Na Amazônia brasileira, povos indígenas realizam oficinas de cartografia para aprender a elaborar seus próprios mapas de seus territórios. Além de gerar suas próprias ferramentas de gestão e controle de suas terras, eles acabam criando verdadeiras obras de arte a partir de sua própria visão de mundo. Diferentemente dos mapas produzidos por acadêmicos, os mapas indígenas são repletos de cores, símbolos e desenhos. Dessa forma, a cartografia indígena reforça a cultura e a identidade.
Há quase três décadas, uma nova e estratégica categoria social surgiu no Acre, estado da região norte do Brasil: os Agentes Agroflorestais Indígenas; trata-se de uma nova geração nas sociedades indígenas desse Estado, fruto de processos educativos interculturais, da aquisição da escrita e de uma segunda língua, além do acesso a conhecimentos que exigem contato com a sociedade não indígena. Capacitados pela Comissão Pró-Índio do Acre (CPI-Acre), organização da sociedade civil responsável pela gestão territorial e ambiental de suas terras, esses profissionais têm prestado um importante serviço às suas comunidades e ao país, promovendo iniciativas de desenvolvimento e subsistência por meio de novas políticas e projetos.
Esta experiência de formação para Agentes Agroflorestais Indígenas busca empoderar os próprios Povos Indígenas para que assumam o controle da gestão de seus territórios. Muitas dessas práticas visam implementar ações concretas em Terras Indígenas: promoção do desenvolvimento local com foco na soberania alimentar e agroecologia; conservação dos recursos naturais; preoteção das florestas; conscientização da comunidade sobre questões socioambientais; monitoramento e controle do território; e a implementação de programas de saúde, educação, cultura e produção que busquem diversificar as fontes de alimentos e as alternativas socioeconômicas disponíveis.
Neste contexto, a Cartografia Indígena tem sido um elemento importante na formação de Agentes Agroflorestais, visto que o mapeamento contribui para (re)pensar e compreender o espaço geográfico e a organização dos territórios.

A construção de mapas
Durante a confecção dos mapas nas aulas de Cartografia Indígena, são utilizados diversos tipos de papel: canson, arches, madeira, sulfite e cartolina de diferentes tamanhos. Isso oferece ao Agente Agroflorestal maiores oportunidades de expressar seus conhecimentos geográficos. O uso de folhas grandes sempre foi valorizado, pois permite um melhor processamento das informações representadas no mapa. Desde o início dessa experiência, fica evidente o prazer que os indígenas demonstram em desenhar, utilizando diversas cores em seus mapas. Nas sociedades indígenas, a arte permeia a vida por toda parte, e isso também se reflete em seus mapas, que em muitos casos constituem verdadeiras obras de arte.
As artes sempre tiveram um lugar especial no currículo dos Agentes Agroflorestais, e as aulas de cartografia buscam destacar o aspecto artístico das atividades de cartografia. Diversos materiais para pintura são oferecidos, como lápis de cor, têmpera, aquarela, nanquim e giz de cera (este último acompanhado de óleos vegetais para dissolver a cera no papel). No entanto, devido à sua facilidade de uso e baixo custo, o material mais utilizado são os marcadores de 12 cores.
Desenhar um mapa mental de uma Terra Indígena em cartolina leva mais de dois dias. Os Agentes Agroflorestais geralmente continuam trabalhando depois das aulas e até tarde da noite.
Leva mais de dois dias para completar um mapa de uma Terra Indígena. Muitas vezes, o trabalho continua depois do horário escolar e até tarde da noite.
Antes de iniciar a criação de cada mapa, é realizada uma discussão sobre como trabalhar com ele na página. Os alunos são orientados sobre onde colocar o título e a legenda, garantindo que o espaço esteja organizado de forma que todas as informações necessárias possam ser inseridas. O desenho também é organizado na página, embora os Agentes Agroflorestais o façam à sua maneira. O mapa começa com lápis e borracha e é finalizado com o contorno das figuras com caneta nanquim ou caneta esferográfica preta de ponta fina, o que realça as figuras. Uma vez desenhado, o mapa é pintado: primeiro, com as cores estipuladas pela legenda indígena e, posteriormente, permitindo um processo criativo livre.
O planejamento do tempo é um aspecto muito importante a ser considerado. Como os Agentes Agroflorestais se esforçam para fazer tudo com muito cuidado, bem-acabado e com riqueza de detalhes e informações, os mapas exigem um tempo considerável para serem concluídos. Esse refinamento exige o mesmo cuidado e beleza que os povos indígenas dedicam à produção de seus artefatos culturais. Um mapa mental de uma Terra Indígena feito em papelão leva mais de dois dias para ser concluído. Frequentemente, os Agentes Agroflorestais continuam trabalhando depois da escola e até tarde da noite. Em outros casos, os mapas levam mais de quatro dias para serem concluídos, dependendo do seu tamanho e do número de Agentes Agroflorestais envolvidos.

A estética da cartografia indígena
Os Agentes Agroflorestais são orientados na nomeação dos mapas que produzem. O título é escrito em língua indígena ou em português. São discutidos os conceitos da legenda indígena, aplicando as cores acordadas pelos professores indígenas, que são as mesmas utilizadas nos materiais didáticos de geografia nas escolas. Como já conhecem o significado dos símbolos que representam as feições do mapa, têm liberdade para criar a sua própria legenda. Discute-se a necessidade de identificar os meios de orientação utilizados pelos povos indígenas: oeste, leste, cursos de água e estrelas, mas também se trabalha o conhecimento ocidental, utilizando os pontos cardeais e a rosa dos ventos.
Os mapas indígenas são bilíngues, elaborados em línguas indígenas e em português. Novos termos criados em línguas indígenas são frequentemente discutidos entre os Agentes Agroflorestais até que um consenso seja alcançado. Os Huni Kuĩ chamam o mapa em sua língua mae dami, que significa “desenho da terra”. Eles também usam maewã tanati, que significa “grande espaço com muita informação”. Os Agentes Agroflorestais Huni Kuĩ chamam o mapa do sistema agroflorestal de bai hanu mibã tibi husia (“caminho de plantas mistas”). Mais tarde, eles recriaram outro termo para traduzir “Sistema Agroflorestal”, que ainda é usado hoje: mibã haya txakama (“existência de muitas plantas diferentes”). Para se referir à legenda, eles usam a palavra unãti, que significa “sinal”, “marca” ou “relógio que marca as horas”.
No início da disciplina de cartografia, muito se trabalha com neologismos em línguas indígenas para criar novos termos que serão integrados aos mapas, contribuindo assim para a construção do próprio conceito. Um mapa em línguas indígenas não só facilita a compreensão para quem o cria, mas também para outros povos indígenas. Ser escrito em sua própria língua — e não na do colonizador — constitui uma marca étnica e política de valorização da cultura e das línguas minoritárias. Além disso, serve como meio de compreensão das relações de poder e dominação: uma forma de descolonizar ideologias de opressão.

O mapa como arte indígena
Nas sociedades indígenas, a arte é um elemento muito importante na formação da própria identidade. No caso dos mapas indígenas, a composição de cores, sua plasticidade e seu apelo estético são marcantes. Acredita-se que esse aspecto significativo de beleza se deve ao prazer que esses “novos cartógrafos” sentem ao desenhá-los. Essa arte de cartografar é caracterizada pela naturalidade, originalidade, simplicidade, liberdade e informalidade, já que técnicas acadêmicas como perspectiva, composição e uso da cor estão ausentes dessa atividade. Isso permite o registro, com beleza e vitalidade, de uma visão de mundo, uma experiência social que demonstra o conhecimento e a habilidade indígenas, tanto em relação às artes visuais quanto aos ecossistemas e à biodiversidade locais.
Imbuídos de arte, esses mapas revelam o pensamento indígena sobre o território e sua terra. Ao mesmo tempo, possuem uma dimensão política, pois são constantemente elaborados e retrabalhados ao longo dos anos, um dinamismo que acompanha e expressa a própria vida dos Agentes Agroflorestais. Alguns chegam a utilizar letras desenhadas em forma de animais, pessoas ou plantas em seus mapas e decoram as bordas com arcos e flechas. Outros povos, como os Ashaninka, utilizam desenhos de seus trajes tradicionais.
Em suma, os mapas indígenas são peças únicas que refletem a inspiração de seus criadores. Raramente são meras representações geográficas: vêm com uma série de significados e emblemas personalizados. O papel simbólico da decoração está presente em muitos mapas indígenas. Por exemplo, nas molduras, os Agentes Agroflorestais marcam seus mapas com kene kuĩ (“desenhos verdadeiros”): desenhos geométricos tradicionais que representam o conhecimento ancestral transmitido de geração em geração e ensinado às mulheres Huni Kuĩ pela jiboia. Esses grafismos retratam elementos da natureza, como animais e plantas, e fazem parte tanto de pinturas corporais quanto daquelas feitas em tecidos, cerâmicas, cestarias, bancos e ornamentos (hoje também podem ser vistos em suas casas, pintados em paredes e pisos).

Imagens que simbolizam esperança
Com o tempo, o estilo único de cada comunidade na produção de seus mapas torna-se perceptível. É evidente que cada uma possui uma estética, uma tendência estilística e um estilo de linha distintos dos demais. Os diferentes estilos são claramente distinguíveis: Huni Kuĩ, Noke Koī, Yawanawa, Manxineru ou Ashaninka. Assim como nos desenhos em papel, no caso dos mapas, a arte gráfica contemporânea revela a concepção de universo dos povos indígenas, além de representar a reafirmação de sua identidade étnica e uma preocupação essencialmente estética.
Os mapas criados por Agentes Agroflorestais têm a característica singular de combinar o estético com o político. Muitas vezes, há dificuldade em reconhecer os mapas indígenas como instrumentos políticos devido à sua beleza estética, pois acabam sendo vistos apenas como obras de arte. No entanto, o aspecto político se evidencia no aspecto linguístico, quando as legendas e os títulos são escritos em línguas indígenas. Também está presente nas demandas para que o Estado responda aos seus problemas, estabelecendo um diálogo político com a sociedade nacional e internacional. Também aparece em demandas relacionadas à terra, à saúde, à conservação dos recursos naturais e ao reconhecimento da própria identidade cultural.
Os mapas criados pelos povos indígenas transmitem significados, conhecimentos e demandas. Além de serem materiais para uso interno de suas respectivas comunidades, tornam-se instrumentos para sua relação com a sociedade ocidental moderna. No entanto, esses mapas não são estáticos: cada um não é um mero produto acabado, mas o resultado de um processo contínuo de diálogo entre comunidades indígenas, seus conselheiros, vizinhos e o Estado brasileiro. Tais mapas são também sonhos de um futuro diferente, imagens simbólicas de esperança por um país mais justo, plural e inclusivo.
Renato Antonio Gavazzi é um geógrafo e pesquisador indígena, especializado em Agricultura Biodinâmica (Emerson College) e mestrado em Geografia (Universidade de São Paulo). Desde 1983, capacita professores, agentes de saúde e agroflorestais indígenas no Brasil e na Venezuela. Atualmente, integra a Comissão Pró-Índio do Acre.