As mulheres indígenas quenianas sofrem múltiplas formas de violência de gênero, desde a brutal mutilação genital feminina até o casamento infantil e o trabalho forçado com miçangas. Denunciar essa violência é complicado pela geografia: a delegacia de polícia mais próxima pode estar a 120 quilômetros de distância, sem transporte e sem garantia de serem ouvidas. Para lidar com essa realidade, a Samburu Women Trust (SWT) criou um centro para apoiar as mulheres na busca por justiça. Pela primeira vez, mulheres e meninas que vivem em aldeias remotas podem denunciar casos, documentar estupros e apresentar provas sem precisar viajar por dias.
Nas vastas terras áridas e semiáridas do Quênia, negligenciadas por políticas públicas, infraestrutura e sistemas de justiça, mulheres e meninas indígenas sofrem algumas das formas mais graves e persistentes de violência de gênero. Mutilação genital feminina, casamento infantil e forçado, violência sexual, trabalho forçado de bordado de miçangas, abuso doméstico e sanções culturais continuam a moldar seu cotidiano. Contudo, apesar da escala e da brutalidade dessas violações, o acesso à justiça permanece inatingível.
Para as mulheres Samburu, Borana, Rendille, Ogiek, Turkana, Elmolo, Pokot e Sengwer que vivem a centenas de quilômetros de tribunais, delegacias de polícia ou centros de saúde, a justiça raramente é encontrada em instituições formais. Em vez disso, muitas vezes é negociada sob uma árvore, onde os anciãos priorizam a harmonia do clã em detrimento da dignidade, da cura ou dos direitos da mulher sobrevivente. Nesses sistemas informais, os testemunhos das mulheres são minimizados, a violência é normalizada e os agressores ficam impunes. Para as mulheres e meninas indígenas, o silêncio não é uma escolha: é imposto.

Quando a violência encontra o silêncio
Em muitas comunidades pastoris, sobreviventes de estupro ou abuso sexual ainda são forçadas a realizar os chamados “casamentos de compensação”, nos quais a menina é entregue à família do agressor como parte de um acordo. Outras são pressionadas a retirar as queixas em nome da honra familiar ou da unidade do clã. Denunciar a violência é ainda mais complicado pela distância geográfica: a delegacia mais próxima pode estar a 70 ou 120 quilômetros de distância, sem transporte, sem combustível e sem garantia de serem ouvidas. Às vezes, as autoridades locais intervêm para suprimir as denúncias, argumentando que o sistema formal de justiça “destrói famílias”. Pelo contrário, o que é destruído é a confiança, a segurança e o futuro das meninas.
Para lidar com essa realidade, a Samburu Women Trust (SWT) criou um Centro Digital para Mulheres: um espaço modesto, porém transformador, equipado com computadores, acesso à internet, telefones e ferramentas de documentação. Pela primeira vez em suas vidas, mulheres e meninas que vivem em aldeias remotas podem denunciar casos rapidamente, documentar estupros e produzir as provas exigidas pelo sistema judiciário sem precisar viajar por dias. O centro se tornou uma tábua de salvação para sobreviventes presas em ciclos de violência.
O caminho para a justiça continua longo e traiçoeiro. As sobreviventes muitas vezes caminham por dias em terrenos difíceis, carregando o trauma que sofreram e enfrentando intimidação por parte das famílias dos agressores.
O caminho para a justiça é longo e frágil. As sobreviventes o percorrem carregando o trauma sofrido e a intimidação das famílias dos agressores.
A SWT também criou o Arboreto de Mulheres Indígenas de Naramat, um espaço sagrado de cura enraizado na terra, na cultura e no cuidado coletivo. Sob a sombra de árvores nativas, as mulheres se reúnem para cura de traumas, reflexão e solidariedade. Nesse espaço, histórias antes sussurradas com medo agora são ditas em voz alta com coragem e o apoio de outras mulheres que viveram experiências semelhantes.
Mesmo assim, o caminho para a justiça continua longo e traiçoeiro. As sobreviventes muitas vezes caminham por dias em terrenos difíceis, carregando o trauma que sofreram e enfrentando intimidação por parte das famílias dos agressores. Quando chegam a uma delegacia, as provas podem estar comprometidas, os arquivos podem desaparecer e os casos podem ser arquivados. É importante ressaltar que essas não são histórias isoladas: são a realidade cotidiana das mulheres indígenas em todo o Quênia.

Aproximando a justiça das aldeias
Por mais de uma década, a Samburu Women Trust e o Indigenous Women Council (IWC) têm caminhado ao lado de mulheres e meninas, atravessando leitos de rios secos, colinas e estradas empoeiradas, com o objetivo de reduzir a desigualdade social que continua a aumentar. Nosso trabalho não se limita à conscientização, mas também à transformação do poder, à restauração da confiança nas instituições e à garantia de que as mulheres possam se manifestar sem medo. Nossa abordagem se baseia em cinco pilares interligados:
1. Empoderamento Jurídico Comunitário. Capacitamos mulheres indígenas para atuarem como assistentes jurídicas, acompanhando sobreviventes em todas as etapas do processo judicial: desde o registro de ocorrências e a compreensão de seus direitos até a coleta de provas e o acompanhamento junto aos sistemas policial e judiciário. Como membros de confiança de suas comunidades, essas assistentes jurídicas tornam a justiça mais acessível e culturalmente enraizada.
2. Desafiando Sistemas de Justiça Prejudiciais dos Anciões. Mobilizamos anciões para confrontar práticas de mediação que tratam estupro ou abuso sexual como questões familiares negociáveis, resolvidas por meio da troca de gado. Por meio do diálogo e de processos contínuos de capacitação, mais anciões estão encaminhando casos criminais às autoridades formais.
3. Espaços seguros para meninas. Sob acácias e em círculos comunitários, a SWT promove fóruns de liderança para meninas, onde elas aprendem sobre autonomia corporal, autoconfiança e seu direito de dizer não à mutilação genital feminina e ao casamento forçado. Esses espaços incentivam as meninas a se informarem sobre seus direitos e a agirem com coragem.
4. Resposta centrada na sobrevivente. Colaboramos com centros de saúde, a polícia, líderes locais e escritórios de gênero para garantir que as sobreviventes recebam atendimento médico, apoio psicossocial e acompanhamento jurídico. Nossa equipe acompanha as meninas desde o registro da ocorrência policial até o comparecimento perante o juiz, defendendo uma justiça célere e sensível às crianças.
5. Impacto nacional e global. Por meio do Indigenous Women Council, elevamos as realidades das aldeias a plataformas nacionais, regionais e internacionais, defendendo sistemas de justiça sensíveis à questão de gênero, tribunais móveis, policiamento responsável e o reconhecimento dos direitos indígenas à terra e aos recursos naturais que moldam a segurança das mulheres.

O longo caminho para a justiça
Uma mãe da aldeia de Narasha diz com tristeza: “A justiça para minha filha está a 75 quilômetros de distância”. Suas palavras capturam uma verdade dolorosa: a justiça é moldada pela geografia, pobreza, gênero, poder e sobrevivência. Por meio do engajamento contínuo da comunidade e do apoio às sobreviventes, a Samburu Women Trust reabriu investigações paralisadas, impediu casamentos forçados, apoiou meninas durante os julgamentos e garantiu condenações em casos que haviam sido silenciados. Cada caso estabelece um precedente. Cada voz quebra o silêncio para muitas outras.
A mudança está surgindo. Os anciãos estão encaminhando cada vez mais casos à polícia. Meninas estão rejeitando a mutilação genital feminina e começando a denunciar ameaças. Mulheres estão se organizando e exigindo responsabilização. Chefes e policiais estão se tornando mais receptivos à medida que a conscientização aumenta. Mas a jornada está longe de terminar. O acesso à justiça para mulheres e meninas indígenas exige investimento em tribunais móveis, delegacias de polícia funcionais, abrigos seguros e serviços culturalmente relevantes e sensíveis às questões de gênero. Atores comunitários, assistentes jurídicos, líderes femininas e autoridades tradicionais devem ser reconhecidos como parceiros iguais.
Acima de tudo, as mulheres e meninas indígenas devem estar no centro da solução. Elas não são apenas sobreviventes: são líderes, defensoras e arquitetas de um futuro mais justo. Para nós, da Samburu Women Trust e do Indigenous Women Council, este trabalho é mais do que ativismo: é um compromisso para a vida toda. Carregamos suas histórias, defendemos suas causas e apoiamos aquelas que sobrevivem. E, em seus territórios, percorremos longas distâncias para que a justiça finalmente alcance a última mulher na última aldeia.
Jane Meriwas é mãe, feminista indígena e defensora dos direitos das mulheres. Ela é Diretora Executiva do Samburu Women Trust (SWT) e Coordenadora do Indigenous Women Council (IWC). Em 2023, recebeu a prestigiosa Comenda do Chefe de Estado (HSC) por seu trabalho na promoção do bem-estar das mulheres ao longo de duas décadas.