No processo de paz entre o Estado indiano e o povo Naga, a suspensão da violência não resolveu o conflito subjacente. Essa situação evidencia as limitações das abordagens de paz geridas exclusivamente pelo Estado e da autodeterminação reduzida à esfera institucional. A luta Naga revela a autodeterminação como uma prática viva, enraizada na dignidade, na memória e na responsabilidade coletiva.
Em grande parte do mundo pós-colonial, os processos de paz frequentemente conseguiram suspender a violência sem resolver os conflitos políticos subjacentes. Essa contradição é claramente evidente no processo de paz indo-naga, onde, desde 1997, cessar-fogos e negociações impediram o retorno à guerra, mas não resultaram em uma resolução que abordasse a autodeterminação do povo naga. Essa situação reflete um problema conceitual mais profundo: a tendência de confinar a autodeterminação a uma imaginação política de raízes “westfalianas”, centrada no Estado e orientada para privilegiar a soberania territorial em detrimento da dignidade política dos povos.
Este ensaio explora as limitações de uma paz centrada no Estado e propõe uma mudança em direção a uma abordagem reumanizadora da autodeterminação. Baseia-se em experiências indígenas para contribuir com o debate global sobre a paz. Nessa perspectiva, a autodeterminação deve ser compreendida de forma mais ampla: como uma prática política contínua, enraizada na identidade coletiva, na responsabilidade e na dignidade. As lições da luta Naga nos convidam a resgatar uma cosmovisão indígena e uma forma singular de exercer a autodeterminação, abrindo caminho para a humanização e uma “Paz Justa”.

A restrição de Westfália à autodeterminação
O conceito de soberania que emergiu da ordem de Westfália reorganizou a autoridade política em torno de estados definidos territorialmente. Embora essa estrutura tenha ajudado a estabilizar as relações interestatais, simultaneamente marginalizou comunidades políticas cujas tradições de soberania eram anteriores e se estendiam para além da ordem de Westfália. Ironicamente, a autodeterminação, um direito associado a todos os povos, foi reduzida a uma forma de autodeterminação estatal.
Durante a era da descolonização, a autodeterminação foi proclamada como um princípio supostamente universal, destinado a beneficiar todos os segmentos da humanidade. No entanto, na prática, sua aplicação foi seletiva. Os territórios coloniais tornaram-se estados independentes, mas os povos indígenas dentro desses estados raramente foram reconhecidos como povos com direito à autodeterminação.
Para os povos indígenas, a descolonização vai além da independência do Estado e envolve a restauração da capacidade política, a recuperação de sua própria voz histórica e a autoria moral.
A descolonização sem o reconhecimento político dos povos indígenas é meramente uma mudança de administradores, e não uma transformação das relações políticas.
De uma perspectiva indígena, o processo de descolonização não se materializou de forma substancial. Os estados pós-coloniais herdaram a lógica territorial colonial, as hierarquias legais e os modelos de governança que priorizavam a homogeneidade nacional em detrimento da pluralidade indígena. Como resultado, muitos povos indígenas vivenciaram a descolonização não como um processo de libertação, mas como a continuação da dominação política sob uma nova autoridade.
A descolonização sem o reconhecimento político dos povos indígenas é meramente uma mudança de administradores, e não uma transformação das relações políticas. Para os povos indígenas, a descolonização vai além da independência do Estado e implica a restauração da capacidade de ação política, a recuperação de sua voz na história e a possibilidade de estabelecer seus próprios valores e normas. Na Ásia, essa compreensão se reflete em movimentos indígenas mais amplos, que concebem o autogoverno não apenas como reconhecimento legal, mas como uma prática democrática e ética enraizada na comunidade e na ação coletiva.

Autodeterminação como história vivida
Para o povo Naga, a autodeterminação está profundamente enraizada na experiência política, nas formas tradicionais de governança e na memória coletiva. Antes de sua incorporação ao Estado indiano, os Nagas exerciam autonomia política por meio de repúblicas aldeãs, alianças interaldeias e instituições tradicionais baseadas na responsabilidade moral para com a comunidade. Sua consciência política também foi moldada por eventos históricos que feriram sua dignidade coletiva e levaram à negação. Apesar disso, a identidade Naga persiste como uma narrativa de continuidade que tem defendido consistentemente sua existência.
De fato, o nacionalismo Naga é uma questão de justiça, não de sentimento étnico. Sua afirmação ética e política se recusa a aceitar que um povo possa ser absorvido administrativamente sem um consentimento ético sustentado ao longo das gerações. Essa afirmação foi transmitida de geração em geração. No caso Naga, a autodeterminação permanece uma memória política constante: uma forma de responsabilidade histórica para com os ancestrais, a comunidade e as gerações futuras.
Sob a bandeira do desenvolvimento e da paz, as instituições estatais penetraram profundamente na sociedade Naga, enquanto a assimilação cultural estratégica é continuada por meio da educação, da administração e da integração econômica.
As instituições estatais penetraram na sociedade Naga, enquanto a assimilação cultural é continuada por meio da educação e da integração econômica.
Liderado pelo Estado, o processo de paz indo-naga exemplifica uma lógica de gestão de conflitos em vez de transformação dos mesmos. Embora essa estratégia tenha reduzido o confronto armado, também gerou fragmentação; enfraqueceu a coesão social; aumentou a corrupção e a impunidade; erodiu as instituições tradicionais; e aprofundou a desilusão com os processos de paz convencionais liderados pelo Estado.
Sob o pretexto de desenvolvimento e paz, as instituições estatais penetraram profundamente na sociedade Naga, enquanto a assimilação cultural estratégica é continuada por meio da educação, da administração e da integração econômica. Negociações prolongadas e inconclusivas normalizaram a injustiça, produzindo efeitos sociais negativos. Lamentavelmente, o processo de paz enfraqueceu a cooperação Naga e, com o tempo, consolidou uma ordem baseada na submissão em vez do consentimento.

Reumanizando a autodeterminação
Para superar esse impasse, a autodeterminação precisa ser reumanizada, e suas dimensões éticas e culturais, emancipadas. Os povos indígenas nos lembram que a autodeterminação não é um destino, mas uma luta pela recuperação da dignidade, da sabedoria e da solidariedade. O ativista indígena Kenneth Deer explica a autodeterminação como um processo relacional, compartilhado e negociado. Em última análise, reumanizar a autodeterminação exige restaurar seu significado, seu poder e sua agência moral dentro das comunidades políticas.
Por sua vez, o Secretário-Geral do Pacto dos Povos Indígenas Asiáticos (AIPP), Gam Angkang Shimray, argumenta: “Reivindicar o significado também implica reconstruir essa base relacional, ou seja, reviver as práticas e os ambientes que permitem que a construção de significado floresça novamente”. Sem essa recuperação relacional, as demandas políticas permanecem vazias. A autodeterminação não pode subsistir como um conceito puramente jurídico: ela deve ser vivenciada nas relações sociais, nas práticas culturais e na responsabilidade compartilhada.
Em suma, a descolonização é um processo reumanizador que dignifica as relações políticas, de modo que os povos deixem de ser tratados como objetos de governança e passem a ser reconhecidos como cocriadores da história. Assim, quando a autodeterminação é reumanizada, torna-se um pré-requisito para a governança ética, bem como para a paz e a reconciliação. A autodeterminação, portanto, permanece uma prática política contínua. É um direito que os povos sempre possuem, não um evento histórico isolado.

Repensando a soberania a partir da experiência Naga
A experiência Naga nos obriga a repensar a própria soberania. O discurso político dominante entende a soberania como o controle territorial exclusivo exercido pelos Estados. Dentro dessa estrutura, a soberania é concebida como um atributo legal do Estado, e não como uma condição moral e política dos povos. Os povos indígenas questionam essa premissa, uma vez que a soberania nunca foi entendida apenas como controle territorial, mas como uma responsabilidade política: abrangendo identidade coletiva, continuidade comunitária, ordem e responsabilidade perante as gerações futuras.
Nesse sentido, a soberania é definida pela capacidade de sustentar um povo como uma comunidade moral e política, e não pela dominação do território. Ela se exerce não apenas por meio de instituições formais, mas também por meio da memória, das práticas consuetudinárias e da responsabilidade intergeracional. O filósofo Hans Köchler observa que “não é o Estado que é eterno e goza de direitos inalienáveis, mas o povo como uma realidade social e cultural coletiva”. Quando o direito internacional e o discurso político se concentram nos Estados em vez dos povos, produzem um déficit democrático no qual a legitimidade política deriva da herança territorial, e não do consentimento e da continuidade das comunidades políticas.
A luta do povo Naga demonstra que a soberania imposta, sem o consentimento político da sociedade, não pode alcançar legitimidade moral. A vontade política coletiva e a imaginação podem abordar a questão Naga de forma criativa. Nessa perspectiva, a soberania deve ser repensada como estratificada e relacional. Essa compreensão situa o Estado dentro de uma ecologia moral e política mais ampla.

Autodeterminação indígena e o futuro da imaginação democrática
A Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas afirma que a autodeterminação inclui o autogoverno e a participação efetiva nas decisões que afetam os seres humanos. No entanto, na prática, esses padrões continuam sendo sistematicamente subordinados às reivindicações de soberania estatal. Assim, o reconhecimento sem implementação tornou-se uma estratégia central da governança colonial contemporânea.
Essas contradições levantam uma questão mais profunda: se os sistemas políticos modernos são capazes de reconhecer a pluralidade política sem medo e a diversidade sem dominação. A experiência Naga exemplifica essa contradição, pois é frequentemente abordada sob uma perspectiva de segurança. No entanto, a persistência da luta Naga revela uma falha democrática mais profunda: a incapacidade da democracia pós-colonial de reconhecer os povos indígenas como iguais politicamente e não meramente como populações administrativas.
A resistência Naga reflete a tensão não resolvida entre a soberania do Estado moderno e a existência política indígena. Ela expõe as limitações de uma imaginação democrática que falhou em reconhecer os povos indígenas como cocriadores da ordem política.
A resistência Naga expõe os limites de uma imaginação democrática que não aprendeu a reconhecer as pessoas como cocriadoras da ordem política.
A experiência Naga encontra eco em experiências indígenas em diferentes partes do mundo, desafiando a suposição de que a soberania estatal extingue formas políticas preexistentes. Na América Latina, América do Norte, Pacífico e Ásia, movimentos indígenas têm insistido que sua inclusão em Estados modernos não pode dissolver seu status como comunidades políticas. Para que a democracia continue sendo essencial, ela precisa se adaptar para acomodar soberanias estratificadas, identidades sobrepostas e formas diferenciadas de pertencimento político. A unidade imposta sem reconhecimento não produz estabilidade nem justiça, mas sim conformidade sem legitimidade.
Dessa perspectiva, a resistência Naga funciona como um espelho que reflete a tensão não resolvida entre a soberania do Estado moderno e a existência política indígena. Ela expõe as limitações de uma imaginação democrática que ainda não aprendeu a reconhecer os povos indígenas como cocriadores da ordem política. Nesse sentido, a luta Naga não se resume ao destino do povo Naga: ela levanta questões sobre a credibilidade futura da própria democracia pós-colonial.
Autodeterminação como humanização
Se a autodeterminação é uma questão de dignidade humana e não de gestão territorial, então não pode ser reduzida a fórmulas constitucionais ou arranjos administrativos. Deve ser entendida como uma reivindicação moral e política de existência como povo, cuja história, identidade e futuro não podem ser suprimidos ou apagados por conveniência institucional. Os defensores dos direitos indígenas argumentam que, enquanto o reconhecimento político não estiver alinhado com a dignidade humana, a paz continuará a ser administrada burocraticamente (como ocorre entre os povos indígenas na Ásia).
Portanto, o que está em jogo é o reconhecimento do povo Naga como legítimos cocriadores da ordem política, e não como uma população residual administrada dentro de estruturas territoriais herdadas. Nesse sentido, reumanizar a autodeterminação implica reumanizar a própria soberania. Quando a soberania é reduzida à posse territorial, torna-se um instrumento de exclusão. Mas quando é repensada como responsável perante a história, a comunidade e as gerações futuras, a soberania pode se tornar um fundamento para a governança ética. Uma ordem democrática que não reconhece a existência política indígena acaba por enfraquecer sua própria credibilidade.
Quando a autodeterminação é reumanizada, deixa de ser um problema a ser resolvido e se torna uma relação que deve ser honrada, capaz de transformar a coexistência forçada em uma parceria ética. Em última análise, a autodeterminação é uma força moral, um movimento social, uma imaginação política e uma aspiração humana. É o fundamento sobre o qual todos os outros direitos se apoiam. Quando a autodeterminação é parte integrante da busca pela dignidade e quando os povos são colocados no centro do processo de humanização, abrem-se espaços para a renovação, a reconciliação e a cura.
Aküm Longchari é o fundador do jornal Naga The Morung Express e participa de iniciativas não violentas para a construção da paz, autodeterminação e reconciliação. Sua tese de doutorado na Universidade de Nova Inglaterra, na Austrália, focou na autodeterminação como meio para alcançar uma paz justa.
Gam A. Shimray é Secretário-Geral do Pacto dos Povos Indígenas Asiáticos (AIPP).