.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Artesãos de Qocha Moqo, Nação Q&#8217;eros, Cusco (Peru). A crise climática e o autoritarismo racista são dois monstros engendrados pela modernidade colonial. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani Ccallaccassi</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Motivações das comunidades autônomas</strong></h3>



<p>Construir a legitimidade das regiões autônomas, com base na unificação paciente das diversas organizações do mesmo povo, é o que dá solidez e raízes estáveis ao processo. O reconhecimento legal pelo Estado é importante e um direito fundamental, mas não é a prioridade e vem em segundo plano. Nessa perspectiva, a autonomia de fato é necessária primeiro, abrindo caminho para que a autonomia de direito se desenvolva posteriormente. Assim, priorizamos o princípio da realidade em detrimento da formalidade e da burocracia.</p>



<p>O território é um eixo central da autonomia: é tanto o espaço físico quanto um sistema integrado que articula a vida, o habitat, a cultura, a espiritualidade, a comunidade e a sustentabilidade dos bens comuns, dos recursos comuns e dos usos comuns que os &#8220;comunalizam&#8221; por meio de avanços e retrocessos. Implica pactos ou visões sociais que cristalizam processos e lideranças, como o profundo cuidado com a generosidade da natureza (Mãe Terra ou <em>Yakumama</em>) ou o habitat urbano biocultural. O território não se limita a uma mercadoria ou a um meio de obter lucro com o poder: é uma necessidade para viver em paz, manter a harmonia e alcançar o bem-estar ou uma vida plena.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A sucessão intergeracional exige que os jovens conheçam e mantenham viva a memória coletiva, fortaleçam seus vínculos com os processos de resistência e contribuam para a recriação de novos espaços de autodeterminação.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A sucessão intergeracional exige que os jovens mantenham viva a memória coletiva e fortaleçam seus laços com os movimentos de resistência.</p>
</blockquote>



<p>A autonomia precisa ser significativa e necessária para suas populações, não apenas em suas dimensões política, histórica, filosófica ou ideológica, mas também para garantir uma melhor qualidade de vida em geral — no cotidiano, na vida pessoal, familiar e coletiva. Isso é essencial para a permanência e a unidade da autonomia, especialmente para a gestão das diferenças e para evitar a polarização e a fragmentação, que muitas vezes estão ligadas a disputas por espaços eleitorais ou pelo poder dentro do Estado (dois perigos latentes que ameaçam e fragmentam a autonomia social).</p>



<p>Também são fundamentais a resistência histórica em defesa do território (em suas dimensões material, cultural e espiritual) e a participação das mulheres, com sua força e propostas em ações organizadas. Cada geração enfrenta o desafio de sustentar a defesa da autonomia sem se subordinar ao Estado. Em contextos de crise e violência, as respostas coletivas e regulamentadas de guardas indígenas ou comunitários ao crime tornam-se especialmente relevantes. Por fim, a renovação intergeracional exige que os jovens conheçam e mantenham viva a memória coletiva, fortaleçam seus laços com os movimentos de resistência e contribuam para a criação de novos espaços de autodeterminação.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19723" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-2.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Assembleia na comunidade de Coyllorpukio, distrito de Santiago, Cusco.A participação das mulheres em ações organizadas é fundamental. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani Ccallaccassi</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que dificulta e desarticula as regiões autônomas?</strong></h3>



<p>É importante identificar os processos que penetram o âmago das regiões autônomas, alimentados por pressões externas e que podem se normalizar, pois, se não forem resolvidos, ameaçam desintegrá-las por dentro. Dentre esses fatores, destaca-se o sistema de educação estatal, privado ou religioso. Originário de fora desses territórios, ele aprisiona crianças e jovens, isola-os e os distancia da dinâmica familiar e social, interrompendo, assim, a transmissão de valores, visões de mundo e estruturas autônomas.</p>



<p>Outro problema reside nos programas de assistência social oferecidos pelo Estado, empresas, ONGs, igrejas e partidos políticos. Além disso, as campanhas eleitorais criam cenários de demagogia, manobras políticas e polarização, que afetam os processos organizacionais, e, uma vez dissipado o entusiasmo inicial, torna-se difícil reacender o ímpeto em prol da autonomia. Soma-se a esses desafios a infiltração de seitas religiosas, que corroem a espiritualidade local, semeiam a discórdia nas comunidades e dividem as organizações.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Por fim, há a crescente violência decorrente do tráfico de drogas, da mineração legal e ilegal, das operações extrativas e dos assassinatos por encomenda, que afetam particularmente as cidades.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Pior ainda, os partidos políticos optam pela manipulação ou instrumentalização de organizações para atingir suas ambições de maior poder partidário.</p>
</blockquote>



<p>Por sua vez, os partidos políticos <em>dividem </em>cidades, comunidades, famílias e organizações. A armadilha de acreditar que o único espaço para mudar a realidade social reside no Estado e nos cargos estatais (prefeito, deputado, funcionários) minimiza, relega e abandona a ação popular, que é a verdadeira forma de ação social e política. Pior ainda, os partidos políticos optam pela manipulação ou instrumentalização das organizações para suas próprias ambições de maior poder partidário.</p>



<p>Por fim, há a escalada da violência decorrente do tráfico de drogas (produção, comercialização e distribuição), da mineração legal e ilegal, das indústrias extrativas (hidrocarbonetos, soja, óleo de palma) e dos assassinatos por encomenda, que afetam particularmente as cidades. Essa violência caminha lado a lado com o colapso do Estado, da democracia e a corrupção interna nas organizações, o que fomenta a cumplicidade com o crime organizado. O resultado é o assassinato ou a perseguição de líderes comunitários e o enfraquecimento do tecido social, fundamento essencial para processos autônomos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="655" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-1024x655.jpg" alt="" class="wp-image-19724" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-1024x655.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-300x192.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-768x491.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-1536x982.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-3-2048x1310.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Protesto contra o governo de Dina Boluarte em janeiro de 2023.Os partidos políticos dividem cidades, comunidades, famílias e organizações. <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani Ccallaccassi</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Novos horizontes de significado</strong></h3>



<p>Esta revisão sugere a reabertura de debates com base na experiência dos movimentos sociais e na sociedade em movimento (rural e urbana) em suas dinâmicas mais profundas. Portanto, é necessário fortalecer os horizontes futuros gerados por práticas autônomas: autogovernança, liderar pelo exemplo, <em>Allin Kawsay </em>(o “bem viver” do povo Quechua), <em>Tarimat Pujut </em>(a “vida plena” dos povos Wampís e Awajún da Amazônia) e <em>Ñandereko </em>(“nosso modo de ser” na língua Guarani). Da mesma forma, nas áreas urbanas, a cidade comunitária, o habitat biocultural vivo, a autogestão urbana e a<em> rururbanidade</em>.</p>



<p>É importante evitar o estabelecimento de essencialismos imutáveis, exigir ação coletiva e fazê-la em comum, isto é, &#8220;comunitarizar&#8221;. Devemos problematizar essas questões como abertas às mudanças dos tempos e das realidades. Devemos evitar teorias ou &#8220;holismos fechados&#8221; que consideram os conjuntos sociais locais, nacionais e globais como estruturas fixas, estáticas e dogmáticas. O desafio é manter as abordagens holísticas dos Povos Indígenas, que compreendem o todo como um sistema dinâmico, aberto, flexível, interconectado e em constante evolução.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Seu objetivo é revelar um padrão global de poder na <em>modernidade colonial e capitalista</em>, que ameaça todas as formas de vida e está entrando em uma crise generalizada por meio da crise climática, da desigualdade e da ascensão do racismo e da polarização.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Trata-se de revelar um padrão global de poder da <em>modernidade colonial e capitalista</em>, que ameaça todas as formas de vida e entra em uma crise generalizada.</p>
</blockquote>



<p>Para avançar, não se trata mais de se apegar a um tipo específico de linguagem; nem de essencializar as categorias, conceitos, teorias ou discursos de um movimento; e muito menos de repetir o egocentrismo de certos indivíduos. Trata-se de propor sugestões teóricas motivadoras e resolver inconsistências, problemas e questões-chave. Enquanto alguns continuam a recorrer a discursos do passado, o que realmente se faz necessário são novas teorias e novos horizontes de significado, impulsionados pelo dinamismo das sociedades e regiões autônomas em movimento.</p>



<p>Trata-se de ir além do “modo de produção” e revelar que estamos sob uma estrutura de poder global da <em>modernidade colonial e capitalista</em>, que ameaça todas as formas de vida e está entrando em uma crise generalizada por meio da crise climática, da desigualdade e da ascensão do racismo e da polarização. Não se pode viver sem o mercado ou o Estado, mas também não se pode sobreviver dentro deles: é por isso que os Povos e as Comunas estão em uma encruzilhada, tendo que assumir o controle de sua sobrevivência e de seu futuro. As relações sociais de reciprocidade e sua expressão na <em>forma social da comuna </em>devem enfrentar o desafio de se expandir, coexistir com o mercado e o Estado e influenciá-los. Nunca haverá uma substituição completa de um tipo de sociedade por outro, e a mudança social envolverá transições de interpenetração entre o antigo e o novo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19725" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/10/Autonomia-Octubre-2026-4-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Protesto contra Dina Boluarte em Huarocondo, Anta, Cusco. Os debates devem ser reabertos com base na experiência dos movimentos sociais e da sociedade em movimento (rural e urbana). <strong>Foto: </strong>Yaymy Mamani Ccallaccassi</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O autogoverno frente ao Estado unitário em crise</strong></h3>



<p>A evidência histórica indica que a mudança social fracassou como um ato extraordinário, seja pela tomada do poder pela força ou por eleições, seja como uma ruptura “predestinada” de uma sociedade ideal. É essencial redefinir a mudança social como uma mutação social, exigindo uma transformação holística, uma interrelação de múltiplas mudanças e processos de longo prazo. Devemos transformar a colonialidade do poder, que tem uma cor, historicamente constituída sobre a dominação de “raças” indígenas e afrodescendentes (raças inventadas para justificar o racismo biológico), a fim de marginalizar as Nações e os Povos de Abya Yala.</p>



<p>Assim, a mudança social é inevitável no cotidiano e exige a descolonização simultânea do poder, do conhecimento e do ser. Mas também é necessário desmantelá-la de maneiras diversas e heterogêneas nas áreas do sexo (do patriarcado ao feminicídio), do trabalho (exploração laboral e formas modernas de escravidão), dos imaginários (eurocentrismo), da autoridade (estatismo) e da natureza (ecocídio, extrativismo e tecnolatria).</p>



<p>Essa complexidade implica que o Estado pode ser uma importante arena de luta, mas não pode ser o único caminho. O século XX foi repleto desse erro estratégico, que sempre terminou em falsas esperanças e frustrações. Portanto, será impossível mudar padrões mentais unicamente por meio da estrutura estatal: o Estado é apenas mais uma arena de lutas, conflitos e desafios. No âmbito da autoridade coletiva, trata-se de desenvolver estruturas, processos e visões baseados na autogestão dos Povos e das Comunas, em contraposição àquelas baseadas no Estado uninominal, que atualmente se encontra em crise.</p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pramasti Ayu Kusdinar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19392</guid>

					<description><![CDATA[<p>Embora a Indonésia represente apenas cerca de 1,3% da superfície terrestre, o país abriga a terceira maior extensão de florestas tropicais do mundo. Essas florestas ostentam alguns dos mais altos níveis de biodiversidade, abrigando 17% de todas as espécies de aves e 12% de todas as espécies de mamíferos. Para as comunidades indígenas que as habitam, as florestas fornecem todo o alimento, medicamentos e materiais de que necessitam, além de sustentar seus valores culturais e preservar o conhecimento ancestral transmitido de geração em geração.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As florestas tropicais da Indonésia estão desaparecendo rapidamente. <a href="https://auriga.or.id/press_release/detail/65/status-of-deforestation-in-indonesia-2025" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório sobre o estado do desmatamento na Indonésia 2025, elaborado pela Auriga Nusantara, registrou a perda de 433.751 hectares de floresta, 66% a mais do que os 261.575 hectares desmatados em 2024.</a> Papúa apresentou o maior aumento na perda florestal em todo o país, com um acréscimo de 348%, totalizando 60.337 hectares. A maior parte dessa perda ocorreu em Merauke, onde um projeto nacional de produção de alimentos e bioetanol, sob controle militar, ameaça aproximadamente dois milhões de hectares de floresta tropical e os direitos dos povos indígenas.</p>



<p>Da mesma forma, <a href="https://www.aman.or.id/publication-documentation/330" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Relatório de Fim de Ano de 2025 da Aliança dos Povos Indígenas do Arquipélago (AMAN) registrou 135 casos de desapropriação de territórios indígenas, em comparação com 121 no ano anterior</a>. O setor de mineração foi responsável pelo maior número de casos, com 69 incidentes afetando 1,06 milhão de hectares. O setor de plantações causou os danos mais extensos, atingindo 1,95 milhão de hectares. Nesse mesmo ano, as comunidades indígenas perderam 3,8 milhões de hectares de seus territórios ancestrais e as autoridades criminalizaram 162 indígenas por defenderem seus espaços de vida.</p>



<p>Em termos gerais, três mecanismos interrelacionados impulsionam tanto a degradação ecológica quanto às violações dos direitos indígenas. Primeiro, a legislação reduz a realidade ecológica em categorias administrativas, como florestas estatais e zonas industriais. Segundo, <em>o extrativismo </em>concebe a natureza como capital a ser explorado: a Lei de Mineração de Minerais e Carvão, a Lei de Plantações e a Lei de Criação de Empregos fornecem a base legal para a expansão da mineração e das plantações de palma de óleo. Terceiro, as políticas de conservação e climáticas que excluem a participação indígena frequentemente reproduzem a mesma lógica extrativista: os mercados de carbono restringem o acesso indígena às suas florestas por meio de proibições que afetam a agricultura itinerante e a coleta de lenha.</p>



<p>Esses três mecanismos convergem no mesmo ponto: os corpos das mulheres indígenas, que dia após dia cuidam e sustentam suas terras e comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="691" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg" alt="" class="wp-image-19569" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-300x202.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-768x518.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1536x1037.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2.jpg 1760w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres secando café em Tebat Pulau, Sumatra. Até 2025, as comunidades indígenas na Indonésia terão perdido 3,8 milhões de hectares de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Arquivo Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O fardo que recai sobre os corpos das mulheres indígenas</strong></h3>



<p>As mulheres indígenas buscam água, coletam lenha e plantas medicinais e cuidam das culturas de rotação. Quando os ecossistemas se degradam, essas tarefas se tornam mais árduas e perigosas. Quando os rios são poluídos, as mulheres precisam percorrer distâncias maiores para encontrar água limpa. Quando as florestas desaparecem, as plantas medicinais também desaparecem, deixando as mulheres cuidando de parentes doentes sem os remédios que tradicionalmente utilizam.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também está ligada a problemas de saúde. <a href="https://www.liputan6.com/regional/read/4016058/perempuan-baja-di-pusaran-tambang" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mulheres que vivem perto de minas de carvão em Kalimantan Oriental relatam que a poeira das estradas usadas para o transporte de materiais de mineração interfere em seus ciclos menstruais e afeta a saúde de seus filhos</a>. A água contaminada com metais pesados causa infecções de pele e distúrbios reprodutivos. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) raramente coletam esses dados, pois medem parâmetros de qualidade da água e limites de emissão, mas não o impacto do trabalho doméstico sobre as mulheres ou sua saúde reprodutiva.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Quando as florestas são substituídas por plantações, as mulheres perdem a renda que obtêm dos produtos florestais e sua posição no lar fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p>Por sua vez, a deterioração dos ecossistemas interrompe a transmissão do conhecimento ecológico indígena. Durante gerações, as mulheres indígenas adquiriram conhecimento sobre épocas de frutificação, ciclos de migração animal e a localização de plantas medicinais por meio da observação direta. Nos territórios indígenas Rejang, Serawai e Malin Deman, em Bengkulu, as mulheres indígenas identificam centenas de espécies de plantas florestais que utilizam como alimento e remédio. Quando as florestas são desmatadas para plantações ou mineração, as gerações mais jovens perdem a oportunidade de adquirir esse conhecimento em primeira mão.</p>



<p>Por fim, os territórios indígenas também constituem espaços para a vida ritual e as atividades econômicas das mulheres. Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família é enfraquecida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19395" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Com a degradação dos ecossistemas, a carga de trabalho e os riscos para as mulheres indígenas na Indonésia aumentam. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A crise climática agrava a dupla carga</strong></h3>



<p>As crises da biodiversidade e do clima estão intimamente ligadas. O desmatamento libera o carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. As mulheres indígenas são as mais afetadas por ambas as crises. Com o desaparecimento das florestas, o solo perde sua capacidade de reter água. As estações secas tornam-se mais secas e as estações chuvosas trazem um risco maior de inundações. As mulheres, responsáveis por garantir água para suas famílias, precisam percorrer distâncias cada vez maiores durante a estação seca e enfrentam danos às suas plantações e poluição da água durante a estação chuvosa.</p>



<p>As mudanças nas épocas de plantio também afetam o conhecimento das mulheres indígenas sobre os indicadores ecológicos. Quando os ciclos sazonais se tornam imprevisíveis, as colheitas diminuem. Em muitas famílias indígenas, as mulheres são as primeiras a reduzir suas próprias porções de comida para garantir que seus filhos tenham o suficiente para comer. Os mecanismos do mercado de carbono acrescentam ainda mais riscos. Eles exigem grandes extensões de floresta e, como consequência direta, muitas vezes impõem restrições de acesso que não levam em consideração as necessidades das mulheres indígenas de praticar a agricultura itinerante e coletar resina e lenha.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também ameaça espécies-chave que são parte integrante dos sistemas de conhecimento das mulheres indígenas. O tigre-de-sumatra, o orangotango e o elefante estão perdendo seus habitats à medida que as florestas são convertidas em plantações de palma de óleo e áreas de mineração. Para as mulheres indígenas, a presença de certas espécies serve como indicador da qualidade da floresta e da água. Quando essas espécies desaparecem, as mulheres perdem uma das ferramentas que usam diariamente para interpretar e compreender seu ambiente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19571" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2.jpg 1840w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Floresta tropical em Bengkulu.O desmatamento libera carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mulheres e a recuperação de bens comuns</strong></h3>



<p>Mulheres indígenas estão liderando a resistência contra projetos extrativistas e desenvolvendo práticas de conservação baseadas em conhecimentos tradicionais. Em <a href="https://www.voaindonesia.com/a/protes-pabrik-semen-9-perempuan-semen-kakinya-/3282635.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Kendeng, elas cobriram os pés com cimento em frente ao Palácio Presidencial para protestar contra a construção de uma fábrica de cimento nas montanhas</a> e, em seguida, continuaram seu trabalho de ativismo monitorando a qualidade e o fluxo da água das nascentes. Enquanto isso, <a href="https://www.konde.co/2026/04/salib-merah-dan-anyaman-keteguhan-perlawanan-mama-mama-menolak-psn-di-merauke/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres em Papúa resistiram à expansão de um projeto agroindustrial em larga escala em Merauke e documentaram seu conhecimento sobre o processamento do sagu para evitar sua perda</a>.</p>



<p>Em Bengkulu, <a href="https://akar.or.id/konsolidasi-perempuan-akar-rumput-bengkulu-merawat-ruang-hidup-memperkuat-solidaritas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as mulheres Rejang preservam sementes de variedades locais de arroz entre as épocas de plantio, criando um banco de germoplasma vivo, ao mesmo tempo que mantém a rotação de culturas para restaurar a fertilidade do solo</a>. Nas aldeias de Merpas e Linau, na costa sul de Bengkulu, as mulheres evitaram usar equipamentos de pesca destrutivos e concordaram em estabelecer áreas de desova na lagoa. Essas práticas demonstram que a conservação não exige o deslocamento de pessoas de áreas protegidas. A conservação baseada no conhecimento das mulheres indígenas depende de sua participação ativa, e não da restrição de acesso.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas, promove o trabalho conjunto com organizações jurídicas e pressiona por políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas e promove o trabalho com organizações jurídicas como o escritório de advocacia Akar.</p>
</blockquote>



<p>A Akar Global Initiative desenvolveu a estrutura <a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Reconstruindo os Bens Comuns (Rebuilding the Commons</em></a><a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/">)</a> para fortalecer as contribuições das mulheres em quatro dimensões. <em>A Gestão Comum da Terra </em>reivindica terras indígenas como espaços para gestão coletiva por meio de mapeamento participativo, restauração baseada em espécies locais e formas de governança coletiva que incluam mulheres indígenas na tomada de decisões. A <em>Gestão Comum do Cuidado </em>reconhece o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres como trabalho ecológico e promove sua sustentabilidade por meio de infraestrutura de água potável, documentação do trabalho de cuidado e serviços de saúde reprodutiva nas áreas afetadas.</p>



<p><em>A Cultura do Comunismo </em>recupera práticas rituais indígenas e conhecimentos ecológicos por meio da documentação oral e de programas educacionais intergeracionais, permitindo que as gerações mais jovens recebam a sabedoria dos mais velhos. <em>O Movimento do Comunismo </em>constrói solidariedade entre as comunidades de mulheres indígenas, promove a colaboração com organizações jurídicas como o Escritório de Advocacia Akar e defende políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas para a obtenção de licenças relacionadas a projetos de mineração, plantações e energia. Essas quatro dimensões se reforçam mutuamente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="758" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg" alt="" class="wp-image-19397" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-300x222.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-768x568.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam desproporcionalmente as mulheres indígenas, que interagem com a natureza diariamente. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios no terreno</strong></h3>



<p>Essa estrutura de ação coletiva enfrenta três desafios específicos . Em muitas regiões, as estruturas tradicionais posicionam os homens como representantes da comunidade, de modo que a participação formal das mulheres indígenas frequentemente encontra resistência. Os programas de conservação ainda medem seus resultados com base no tamanho das áreas protegidas ou no volume de carbono armazenado, em vez de nas mudanças nas condições de vida das mulheres indígenas. Enquanto esses indicadores permanecerem inalterados, as contribuições das mulheres indígenas continuarão sem o devido reconhecimento. Além disso, a expansão da mineração e dos projetos estratégicos aumenta ano após ano, o que significa que os processos de recuperação liderados pelas comunidades enfrentam novas ameaças cuja escala excede a capacidade dos povos indígenas de responderem por conta própria.</p>



<p>Por sua vez, a restauração e a recuperação da biodiversidade e dos ecossistemas exigem mudanças legais, e não apenas programas de reabilitação técnica. As avaliações de impacto ambiental devem incorporar indicadores que levem em conta os efeitos sobre os corpos das mulheres indígenas, como a distância que precisam percorrer para encontrar água potável ou o número de plantas medicinais que deixaram de estar disponíveis em seu ambiente cotidiano. Os marcos legais devem reconhecer o conhecimento ecológico das mulheres indígenas sobre as estações do ano, as sementes e os indicadores ecológicos em pé de igualdade com os estudos científicos, por meio do Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas como requisito para a validade das licenças.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam principalmente as mulheres indígenas, que buscam água, conservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p>Os paradigmas do direito ambiental também devem ir além de uma abordagem baseada na soberania estatal sobre os recursos naturais e caminhar em direção à governança compartilhada, na qual as mulheres indígenas participem da tomada de decisões e não sejam meramente consideradas participantes nos processos de consulta. A justiça ecológica exige reparações, não apenas compensação financeira. Isso implica a restauração de terras indígenas, fontes de água, espaços rituais e espécies extintas, juntamente com programas de regeneração ecológica liderados por mulheres indígenas.</p>



<p>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam os rituais ecológicos que conectam suas comunidades à natureza diariamente. A recuperação da biodiversidade da Indonésia só será possível quando as políticas reconhecerem as mulheres indígenas como agentes fundamentais dessa recuperação, e não como beneficiárias passivas de programas de conservação concebidos sem a sua participação.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/">A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>A meta 30&#215;30 e os territórios indígenas: a contradição da Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-meta-30x30-e-os-territorios-indigenas-a-contradicao-da-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nelfi Fernandez Reyes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19419</guid>

					<description><![CDATA[<p>A Bolívia chega para a COP17 com territórios indígenas como parte de sua estratégia de conservação da biodiversidade. Mas o desmatamento, a grilagem de terras, as disputas fundiárias e a falta de informações sobre a posse da terra evidenciam uma tensão fundamental: não será possível atingir as metas globais de conservação se os direitos dos povos indígenas continuarem a ser garantidos de forma incompleta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em outubro, o mundo se reunirá na Armênia para avaliar uma promessa feita há quatro anos em Montreal, no Canadá: deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Na metade do caminho para esse prazo, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os governos terão que demonstrar o progresso alcançado no cumprimento das 23 metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal</a>, incluindo o ambicioso desafio de conservar pelo menos 30% das terras e águas do planeta.</p>



<p>Em outras palavras, os governos serão postos à prova para responder a uma pergunta simples, mas crucial para a saúde da Terra: estão realmente cumprindo o que prometeram para deter a destruição da natureza e restaurar a biodiversidade perdida? A Bolívia é um dos países chamados a demonstrar seu progresso. Para se preparar para esse teste, durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), em Yerevan, Armênia, de 19 a 30 de outubro de 2026, os países foram obrigados a apresentar um relatório prévio de prestação de contas. <a href="https://www.cbd.int/doc/c/5611/c35f/aa96bdcd816f5952d586a777/sbstta-28-02-add1-rev1-en.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizeram isso por meio de seu Sétimo Relatório Nacional (7RN), um documento no qual cada governo detalha as medidas tomadas e os resultados alcançados</a>.</p>



<p>O prazo para envio foi no dia 28 de fevereiro de 2026. Esses relatórios servirão de base para a primeira avaliação global do progresso coletivo. A Bolívia também enviou seu relatório, um documento que nos permite reconstruir (da perspectiva oficial do Estado) o progresso que alega ter alcançado e onde reconhece dificuldades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19422" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Líderes do território indígena Monte Verde, uma das áreas mais afetadas pelo desmatamento e pelos incêndios, se reúnem para organizar a defesa de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O grande desafio</strong></h3>



<p>Em 2022, durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os países adotaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e delinearam um roteiro para alcançar um mundo em harmonia com a natureza até 2050.</a> Para enfrentar esse desafio, estabeleceram 23 metas para 2030 que não apenas comprometem os governos a deter a perda de biodiversidade, mas também colocam os povos indígenas e as comunidades locais no centro, como detentores de direitos e atores-chave na conservação de seus territórios e modos de vida.</p>



<p>Essa relação entre conservação e direitos indígenas é um tema transversal em todo o Marco. Isso fica particularmente evidente nas metas 1 e 3. A meta 1 exige um planejamento territorial que reduza a perda de áreas importantes para a biodiversidade, respeitando os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, enquanto a meta 3, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets/3" target="_blank" rel="noreferrer noopener">conhecida como meta 30&#215;30</a>, estabelece que a conservação de pelo menos 30% das terras e águas do planeta deve respeitar o direito desses povos aos seus territórios tradicionais. A mensagem é clara: a conservação da biodiversidade não pode ser dissociada dos povos indígenas. Diante disso, o que a Bolívia fez nos últimos quatro anos para cumprir seus compromissos?</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>
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<p class="destacado cel-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas?</p>
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<p><a href="https://ort.cbd.int/national-reports/nr7/E2690700-50D7-C02E-AB16-083EC3E80939" target="_blank" rel="noreferrer noopener">No Sétimo Relatório Nacional, elaborado pela Direção-Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas, o Estado boliviano afirma que os territórios indígenas fazem parte de sua estratégia de conservação</a>. O documento, sem especificar números, relata avanços na titulação de novas Terras de Origem Comunitária (TOCs)/Territórios Indígenas Nativos Camponeses (TIOCs), no desenvolvimento de planos de vida e no fortalecimento das estruturas de governança indígena. Destaca também a criação de áreas de conservação sob gestão indígena e experiências em manejo florestal, uso sustentável, restauração e monitoramento territorial.</p>



<p>Mas o mesmo relatório revela um cenário mais complexo. A Bolívia reconhece a existência de grilagem de terras, conflitos pelo uso da terra e sobreposição de direitos, além das pressões decorrentes de atividades extrativistas, expansão agrícola e assentamentos ilegais. Admite também dificuldades na atualização e harmonização dos planos de vida e, sobretudo, a falta de informações para mensurar as mudanças no uso da terra e a posse da terra em territórios ancestrais e comunidades locais. O documento afirma: “Não há dados disponíveis”.</p>



<p>O paradoxo é significativo. A Bolívia apresenta os territórios indígenas como um elemento-chave para a conservação e para a meta internacional de proteger pelo menos 30% das terras e águas do planeta, mas, quando se trata de mostrar o que está acontecendo dentro deles, o próprio Estado reconhece que ainda não possui os dados necessários para relatar um dos indicadores estabelecidos pelo Quadro Global de Biodiversidade. Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia de conservação da biodiversidade da Bolívia, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19423" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Monte Verde é um dos 28 territórios na bacia amazônica boliviana que registraram conflitos envolvendo grilagem de terras e tráfico de pessoas<strong>. Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazônia Tráficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Florestas sob pressão</strong></h3>



<p><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/">Uma investigação da </a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Amazonía Traficada</em></a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/"> (um projeto jornalístico apoiado pelo Pulitzer Center, Mongabay Latam, RAI Bolívia e Asuntos Centrales) examinou uma região fundamental para a conservação — a Amazônia Indígena Boliviana — utilizando dados de satélite.</a> A pesquisa analisou o desmatamento em 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica boliviana e constatou que, entre 1986 e 2024, essas terras ancestrais sofreram uma perda cumulativa de 257 mil hectares de floresta. Esse número representa 3,4% da área total desmatada na Bolívia durante o mesmo período, que atingiu 7,6 milhões de hectares.</p>



<p>Para determinar em que medida o desmatamento ocorreu dentro da legalidade, as informações foram cruzadas com as licenças de desmatamento emitidas pela Autoridade de Controle e Fiscalização Social de Florestas e Terras (ABT) entre 2003 e 2023. Os registros mostram que, durante essas duas décadas, a instituição aprovou o desmatamento de quase 80.000 hectares de floresta em 41 territórios indígenas. No entanto, apenas 17.900 hectares dessa área autorizada perderam efetivamente sua cobertura florestal. A maior parte da perda ocorreu fora das áreas permitidas.</p>



<p>Em outras palavras, entre 2003 e 2023, o desmatamento em áreas não autorizadas atingiu 168.670 hectares. Essa proporção coloca o problema em perspectiva: para cada hectare desmatado dentro de uma área autorizada, mais de nove foram desmatados fora dela. Isso significa que quase 90% da perda florestal registrada em territórios indígenas da Amazônia durante esse período ocorreu fora dos mecanismos de autorização estatal. A pressão sobre esses territórios faz parte de uma tendência nacional. <a href="https://es.mongabay.com/2026/05/perdida-bosque-tropical-2025-latinoamerica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório do World Resources Institute (WRI) mostra que, em 2025, a Bolívia voltaria a ocupar o segundo lugar no ranking mundial de perda de florestas primárias, atrás apenas do Brasil</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="819" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg" alt="" class="wp-image-19424" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg 819w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-240x300.jpg 240w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-768x960.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1229x1536.jpg 1229w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1638x2048.jpg 1638w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1.jpg 2000w" sizes="auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Amazonía Traficada analisou dados de satélite para mostrar as pressões enfrentadas pelos territórios indígenas na Amazônia boliviana. <strong>Infográfico: </strong>José Arias e Lily Soruco</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma reivindicação territorial que nunca termina</strong></h3>



<p>A pressão sobre os territórios indígenas não se limita à floresta; ela se estende também à posse da terra e à segurança jurídica. Em seu Sétimo Relatório Nacional, a Bolívia afirma ter ampliado a área de Terras de Comunidades Indígenas (TCOs/TIOCs) por meio de novos títulos de propriedade, embora não especifique quantos hectares foram incorporados.</p>



<p>No entanto, o cruzamento de dados de pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisa Social <a href="http://iwgia.org/images/documentos/Libros/ATLAS%202019.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CEJIS)</a> e pelo Centro de Pesquisa e Promoção do Campesinato <a href="https://cipca.org.bo/publicaciones-e-investigaciones/cuadernos-de-investigacion/saneamiento-de-la-tierra-en-seis-regiones-de-bolivia-1996-2007-cuadernos-de-investigacion-n-69" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CIPCA)</a> revela que a luta dos povos indígenas das terras baixas pelo reconhecimento, titulação e defesa de seu território ancestral está longe de terminar.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continua a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a conceder terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
</blockquote>



<p>Desde a década de 1990 até os dias atuais, os 48 territórios indígenas da bacia amazônica, em conjunto, solicitaram o reconhecimento legal de aproximadamente 22,7 milhões de hectares. No entanto, o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) concedeu títulos de propriedade para apenas 11,7 milhões de hectares, o que corresponde a meros 52% da área solicitada. Ou seja, mais de 11 milhões de hectares permaneceram sem título.</p>



<p>Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas. Entre 2009 e 2019, o INRA repassou aproximadamente 318.500 hectares a grupos interculturais e camponeses (organizações sociais ligadas ao partido político que governou a Bolívia entre 2006 e 2015) para o estabelecimento de 236 comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1005" height="771" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19425" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg 1005w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-300x230.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-768x589.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1005px) 100vw, 1005px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Desmatamento acumulado até 2024 (marrom) e assentamento de comunidades interculturais e agricultores (vermelho) no Território Indígena de Monte Verde. <strong>Foto: </strong>Captura de tela do VISTA/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando a proteção é insuficiente</strong></h3>



<p>A discrepância entre a proteção declarada pelo Estado e o que de fato ocorre nos territórios indígenas também se reflete no próprio Sétimo Relatório Nacional. A Bolívia reconhece a falta de informações para mensurar, entre outros aspectos, a posse da terra nos territórios ancestrais dos povos indígenas e comunidades locais. Admite ainda a existência de problemas de grilagem de terras e ocupação ilegal.</p>



<p>Além da pressão exercida por comunidades terceirizadas instaladas com autorização do Instituto Nacional de Reforma Agrária em torno dos territórios indígenas titulados, esses povos ancestrais enfrentam a invasão de seus espaços legalmente reconhecidos pelo Estado, ou seja, nos territórios que possuem título de propriedade coletiva.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam caindo e os territórios indígenas continuam sendo alvo de tráfico.</p>
</blockquote>



<p>Uma análise de entrevistas com líderes de 30 dos 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica conclui que 28 dessas terras ancestrais sofreram grilagem nas últimas duas décadas e, em 22 casos, os conflitos permanecem sem solução. Segundo os líderes entrevistados, essas ocupações são impulsionadas por redes que buscam ativar um mercado ilegal de terras na Amazônia boliviana, principalmente para desmatar e viabilizar atividades agrícolas em larga escala.</p>



<p>Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico. Mas essa não é a única pressão. Os 30 líderes indígenas também apontaram conflitos e ameaças ligados aos mercados de carbono, à mineração ilegal, ao tráfico de madeira e ao tráfico de drogas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19426" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto de julho de 2025 documentando o desmatamento ilegal realizado pelas colônias menonitas em Monte Verde. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Preservando além do mapa</strong></h3>



<p>Em Yerevan, a Bolívia terá que demonstrar seu progresso rumo à meta 30&#215;30. Poderá falar em territórios titulados, governança indígena e conservação sob a gestão de povos indígenas. No entanto, por trás desses números, existem territórios onde árvores continuam a cair, onde persistem disputas de terras e onde comunidades indígenas aguardam há anos uma resposta do Estado em relação à invasão e ao tráfico de suas terras.</p>



<p>A meta de 30&#215;30 pode parecer alcançável quando vista em um mapa, mas a conservação não acontece em um mapa; ela acontece em territórios concretos onde os povos indígenas defendem suas florestas, seus direitos e seus modos de vida. A questão que a Bolívia levará à COP17 não é apenas quantos hectares pode declarar como conservados, mas quanto daquilo que alega proteger está de fato seguro e quanto pode conter ou controlar o que ela mesma reconhece em seu Sétimo Relatório Nacional: a expansão da fronteira agrícola, as atividades extrativistas e os assentamentos humanos como as principais causas da perda de biodiversidade e do desmatamento.</p>



<p>Em outras palavras, além do teste que deve passar em outubro, o Estado boliviano (independentemente de quem estiver no poder em La Paz) deve ser capaz de fazer cumprir as regras que criou e garantir a proteção das florestas e daqueles que habitam essas terras ancestrais. Isso não é apenas uma obrigação para com os bolivianos, mas também uma responsabilidade para com um planeta que não tem mais tempo para esperar que promessas se transformem em ações.</p>
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		<title>Guardiões da natureza e da conservação da biodiversidade nas florestas tropicais de Myanmar</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Debates Indígenas]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:50:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
		<category><![CDATA[Myanmar]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A sobrevivência dos ecossistemas mais resilientes do planeta depende do reconhecimento dos povos indígenas que os protegem e cuidam há milênios. Nos corredores florestais tropicais de Myanmar, os compromissos internacionais estabelecidos pela Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica e seu Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (MMBKM) não são ideais abstratos, mas uma questão de sobrevivência imediata. A documentação produzida pela comunidade indígena Gheba Karen demonstra como os sistemas tradicionais preservam a integridade dos ecossistemas em meio a crises complexas. Proteger a biodiversidade exige garantir os direitos dos povos indígenas e respeitar seus sistemas tradicionais de posse da terra.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Situada nas paisagens montanhosas da floresta tropical do estado de Kayin (Karen), Taung Pat Lal (Khlo Do) é uma aldeia histórica do povo indígena Karen Gheba. Formou-se a partir da união histórica de dois assentamentos ancestrais: Du Plo Kho (Ywa Soe Kone) e Za Wa Loe Poo (Kee Kan Kyauk Khaung). Hoje, a comunidade é composta por 60 famílias e tem uma população de 245 pessoas (124 homens e 121 mulheres). Opera sob um sistema tradicional de autogoverno, no qual as autoridades são escolhidas com base no seu compromisso com a comunidade, no respeito que inspiram e na sua influência, em vez de por sucessão hereditária.</p>



<p>Os limites territoriais de Taung Pat Lal são demarcados pelos riachos Tho Doe The Loe e Chein Loe Yo (Riacho do Tigre), El Bra Loe Chee, Chein Loe Htit (Rocha do Tigre), Thaw Kha Loe Chee e pelas cristas das montanhas YaeKa Hday e Kyar Mwe. A comunidade administra um sofisticado sistema de zoneamento que integra harmoniosamente a produção de alimentos, a conservação da biodiversidade e a proteção espiritual. Este sistema compreende terras destinadas à agricultura rotativa (<em>Shwe Pyaung Taung Ya</em>), jardins agroflorestais perenes geridos por famílias e terras comunitárias: áreas de bacias hidrográficas protegidas e locais sagrados como a Montanha da Oração (<em>Su Taung Taung</em>), uma gruta mariana (<em>Mae Taw Gu</em>) e o cemitério comunitário.</p>



<p>A posse consuetudinária da terra é regida por princípios de equidade. A herança de pomares e terras familiares é distribuída igualmente entre filhas e filhos, sem discriminação de gênero. Os limites das terras são respeitados por meio de acordos orais consuetudinários e marcos geográficos naturais. Para proteger os territórios ancestrais, o direito consuetudinário proíbe a venda de terras herdadas a pessoas de fora. Se uma família precisar transferir suas terras, elas devem permanecer nas mãos de parentes ou membros da comunidade. A resolução de conflitos é conduzida por anciãos da aldeia, autoridades locais e líderes religiosos, e culmina em práticas tradicionais de reconciliação, como apertos de mão simbólicos e orações coletivas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19430" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-1-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Processo tradicional de secagem por defumação na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Conhecimento indígena e conservação de ecossistemas</h3>



<p>O valor das terras indígenas para a conservação deriva diretamente do profundo conhecimento ecológico transmitido de geração em geração. Em Taung Pat Lal, a gestão tradicional de recursos inclui mecanismos que regulam o uso dos recursos e protegem a flora e a fauna da floresta.</p>



<p><strong>1. Agrobiodiversidade e controle biológico de pragas</strong></p>



<p>Em seus sistemas de rotação de arroz, os agricultores Gheba Karen praticam a agricultura diversificada plantando <em>Phor Li Phor Par </em>(flores de crista-de-galo) nas margens dos arrozais. Segundo o conhecimento tradicional, essas flores de cores vibrantes atraem insetos e os repelem do arroz, proporcionando um controle biológico natural que minimiza os danos à lavoura sem o uso de pesticidas químicos. Além disso, os sistemas de rotação permitem o cultivo de uma grande variedade de alimentos, preservando assim um banco genético de plantas e espécies locais resistentes.</p>



<p><strong>2. Conservação de sementes e liderança de mulheres indígenas</strong></p>



<p>As mulheres (<em>Maetaw Thami</em>) desempenham um papel vital na manutenção da agrobiodiversidade. Após a colheita, elas selecionam cuidadosamente sementes tradicionais, secam-nas ao sol, defumam-nas em fogueiras para protegê-las de insetos e, finalmente, armazenam-nas para a época do plantio. Rituais tradicionais reforçam a preservação das sementes: quando os grãos colhidos são levados para o celeiro da família, um punhado de arroz e um buquê de flores são amarrados ao poste principal da casa e permanecem lá durante todo o ano, garantindo que o espírito das colheitas (<em>Saba Leik Pyar</em>) permaneça conectado à terra e seja semeado novamente na primavera.</p>



<p><strong>3. Normas para uso sustentável</strong></p>



<p>A comunidade aplica regras sazonais e biológicas rigorosas para a colheita de produtos florestais não madeireiros. Os brotos de bambu (<em>Myit</em>) são essenciais para a subsistência e o sustento das famílias, que os colhem sazonalmente, preservando a integridade das raízes. Plantas medicinais, como as raízes <em>de Bhon Ma Ra Za </em>e orquídeas silvestres, são colhidas seletivamente para evitar o esgotamento dos recursos.</p>



<p><strong>4. Patrimônio e práticas da medicina tradicional indígena</strong></p>



<p>O Comitê de Assuntos Gheba Karen e jovens da comunidade documentaram uma grande variedade de plantas medicinais. Entre as espécies documentadas, os curandeiros locais utilizam <em>Dwi Yin Kaung </em>(uma samambaia silvestre), que é triturada para preparar uma cataplasma com óleo de gergelim, cúrcuma e aglutinantes locais para tratar fraturas ósseas graves e lesões nos tecidos. Outras espécies silvestres, comofolhas de <em>Yae Yin Pyar</em>, folhas de jaca silvestre e raízes de gengibre, são utilizadas para cuidados pós-parto e tratamento de traumas físicos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19431" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-2-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Árvore de betel na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Ameaças crescentes: conflito, destruição e vulnerabilidade climática</h3>



<p>Apesar dessas práticas sustentáveis, os povos indígenas em regiões de floresta tropical enfrentam ameaças estruturais crescentes que colocam em risco tanto seus direitos quanto seus ecossistemas.</p>



<p><strong>1. Intensificação do conflito e violações dos direitos humanos</strong></p>



<p>O contexto no estado de Kayin (Karen) é marcado por intenso conflito militar e deslocamento forçado. A população civil sofre frequentes ataques aéreos, bombardeios de artilharia pesada e incêndios em aldeias perpetrados pelo regime militar, que deslocaram milhares de pessoas para áreas florestais, impedindo-as de retornar às suas aldeias. Diversos relatos documentam inúmeras vítimas, incluindo as causadas pelos ataques aéreos do regime em 29 de abril de 2026, em Thandaunggyi, que deixaram 20 civis mortos. Essas condições impedem a manutenção de ciclos agrícolas regulares e ameaçam a segurança da população. Além disso, as comunidades indígenas Gheba Karen precisam assumir a responsabilidade de abrigar e auxiliar outros deslocados, o que impõe uma pressão ainda maior sobre seus recursos e sua resiliência.</p>



<p><strong>2. Perda de biodiversidade e conhecimento indígena</strong></p>



<p>O desmatamento e a destruição de habitats, intensificados por um longo histórico de exploração comercial, levaram a um declínio acentuado em espécies raras de plantas medicinais. À medida que os anciãos falecem sem que seus conhecimentos sejam devidamente documentados, o saber indígena sobre saúde corre o risco de desaparecer para sempre. Documentar essas práticas é crucial para evitar a perda do saber indígena e garantir que os futuros mecanismos de repartição de benefícios respeitem a propriedade comunitária desse saber.</p>



<p><strong>3. Eventos climáticos extremos e crises de roedores</strong></p>



<p>As comunidades das florestas tropicais estão na linha de frente dos impactos das mudanças climáticas. Em 2024, chuvas de monção extremas desencadearam deslizamentos de terra severos em Taung Pat Lal, destruindo arrozais de montanha, plantações de cúrcuma e valiosos sistemas agroflorestais tradicionais de cardamomo. Essa vulnerabilidade é agravada por crises ecológicas cíclicas. Em 1975 e 2016, a floração em massa do bambu (ciclos <em>Mautam</em>) levou a aumentos repentinos nas populações de roedores, que devastaram os arrozais de montanha e forçaram as comunidades a processos prolongados de recuperação econômica.</p>



<p><strong>4. Conservação imposta e exclusão das políticas públicas</strong></p>



<p>Historicamente, os modelos e iniciativas de conservação liderados pelo Estado, concebidos por aqueles que detêm o poder, ignoraram os sistemas tradicionais de posse da terra e consideraram os povos indígenas como uma ameaça às florestas, em vez de reconhecê-los como seus principais guardiões. Os atuais mecanismos de conservação orientados pelo mercado, como créditos e compensações de carbono e biodiversidade, correm o risco de reproduzir modelos de “conservação de fortaleza” se implementados sem respeitar o direito dos povos indígenas ao Consentimento Livre, Prévio e Informado. Isso pode levar ao deslocamento de comunidades de suas terras ancestrais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19432" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-3-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Moagem tradicional de arroz na comunidade Gheba Karen. <strong>Foto:</strong> <em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">A necessidade de alinhar os objetivos globais com as realidades locais</h3>



<p>As evidências de Taung Pat Lal (Khlo Do) demonstram que as metas globais de biodiversidade não podem ser alcançadas por meio de imposições de cima para baixo ou estratégias corporativas de compensação. Enquanto as Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) negociam a implementação do Quadro Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (MMBKM) na COP17 na Armênia, a experiência das comunidades indígenas em Myanmar destaca uma série de prioridades políticas críticas.</p>



<p><strong>1. Aplicar medidas de segurança e obter o consentimento livre, prévio e informado</strong></p>



<p>Todos os projetos de conservação, mitigação das mudanças climáticas e compensação de carbono devem aplicar as salvaguardas da Seção C. A expansão de áreas protegidas, projetos de infraestrutura verde e sistemas de créditos de carbono e biodiversidade só deve prosseguir após a obtenção do Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) dos Povos Indígenas em relação aos seus territórios ancestrais. Os sistemas de conservação, créditos de carbono e biodiversidade que levam à desapropriação dos Povos Indígenas devem ser eliminados.</p>



<p><strong>2. Reconhecimento direto dos territórios indígenas</strong></p>



<p>A Meta 3 (30&#215;30) não deve ser interpretada apenas como uma expansão de áreas protegidas ou parques nacionais geridos pelo Estado exclusivamente para a conservação. As Partes da CDB devem reconhecer formalmente e proteger legalmente os Territórios Indígenas como áreas de conservação distintas e autogovernadas. Sistemas como a gestão tradicional de terras em pousio e a proteção das florestas comunitárias Taung Pat Lal constituem modelos de conservação eficazes que contribuem para a preservação dos territórios de floresta tropical e sua biodiversidade. Por exemplo, áreas sagradas, jardins e bacias hidrográficas mantêm a cobertura florestal intacta.</p>



<p><strong>3. Proteção dos defensores dos direitos humanos ambientais</strong></p>



<p>A participação plena e equitativa dos povos indígenas na tomada de decisões deve ser garantida, e seus direitos de posse da terra devem ser plenamente respeitados. Além disso, é fundamental garantir proteção legal e mecanismos de financiamento para os defensores dos direitos humanos. Em regiões de floresta tropical afetadas por conflitos, os povos indígenas que protegem suas terras representam a última linha de defesa contra a exploração madeireira ilegal, a extração de recursos e o colapso dos ecossistemas. A implementação da Meta 22 exige mecanismos operacionais que protejam os guardiões locais contra conflitos violentos, ataques aéreos e apropriação indevida de terras.</p>



<p><strong>4. Financiamento direto para o clima e a biodiversidade</strong></p>



<p>Apesar de protegerem importantes sumidouros de carbono e áreas de grande relevância para a biodiversidade, as organizações comunitárias locais e as organizações indígenas enfrentam barreiras sistêmicas ao acesso direto a financiamento. Os mecanismos financeiros internacionais devem estabelecer vias de financiamento diretas e acessíveis para organizações indígenas de base, contornando os canais estatais centralizados, a fim de apoiar o mapeamento liderado pela comunidade, a preservação do conhecimento tradicional e iniciativas de resiliência climática.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19433" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Myanmar-Sept-2026-4-1.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Agricultura rotativa em Taung Pat Lal, comunidade de Gheba Karen. <strong>Foto: </strong><em>Debates Indígenas</em></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading">Gestão resiliente de florestas tropicais</h3>



<p>As florestas tropicais de Myanmar sobrevivem graças aos povos indígenas que as gerem e protegem. A governança consuetudinária da terra, as práticas de agrobiodiversidade e o património e as práticas de medicina tradicional da comunidade Gheba Karen de Taung Pat Lal (Khlo Do) fornecem provas convincentes de que a conservação da biodiversidade e os direitos humanos estão intrinsecamente ligados.</p>



<p>Enquanto líderes internacionais se reúnem na COP17 para avaliar o progresso no âmbito do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal (KMBMF), as políticas internacionais devem estar fundamentadas nessas realidades locais. A plena concretização dos objetivos do KMBMF exige o reconhecimento formal dos territórios indígenas, a proteção legal dos sistemas tradicionais de posse da terra, o investimento em mecanismos de monitoramento liderados por indígenas e salvaguardas robustas para os defensores ambientais que atuam na linha de frente.</p>



<p><strong>Devido à sensibilidade dos temas abordados neste artigo, a Debates Indígenas prefere manter o anonimato do(s) autor(es).</strong></p>



<p></p>
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