Amazônia em disputa: povos indígenas enfrentam o avanço dos mercados de carbono

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Mulheres líderes indígenas. Foto: Instituto Quíchua de Biotecnologia Sacha Supay (IQBSS)

Em um workshop internacional realizado na Amazônia equatoriana, líderes indígenas de toda a região concluíram que os mercados de carbono são um elemento fundamental para reformular a maneira como controlam, acessam e tomam decisões sobre a natureza. O encontro proporcionou uma oportunidade para comparar experiências, identificar riscos e desenvolver um entendimento coletivo dessa realidade. O debate deve ir além dos aspectos técnicos e aprofundar-se no âmbito da história e da desapropriação: seus territórios, seus direitos e sua autonomia estão em jogo.

O Workshop Internacional sobre Direitos Indígenas e Mercados de Carbono aconteceu em Puyo, Equador, de 19 a 21 de fevereiro de 2026, reunindo mais de 80 líderes de nacionalidades indígenas da Amazônia equatoriana. O evento também contou com apresentações de representantes da Colômbia, Bolívia, Peru, Brasil, Guatemala, Equador e Costa Rica, que compartilharam uma preocupação central: sob o pretexto de conservação e financiamento climático, novas formas de intervenção e controle estão sendo estabelecidas sobre os territórios indígenas.

Ao longo do workshop, uma ideia foi fortemente enfatizada: os mercados de carbono não podem ser compreendidos isoladamente, mas sim como parte de uma história de intervenção em territórios indígenas. Consequentemente, os participantes traçaram uma linha conectando diferentes períodos (colonização, exploração da borracha e expansão do petróleo e da mineração) com as atuais iniciativas climáticas. Nesses processos, os territórios se tornam objetos de interesse externo, sem que os povos que os habitam tenham qualquer controle sobre as decisões.

“Somos os filhos da primeira revolta.” O evento internacional em Puyo reuniu líderes indígenas e especialistas de toda a região. Foto: IQBSS

A nova face do extrativismo

Dessa perspectiva, o carbono surge como um novo elemento dentro de uma lógica já conhecida. Não se trata simplesmente de conservar florestas ou reduzir emissões, mas sim de quem define o uso da terra e sob quais condições. É evidente que esses mecanismos servem a interesses globais voltados para a sustentação dos modelos econômicos atuais, permitindo que empresas e corporações continuem desenvolvendo atividades poluentes. Por sua vez, as corporações buscam compensar suas emissões transferindo a responsabilidade para os povos indígenas que historicamente preservaram seus territórios ancestrais.

As experiências compartilhadas reforçaram essa interpretação. Foram mencionados casos de projetos de conservação que restringiram o uso ancestral da terra, limitando práticas tradicionais como caça, pesca e coleta. Em outros casos, a criação de áreas protegidas em territórios indígenas ou projetos de carbono foi realizada sem processos de consulta adequados, gerando conflitos que persistem até hoje. Além disso, esses projetos demonstram que a retórica conservacionista pode funcionar como um mecanismo de controle.

O problema não se resume ao mercado de carbono. A linguagem muda, mas a dinâmica de poder permanece. Portanto, além da discussão técnica, a questão foi abordada como uma disputa política sobre território, autonomia e direitos.

O problema não reside apenas no instrumento do mercado de carbono. A linguagem muda, mas as relações de poder permanecem.

Esses processos não ocorrem isoladamente, mas sim acompanhados por narrativas que prometem benefícios econômicos, desenvolvimento local ou as (mal) denominadas “melhorias na qualidade de vida”, reduzidas à saúde e à educação — direitos básicos que o Estado deveria garantir integralmente. Diversos palestrantes lembraram que promessas semelhantes já fizeram parte da história, especialmente no setor petrolífero, onde os resultados não corresponderam às expectativas. Essa memória coletiva nos permite interpretar as propostas relacionadas ao carbono dentro de seu contexto histórico.

Nesse sentido, o problema não reside apenas no instrumento do mercado de carbono em si, mas também na forma como ele é implementado em territórios com histórico de desapropriação. A linguagem muda, mas as relações de poder permanecem. Portanto, para além da discussão técnica, a questão foi abordada como uma disputa política sobre território, autonomia e direitos, na qual os povos indígenas buscam evitar a repetição de experiências passadas.

Longe de combater as mudanças climáticas, os mercados de carbono servem a interesses globais cujo único objetivo é continuar desenvolvendo atividades que poluem todo o planeta. Foto: IQBSS

Decisões desiguais e conflitos internos

Outro foco fundamental foi analisar como as decisões são tomadas nesses processos, dadas as profundas assimetrias entre os atores envolvidos. Enquanto empresas, ONGs e governos têm acesso a informações técnicas, recursos financeiros e apoio institucional, as comunidades enfrentam essas dinâmicas com menos acesso à informação e em condições marcadamente desiguais. Em muitos casos, atores externos chegam com propostas predefinidas, buscando acordos rápidos que desconsideram os prazos e mecanismos de  deliberação comunitária. As negociações são frequentemente conduzidas sem passar por processos coletivos, como assembleias, gerando tensões internas.

Uma das descobertas mais significativas foi a falta de informações claras e acessíveis: as comunidades nem sempre possuem dados completos sobre os benefícios, compromissos e implicações a longo prazo dos projetos de carbono. Essa situação aumenta o risco de decisões tomadas sob pressão ou com informações incompletas, enfraquecendo a capacidade dos povos indígenas de exercerem plenamente seu direito à autodeterminação.

Diante desse cenário, houve consenso sobre a importância da consulta prévia, livre e informada, mas também sobre a necessidade de ir além de sua aplicação formal. Para tanto, enfatizou-se a necessidade de fortalecer os mecanismos internos de tomada de decisão.

As decisões são tomadas fora dos territórios e depois transferidas para as comunidades para obter validação, muitas vezes de forma fraudulenta.

O papel do Estado também foi questionado. Estudos de caso de países como Colômbia e Bolívia mostraram que as leis e regulamentações estatais não garantem processos transparentes ou equitativos e que, por vezes, o próprio Estado promove esses mecanismos sem assegurar a participação efetiva dos povos indígenas. Isso demonstra que as decisões são tomadas fora dos territórios indígenas e depois transferidas para as comunidades para validação, muitas vezes de forma fraudulenta.

Diante desse cenário, destacou-se a importância da consulta prévia, livre e informada, bem como a necessidade de ir além de sua aplicação formal. Para tanto, enfatizou-se a necessidade de fortalecer os mecanismos de tomada de decisão comunitária, as assembleias comunitárias, os estatutos internos e os governos territoriais como espaços fundamentais para garantir processos verdadeiramente coletivos e evitar decisões impostas ou fragmentadas.

Durante os painéis e trabalhos em grupo, foram levantadas questões sobre a desigualdade no acesso à informação sobre o funcionamento dos créditos de carbono e a falta de respeito pelos processos de tomada de decisão das comunidades indígenas. Foto: IQBSS

Autonomia, memória e propostas próprias

Todas as intervenções concordaram em um ponto fundamental: as decisões sobre o território não podem ser subordinadas a agendas externas. Autonomia e autodeterminação não são princípios abstratos, mas condições concretas para decidir o que é aceito, o que é rejeitado e sob quais termos. A memória histórica permeia essa posição. As experiências com petróleo e mineração, e as políticas de “conservação e desenvolvimento”, deixaram suas marcas: promessas quebradas, territórios danificados e vidas perdidas. Portanto, os mercados de carbono não devem ser vistos como oportunidades isoladas, mas como parte de um contínuo de intervenções externas sobre os corpos e territórios indígenas.

Longe de adotar uma postura reativa, os líderes indígenas afirmaram que alternativas já estão em andamento: gestão florestal comunitária, métodos tradicionais de produção, medicina ancestral, turismo comunitário e sistemas de conhecimento. Essas alternativas não são mera retórica, mas práticas existentes que sustentam a vida em seus territórios, e essas práticas devem ser fortalecidas, estabelecendo assim um horizonte diferente dos esquemas de compensação promovidos externamente.

Nesse sentido, o workshop concluiu não apenas com perguntas, mas também com uma direção clara: fortalecer as agendas locais. A ênfase está na consolidação de processos desde a base (organização, economia, comunicação e articulação política) que permitam a tomada de decisões autônomas e sustentáveis ao longo do tempo. Em vez de se adaptar aos mercados de carbono, o objetivo é trilhar um caminho próprio, onde o território não seja um ativo negociável, mas sim o alicerce da vida coletiva.

Os povos indígenas têm diversas alternativas para evitar ficarem sujeitos à lógica do mercado de títulos de carbono: apoio bilateral, reformas tributárias, fundos hídricos, permutas de dívida, títulos de biodiversidade e benefícios não relacionados ao carbono. Foto: IQBSS

Comunicação, articulação e disputa sobre a narrativa

A partir das discussões realizadas durante o workshop, emergiu a necessidade de contestar não apenas o próprio território, mas também a narrativa que envolve o que acontece dentro dele. Os mercados de carbono avançam não apenas por meio de acordos econômicos ou marcos legais, mas também por meio de narrativas que os apresentam como as únicas soluções para a inevitável crise climática. Nesse contexto, a comunicação torna-se um campo estratégico, dada a discrepância entre a forma como esses projetos são apresentados em fóruns internacionais e como são vivenciados pelas comunidades locais. Globalmente, são descritos como mecanismos para a conservação sustentável, mas, dentro das comunidades, são vivenciados como processos de incerteza, restrições, conflitos e violações dos direitos humanos.

Essa diferença reforça a necessidade de os povos indígenas construírem e disseminarem suas próprias narrativas. Nesse sentido, ressaltou-se a importância de fortalecer as redes de comunicação indígenas, permitindo-lhes compartilhar informações, dar visibilidade às suas experiências e gerar análises a partir de seus territórios. Isso não serve apenas para informar, mas também para construir sua própria voz diante dos discursos impostos de fora. A comunicação torna-se, assim, uma ferramenta para a defesa territorial e o ativismo político.

No geral, a disputa em torno dos mercados de carbono não é apenas material, mas, sobretudo, simbólica e política. Trata-se de quem define o problema, quem propõe as soluções e a partir de que perspectiva as decisões são tomadas.

A disputa em torno dos mercados de carbono é simbólica e política: quem define o problema, quem propõe as soluções e onde as decisões são tomadas.

A colaboração entre as comunidades foi outro aspecto fundamental, pois, embora os contextos nacionais sejam diferentes, compartilham problemas regionais comuns. Compartilhar experiências, lições aprendidas e estratégias fortalece as posições coletivas e impede que os processos se desenvolvam isoladamente. Essa colaboração não se limita ao nível local ou nacional, mas se estende aos espaços internacionais, onde são tomadas decisões que afetam diretamente esses territórios.

A importância de identificar aliados e atores nesse cenário também foi destacada, visto que nem todos compartilham os mesmos interesses. Assim, ter um mapa permite uma tomada de decisão informada, já que é essencial reconhecer as forças que buscam incorporar os Povos Indígenas em agendas que não foram desenvolvidas a partir de suas próprias realidades. De modo geral, a disputa em torno dos mercados de carbono não é apenas material, mas, sobretudo, simbólica e política. Trata-se de quem define o problema, quem propõe as soluções e a partir de qual perspectiva as decisões são tomadas. Nesse contexto, a comunicação e a coordenação são ferramentas fundamentais para sustentar os processos de resistência e construir alternativas a partir dos próprios territórios.

A colaboração entre os povos indígenas de toda a região e os especialistas é extremamente importante para contrabalançar o avanço voraz dos mercados de carbono. Foto: IQBSS

Um cenário contestado: o futuro dos territórios

O workshop não chegou a uma conclusão definitiva, mas confirmou que um novo cenário de conflito em torno dos territórios indígenas está emergindo. Os mercados de carbono surgem como mais uma peça dentro de uma dinâmica global que está remodelando as formas de controle, acesso e tomada de decisão em relação à natureza. Não se trata mais simplesmente de extração direta, mas sim de mecanismos mais complexos que operam por meio de regulamentações, certificações, financiamento e discursos climáticos.

Nesse contexto, os povos indígenas enfrentam não apenas um desafio técnico ou econômico, mas também um desafio profundamente político. Seus territórios, seus direitos e sua autonomia estão em jogo. As intervenções deixaram claro que não há aceitação passiva desses processos, mas sim uma análise crítica que identifica a reconfiguração de formas anteriores de desapropriação, ainda que apresentadas com nova linguagem e justificativas. Ao mesmo tempo, o debate não terminou em rejeição, mas suscitou uma reflexão sobre o significado do cuidado com a terra, como enfrentar a crise climática e que tipo de futuro queremos construir.

O que está em jogo não é apenas um mecanismo, mas o próprio significado de território. E nesse ponto, a mensagem é clara: não há espaço para negociação quando se trata da vida, da autodeterminação e da soberania dos povos.

A crise climática não se resolve transferindo a responsabilidade para aqueles que historicamente cuidaram das florestas.

Diante de uma narrativa global que transforma florestas em ativos de mercado, devemos considerar uma perspectiva diferente, na qual o território não é um recurso, mas um espaço para a vida, os relacionamentos e a comunidade. Esse contraste define o momento atual. Para os participantes do encontro, os mercados de carbono não representam uma solução, mas sim uma nova forma de intervenção nos territórios que, sob o pretexto de conservação e ação climática, reconfigura antigas lógicas de controle que buscam ditar espaços que não lhes pertencem.

Diante desse cenário, a posição é clara: territórios não estão à venda, nem podem ser usados como instrumentos de compensação para sustentar economias que continuam poluindo. A crise climática não será resolvida transferindo a responsabilidade para aqueles que historicamente cuidaram das florestas. O que está em jogo não é apenas um mecanismo, mas o próprio significado de território. E nesse ponto, a mensagem é clara: não há espaço para negociação quando se trata da vida, da autodeterminação e da soberania dos povos.

Pamela Troya é ativista LGBTQ+ e de direitos humanos, especialista em advocacia política e porta-voz pelo matrimônio igualitário no Equador. Ela também possui graduação em Comunicação Organizacional (Universidade San Francisco de Quito) e mestrado em Comunicação Política e Marketing (Universidade Internacional de La Rioja).

Sara Gómez é formada em Comunicação Social e possui mestrado em Ecologia Aplicada. Ela também tem diploma em Ecofeminismo e outro em Gênero, Diversidade e Inclusão. É consultora internacional nas áreas de gênero, meio ambiente, interculturalidade e educação (educação popular e alfabetização midiática), com foco em inovação social e gestão do conhecimento.