Ñamnagün Mew Ta Pünon: memórias de mulheres mapuches dos parentes detidos desaparecidos

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Ilustração: Niña Pudú

O livro Ñamnagün Mew Ta Pünon reúne as histórias de mães, filhas, irmãs e esposas de pessoas mapuches desaparecidas. Por meio de depoimentos íntimos, revela os desaparecimentos ocorridos durante a ditadura chilena, bem como aqueles perpetrados após o retorno à democracia. A obra serve como ferramenta de conscientização, denúncia de injustiças e construção de uma história a partir da base, sob a perspectiva daqueles que foram marginalizados. Assim, sua função transcende a mera documentação: contribui para a luta pela memória e pelos direitos humanos.

Memórias de mulheres mapuches familiares de desaparecidos trazem à luz experiências até então invisíveis de um tipo de desaparecimento que afetou profundamente o povo mapuche no Chile. Dessa forma, a obra busca confrontar o tratamento desumanizador dos casos de desaparecimentos forçados em território mapuche, ao mesmo tempo que honra com ternura e humanidade a memória de seus entes queridos.

Maridos, pais, filhos e amigos são lembrados por meio das memórias das mulheres que zelaram por essas ausências, falaram delas, as transmitiram de geração em geração e, sobretudo, tiveram que lidar com elas. Este exercício destaca esses atos de resistência, de seguir em frente, de confrontar as memórias e administrar as ausências, assumindo inclusive seus papéis na comunidade.

Além disso, o livro é cuidadosamente ilustrado por Niña Pudú e recria memórias e recordações fotográficas, algo comovente porque o faz também numa perspectiva intergeracional: passa a tocha dessas memórias para a nova geração.

Lorenza Cheuquepan Levimilla relembra o momento em que a polícia levou seu irmão mais novo: com o bebê nos braços, ela ficou desorientada e com uma dor que ainda a acompanha. Ilustração: Niña Pudú

Os eixos da memória

Cada depoimento articula três eixos fundamentais: o desaparecimento forçado do membro da família, o processo de luto (ou a sua ausência) e a resistência coletiva (individual e comunitária) das autoras. Os desaparecimentos forçados do povo Mapuche são explicados em termos de violência estatal, contemporânea à ditadura chilena e também inserida numa continuidade histórica de colonização e repressão do povo Mapuche.

Nesse contexto, o luto não segue os canais habituais (enterro, reconhecimento legal, reparações), mas é interrompido: sem um corpo para enterrar, sem uma despedida adequada e sem justiça, a ausência persiste como uma ferida simbólica em toda a comunidade. As memórias individuais das autoras, então, assumem um caráter político: reunir a história silenciada, dar nome aos desaparecidos, preservar sua dignidade e combater a invisibilidade dos Mapuche nas narrativas oficiais.

Em alguns casos, famílias mapuches acreditam que os espíritos dos desaparecidos sofrem debaixo d’água, pois muitos corpos foram jogados no rio e no mar para que desaparecessem.
Algumas famílias mapuches acreditam que os espíritos dos desaparecidos estão sofrendo debaixo d’água, já que muitos corpos foram jogados no rio.

O bilinguismo da obra, em espanhol e mapuzugún, constitui uma decisão consciente de reivindicação linguística, uma vez que muitos autores são falantes de sua língua materna e sua voz não pode ser reduzida ao espanhol. Além disso, o desaparecimento forçado do povo Mapuche é situado como parte do “continuum da violência colonial”, não apenas como um episódio isolado da ditadura, mas dentro de um quadro histórico mais amplo de subordinação e negação do povo Mapuche.

Consequentemente, a resistência observada nas narrativas dos autores não é apenas individual (a busca por um familiar), mas também comunitária: gerando memória alternativa, fortalecendo o tecido social e reivindicando direitos culturais. As autoras narram não apenas a dor da perda, mas também a persistência na busca pela verdade e justiça. Elas constituem um sujeito ativo que se organiza, se manifesta e desafia o Estado chileno, os tribunais e a sociedade.

Mercedes Huaiquilao Ancatén procura o marido desde 1975: “Não o esqueci. Ele me deixou com vários filhos. Sofri muito para ver meus filhos crescerem.” Ilustração: Niña Pudú

As histórias: incerteza, verdade e reparação

O livro inclui os testemunhos de sete mulheres Mapuche: Lorenza Cheuquepán Levimilla, Mercedes Huaiquilao Ancatén, Cecilia Huenante Huilitraro, Eliana Huenante Huilitraro, Elena Huina Llancumil, Débora Ramos Astudillo e Zoila Lincoqueo Huenumán.

Lorenza Cheuquepán enfatiza a incerteza prolongada da ausência, a falta de um corpo com o qual lamentar e a persistente demanda por verdade e reparação. Por meio de sua voz emerge a condição dupla de ser mulher e mapuche: por um lado, vítima da violência estatal; por outro, agente de memória e resistência em sua comunidade. Sem um corpo para enterrar e sem um ritual de despedida adequado, a ferida permanece aberta, e o testemunho de Lorenza nos convida a questionar como o luto se torna um ato político.

Em segundo lugar, o relato de Mercedes Huaiquilao Ancatén, falante de mapuzugún, compartilha uma história na qual sua língua materna se torna essencial para a compreensão da profundidade da experiência. Seu testemunho aponta especificamente para o desenraizamento causado pelo desaparecimento, a mudança de significado dentro da comunidade e o papel ativista que ela assume como parente de uma pessoa desaparecida.

O testemunho de Eliana Huenante ressalta o papel das mulheres mapuches como guardiãs da memória e da narrativa histórica: elas resgatam a memória dos desaparecidos, constroem redes de apoio e desafiam o silêncio imposto.

O testemunho de Eliana Huenante ressalta o papel das mulheres Mapuche como preservadoras da memória e guardiãs da narrativa histórica.

O texto de Cecilia Huenante reconstrói a história de seu filho, desaparecido em 2005, destacando a continuidade da violência mesmo após o retorno à democracia, ou seja, para além da ditadura. Sua narrativa examina como o silêncio social e a estigmatização do povo mapuche desaparecido exacerbam a dor e a invisibilidade. Cecilia reflete sobre a reinterpretação do corpo como memória: como reconstruir a imagem de um ente querido e como preservar sua dignidade quando as narrativas oficiais os reduzem a meras estatísticas ou os apagam por completo.

Por sua vez, Eliana Huenante oferece uma voz complementar ao testemunho de sua irmã Cecilia, permitindo-nos observar como a memória familiar é construída coletivamente. Seu testemunho destaca o papel das mulheres mapuches como mantenedoras da memória e guardiãs da narrativa histórica: elas resgatam a memória dos desaparecidos, constroem redes de apoio e desafiam o silêncio imposto.

“Ainda tenho a identidade dele.” José era um menino tranquilo, de 16 anos, e gostava de jogar bola. Desde que uma patrulha policial o levou, sua mãe, Cecilia Huenante, o procura incansavelmente para poder lhe dar um enterro digno. Ilustração: Niña Pudú

Uma trama colonial que continua até os dias de hoje

Elena Huina Llancumil explica que o desaparecimento de um membro de sua família abalou sua identidade pessoal e seu senso de pertencimento à comunidade. Seu relato aborda a vulnerabilidade das comunidades Mapuche a estruturas repressivas, mas também o surgimento de estratégias de resistência. Ela examina como a memória se torna um espaço para a reconstrução: ao nomear, contar histórias e apoiar outras famílias, constrói-se uma verdade que não pode ser confinada aos protocolos do esquecimento. Seu testemunho ilustra que o luto também se traduz em mobilização, reivindicações por justiça e uma contribuição para uma narrativa pública que reconheça as feridas.

A história deDébora Ramos destaca o impacto intergeracional do desaparecimento forçado. Ao refletir sobre sua própria vida marcada pela ausência, ela mostra como a história de sua família se entrelaça com a história do povo Mapuche. Nestas memórias, ela afirma que o ato de lembrar se torna uma ponte para o futuro: a memória não é apenas um arquivo do passado, mas um recurso para preservar a identidade, a língua e a cultura, e para exigir mudanças estruturais. Como mulher Mapuche, Débora articula a dor pessoal com a memória coletiva e a luta para reconhecer uma história oculta.

Finalmente, a história deZoila Lincoqueo Huenumán demonstra a persistência da luta mesmo quando os corpos dos desaparecidos não foram encontrados e a justiça não foi feita. Seu testemunho é um apelo à memória viva: a memória daqueles que continuam buscando, resistindo e nomeando o que está sendo apagado. Ela enfatiza que o desaparecimento forçado dos Mapuche não pode ser compreendido como um mero episódio histórico, mas como parte de uma narrativa colonial que continua até hoje. Seu testemunho desafia a resignação e afirma que a memória da ausência é também a memória da dignidade de um povo.

Nem perdão, nem esquecimento. Mulheres mapuches continuam a busca por seus parentes desaparecidos, tecendo memória e verdade diante de um Estado que tentou apagar suas histórias e destruir suas vidas. Ilustração: Niña Pudú

Memórias mapuche contra a hegemonia

Este belo, urgente e necessário livro nos convida a refletir sobre as conexões entre memória, identidade cultural, violência estatal e gênero. Ao colocar a narrativa nas vozes de mulheres mapuches, destaca como gênero e etnia se intercruzam na experiência do desaparecimento forçado. Como membros da família e da comunidade, elas assumem um papel duplo: vítimas do desaparecimento e, ao mesmo tempo, sujeitos da memória e da resistência. Reconstruir suas histórias exige reconhecer que a ausência forçada de um ente querido é uma ferida coletiva que afeta o tecido social da comunidade, sua cultura, sua língua e o processo de reparação do passado.

Além disso, a recuperação do mapuzugún traz à tona a dimensão linguística da resistência. O fato de o conceito de “detento desaparecido” não ter equivalente direto no mapuzugún revela a impossibilidade de compreender a violência sem considerar a cultura Mapuche. Por fim, o texto se apresenta como um ato político e ético: nomear o que estava oculto, dar voz aos silenciados e criar uma memória coletiva para que a ferida não se repita. Nesse sentido, o livro aborda não apenas o passado, mas também o presente e o futuro das lutas por justiça, direitos humanos e reconhecimento cultural.

Os depoimentos referem-se à utilidade dessas memórias alternativas, onde as narrativas emergem como resposta à brutalidade de regimes autoritários e são geralmente transmitidas oralmente ou por meio de escritos marginais.

Devido ao seu conteúdo, formato e impacto, as repercussões deste livro não serão insignificantes e, por meio de sua divulgação, uma parte até então oculta do povo Mapuche será revelada.

Este livro em particular não é excepcional; não deve ser lido ou compreendido como uma raridade no campo dos estudos da memória, do passado recente dos chilenos ou de outras dinâmicas que tentam gerir a narrativa dos excluídos. Deve ser compreendido como um livro de igual importância, reconhecendo o valor das memórias individuais, dispersas ou fragmentadas — como diria Steve Stern — ou das memórias conflitantes, como diria Mariane Hirsh, memórias que desafiam os fundamentos dos projetos nacionais.

Assim sendo, essas memórias são perturbadoras, mas também ampliam o escopo da reflexão. É por isso que os depoimentos se referem à utilidade dessas memórias alternativas, onde as narrativas emergem como resposta à brutalidade de regimes autoritários e geralmente são transmitidas oralmente ou por meio de escritos marginais, cujo impacto, em muitos casos, é limitado. Dado o seu conteúdo, formato e impacto, estima-se que o impacto deste livro não será limitado e, por meio de sua disseminação, um aspecto até então oculto do povo Mapuche será revelado.

Carolina Espinoza Cartes é jornalista e doutora em Antropologia Social. Sua pesquisa concentra-se nos processos de transição no Chile e na Espanha, no exílio após a violência e nos laços políticos com o local de origem, sob uma perspectiva de gênero.