Ouro, territórios e direitos: mineração ilegal na Amazônia e no Escudo das Guianas

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Visita de trabalho ao Brasil, no acampamento localizado às margens do Lago Caracaranã, em Roraima. Foto: CIDH

A Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) está elaborando um relatório sobre os impactos da mineração ilegal de ouro, violações de direitos humanos, povos indígenas e governança territorial. Contaminação por mercúrio, vínculos com outras economias ilegais, rastreabilidade do ouro e cooperação transfronteiriça são temas centrais. O processo visa reunir o conhecimento e as perspectivas das comunidades afetadas e fortalecer sua capacidade de participação.

Rios contaminados com mercúrio, florestas transformadas em áreas de extração a céu aberto e comunidades testemunhando a deterioração dos territórios dos quais dependem para sua vida material, cultural e espiritual: a expansão da mineração ilegal de ouro tornou-se um dos desafios socioambientais mais complexos na Amazônia e no Escudo das Guianas. Seus impactos vão muito além da extração mineral, afetando água, saúde, alimentação, florestas, segurança e formas de governança territorial. Para os povos indígenas, essa dinâmica também pode colocar em risco seus direitos territoriais, seus modos de vida, sua autodeterminação e seus sistemas de autogoverno.

O alto preço internacional do ouro reforçou os incentivos econômicos para a expansão dessas atividades. Segundo o Programa de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP), a região amazônica perdeu mais de 736 mil hectares de floresta primária até 2025, e uma parcela significativa das áreas afetadas pela mineração está localizada em áreas protegidas e territórios indígenas. Em resposta a essa realidade, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais (REDESCA) da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) está elaborando um relatório regional que analisará a relação entre mineração ilegal de ouro, violações de direitos humanos, territórios e governança em diversos países da Amazônia e do Escudo das Guianas.

O diálogo regional “Territórios em Prontidão”, realizado em Tena, Equador, contou com a participação da REDESCA. Foto: Lanceros Digitales

De alertas a análises regionais

A decisão de elaborar este relatório faz parte de um processo de monitoramento e documentação que a Comissão Interamericana e sua Relatora Especial vêm desenvolvendo há vários anos em resposta a uma crescente preocupação na região, que a REDESCA identificou como área prioritária de atenção em seu Plano de Trabalho 2024-2026. Em 2019, em seu relatório sobre os povos indígenas e tribais da região panamazônica, a CIDH alertou sobre a exposição a altos níveis de mercúrio e seus efeitos sobre a água, a biodiversidade e a saúde. Em 2021, a Resolução 3/21 sobre Emergência Climática identificou a degradação ambiental como uma das principais ameaças aos direitos humanos na região.

Em abril de 2024, durante uma visita in loco à Colômbia, a Comissão e sua Relatoria Especial identificaram a mineração ilegal como causa de poluição da água, deslocamento forçado e financiamento de organizações criminosas. Em outubro do mesmo ano, a CIDH e a REDESCA (Comissão Especial de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais) emitiram um alerta sobre a situação do povo Yanomami no Arco Mineiro do Orinoco, que enfrenta deslocamento, contaminação por mercúrio e a presença de grupos armados. Em março de 2025, a Relatora Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (REDESCA) instou ao fortalecimento da cooperação internacional, da rastreabilidade do ouro e do controle do comércio de insumos como o mercúrio. Em março de 2026, emitiu um novo alerta sobre os impactos da mineração ilegal no direito humano à água. Esse problema também tem sido reiteradamente documentado nos relatórios anuais da Relatoria sobre diversos países da região.

A REDESCA dedica especial atenção aos impactos diferenciados sobre os povos indígenas, as comunidades afrodescendentes e tribais, as mulheres, as meninas, os meninos e os adolescentes, bem como os defensores dos direitos humanos e do meio ambiente.

A REDESCA dedica especial atenção ao impacto sobre os povos indígenas, comunidades afrodescendentes e tribais, mulheres, meninas, meninos e adolescentes.

O objetivo deste relatório é analisar, sob a perspectiva dos direitos humanos, e em particular sob a perspectiva dos Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais, os impactos da mineração ilegal de ouro, bem como as dinâmicas territoriais, transfronteiriças e de governança que acompanham sua expansão. A REDESCA (Relatoria Especial para os Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais) dedica especial atenção aos impactos diferenciados sobre os Povos Indígenas (incluindo aqueles em isolamento voluntário e em contato inicial), comunidades afrodescendentes e tribais, mulheres, crianças e adolescentes, e defensores dos direitos humanos e do meio ambiente.

Sem antecipar as conclusões do relatório, atualmente em preparação, as informações coletadas permitem identificar dimensões particularmente relevantes para a análise: contaminação por mercúrio e outros impactos na saúde e na alimentação; desmatamento e degradação dos ecossistemas; perda do controle territorial; expansão das economias ilícitas e de atores armados; fragilidades na resposta institucional; e dificuldades em garantir a rastreabilidade e a devida diligência em toda a cadeia de suprimentos do ouro.

Visita in loco à Colômbia, em Buenaventura, durante abril de 2024. Foto: CIDH

Um processo construído a partir do diálogo e da consulta

O processo de elaboração combinou diversos mecanismos de diálogo, consulta e coleta de informações. Como parte desse trabalho, a CIDH convocou uma audiência regional por iniciativa própria durante sua 195ª Sessão, realizada na Cidade da Guatemala, com a participação de organizações da sociedade civil, representantes de comunidades e povos indígenas. Posteriormente, a REDESCA enviou pedidos de informação aos Estados e lançou uma chamada para contribuições de organizações, comunidades afetadas e especialistas.

Entre 15 e 19 de junho de 2026, a Relatoria Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (REDESCA) realizou uma visita de trabalho ao Brasil, com encontros em Brasília e Boa Vista, Roraima, com autoridades e organizações da sociedade civil. Durante a visita, participou da 8ª Assembleia Geral da Associação Hutukara Yanomami, juntamente com líderes indígenas. Em julho, a Relatoria realizou uma consulta híbrida com especialistas em Bogotá e participou do Encontro Regional sobre Mineração, Governança Territorial e Direitos Indígenas na Amazônia, realizado em Tena, Equador. O encontro foi organizado pela PAKKIRU, FOIN Equador e o Instituto Quíchua de Biotecnologia Sacha Supay, com o apoio do IWGIA. Lá, ocorreu o diálogo com líderes indígenas da Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador e Peru.

Esses espaços permitiram a incorporação não apenas de informações sobre os impactos, mas também das experiências, conhecimentos e respostas desenvolvidas pelos próprios povos indígenas. Em diferentes territórios, comunidades, organizações e autoridades indígenas têm promovido mecanismos de monitoramento e proteção territorial, ferramentas de mapeamento e documentação ambiental, sistemas de alerta precoce e estratégias de diálogo com as autoridades. Incorporar esse conhecimento e essas experiências é fundamental para compreender a dinâmica territorial da mineração ilegal e para elaborar respostas que reconheçam a autonomia, a participação efetiva e as prioridades definidas pelos próprios povos indígenas.

Audiência regional sobre os impactos da mineração ilegal nos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais durante a 195ª Sessão na Cidade da Guatemala. Foto: CIDH

DESCA, território e continuidade da vida comunitária

Os impactos da mineração ilegal de ouro não se limitam à poluição ou à perda da cobertura florestal. Em territórios indígenas, o desmatamento, a alteração dos cursos d’água e a degradação dos ecossistemas podem afetar as relações territoriais que sustentam a segurança alimentar, a saúde, os meios de subsistência, as práticas culturais e espirituais e, de forma mais ampla, as condições necessárias para a continuidade da vida comunitária. De uma perspectiva interamericana de direitos humanos, a proteção florestal está, portanto, intimamente ligada à proteção dos territórios, dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESC), da identidade cultural e da autodeterminação dos povos indígenas.

Entre as principais preocupações decorrentes das informações coletadas está a poluição por mercúrio. Uma vez liberado no meio ambiente, o mercúrio pode se transformar em metilmercúrio, acumular-se em peixes e outros organismos aquáticos e, por meio deles, entrar na cadeia alimentar dos habitantes da Amazônia. Assim, a poluição dos rios também compromete o direito à alimentação, afetando a dieta de inúmeras comunidades indígenas e ribeirinhas e colocando em risco as práticas alimentares tradicionais.

Bacias hidrográficas e territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela e outros países ilustram a relação entre a expansão da mineração, o desmatamento, a degradação dos recursos hídricos e a pressão sobre áreas protegidas e territórios indígenas.

Territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador e Venezuela ilustram a relação entre a expansão da mineração, o desmatamento e a degradação dos recursos hídricos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para graves danos neurológicos associados à exposição ao metilmercúrio e para riscos particularmente elevados em crianças e gestantes. Estudos citados nas informações revisadas pela REDESCA detectaram altos níveis de mercúrio em comunidades indígenas no Brasil e no Peru. Além disso, existem outros impactos na saúde: a transformação do solo associada à mineração pode criar condições para a proliferação de vetores de doenças, como os transmissores da malária.

O desmatamento e a fragmentação de habitats constituem outra dimensão central dos problemas enfrentados pela Amazônia. Bacias e territórios no Peru, Colômbia, Brasil, Equador, Venezuela e outros países demonstram a relação entre a expansão da mineração, a perda florestal, a degradação dos recursos hídricos e a pressão sobre áreas protegidas e territórios indígenas. Essas dinâmicas são exacerbadas quando convergem com outras economias ilícitas e com atores que disputam o controle territorial.

A deputada estadual equatoriana Mariana Yumbay em territórios disputados. Durante o diálogo regional, representantes de povos indígenas compartilharam experiências e propostas sobre direitos humanos e atividades extrativistas com a REDESCA. Foto: IWGIA

Mineração ilegal, economias ilícitas e governança territorial

A mineração ilegal de ouro não opera isoladamente. Em diferentes regiões da Amazônia, a atividade está ligada a redes de narcotráfico, extração ilegal de madeira, contrabando, tráfico de suprimentos e outras economias ilícitas. Essa convergência pode resultar no controle territorial por grupos armados, ameaças a comunidades e autoridades indígenas, restrições à circulação e enfraquecimento da capacidade do Estado de prevenção, fiscalização e proteção.

O ouro apresenta características que facilitam sua incorporação em circuitos comerciais aparentemente legais: possui alto valor por peso, pode ser derretido e misturado com produtos de origem legal e pode circular com documentação irregular ou por jurisdições com controles insuficientes. Portanto, a resposta não pode se limitar ao local de extração. Requer mecanismos eficazes de rastreabilidade, cooperação transfronteiriça e coordenação entre as autoridades ambientais, aduaneiras, financeiras e judiciais. Requer também responsabilidades claras para os agentes comerciais envolvidos na cadeia de suprimentos.

Os riscos são especialmente graves para os povos indígenas em isolamento voluntário e em fase inicial de contato, visto que qualquer interferência externa pode ter consequências irreversíveis. Os impactos também afetam desproporcionalmente mulheres, crianças e adolescentes, comunidades afrodescendentes e tribais, bem como defensores dos direitos humanos e do meio ambiente. Em contextos adversos, esses indivíduos enfrentam ameaças, assédio e violência.

Povos indígenas e a sociedade civil denunciaram perante a CIDH os impactos da mineração ilegal de ouro sobre os direitos humanos e os territórios. Audiência regional no âmbito da 195ª Sessão. Foto: CIDH

Um relatório concebido como uma ferramenta

O desafio não termina com a documentação do avanço da mineração ilegal ou com a identificação de seus impactos. A questão central é como traduzir os padrões de direitos humanos em respostas capazes de proteger efetivamente os territórios, prevenir danos adicionais e fortalecer a capacidade das comunidades de participar das decisões que afetam seus modos de vida.

O relatório regional que está sendo preparado pela REDESCA busca contribuir para esse objetivo, sistematizando normas e formulando recomendações para Estados, empresas e outros atores relevantes. Ao mesmo tempo, seu desenvolvimento visa incorporar as experiências, o conhecimento e as perspectivas dos povos indígenas e das comunidades afetadas, não apenas como fontes de informação, mas também como atores essenciais para a compreensão do território e o desenvolvimento de respostas adequadas.

Diante de uma economia ilícita que atravessa fronteiras, cadeias de abastecimento e territórios, as respostas devem ser também coordenadas, preventivas e transfronteiriças. O objetivo é que as conclusões e normas do relatório se tornem ferramentas úteis para o diálogo, a promoção dos direitos e a adoção de medidas que priorizem a proteção dos direitos humanos, das florestas e o direito dos povos de decidir sobre o presente e o futuro dos seus territórios.

As opiniões expressas neste artigo são pessoais e não representam necessariamente a posição da REDESCA, da CIDH ou da Organização dos Estados Americanos (OEA).

Javier Palummo Lantes é Relator Especial sobre Direitos Econômicos, Sociais, Culturais e Ambientais da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).