A paz como um sistema vivo: perspectivas indígenas na voz de Leonor Zalabata Torres

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Cerimônia de hasteamento das bandeiras dos novos membros não permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Foto: Missão Permanente da Colômbia junto à ONU

Leonor Zalabata Torres é uma líder indígena colombiana do povo Arhuaco da Sierra Nevada de Santa Marta. Ela participou do processo constitucional de 1991 e atualmente é Representante Permanente da Colômbia nas Nações Unidas. Tornou-se a primeira mulher indígena a ocupar esse cargo e a representar o país no Conselho de Segurança. Discutir sobre conflito e paz com Leonor Zalabata exige ir além dos padrões usuais. Em sua visão, a paz não é um armistício legal ou um pacto entre "partes", mas uma condição mais profunda: a estabilidade da vida.

Nota do autor: A entrevista ocorreu em 6 de dezembro de 2025. Semanas depois, os Estados Unidos implementaram uma ação militar unilateral contra a Venezuela. Esse evento ocorreu após a entrevista e não está incluído nas respostas.

Laura Galvis (LG): Quando falamos de conflito e paz, geralmente o fazemos a partir de categorias estatais ou jurídicas. Quais princípios indígenas você considera fundamentais para a compreensão das raízes profundas da violência contra os povos indígenas?

Leonor Zalabata Torres (LZT): Para discutir conflitos, é necessário começar pelas formas de pensar e viver que existem no mundo. Os povos indígenas são culturas de paz. Nosso modo de vida pacífico é interrompido quando fatores externos transformam negativamente nossa maneira de ser no mundo. O conflito não está relacionado a uma suposta vulnerabilidade dos povos indígenas, mas sim a fatores externos que minam nossa forma de pensar e viver. Nosso modo de vida se desenvolveu ao longo do tempo e permanece válido hoje. Os povos indígenas possuem tradições ancestrais que não estão presas ao passado; pelo contrário, são profundamente contemporâneas na evolução da humanidade. Aprendemos outras línguas, nos adaptamos sem abandonar quem somos. Essa capacidade de adaptação não implica renunciar aos nossos princípios, mas sim dialogar com o mundo sem perder o equilíbrio.

Na Colômbia, existem mais de sessenta línguas indígenas e, paradoxalmente, os povos indígenas são a população mais bilíngue do país. Muitos de nós aprendemos o espanhol como língua nacional, sem deixar de falar nossas línguas maternas, ou mesmo sem tê-las perdido. Essa situação não representa uma perda automática de identidade; é também uma forma de continuidade cultural. O espanhol tornou-se um veículo por meio do qual o pensamento indígena continua a ser transmitido à sociedade colombiana. Mesmo que algumas línguas tenham se enfraquecido, o espírito das culturas indígenas continua a circular, a se adaptar e a dialogar, sem desaparecer.

O problema surge quando esses equilíbrios são perturbados, às vezes até mesmo involuntariamente. Quando a intervenção ocorre sem conhecimento ou compreensão de uma cultura, os processos existentes de desenvolvimento humano são interrompidos. É aí que surgem conflitos profundos. A desapropriação territorial é uma das expressões mais claras dessa ruptura: ao separar as pessoas de seus territórios, rompe-se também uma relação histórica com a vida.

Nossos conhecimentos não são abstratos nem meramente simbólicos. Somos povos com uma profunda compreensão da terra, das plantas, do clima e das energias que sustentam a vida. Essas práticas têm sido eficazes há séculos, muito antes da conquista, embora nem sempre as expliquemos nas línguas dominantes. O fato de não serem compreendidas por quem está de fora não significa que não funcionem; significa que respondem a um tipo diferente de racionalidade.

LG: Como os povos indígenas entendem o conceito de paz?

LZT: Para nós, a paz não é algo que possa ser decretado. Ela diz respeito à estabilidade da vida, aos nossos costumes e à nossa relação com a terra, com os outros e com o mundo. Valores como água, ar e terra não são posses individuais; são as bases comuns da vida coletiva. Quando esses valores são subordinados a um conceito de desenvolvimento que mede tudo em termos de produção ou rentabilidade, o equilíbrio se rompe. Portanto, qualquer reconhecimento que não compreenda a paz como uma relação profunda com a vida permanece incompleto. É como tentar reconhecer um espírito sem corpo: pode ser nomeado, mas não pode ser sustentado. Sem território, sem língua e sem práticas de vida, a paz se torna uma ideia vazia, desconectada da experiência real dos povos.

LG: Na Colômbia, o conflito armado é geralmente narrado como um fenômeno de seis décadas. O que muda quando o conflito é considerado a partir de uma temporalidade indígena, onde a guerra não começa com os atores armados, mas com rupturas mais antigas?

LZT: Quando o conflito é considerado a partir de uma temporalidade indígena, o ponto de partida muda radicalmente. Não estamos falando de 60 anos, mas de séculos: um período em que não nos foi permitido continuar nosso próprio desenvolvimento e fomos forçados a nos defender constantemente para sobreviver. A identidade indígena é interna. Está relacionada ao conhecimento, às práticas e a uma profunda conexão com a natureza, o território e o cosmos. Essa identidade foi mantida apesar da imposição de um sistema de pensamento único, do abandono forçado de nossas línguas e costumes e da negação de nossos sistemas de conhecimento.

Em vez de permitir que cada cultura se desenvolvesse a partir de seu próprio modo de pensar, impôs-se uma única ideia de desenvolvimento e evolução econômica. Isso perturbou profundamente nossos modos de vida e nos reduziu, durante séculos, à constante defesa do direito de ser. O direito de ter veio depois, quando as coisas tangíveis começaram a ser reconhecidas. De um ponto de vista essencial, o desenvolvimento humano deveria ter se baseado no reconhecimento de que somos todos irmãos e irmãs diferentes. A falta desse reconhecimento continua alimentando um conflito que não é apenas histórico, mas também estrutural e global.

Leonor Zalabata Torres explica que, para os povos indígenas, a paz está relacionada à estabilidade da vida, aos seus costumes e à sua forma de se relacionar com a terra, com os outros e com o mundo. Foto: Missão Permanente da Colômbia junto à ONU

LG: Ao longo de sua carreira, você insistiu que o reconhecimento constitucional da Colômbia como um país multiétnico e multicultural, com pluralismo jurídico, abriu caminho para uma participação indígena mais ampla. Como você avalia o impacto desse reconhecimento, tanto na vida nacional quanto em fóruns multilaterais?

LZT: Pela nossa experiência como povos indígenas, o reconhecimento constitucional da Colômbia em 1991 não foi apenas uma mudança legal interna. Marcou um ponto de virada. Por muitos anos, o termo “integração à vida nacional” foi usado como se significasse deixar de ser quem éramos. Com a Constituição de 1991, entendeu-se que a integração não se tratava de subordinação, mas de reconhecer a diversidade cultural e o pluralismo jurídico como princípios que o Estado deveria proteger. Esse reconhecimento também abriu oportunidades internacionais. Permitiu que os povos indígenas colombianos se engajassem com outros povos do mundo sem abrir mão de sua própria governança ou de seus modos de pensar. Nesse sentido, o mundo se tornou menor e começamos a nos reconhecer em lutas comuns com povos indígenas de outras regiões.

LG: Com base nessa experiência, qual o papel que as estruturas e mecanismos internacionais, em particular o Sistema das Nações Unidas, desempenham hoje na proteção dos povos indígenas e na construção da paz global?

LZT: O Fórum Permanente sobre Questões Indígenas, o Mecanismo de Peritos sobre os Direitos dos Povos Indígenas e a Relatoria Especial sobre os Direitos dos Povos Indígenas têm sido fundamentais para a expansão dos direitos. Esses espaços ganham valor na medida em que contribuem de forma concreta para a paz e o respeito aos povos indígenas. Eles ajudaram a tornar visível e a abordar um profundo conflito político relacionado ao território, ao desenvolvimento e ao reconhecimento dos povos indígenas, que durante décadas foi tratado exclusivamente como uma questão de governança interna. Em contextos como o da Colômbia, esse conflito político acabou por levar a um conflito armado.

Durante muito tempo, os direitos humanos foram concebidos quase exclusivamente a partir de uma perspectiva individual. Para os povos indígenas, essa visão é incompleta. Nossos direitos são também coletivos e ambientais, pois a água, o ar, a terra e a estabilidade de nossos territórios não pertencem a uma única pessoa; eles sustentam a vida de todos. Mecanismos internacionais têm contribuído para que essa perspectiva comece a ser reconhecida e debatida em fóruns globais.

Nossa participação está se tornando permanente, tanto na vida nacional quanto internacional, porque também compreendemos que essa presença constante é necessária. No entanto, a humanidade ainda não assimilou completamente que os direitos coletivos e ambientais, e as práticas que os sustentam, devem ser entendidos como princípios para a paz global. Os povos indígenas nunca deixaram de pensar na paz. Uma paz que não é apenas nossa, mas também dos países e regiões do mundo. Estamos em todos os lugares e, ao longo da história, mantivemos práticas que nos permitem viver de forma diferente e coexistir em equilíbrio. Essas práticas não pertencem apenas ao passado: são lições que a humanidade precisa resgatar se quiser construir uma paz duradoura.

LG: Atualmente, os territórios indígenas estão no centro das transições energéticas, da luta pelos minerais e da crise climática. Que conflitos estão surgindo dessas pressões globais?

LZT: Quando falamos hoje sobre transição energética, crise climática ou minerais estratégicos, parece que estamos diante de algo completamente novo. Mas, para mim, não é tão novo assim. Em muitos aspectos, é a mesma história, só que com um mecanismo diferente. Antes, eram outros recursos; agora são os chamados minerais críticos ou energia limpa. Os nomes mudam, o discurso muda, mas os territórios centrais permanecem os mesmos. E com isso, os conflitos por terra, fronteiras territoriais e controle dos espaços onde vivemos ressurgem.

A isso se soma a crise climática, que alguns ainda negam por a considerarem meramente um custo econômico. Mas seus impactos já são sentidos. O derretimento das geleiras, por exemplo, não é uma discussão teórica: afeta diretamente as fontes de água, os ciclos naturais e a vida de comunidades inteiras. A crise é reconhecida, mas não há uma maneira clara de preveni-la, repará-la ou se adaptar verdadeiramente a ela. E nesse vácuo, decisões são impostas mais uma vez, não com base no cuidado com a vida, mas sim no poder e no capital. É aqui que os povos indígenas se veem novamente vulneráveis, mesmo tendo historicamente protegido esses territórios.

Persiste a ideia de que os povos indígenas são os que precisam aprender, como se outros setores da sociedade já possuíssem todas as respostas. No entanto, os valores que tenho discutido — o cuidado com o ar, a água, as nascentes dos rios — não pertencem a nenhuma cultura em particular. Eles sustentam a vida coletiva. Se forem cuidados, beneficiam a todos. O ar puro não é apenas para aqueles que o protegem: ele circula livremente pelo tempo e espaço. Essas são práticas que os povos indígenas mantêm ao longo da história, não para controlar a natureza, mas para preservar o equilíbrio que sustenta a vida.

Vejo algum progresso, por exemplo, em espaços como as conferências sobre o clima, onde a participação da sociedade civil e dos povos indígenas foi ampliada e acordos e marcos legais estão sendo discutidos. Isso é importante. Mas o problema subjacente permanece o mesmo: um conceito de desenvolvimento que justifica quase tudo, até mesmo a violência, para avançar economicamente. Enquanto essa lógica não for questionada, esses conflitos continuarão a surgir, mesmo que lhes demos novos nomes.

Cerimônia de posse dos novos membros do Conselho de Segurança (2026-2027). Leonor Zalabata Torres é a primeira mulher indígena a representar a Colômbia neste órgão. Foto: Missão Permanente da Colômbia junto à ONU

LG: Em sua reflexão, a paz não parece depender apenas de mecanismos formais de resolução de conflitos, mas também de uma relação mais profunda com a vida. Que lugar ocupam a consciência e a cosmovisão indígenas nesse contexto?

LZT: Muitas vezes pensamos que tudo pode ser resolvido com mecanismos, regras ou especialistas, e isso é importante, mas não é suficiente. Algumas práticas se disseminam porque servem a interesses específicos, enquanto outras existem simplesmente porque são um modo de vida. Ter consciência não se resume a estar informado e conhecer regras. Trata-se também de ir um pouco além. Ter uma identidade implica ir além. No caso dos Povos Indígenas, esse “além” reside na natureza e no cosmos. Referências humanas, ciência, filosofia e direito são importantes e proporcionam clareza, mas nem sempre conseguem manter o profundo equilíbrio que os indivíduos e a humanidade precisam. Essas são questões que nem sempre se encaixam em categorias claras, mas vale a pena continuar a pensar e discutir sobre elas. É por isso que é importante que esses diálogos aconteçam.

LG: Em diversos círculos, fala-se de uma transformação na liderança indígena, especialmente com o aumento da visibilidade de mulheres e jovens. Que mudanças você observa na relação entre poder, território e participação entre os povos indígenas?

LZT: Para mim, essa questão não pode ser compreendida separando mulheres de homens ou jovens de idosos. Em nossas culturas, o equilíbrio sempre se baseou na complementaridade. Mulheres, homens, jovens, crianças e idosos desempenham papéis diferentes, mas mutuamente necessários. Não se trata de uma divisão por categorias, mas de uma relação viva. A participação das mulheres indígenas cresceu, é verdade, assim como sua visibilidade política. Mas não porque estejamos nos separando do movimento indígena, e sim porque essa complementaridade se fortaleceu. Muitas de nós conseguimos participar porque temos o apoio de nossos homens indígenas e porque existe uma história coletiva de luta pela defesa de nossa cultura, território e identidade.

Nesse processo, os jovens indígenas desempenham um papel fundamental. Eles têm a força, a energia e a capacidade de dinamizar suas comunidades: podem fortalecer o caminho a seguir ou desviá-lo do caminho certo. Hoje, os jovens estudam, frequentam universidades, aprendem outros idiomas e adquirem outros conhecimentos, mas isso não significa que a cosmovisão indígena tenha se fechado. Pelo contrário, ela tem sido uma visão aberta que dialoga com outras formas de saber sem abandonar a sua própria.

Por isso digo que não estou aqui apenas por ser mulher, ou mesmo por ser indígena. Estou aqui porque houve um desenvolvimento político coletivo, uma construção compartilhada de pensamento e ação. O que realmente importa é ter uma visão indígena, uma filosofia viva, e não apenas uma representação externa. Esse é um dos maiores desafios que enfrentamos hoje.

LG: A Colômbia ingressará no Conselho de Segurança das Nações Unidas em 1º de janeiro de 2026, e você assumirá essa representação. Qual é o significado desse momento, não apenas para o país, mas também para os povos indígenas em todo o mundo?

LZT: A chegada da Colômbia ao Conselho de Segurança não é uma decisão improvisada nem o resultado de uma única circunstância: é um processo que vem se desenrolando há muitos anos. O fato de essa representação agora poder ser assumida por uma mulher indígena tem um profundo significado político, não como uma conquista pessoal ou um gesto simbólico, mas como uma forma de dar visibilidade aos povos indígenas em um dos espaços mais importantes para a tomada de decisões globais. É o reconhecimento de que temos experiência real na construção da paz, uma experiência que deriva não apenas de acordos, mas de um modo de vida que, historicamente, busca resolver conflitos sem destruir vidas.

A Colômbia tem sido um país resiliente em termos de paz. Apesar da violência e dos conflitos armados, priorizou consistentemente o diálogo como caminho a seguir. Levar essa experiência ao Conselho de Segurança acarreta uma grande responsabilidade, mas também deixa um legado importante: que os povos indígenas do mundo sejam vistos e ouvidos, e que suas práticas e perspectivas sejam reconhecidas como contribuições para a construção da paz global. Esse, para mim, é o significado mais profundo deste momento.

Laura Galvis Santacruz é uma socióloga colombiana e mestranda em Desenvolvimento e Gestão Internacional na Universidade de Lund (Suécia). Ela possui uma década de experiência em análise de dinâmicas territoriais e conflitos socioambientais nos setores de mineração e meio ambiente.