As palavras mînawâchihiwewi-ne-wîkiwan vão muito além do título de um projeto de energia limpa. Eles estão profundamente conectados aos costumes do povo Moose Cree. Isso significa que há vida nessas palavras, vida que se estende aos lares energeticamente eficientes que estão sendo projetadas e construídas por meio desse trabalho. É uma forma de criar a partir da própria terra, com uma abordagem relacional baseada em ensinamentos indígenas que se afasta das práticas convencionais nos setores de energia limpa, eficiência energética e habitação.
A Primeira Nação Moose Cree, localizada em James Bay, Canadá, entende o mundo como uma rede de relações com a Mãe Terra e os seres que a habitam: tudo está interligado para alcançar harmonia e equilíbrio. Este é o modo de vida Cree, conhecido como ililiwi-pimâtisîwin. Entretanto, devido à colonização, os lares não refletem mais o modo de vida do povo Moose Cree, que habita seu território ancestral há milhares de anos sob essa reciprocidade.
Bohdana Chiupka-Innes é uma mulher Moose Cree e uma das poucas arquitetas indígenas atuantes no que hoje é conhecido como Canadá. Bohdana lidera o projeto mînawâchihiwewi-ne-wîkiwan, cujo objetivo é trazer os ililiwi-pimâtisîwin de volta às moradias comunitárias. O trabalho preliminar de Bohdana foi apoiado pelo ImaGENation da Indigenous Clean Energy, um programa de capacitação para jovens indígenas que exploram projetos de energia limpa e eficiência energética em suas comunidades. Este trabalho formou a base de sua dissertação de mestrado em arquitetura na Laurentian University.
A Moose Cree First Nation Housing Authority, a JL Richards & Associates Limited (JLR), a Bohdana e a Nação estão colaborando para criar o Protótipo de Moradia MCFN. Este primeiro protótipo foi projetado para refletir a estrutura tradicional das tendas de cozinha Moose Cree, ao mesmo tempo em que atende aos padrões nacionais de Energia Líquida Zero. Atualmente, ele está passando por estudos de viabilidade, padrões de modularização e avaliações de escalabilidade.

História do povo Moose Cree
Tradicionalmente, a Moose Factory Island é um ponto de encontro para famílias durante os meses de verão. Entretanto, o processo de colonização do Canadá e o desenvolvimento do comércio internacional afetaram essa relação com o território. Em 1673, um evento importante ocorreu: as relações comerciais entre o povo Moose Cree e os colonos britânicos motivaram a Hudson’s Bay Company a estabelecer seu segundo posto comercial em Moose Factory. Pela primeira vez, as terras, as águas e os animais que faziam parte das economias tradicionais foram submetidos às demandas do capitalismo europeu.
Para permitir essa invasão, foram estabelecidas práticas legais que impuseram controle sobre terras e recursos que antes eram governados por povos indígenas. Com o tempo, a Coroa dominou as leis sociais, de propriedade e de terras ao promulgar a Lei dos Índios em 1876, a única legislação no Canadá que definia os direitos e liberdades de uma única nação, incluindo os direitos de propriedade. A partir de então, nações inteiras foram confinadas a estruturas de controle administrativo, econômico e social.
Apesar das escolas residenciais e do controle forçado de recursos antes da assinatura do Tratado 9 em 1905, o povo Moose Cree permaneceu conectado às suas terras. O tratado resultou na criação de duas reservas para os Moose Cree pelo governo canadense. De um lado, a Factory Island 1 (299 hectares), localizada na Moose Factory Island, onde os parentes de Innes vivem hoje. Por outro lado, a Moose Factory 68 (17.094 hectares), ainda não desenvolvida, localizada a leste do Rio Moose, 15 quilômetros ao sul da Ilha Moose Factory.

O colapso do modo de vida Moose Cree
A perda da autogovernança forçou as populações indígenas a viver em moradias inadequadas em reservas pequenas, muitas vezes mal localizadas, que não refletiam os costumes tradicionais de seu povo. A designação unilateral de territórios e terras públicas pela Coroa Britânica legalizou ativamente a desapropriação de suas terras produtivas e restringiu suas atividades tradicionais.
Essa nova situação alterou os limites de suas práticas agrícolas e modos de vida, afetando para sempre a qualidade de vida e o abrigo que os saberes e costumes comunitários costumavam garantir. Como parte desse processo, os ensinamentos tradicionais e os fundamentos espirituais da governança indígena foram perdidos, e o modo de vida Moose Cree foi destruído. Nesse contexto, o trauma intergeracional levou as famílias a se tornarem cada vez mais dependentes do governo canadense e do modo de vida colonial.
Ter uma casa que reflita os modos de vida e valores tradicionais é essencial para garantir que a infraestrutura atenda às necessidades reais e seja projetada em relação ao meio ambiente, permitindo uma vida verdadeiramente sustentável.
Ter uma casa que reflita os modos de vida e os valores tradicionais é essencial para garantir que a infraestrutura atenda às necessidades reais.
Consequentemente, os modelos de moradia e infraestrutura impostos pelo governo resultaram em projetos ambientais precários, agravados pelo investimento limitado em materiais de qualidade e pela exclusão de aspectos culturais e sociais, como a convivência intergeracional na Primeira Nação Moose Cree.
Os efeitos da colonização persistem até hoje. Ter uma casa que reflita os modos de vida e os valores tradicionais é essencial para garantir que a infraestrutura atenda às necessidades reais e seja projetada em relação ao meio ambiente. É isso que permite uma vida verdadeiramente sustentável.

Inovação e soluções comunitárias
Bohdana pesquisou e projetou um protótipo de habitação com emissão zero e um plano de desenvolvimento habitacional que responde e se baseia nas descobertas de um processo anterior de engajamento comunitário sobre valores, interesses e objetivos de longo prazo. Esse processo envolveu a comunidade em todas as etapas e incluiu participação em todos os níveis, desde jovens até cuidadores e idosos, bem como orientação de um conselho consultivo informado. O cronograma de participação abrangeu festividades, reuniões, discussões e atividades de governança comunitária.
Bohdana adotou uma abordagem liderada pela comunidade, entendendo a terra e a história do povo. Dessa forma, o design residencial se concentra em soluções enraizadas na comunidade que refletem valores culturais e modos de vida tradicionais. Esse processo de feedback continua à medida que o projeto avança por meio de estudos de viabilidade, produção modular e desenvolvimento de escalabilidade.
O Plano Comunitário Abrangente (PCC) da Primeira Nação Moose Cree, criado em 2018, é um documento vivo que descreve a visão e a estratégia futuras da nação. O PCC envolveu mais de 1.000 membros da comunidade por meio de 57 eventos. O projeto de Bohdana Innes, “mînawâchihiwewi-ne-wîkiwan/Curando Nosso Lar: Construções da Terra” incorpora e se conecta com o PCC de sua nação:
– Okimawiwin (educação): O protótipo apresenta uma tenda de cozinha para compartilhar ensinamentos tradicionais sobre soberania alimentar e criar um espaço para educação intergeracional.
– Milopimatisiwin (saúde): A tenda da cozinha fornece nutrição à família e à comunidade. Além disso, o design se adapta ao ambiente e contribui para uma vida mais saudável e segura.
– Uski nesta ka itakwaki uskeek (terra e recursos): é proposto um projeto que protege a Terra por meio de atividades que ensinam a colheita tradicional.
– Waakoomitowin (social): espaços adequados para reuniões tradicionais e salas espaçosas para famílias grandes que buscam cura e reconexão.
– Eshikeeshowaywin nesta atuskanaysiwin (Língua e Cultura): Como a língua e a cultura permitem manter uma conexão com os ancestrais, o projeto cria oportunidades para programas de ensino cultural e linguístico, além de integrar a língua ao design.
– Habitação e infraestrutura: o protótipo de projeto de habitação incorpora a Terra e, acima de tudo, o modo de vida Cree.

Padrões de Emissão Zero: Protótipo de Habitação Comunitária Moose Cree
O protótipo da casa estabelecerá um novo padrão de construção na comunidade de Mushkegowuk. Este projeto foi criado para testar soluções de construção aprimoradas e ambientalmente responsáveis e inclui espaços para encontros sociais, como a tradicional tenda de cozinha e a garagem para atividades de colheita. As casas são adaptadas a diferentes tamanhos de famílias, com uma abordagem modular e multigeracional. Por exemplo, casas maiores incluem quartos para idosos, permitindo que eles vivam perto de suas famílias e mantenham sua independência em condições extremas de inverno.
O design inclui três tamanhos diferentes. A primeira é uma casa básica de dois quartos para casais, solteiros ou famílias pequenas, que pode ser expandida conforme a família cresce. A segunda é uma unidade de três quartos, uma extensão do núcleo original com um cômodo adicional. Por fim, a terceira é uma unidade de quatro quartos, sendo um quarto para um idoso. Esta unidade é composta por dois espaços separados conectados por um terraço e um telhado. Todos os três layouts podem ser adaptados para atender às necessidades da família e incluem uma oficina destinada para a caça e coleta.
Esta casa incorpora o estilo de vida Moose Cree por meio de sua conexão com a terra e as criações da Mãe Terra. Ao recuperar sua cultura e projetar em harmonia com a terra, você não está apenas curando famílias, mas também comunidades e a própria terra.
Esta casa incorpora o estilo de vida Moose Cree por meio de sua conexão com a terra e todas as criações da Mãe Terra.
O design combina uma estética natural com eficiência energética, estabelece uma conexão com o ambiente natural e incorpora soluções que respondem às flutuações térmicas e aos padrões climáticos característicos do norte. São utilizados materiais provenientes da terra e métodos de construção tradicionais, permitindo o desenvolvimento de habilidades e o uso de recursos renováveis e locais. Esta casa incorpora o estilo de vida Moose Cree por meio de sua conexão com a terra e todas as criações da Mãe Terra. Ao recuperar sua cultura e projetar em harmonia com a terra, eles não estão apenas curando famílias, mas também comunidades e a própria terra.
O protótipo da casa será projetado para atender aos padrões de energia líquida zero, usando estratégias passivas para reduzir a necessidade de aquecimento e resfriamento na casa. O projeto aprovado é para uma casa de 232 metros quadrados, incluindo uma unidade de quatro quartos e um quarto de avó, ou kookum. A construção inclui isolamento de alto valor R no envoltório do edifício, um sistema fotovoltaico (painéis solares), uma bomba de calor de fonte de ar com suporte elétrico para aquecimento e resfriamento, um fogão a lenha, um sistema de ventilação com recuperação de energia (ERV) e construção convencional em madeira.

Escopo contínuo do projeto
Junto com sua Nação, Bohdana continuará a desenvolver seu trabalho na comunidade para atender às necessidades de moradia de mais de 300 famílias: “Os povos indígenas têm fortes laços com a Terra em que vivem, pois sua Terra reflete sua Cultura, e sua Cultura reflete sua Terra. As duas estão interligadas e não podem ser consideradas separadamente.” No curto e médio prazo, irá liderar os seguintes projetos:
1. Modularização do protótipo de habitação: dimensionar o protótipo para a Primeira Nação Moose Cree é essencial para garantir sua acessibilidade e replicabilidade na comunidade. O período de construção deste protótipo será de maio a outubro. Essa abordagem treinará a população local na construção de moradias com eficiência energética e fortalecerá a economia local, o que contribuirá para a criação de moradias acessíveis.
2. Avaliação do estado de conservação de cinco habitações existentes e renovação de duas
As condições de cinco casas existentes serão avaliadas, e duas delas serão reformadas para melhorar sua eficiência energética. Hoje em dia, muitas casas estão em condições inabitáveis ou precisam de reparos, sejam eles grandes ou pequenos.
3. Estudo de Viabilidade Comunitária para Terras com Direitos de Tratado (TLE)
O estudo abrangerá 77 acres na Ilha Moose Factory, onde a reserva deverá se expandir nos próximos cinco anos. O plano comunitário identificará áreas comerciais, institucionais e residenciais, bem como espaços culturais (por exemplo, áreas de reunião ao ar livre) e avaliará a escalabilidade do protótipo de habitação da MCFN. O resultado será um relatório de viabilidade abrangente.
Graças ao trabalho anterior de Bohdana com a comunidade e o território, e ao planejamento comunitário liderado pela Nação, todos esses projetos estão interligados. Essa abordagem exige tempo, tempo essencial para desenvolver projetos que respeitem os direitos indígenas, ambientais e humanos.

Liderança jovem no desenvolvimento de habitações comunitárias energeticamente eficientes
A moradia é uma necessidade básica e, no que hoje conhecemos como Canadá, a moradia adequada é reconhecida como um direito humano fundamental. No entanto, os sistemas atuais continuam a criar barreiras que impedem as Nações Indígenas de exercerem plenamente esse direito. Nos níveis nacional e internacional, é necessário um apoio mais equitativo, com maiores recursos e esforços direcionados à melhoria das condições de moradia dos indígenas.
Projetos como Bohdana abrem caminho para modelos de habitação que excedem os padrões mínimos, gerando mudanças duradouras e sustentáveis nas comunidades. Este é um relato vivo do que pode ser alcançado quando os jovens indígenas e suas comunidades recebem apoio para liderar e criar suas próprias versões de soberania energética. Destaca a importância do trabalho de aterramento na comunidade, na cerimônia e na terra antes, durante e depois de qualquer projeto de energia limpa.
Essa abordagem está inerentemente ligada à responsabilidade relacional, garantindo maior durabilidade da moradia e da infraestrutura para as gerações futuras. Não é apenas um projeto com um impacto extraordinário, mas também uma prova do que pode ser alcançado quando as comunidades estão no centro de seus lares.
Bohdana Chiupka-Innes formou-se na Escola de Arquitetura McEwen da Universidade Laurentians e é membro da Primeira Nação Moose Cree no Território Mushkegowuk. Atualmente, ela mora em Ottawa, no Território Tradicional Não Cedido do povo Algonquin Anishinaabeg, e é arquiteta estagiária na JL Richards & Associates Limited (JLR).
Freddie Huppé Campbell é bacharel em Políticas Públicas pela Universidade de Mary e mestre em Prevenção de Conflitos e Construção da Paz pela Universidade de Durham. Freddie lidera a equipe de Energia e Clima da Indigenous Clean Energy, onde trabalha para apoiar a soberania da energia limpa.
Mackenzie Roop é bacharel em Desenvolvimento Internacional pela Universidade McGill e mestre em Práticas de Desenvolvimento Indígena pela Universidade de Winnipeg. Seu foco é construir relacionamentos e abordagens interjurisdicionais para fortalecer a liderança indígena no setor energético.
Paulina Larreategui é formada em direito pela Universidade Católica do Equador, tem mestrado em relações internacionais pela FLACSO e é doutoranda em políticas públicas pela Johnson-Shoyama na Universidade de Regina. Atualmente, vive e trabalha no Território do Tratado 4, onde abraça as aventuras da vida com sua família.