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	<title>Mulheres indígenas Archives - Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Sat, 26 Sep 2026 19:02:27 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Mulheres indígenas Archives - Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Pramasti Ayu Kusdinar]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 01:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Biodiversidade]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Embora a Indonésia represente apenas cerca de 1,3% da superfície terrestre, o país abriga a terceira maior extensão de florestas tropicais do mundo. Essas florestas ostentam alguns dos mais altos níveis de biodiversidade, abrigando 17% de todas as espécies de aves e 12% de todas as espécies de mamíferos. Para as comunidades indígenas que as habitam, as florestas fornecem todo o alimento, medicamentos e materiais de que necessitam, além de sustentar seus valores culturais e preservar o conhecimento ancestral transmitido de geração em geração.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-a-crise-da-biodiversidade-e-o-desmatamento-na-indonesia/">A luta das mulheres indígenas contra a crise da biodiversidade e o desmatamento na Indonésia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>As florestas tropicais da Indonésia estão desaparecendo rapidamente. <a href="https://auriga.or.id/press_release/detail/65/status-of-deforestation-in-indonesia-2025" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório sobre o estado do desmatamento na Indonésia 2025, elaborado pela Auriga Nusantara, registrou a perda de 433.751 hectares de floresta, 66% a mais do que os 261.575 hectares desmatados em 2024.</a> Papúa apresentou o maior aumento na perda florestal em todo o país, com um acréscimo de 348%, totalizando 60.337 hectares. A maior parte dessa perda ocorreu em Merauke, onde um projeto nacional de produção de alimentos e bioetanol, sob controle militar, ameaça aproximadamente dois milhões de hectares de floresta tropical e os direitos dos povos indígenas.</p>



<p>Da mesma forma, <a href="https://www.aman.or.id/publication-documentation/330" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Relatório de Fim de Ano de 2025 da Aliança dos Povos Indígenas do Arquipélago (AMAN) registrou 135 casos de desapropriação de territórios indígenas, em comparação com 121 no ano anterior</a>. O setor de mineração foi responsável pelo maior número de casos, com 69 incidentes afetando 1,06 milhão de hectares. O setor de plantações causou os danos mais extensos, atingindo 1,95 milhão de hectares. Nesse mesmo ano, as comunidades indígenas perderam 3,8 milhões de hectares de seus territórios ancestrais e as autoridades criminalizaram 162 indígenas por defenderem seus espaços de vida.</p>



<p>Em termos gerais, três mecanismos interrelacionados impulsionam tanto a degradação ecológica quanto às violações dos direitos indígenas. Primeiro, a legislação reduz a realidade ecológica em categorias administrativas, como florestas estatais e zonas industriais. Segundo, <em>o extrativismo </em>concebe a natureza como capital a ser explorado: a Lei de Mineração de Minerais e Carvão, a Lei de Plantações e a Lei de Criação de Empregos fornecem a base legal para a expansão da mineração e das plantações de palma de óleo. Terceiro, as políticas de conservação e climáticas que excluem a participação indígena frequentemente reproduzem a mesma lógica extrativista: os mercados de carbono restringem o acesso indígena às suas florestas por meio de proibições que afetam a agricultura itinerante e a coleta de lenha.</p>



<p>Esses três mecanismos convergem no mesmo ponto: os corpos das mulheres indígenas, que dia após dia cuidam e sustentam suas terras e comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="691" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg" alt="" class="wp-image-19569" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1024x691.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-300x202.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-768x518.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2-1536x1037.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-1-2.jpg 1760w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres secando café em Tebat Pulau, Sumatra. Até 2025, as comunidades indígenas na Indonésia terão perdido 3,8 milhões de hectares de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Arquivo Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O fardo que recai sobre os corpos das mulheres indígenas</strong></h3>



<p>As mulheres indígenas buscam água, coletam lenha e plantas medicinais e cuidam das culturas de rotação. Quando os ecossistemas se degradam, essas tarefas se tornam mais árduas e perigosas. Quando os rios são poluídos, as mulheres precisam percorrer distâncias maiores para encontrar água limpa. Quando as florestas desaparecem, as plantas medicinais também desaparecem, deixando as mulheres cuidando de parentes doentes sem os remédios que tradicionalmente utilizam.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também está ligada a problemas de saúde. <a href="https://www.liputan6.com/regional/read/4016058/perempuan-baja-di-pusaran-tambang" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Mulheres que vivem perto de minas de carvão em Kalimantan Oriental relatam que a poeira das estradas usadas para o transporte de materiais de mineração interfere em seus ciclos menstruais e afeta a saúde de seus filhos</a>. A água contaminada com metais pesados causa infecções de pele e distúrbios reprodutivos. Os Estudos de Impacto Ambiental (EIA) raramente coletam esses dados, pois medem parâmetros de qualidade da água e limites de emissão, mas não o impacto do trabalho doméstico sobre as mulheres ou sua saúde reprodutiva.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Quando as florestas são substituídas por plantações, as mulheres perdem a renda que obtêm dos produtos florestais e sua posição no lar fica enfraquecida.</p>
</blockquote>



<p>Por sua vez, a deterioração dos ecossistemas interrompe a transmissão do conhecimento ecológico indígena. Durante gerações, as mulheres indígenas adquiriram conhecimento sobre épocas de frutificação, ciclos de migração animal e a localização de plantas medicinais por meio da observação direta. Nos territórios indígenas Rejang, Serawai e Malin Deman, em Bengkulu, as mulheres indígenas identificam centenas de espécies de plantas florestais que utilizam como alimento e remédio. Quando as florestas são desmatadas para plantações ou mineração, as gerações mais jovens perdem a oportunidade de adquirir esse conhecimento em primeira mão.</p>



<p>Por fim, os territórios indígenas também constituem espaços para a vida ritual e as atividades econômicas das mulheres. Em muitos territórios, quando as florestas são substituídas por monoculturas, as mulheres perdem a renda que obtêm de produtos florestais não madeireiros e sua posição dentro da família é enfraquecida.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19395" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-2-2-2048x1365.jpg 2048w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">Com a degradação dos ecossistemas, a carga de trabalho e os riscos para as mulheres indígenas na Indonésia aumentam. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A crise climática agrava a dupla carga</strong></h3>



<p>As crises da biodiversidade e do clima estão intimamente ligadas. O desmatamento libera o carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. As mulheres indígenas são as mais afetadas por ambas as crises. Com o desaparecimento das florestas, o solo perde sua capacidade de reter água. As estações secas tornam-se mais secas e as estações chuvosas trazem um risco maior de inundações. As mulheres, responsáveis por garantir água para suas famílias, precisam percorrer distâncias cada vez maiores durante a estação seca e enfrentam danos às suas plantações e poluição da água durante a estação chuvosa.</p>



<p>As mudanças nas épocas de plantio também afetam o conhecimento das mulheres indígenas sobre os indicadores ecológicos. Quando os ciclos sazonais se tornam imprevisíveis, as colheitas diminuem. Em muitas famílias indígenas, as mulheres são as primeiras a reduzir suas próprias porções de comida para garantir que seus filhos tenham o suficiente para comer. Os mecanismos do mercado de carbono acrescentam ainda mais riscos. Eles exigem grandes extensões de floresta e, como consequência direta, muitas vezes impõem restrições de acesso que não levam em consideração as necessidades das mulheres indígenas de praticar a agricultura itinerante e coletar resina e lenha.</p>



<p>A deterioração dos ecossistemas também ameaça espécies-chave que são parte integrante dos sistemas de conhecimento das mulheres indígenas. O tigre-de-sumatra, o orangotango e o elefante estão perdendo seus habitats à medida que as florestas são convertidas em plantações de palma de óleo e áreas de mineração. Para as mulheres indígenas, a presença de certas espécies serve como indicador da qualidade da floresta e da água. Quando essas espécies desaparecem, as mulheres perdem uma das ferramentas que usam diariamente para interpretar e compreender seu ambiente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-19571" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-768x513.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-3-2.jpg 1840w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Floresta tropical em Bengkulu.O desmatamento libera carbono armazenado em florestas e turfeiras, acelerando o aquecimento global. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Mulheres e a recuperação de bens comuns</strong></h3>



<p>Mulheres indígenas estão liderando a resistência contra projetos extrativistas e desenvolvendo práticas de conservação baseadas em conhecimentos tradicionais. Em <a href="https://www.voaindonesia.com/a/protes-pabrik-semen-9-perempuan-semen-kakinya-/3282635.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Kendeng, elas cobriram os pés com cimento em frente ao Palácio Presidencial para protestar contra a construção de uma fábrica de cimento nas montanhas</a> e, em seguida, continuaram seu trabalho de ativismo monitorando a qualidade e o fluxo da água das nascentes. Enquanto isso, <a href="https://www.konde.co/2026/04/salib-merah-dan-anyaman-keteguhan-perlawanan-mama-mama-menolak-psn-di-merauke/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres em Papúa resistiram à expansão de um projeto agroindustrial em larga escala em Merauke e documentaram seu conhecimento sobre o processamento do sagu para evitar sua perda</a>.</p>



<p>Em Bengkulu, <a href="https://akar.or.id/konsolidasi-perempuan-akar-rumput-bengkulu-merawat-ruang-hidup-memperkuat-solidaritas/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">as mulheres Rejang preservam sementes de variedades locais de arroz entre as épocas de plantio, criando um banco de germoplasma vivo, ao mesmo tempo que mantém a rotação de culturas para restaurar a fertilidade do solo</a>. Nas aldeias de Merpas e Linau, na costa sul de Bengkulu, as mulheres evitaram usar equipamentos de pesca destrutivos e concordaram em estabelecer áreas de desova na lagoa. Essas práticas demonstram que a conservação não exige o deslocamento de pessoas de áreas protegidas. A conservação baseada no conhecimento das mulheres indígenas depende de sua participação ativa, e não da restrição de acesso.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas, promove o trabalho conjunto com organizações jurídicas e pressiona por políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O Commoning Movement constrói solidariedade entre comunidades de mulheres indígenas e promove o trabalho com organizações jurídicas como o escritório de advocacia Akar.</p>
</blockquote>



<p>A Akar Global Initiative desenvolveu a estrutura <a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Reconstruindo os Bens Comuns (Rebuilding the Commons</em></a><a href="https://www.forestpeoples.org/publications-resources/news/article/rebuilding-the-commons-indigenous-women-gather-to-formulate-the-future-of-their-movement/">)</a> para fortalecer as contribuições das mulheres em quatro dimensões. <em>A Gestão Comum da Terra </em>reivindica terras indígenas como espaços para gestão coletiva por meio de mapeamento participativo, restauração baseada em espécies locais e formas de governança coletiva que incluam mulheres indígenas na tomada de decisões. A <em>Gestão Comum do Cuidado </em>reconhece o trabalho de cuidado realizado pelas mulheres como trabalho ecológico e promove sua sustentabilidade por meio de infraestrutura de água potável, documentação do trabalho de cuidado e serviços de saúde reprodutiva nas áreas afetadas.</p>



<p><em>A Cultura do Comunismo </em>recupera práticas rituais indígenas e conhecimentos ecológicos por meio da documentação oral e de programas educacionais intergeracionais, permitindo que as gerações mais jovens recebam a sabedoria dos mais velhos. <em>O Movimento do Comunismo </em>constrói solidariedade entre as comunidades de mulheres indígenas, promove a colaboração com organizações jurídicas como o Escritório de Advocacia Akar e defende políticas que exijam o Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas para a obtenção de licenças relacionadas a projetos de mineração, plantações e energia. Essas quatro dimensões se reforçam mutuamente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="758" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg" alt="" class="wp-image-19397" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-1024x758.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-300x222.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1-768x568.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Indonesia-Sept-2026-4-1.jpeg 1200w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam desproporcionalmente as mulheres indígenas, que interagem com a natureza diariamente. <strong>Foto: </strong>Arquivo da Akar Global Initiative</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desafios no terreno</strong></h3>



<p>Essa estrutura de ação coletiva enfrenta três desafios específicos . Em muitas regiões, as estruturas tradicionais posicionam os homens como representantes da comunidade, de modo que a participação formal das mulheres indígenas frequentemente encontra resistência. Os programas de conservação ainda medem seus resultados com base no tamanho das áreas protegidas ou no volume de carbono armazenado, em vez de nas mudanças nas condições de vida das mulheres indígenas. Enquanto esses indicadores permanecerem inalterados, as contribuições das mulheres indígenas continuarão sem o devido reconhecimento. Além disso, a expansão da mineração e dos projetos estratégicos aumenta ano após ano, o que significa que os processos de recuperação liderados pelas comunidades enfrentam novas ameaças cuja escala excede a capacidade dos povos indígenas de responderem por conta própria.</p>



<p>Por sua vez, a restauração e a recuperação da biodiversidade e dos ecossistemas exigem mudanças legais, e não apenas programas de reabilitação técnica. As avaliações de impacto ambiental devem incorporar indicadores que levem em conta os efeitos sobre os corpos das mulheres indígenas, como a distância que precisam percorrer para encontrar água potável ou o número de plantas medicinais que deixaram de estar disponíveis em seu ambiente cotidiano. Os marcos legais devem reconhecer o conhecimento ecológico das mulheres indígenas sobre as estações do ano, as sementes e os indicadores ecológicos em pé de igualdade com os estudos científicos, por meio do Consentimento Livre, Prévio e Informado das mulheres indígenas como requisito para a validade das licenças.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia afetam principalmente as mulheres indígenas, que buscam água, conservam sementes e realizam rituais ecológicos.</p>
</blockquote>



<p>Os paradigmas do direito ambiental também devem ir além de uma abordagem baseada na soberania estatal sobre os recursos naturais e caminhar em direção à governança compartilhada, na qual as mulheres indígenas participem da tomada de decisões e não sejam meramente consideradas participantes nos processos de consulta. A justiça ecológica exige reparações, não apenas compensação financeira. Isso implica a restauração de terras indígenas, fontes de água, espaços rituais e espécies extintas, juntamente com programas de regeneração ecológica liderados por mulheres indígenas.</p>



<p>As crises de biodiversidade e desmatamento na Indonésia não são problemas técnicos isolados. Suas consequências recaem principalmente sobre as mulheres indígenas, que buscam água, preservam sementes e realizam os rituais ecológicos que conectam suas comunidades à natureza diariamente. A recuperação da biodiversidade da Indonésia só será possível quando as políticas reconhecerem as mulheres indígenas como agentes fundamentais dessa recuperação, e não como beneficiárias passivas de programas de conservação concebidos sem a sua participação.</p>
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			</item>
		<item>
		<title>O acesso das mulheres indígenas à justiça no Nepal</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/06/01/o-acesso-das-mulheres-indigenas-a-justica-no-nepal/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Shankar Limbu]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Jun 2026 00:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[acesso à justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Nepal]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=18463</guid>

					<description><![CDATA[<p>Respeitar todas as mulheres, independentemente de sua origem, casta, etnia, credo, idioma, comunidade ou denominação religiosa, exige uma mudança paradigmática na legislação. No entanto, o Comitê para a Eliminação da Discriminação contra a Mulher (CEDAW) expressou preocupação com a falha em defender os direitos coletivos das mulheres indígenas no Nepal. Nesse país asiático, existem diversas barreiras estruturais ao acesso à justiça para as mulheres indígenas, visto que a maioria vive em áreas rurais e os tribunais estão localizados em centros urbanos. Além disso, as mulheres indígenas não falam o idioma oficial (khas nepalês), e as taxas judiciais e os custos legais são proibitivos.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p><a href="https://supremecourt.gov.np/web/assets/uploads/2021_02/064d265bb846e688bb9ee5f42790ceb7.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“Apesar dos esforços, muitas mulheres, pessoas pobres e comunidades marginalizadas, incluindo pessoas em situação de vulnerabilidade, com deficiência e sem-teto, têm acesso extremamente limitado à justiça”</a>, conclui um relatório encomendado pela Suprema Corte do Nepal para identificar as barreiras legais e processuais ao acesso à justiça, especialmente para mulheres e outros grupos vulneráveis. Infelizmente, o relatório não aborda especificamente a questão do acesso à justiça para mulheres indígenas, que continuam sendo invisibilizadas.</p>



<p>O relatório mina a dimensão coletiva da justiça, dificultando os esforços para gerar mudanças que garantam o acesso à justiça para mulheres indígenas. Além disso, o documento omite os seis componentes essenciais e interrelacionados do acesso à justiça: justiciabilidade, disponibilidade, acessibilidade, qualidade, provisão de recursos para as vítimas e responsabilização dos sistemas de justiça. Além de estarem previstos na Recomendação Geral nº 39 da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher (CEDAW), esses componentes também se aplicam a mulheres e meninas indígenas.</p>



<p>Uma das causas estruturais da injustiça contra as mulheres indígenas no Nepal é a falta de reconhecimento de sua personalidade jurídica, o que implica um desrespeito à sua identidade singular e ao seu papel primordial como guardiãs da identidade indígena: cultura, patrimônio (tangível e intangível), língua, conhecimento, civilização, biodiversidade, terras, territórios e recursos. <a href="https://indigenousnavigator.org/partners/national-indigenous-womens-federation-niwf-nepal" target="_blank" rel="noreferrer noopener">As mulheres representam 50,4% da população do Nepal, das quais 37,5% são mulheres Adivasi Janajati</a>. De acordo com o Censo de 2021, a população indígena representa 35,2% da população total do Nepal, e as mulheres indígenas constituem aproximadamente 18% da população nacional.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="637" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-Portada-1024x637.png" alt="" class="wp-image-15655" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-Portada-1024x637.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-Portada-300x187.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-Portada-768x478.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-Portada.png 1184w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Encontro de mulheres da aldeia de Cherpang. <strong>Foto: </strong>Signe Leth/IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pilares da soberania e guardiões da natureza</strong></h3>



<p>Diferentemente de outras mulheres indígenas, a Constituição reconhece especificamente os direitos das mulheres dalit (a posição mais baixa na hierarquia de castas) vinculados à igualdade de acesso a privilégios: participação em todos os órgãos do Estado com base no princípio da inclusão proporcional; medidas específicas para emprego, representação e participação; provisão de recursos para as ocupações, conhecimentos, habilidades e tecnologias tradicionais da comunidade dalit; e alocação de terras para dalits sem-terra. No entanto, o direito à justiça social não está garantido para as mulheres indígenas até que elas sejam reconhecidas constitucionalmente da mesma forma que as mulheres dalit.</p>



<p>Para os povos indígenas, o acesso à justiça está intimamente ligado ao exercício coletivo da soberania sobre as terras, os territórios e os recursos naturais. As mulheres indígenas são pilares dessa soberania e guardiãs da natureza, um elemento central da jurisprudência indígena. Além disso, desempenham papéis fundamentais na tomada de decisões dentro das famílias, das comunidades e da vida cultural, áreas seriamente afetadas pelas leis e práticas coloniais.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Na aldeia Magar, os elementos da natureza recebem nomes femininos: os Himalaias são chamados <em>de Khagar </em>ou <em>Kuthi</em>; as colinas são chamadas <em>de Boki</em>; as áreas de média altitude são chamadas <em>de Kaanta</em>; e o mesmo se aplica às florestas, árvores, águas e rios.</p>



<p class="destacado cel-only">Na aldeia Magar, os elementos da natureza recebem nomes femininos: o Himalaia é chamado de <em>Khagar </em>ou <em>Kuthi</em>; as colinas são chamadas de <em>Boki</em>.</p>
</blockquote>



<p>Um exemplo ilustrativo é o sistema de crenças do povo Yakthung (Limbu), que possui uma profunda conexão com a natureza. De acordo com sua visão de mundo <em>Mundhum</em>, <em>Tambhungma </em>é uma divindade da floresta, e a floresta pertence a ela (não aos seres humanos). <em>Tambhungma </em>representa o poder feminino supremo que sustenta a vida física, mental e espiritual das pessoas em equilíbrio com a natureza. Quando alguém adoece, essa divindade deve ser venerada, e é preciso pedir permissão antes de utilizar os recursos da floresta. O dia é para os humanos, e a noite é para <em>Tambhungma</em>; portanto, as atividades humanas na floresta à noite são estritamente proibidas.</p>



<p>De forma semelhante, no sistema tradicional do povo Magar, os elementos da natureza recebem nomes femininos: o Himalaia é chamado de <em>Khagar </em>ou <em>Kuthi</em>; as colinas são chamadas <em>de Boki</em>; as áreas de média altitude são chamadas <em>de Kaanta</em>; e o mesmo se aplica às florestas, árvores, águas e rios. Todos recebem nomes femininos. Nesse sistema, ainda praticado em Atharah Magarat (as 18 regiões ou reinos do povo Magar) e conhecido como <em>Kachahari</em>, as mulheres participam em igualdade de condições na gestão da terra e dos recursos, inclusive na tomada de decisões.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="537" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/06/Nepal-Junio-2026-2-1.jpeg" alt="" class="wp-image-18464" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/06/Nepal-Junio-2026-2-1.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/06/Nepal-Junio-2026-2-1-300x210.jpeg 300w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Uma agricultora dalit descansando do trabalho em seus campos íngremes e em terraços na vila de Belhara, nas colinas centrais do Nepal. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.flickr.com/photos/cimmyt/6195484180/in/photostream/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">D. Mowbray/CIMMYT</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Em direção a uma mudança paradigmática no direito</strong></h3>



<p>Outro exemplo de como a identidade cultural e o sentimento de pertencimento das mulheres indígenas se expressam de forma diferente daquelas na sociedade dominante pode ser visto em seus nomes. Nas castas hindus (a religião majoritária no Nepal), o sobrenome de uma mulher muda após o casamento; no entanto, nas práticas consuetudinárias indígenas, a mulher mantém sua identidade comunitária (tanto seu pertencimento coletivo quanto seus direitos coletivos). Contudo, a legislação estatal não reconhece esses aspectos da identidade, do pertencimento e do papel das mulheres indígenas nas práticas espirituais. Respeitar todas as mulheres, independentemente de sua origem, casta, etnia, credo, idioma, comunidade ou denominação, exige uma mudança paradigmática na lei.</p>



<p>A Constituição não define explicitamente o que significa acesso à justiça, nem especifica seus seis componentes essenciais e interrelacionados, embora reconheça o direito à justiça como um direito fundamental. Embora mencione elementos relacionados à justiça criminal, omite o direito a um julgamento justo perante um tribunal ou autoridade judicial independente, imparcial e competente, ao qual todos têm direito. Além disso, concede aos tribunais e demais órgãos judiciais o poder de administrar a justiça de acordo com a Constituição, as leis e os princípios de justiça reconhecidos.</p>



<p>Do ponto de vista constitucional, os tribunais e outros órgãos judiciais são responsáveis pela administração da justiça. No entanto, o sistema jurídico não reconhece os sistemas de justiça consuetudinária, amplamente praticados em comunidades indígenas (que praticamente não têm acesso à justiça formal). A Constituição não só fecha as portas à jurisprudência indígena, como também desconsidera os sistemas de justiça indígenas que garantem o acesso à justiça em nível comunitário. Isso cria uma barreira estrutural ao acesso à justiça para as mulheres indígenas, visto que a maioria vive em áreas rurais e os tribunais estão localizados em centros urbanos.</p>



<p>Consequentemente, embora a equidade processual seja um componente essencial do acesso à justiça, as mulheres indígenas são, na prática, excluídas desse sistema.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1021" height="735" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-2.png" alt="" class="wp-image-15659" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-2.png 1021w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-2-300x216.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-2-768x553.png 768w" sizes="auto, (max-width: 1021px) 100vw, 1021px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenas do povo Tharu na região de Biratnagar. <strong>Foto: </strong>Signe Leth / IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Barreiras estruturais: idioma, taxas e estrutura judicial</strong></h3>



<p>Mulheres indígenas são vítimas de violência, tráfico de pessoas e sistemas de exploração como <em>o kamlari </em>(trabalho forçado de mulheres Tharu). Os dados mostram que o tráfico de mulheres e meninas indígenas ocorre em uma taxa alarmante: elas representam 70% das vítimas resgatadas por ONGs. No entanto, <a href="https://www.culturalsurvival.org/news/nepals-indigenous-communities-face-systemic-rights-violations-amid-development%20visited%2025%20January%202026" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Lei de Controle do Tráfico e Transporte de Pessoas de 2007 não criminaliza todas as formas de tráfico nem estabelece protocolos padronizados para a identificação de vítimas</a>. De acordo com o relatório anual do Gabinete do Auditor Geral (2019-2020), apenas 19,4% dos casos de tráfico foram resolvidos: 10,4% resultaram em condenações e 8,9% em absolvições. Os processos judiciais são extremamente lentos, dificultando ainda mais o acesso à justiça nesses casos.</p>



<p>Ao mesmo tempo, os procedimentos judiciais são culturalmente inadequados para as mulheres indígenas: o idioma oficial é o khas nepalês (que não é a língua materna dos povos indígenas), enquanto as custas judiciais e os honorários advocatícios são proibitivos. Além disso, os tribunais são sobrerrepresentados por grupos de castas dominantes e operam de acordo com estruturas patriarcais moldadas pela jurisprudência do sistema de castas hindu, que institucionaliza formas de colonização e racismo.</p>



<p>Consequentemente, os povos indígenas, e especialmente as mulheres, são afetados de forma desproporcional. Atualmente, <a href="https://supremecourt.gov.np/web/justices" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Supremo Tribunal Federal é composto por 19 ministros</a>, dos quais 17 pertencem ao grupo Khas-Arya, enquanto apenas dois são indígenas. Além disso, esses dois ministros são Newar, um dos apenas 60 povos indígenas oficialmente reconhecidos. Essa estrutura de representação, juntamente com a influência persistente do sistema de castas no judiciário, limita a capacidade do sistema de garantir o acesso efetivo à justiça para todos.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="636" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-4-1024x636.png" alt="" class="wp-image-15661" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-4-1024x636.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-4-300x186.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-4-768x477.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/07/Nepal-Abril-2025-4.png 1188w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Indígenas da comunidade Tharu celebrando o Bakheri. <strong>Foto: </strong>Signe Leth/IWGIA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Em direção a uma mudança paradigmática no direito</strong></h3>



<p>Na Constituição, a previsão de justiça social como um direito fundamental estabelece o direito de participação inclusiva nos órgãos do Estado. Isso se aplica a 16 categorias de pessoas em situação de desvantagem econômica, social e educacional, incluindo os povos indígenas e os Khas Arya (o grupo de casta dominante). Da mesma forma, o sistema de vagas reservadas ou cotas está institucionalizado na Constituição para garantir a justiça social. No entanto, não há garantia de que as mulheres indígenas terão direito a se beneficiar dessa disposição.</p>



<p>Como se pode observar, os obstáculos ao acesso à justiça para as mulheres indígenas existem e estão institucionalizados na Constituição e nas leis, que desconsideram sistematicamente sua identidade singular e sua existência coletiva. Assim, o sistema judiciário nepalês tende a colonizá-las, assimilá-las e subordiná-las, forçando-as a permanecer em posição de desvantagem. Além disso, o arcabouço constitucional e legal relativo ao acesso à justiça não reconhece a jurisprudência indígena, a jurisprudência feminista indígena, seus próprios sistemas de justiça ou o papel das mulheres indígenas como guardiãs das terras e territórios.</p>



<p>Todos esses elementos são pilares fundamentais para o exercício do direito à autodeterminação, à soberania e à liberdade de todas as formas de discriminação, marginalização, exclusão e violência estrutural. Portanto, o reconhecimento da autodeterminação e da não discriminação, a identidade coletiva das mulheres indígenas, seu papel como guardiãs da natureza, a jurisprudência indígena e a administração da justiça indígena constituem a base para o acesso das mulheres indígenas à justiça.</p>



<p>Entretanto, as mulheres indígenas do Nepal continuam aguardando com esperança que esses direitos sejam plenamente reconhecidos.</p>



<p></p>
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		<title>Realidades das mulheres indígenas na Ásia: violência sexual, impunidade e falta de políticas públicas</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/04/01/realidades-das-mulheres-indigenas-na-asia-violencia-sexual-impunidade-e-falta-de-politicas-publicas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rinda Yamashiro]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 00:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[Asia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17935</guid>

					<description><![CDATA[<p>Nos países asiáticos, as mulheres indígenas enfrentam realidades muito semelhantes às das mulheres em outras partes do mundo. As indústrias extrativas e a militarização de seus territórios são acompanhadas por uma série de atos de violência perpetrados por homens que, muitas vezes, ficam impunes. Olhando para o futuro, as mulheres indígenas precisam ter acesso à justiça intercultural e a reparações significativas, tanto econômicas quanto sociais. O processo para alcançar a justiça começa com o enfrentamento das causas profundas da violência e da marginalização.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em toda a Ásia, as terras e territórios indígenas são cada vez mais impactados por projetos de desenvolvimento em larga escala, como mineração, exploração madeireira, barragens hidrelétricas e agronegócio. Frequentemente, esses projetos são realizados sem o Consentimento Livre, Prévio e Informado das comunidades indígenas. Ao mesmo tempo, muitos territórios são fortemente militarizados, com forças de segurança mobilizadas para proteger interesses econômicos ou reprimir a resistência da comunidade.</p>



<p>Nessas condições, as mulheres indígenas enfrentam riscos maiores de violência de gênero, incluindo assédio, violência sexual e intimidação. No entanto, as sobreviventes frequentemente têm dificuldades para acessar a justiça. Elas enfrentam discriminação, barreiras linguísticas, apoio jurídico limitado e falta de informação sobre seus direitos. Como resultado, muitos agressores nunca são responsabilizados e as mulheres indígenas ficam sem o apoio ou os recursos de que precisam.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="803" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-1-1024x803.jpg" alt="" class="wp-image-17937" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-1-1024x803.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-1-300x235.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-1-768x602.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-1.jpg 1185w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenas lideram protestos nas Filipinas contra os chamados projetos de desenvolvimento que invadem terras ancestrais e destroem seus meios de subsistência. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/NIWA2021/posts/pfbid02R5LXAXm6bAMUa47HumD1m4suRYoMfVpvCRaCwY5xgXVAVhgUFvP5qHbgoDbx4Zggl" target="_blank" rel="noreferrer noopener">NIWA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Violência contra as mulheres na Ásia</strong></h3>



<p>Um exemplo trágico ocorreu em 2025 nas Colinas de Chittagong, em Bangladesh. Uma estudante indígena foi estuprada coletivamente enquanto voltava da escola para casa, na região de Guimara. Quando as comunidades protestaram exigindo justiça, três jovens indígenas foram mortos a tiros pelo exército e outros quatro ficaram feridos. Após o tiroteio, lojas indígenas foram saqueadas e incendiadas, e casas próximas foram danificadas. Esse incidente ilustra os sérios riscos que as comunidades enfrentam, mesmo quando exigem justiça pacificamente. A violência desencoraja as vítimas, e a intimidação impede que suas comunidades exijam responsabilização.</p>



<p>Na minha comunidade em Okinawa, no Japão, vivemos sob o peso de uma forte presença militar dos EUA. Ao longo dos anos, muitas mulheres, desde meninas até idosas, sofreram violência sexual por parte de militares. Algumas vítimas chegaram a ser assassinadas após as agressões. Muitos casos de estupro não são levados à justiça, e algumas vítimas retiram suas queixas porque buscar justiça pode ser extremamente difícil.</p>



<p>Em outros países da região, como Camboja, Mianmar e Tailândia, os conflitos armados também expõem as mulheres indígenas a altos níveis de violência doméstica, estupro e tráfico de pessoas. Esses riscos são agravados pela pobreza e pelo acesso limitado à educação. Outro exemplo vem das lutas por terras na Indonésia: mulheres indígenas Batak têm enfrentado assédio e violência ao resistir à apropriação de terras por uma empresa de celulose e papel que opera em seu território ancestral.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="604" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2-1024x604.jpg" alt="" class="wp-image-17938" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2-1024x604.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2-300x177.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2-768x453.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2-1536x906.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-2.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Participação da Rede de Mulheres Indígenas Asiáticas (NIWA) na 70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher (CSW). <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/NIWA2021/posts/pfbid0P7YLKLazpVaB9rbsJvHnNT7zuAjkvTUPeox3efwjrKgkcKkwCwEz6DBREf7bN71ul" target="_blank" rel="noreferrer noopener">NIWA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O papel que os governos devem desempenhar</strong></h3>



<p>Para enfrentar esses desafios, os governos devem fortalecer os sistemas jurídicos e institucionais que protegem os direitos das mulheres indígenas. Os sistemas de justiça devem ser acessíveis e culturalmente adequados às comunidades. O reconhecimento de múltiplos sistemas jurídicos, incluindo os mecanismos de justiça indígena, pode ajudar a garantir que as mulheres indígenas possam buscar justiça por meio de processos que respeitem suas culturas, ao mesmo tempo que cumpram os padrões nacionais e internacionais de direitos humanos.</p>



<p>Os governos também devem apoiar e fortalecer as organizações de mulheres indígenas para que possam participar dos processos legais e defender suas comunidades. A prevenção da violência de gênero deve ser uma prioridade. Os governos precisam implementar leis e políticas mais rigorosas para proteger mulheres e meninas indígenas, especialmente em áreas afetadas pela militarização e extração de recursos. As sobreviventes devem ter acesso a espaços seguros, cuidados de saúde, serviços de saúde mental e assistência jurídica para que possam denunciar a violência com segurança e buscar justiça.</p>



<p>A responsabilização também é essencial. Governos, empresas e outros atores que operam em territórios indígenas devem ser responsabilizados por violações de direitos humanos. Mulheres indígenas que defendem suas terras e comunidades frequentemente enfrentam ameaças, assédio e violência. As autoridades devem adotar uma postura de tolerância zero em relação a ataques contra mulheres indígenas defensoras dos direitos humanos. As violações devem ser investigadas, os perpetradores processados e as vítimas devem receber reparações justas e culturalmente apropriadas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="597" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-3-1024x597.jpg" alt="" class="wp-image-17939" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-3-1024x597.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-3-300x175.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-3-768x448.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Asia-Abril-2026-3.jpg 1440w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Oficina organizada pela NIWA e pelo Pacto dos Povos Indígenas da Ásia (AIPP) para promover os direitos das mulheres e meninas indígenas em todo o continente. As organizações reafirmaram sua solidariedade às mulheres indígenas que lideram movimentos por justiça e igualdade. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/NIWA2021/posts/pfbid02ZR2dc9UvLUaZwXe127ZCBvgHFyMdtRa5mn6YvV6FXWjiXY3BMCjEiHFeVqDzcueul" target="_blank" rel="noreferrer noopener">NIWA</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Notas sobre como melhorar o acesso à justiça</strong></h3>



<p>Além da justiça, as mulheres indígenas devem ter acesso a reparações significativas. Estas devem abordar tanto os danos econômicos quanto os sociais, incluindo compensação pela perda de meios de subsistência, apoio à saúde e à educação e, quando possível, restituição de terras e recursos. O apoio às organizações de mulheres indígenas e às iniciativas comunitárias também é fundamental, pois as mulheres indígenas desempenham um papel central na proteção de suas comunidades, culturas e ambientes.</p>



<p>É fundamental compreender que alcançar a justiça exige abordar as causas profundas da violência e da marginalização. Os governos devem reconhecer os direitos dos povos indígenas às suas terras, territórios e recursos naturais, e garantir que os projetos de desenvolvimento respeitem o princípio do Consentimento Livre, Prévio e Informado.</p>



<p>Por fim, os governos precisam entender que as mulheres indígenas também devem ser incluídas na tomada de decisões em todos os níveis, desde a governança local até as discussões sobre políticas nacionais. Sua liderança e conhecimento são essenciais para a criação de políticas que realmente reflitam as necessidades e experiências das comunidades indígenas.</p>



<p></p>
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		<title>Vozes de aldeias remotas no Quênia: acesso à justiça para mulheres e meninas</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/03/01/vozes-de-aldeias-remotas-no-quenia-acesso-a-justica-para-mulheres-e-meninas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Jane Meriwas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 02:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[acesso à justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Quênia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17656</guid>

					<description><![CDATA[<p>As mulheres indígenas quenianas sofrem múltiplas formas de violência de gênero, desde a brutal mutilação genital feminina até o casamento infantil e o trabalho forçado com miçangas. Denunciar essa violência é complicado pela geografia: a delegacia de polícia mais próxima pode estar a 120 quilômetros de distância, sem transporte e sem garantia de serem ouvidas. Para lidar com essa realidade, a Samburu Women Trust (SWT) criou um centro para apoiar as mulheres na busca por justiça. Pela primeira vez, mulheres e meninas que vivem em aldeias remotas podem denunciar casos, documentar estupros e apresentar provas sem precisar viajar por dias.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nas vastas terras áridas e semiáridas do Quênia, negligenciadas por políticas públicas, infraestrutura e sistemas de justiça, mulheres e meninas indígenas sofrem algumas das formas mais graves e persistentes de violência de gênero. Mutilação genital feminina, casamento infantil e forçado, violência sexual, trabalho forçado <em>de bordado de miçangas</em>, abuso doméstico e sanções culturais continuam a moldar seu cotidiano. Contudo, apesar da escala e da brutalidade dessas violações, o acesso à justiça permanece inatingível.</p>



<p>Para as mulheres Samburu, Borana, Rendille, Ogiek, Turkana, Elmolo, Pokot e Sengwer que vivem a centenas de quilômetros de tribunais, delegacias de polícia ou centros de saúde, a justiça raramente é encontrada em instituições formais. Em vez disso, muitas vezes é negociada sob uma árvore, onde os anciãos priorizam a harmonia do clã em detrimento da dignidade, da cura ou dos direitos da mulher sobrevivente. Nesses sistemas informais, os testemunhos das mulheres são minimizados, a violência é normalizada e os agressores ficam impunes. Para as mulheres e meninas indígenas, o silêncio não é uma escolha: é imposto.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-17657" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1-1536x1025.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenas Naapu sabem do que suas comunidades precisam, entendem seus territórios, protegem suas culturas e contribuem com soluções baseadas em sua experiência de vida. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/SamburuWTrust/posts/pfbid06jppDJK12GNtZoQPpNfawPE2mDjzsQNAGpuAufd7NvmFjNeHhNAWUgsZxvk4jKsXl" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samburu Women Trust (SWT)</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando a violência encontra o silêncio</strong></h3>



<p>Em muitas comunidades pastoris, sobreviventes de estupro ou abuso sexual ainda são forçadas a realizar os chamados &#8220;casamentos de compensação&#8221;, nos quais a menina é entregue à família do agressor como parte de um acordo. Outras são pressionadas a retirar as queixas em nome da honra familiar ou da unidade do clã. Denunciar a violência é ainda mais complicado pela distância geográfica: a delegacia mais próxima pode estar a 70 ou 120 quilômetros de distância, sem transporte, sem combustível e sem garantia de serem ouvidas. Às vezes, as autoridades locais intervêm para suprimir as denúncias, argumentando que o sistema formal de justiça &#8220;destrói famílias&#8221;. Pelo contrário, o que é destruído é a confiança, a segurança e o futuro das meninas.</p>



<p>Para lidar com essa realidade, a Samburu Women Trust (SWT) criou um Centro Digital para Mulheres: um espaço modesto, porém transformador, equipado com computadores, acesso à internet, telefones e ferramentas de documentação. Pela primeira vez em suas vidas, mulheres e meninas que vivem em aldeias remotas podem denunciar casos rapidamente, documentar estupros e produzir as provas exigidas pelo sistema judiciário sem precisar viajar por dias. O centro se tornou uma tábua de salvação para sobreviventes presas em ciclos de violência.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O caminho para a justiça continua longo e traiçoeiro. As sobreviventes muitas vezes caminham por dias em terrenos difíceis, carregando o trauma que sofreram e enfrentando intimidação por parte das famílias dos agressores.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O caminho para a justiça é longo e frágil. As sobreviventes o percorrem carregando o trauma sofrido e a intimidação das famílias dos agressores.</p>
</blockquote>



<p>A SWT também criou o Arboreto de Mulheres Indígenas de Naramat, um espaço sagrado de cura enraizado na terra, na cultura e no cuidado coletivo. Sob a sombra de árvores nativas, as mulheres se reúnem para cura de traumas, reflexão e solidariedade. Nesse espaço, histórias antes sussurradas com medo agora são ditas em voz alta com coragem e o apoio de outras mulheres que viveram experiências semelhantes.</p>



<p>Mesmo assim, o caminho para a justiça continua longo e traiçoeiro. As sobreviventes muitas vezes caminham por dias em terrenos difíceis, carregando o trauma que sofreram e enfrentando intimidação por parte das famílias dos agressores. Quando chegam a uma delegacia, as provas podem estar comprometidas, os arquivos podem desaparecer e os casos podem ser arquivados. É importante ressaltar que essas não são histórias isoladas: são a realidade cotidiana das mulheres indígenas em todo o Quênia.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-17658" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-2.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A SWT e a IWC buscam financiar mulheres indígenas não como beneficiárias, mas como líderes, estrategistas e construtoras de movimentos. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/SamburuWTrust/posts/pfbid022XCChLSmtCkcHzaPxjQJiQBXtUfonuTLmvQS58WtFBPYNKY33d6BXPgSNNDUUaN2l" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samburu Women Trust (SWT)</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Aproximando a justiça das aldeias</strong></h3>



<p>Por mais de uma década, a Samburu Women Trust e o <em>Indigenous Women Council</em> (IWC) têm caminhado ao lado de mulheres e meninas, atravessando leitos de rios secos, colinas e estradas empoeiradas, com o objetivo de reduzir a desigualdade social que continua a aumentar. Nosso trabalho não se limita à conscientização, mas também à transformação do poder, à restauração da confiança nas instituições e à garantia de que as mulheres possam se manifestar sem medo. Nossa abordagem se baseia em cinco pilares interligados:</p>



<p><strong>1. Empoderamento Jurídico Comunitário. </strong>Capacitamos mulheres indígenas para atuarem como assistentes jurídicas, acompanhando sobreviventes em todas as etapas do processo judicial: desde o registro de ocorrências e a compreensão de seus direitos até a coleta de provas e o acompanhamento junto aos sistemas policial e judiciário. Como membros de confiança de suas comunidades, essas assistentes jurídicas tornam a justiça mais acessível e culturalmente enraizada.</p>



<p><strong>2. Desafiando Sistemas de Justiça Prejudiciais dos Anciões. </strong>Mobilizamos anciões para confrontar práticas de mediação que tratam estupro ou abuso sexual como questões familiares negociáveis, resolvidas por meio da troca de gado. Por meio do diálogo e de processos contínuos de capacitação, mais anciões estão encaminhando casos criminais às autoridades formais.</p>



<p><strong>3. Espaços seguros para meninas. </strong>Sob acácias e em círculos comunitários, a SWT promove fóruns de liderança para meninas, onde elas aprendem sobre autonomia corporal, autoconfiança e seu direito de dizer não à mutilação genital feminina e ao casamento forçado. Esses espaços incentivam as meninas a se informarem sobre seus direitos e a agirem com coragem.</p>



<p><strong>4. Resposta centrada na sobrevivente. </strong>Colaboramos com centros de saúde, a polícia, líderes locais e escritórios de gênero para garantir que as sobreviventes recebam atendimento médico, apoio psicossocial e acompanhamento jurídico. Nossa equipe acompanha as meninas desde o registro da ocorrência policial até o comparecimento perante o juiz, defendendo uma justiça célere e sensível às crianças.</p>



<p><strong>5. Impacto nacional e global. </strong>Por meio do Indigenous Women Council, elevamos as realidades das aldeias a plataformas nacionais, regionais e internacionais, defendendo sistemas de justiça sensíveis à questão de gênero, tribunais móveis, policiamento responsável e o reconhecimento dos direitos indígenas à terra e aos recursos naturais que moldam a segurança das mulheres.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="628" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-1024x628.jpg" alt="" class="wp-image-17659" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-1024x628.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-300x184.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-768x471.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-1536x943.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Kenia-Marzo-2026-3-2048x1257.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Após séculos de violações dos direitos humanos, mulheres indígenas no Quênia começaram a trilhar um caminho rumo ao acesso à justiça por meio de capacitação e apoio às vítimas. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.samburuwomentrust.org/index.php" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Samburu Women Trust (SWT)</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O longo caminho para a justiça</strong></h3>



<p>Uma mãe da aldeia de Narasha diz com tristeza: &#8220;A justiça para minha filha está a 75 quilômetros de distância&#8221;. Suas palavras capturam uma verdade dolorosa: a justiça é moldada pela geografia, pobreza, gênero, poder e sobrevivência. Por meio do engajamento contínuo da comunidade e do apoio às sobreviventes, a Samburu Women Trust reabriu investigações paralisadas, impediu casamentos forçados, apoiou meninas durante os julgamentos e garantiu condenações em casos que haviam sido silenciados. Cada caso estabelece um precedente. Cada voz quebra o silêncio para muitas outras.</p>



<p>A mudança está surgindo. Os anciãos estão encaminhando cada vez mais casos à polícia. Meninas estão rejeitando a mutilação genital feminina e começando a denunciar ameaças. Mulheres estão se organizando e exigindo responsabilização. Chefes e policiais estão se tornando mais receptivos à medida que a conscientização aumenta. Mas a jornada está longe de terminar. O acesso à justiça para mulheres e meninas indígenas exige investimento em tribunais móveis, delegacias de polícia funcionais, abrigos seguros e serviços culturalmente relevantes e sensíveis às questões de gênero. Atores comunitários, assistentes jurídicos, líderes femininas e autoridades tradicionais devem ser reconhecidos como parceiros iguais.</p>



<p>Acima de tudo, as mulheres e meninas indígenas devem estar no centro da solução. Elas não são apenas sobreviventes: são líderes, defensoras e arquitetas de um futuro mais justo. Para nós, da Samburu Women Trust e do Indigenous Women Council, este trabalho é mais do que ativismo: é um compromisso para a vida toda. Carregamos suas histórias, defendemos suas causas e apoiamos aquelas que sobrevivem. E, em seus territórios, percorremos longas distâncias para que a justiça finalmente alcance a última mulher na última aldeia.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Barreiras culturais ao acesso à justiça para pastoras indígenas na Tanzânia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/03/01/barreiras-culturais-ao-acesso-a-justica-para-pastoras-indigenas-na-tanzania/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Maanda Ngoitiko Sinyati]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 01:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[África]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[acesso à justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Tanzania]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17664</guid>

					<description><![CDATA[<p>Os sistemas de tomada de decisão e governança tradicionais, dominados por homens, reforçam as hierarquias de gênero em disputas por terras, herança e casamento. Para as mulheres pastoras, justiça significa ser respeitada, ouvida e reconhecida, independentemente de seu gênero, etnia ou nível de alfabetização. Para elas, justiça significa proteção contra a violência, acesso seguro à terra e ao gado e participação nas decisões que moldam a vida comunitária. A lacuna entre os compromissos internacionais e a realidade vivida permanece enorme.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Nas pastagens do norte da Tanzânia, a justiça para as mulheres não é um princípio jurídico abstrato debatido em tribunais ou fóruns políticos. É uma realidade moldada pelo poder, pela proximidade e pela voz. Justiça significa se uma mulher pode reaver suas terras após a morte do marido, se pode falar em uma reunião da aldeia sem medo de ridicularização ou represálias e se buscar proteção contra a violência resultará em alguma forma de apoio (em vez de estigmatização). Como podemos ver, para as mulheres pastoras indígenas, o acesso à justiça é inseparável da dignidade, da sobrevivência e do direito de participar de forma significativa nas decisões que regem suas vidas.</p>



<p>Essa realidade cotidiana se desenrola onde os papéis de gênero tradicionais se cruzam com as circunstâncias particulares da vida dos pastores. As comunidades pastoris administram vastas áreas de pastagem e sustentam sistemas alimentares construídos sobre o conhecimento intergeracional sobre gado, mobilidade e uso comunitário da terra. Suas contribuições para a segurança alimentar e o meio ambiente são significativas, embora pouco documentadas. No entanto, as oportunidades para a plena participação na vida econômica e política são frequentemente limitadas.</p>



<p>Para as mulheres nessas comunidades, os desafios são ainda maiores: as expectativas em torno das responsabilidades domésticas e familiares, o acesso limitado à educação, a localização remota e a representação mínima na tomada de decisões dificultam muito que suas vozes sejam ouvidas. Juntos, esses fatores criam uma lacuna no acesso à justiça que é moldada pela cultura e pela tradição, bem como por obstáculos estruturais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1-1024x683.jpeg" alt="" class="wp-image-17665" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1-1024x683.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1-1536x1025.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-1.jpeg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Para as mulheres no norte da Tanzânia, o acesso a pastagens para seus animais é essencial para atender às suas necessidades básicas e às de suas famílias. <strong>Foto: </strong>PWC</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A insegurança territorial e uma concepção de justiça</strong></h3>



<p>Embora possa parecer insignificante, a distância é uma barreira importante, já que tribunais e repartições públicas ficam distantes das comunidades rurais e o acesso a eles é dispendioso. Os sistemas jurídicos são complexos, operam em línguas desconhecidas e excluem mulheres com baixo nível de alfabetização. Mesmo quando essas barreiras são superadas, as normas patriarcais restringem a capacidade das mulheres de reivindicar seus direitos. Nesse sentido, práticas nocivas como o casamento precoce e forçado, o deserdamento de viúvas e a violência de gênero limitam ainda mais o acesso à justiça. Embora a resolução de conflitos priorize a harmonia social, muitas vezes deixa as mulheres vulneráveis e reforça os desequilíbrios de poder, em vez de lhes proporcionar uma proteção justa.</p>



<p>Ao mesmo tempo, essas barreiras são exacerbadas por pressões externas. As mudanças climáticas, a expansão das áreas de conservação, a agricultura comercial e o desenvolvimento de infraestrutura estão invadindo cada vez mais as pastagens. À medida que a competição pela terra se intensifica, as disputas se multiplicam. Apesar de seu papel central na gestão dos lares, na garantia da segurança alimentar e na execução de trabalhos relacionados à pecuária, as mulheres raramente são consultadas (ou indenizadas) nas negociações quando há perda de terras. Sua exclusão da governança fundiária aprofunda a insegurança econômica e enfraquece sua capacidade de reivindicar seus direitos, reforçando os ciclos de vulnerabilidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Os direitos consagrados em instrumentos globais ou leis nacionais têm pouco significado se as mulheres não os compreendem, têm acesso limitado a eles ou não podem exercê-los com segurança em suas próprias comunidades.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Os direitos consagrados em instrumentos globais têm pouco significado se as mulheres não os compreendem ou não podem exercê-los em suas comunidades.</p>
</blockquote>
</blockquote>



<p>Para as próprias mulheres pastoras, justiça é entendida num sentido muito mais amplo do que apenas reparação legal. Significa ser respeitada dentro da família, ouvida pelos mais velhos e reconhecida pelas autoridades estatais, independentemente de seu gênero, etnia, nível de alfabetização ou mobilidade. Para elas, justiça significa proteção contra a violência, acesso seguro à terra e ao gado e a possibilidade de participar das decisões que moldam o futuro da comunidade. Significa também responsabilização e a certeza de que o dano não será tratado como uma questão privada ou silenciosamente absorvido em nome da tradição.</p>



<p>As normas internacionais corroboram essa visão. A Declaração das Nações Unidas afirma o direito dos povos indígenas à autodeterminação, às suas terras e à participação na tomada de decisões, e reconhece explicitamente o direito das mulheres indígenas à igualdade e à liberdade de violência e discriminação. Contudo, a lacuna entre os compromissos internacionais e a realidade vivida permanece enorme. Os direitos consagrados em instrumentos globais ou leis nacionais têm pouco significado se as mulheres não os compreendem, têm acesso limitado a eles ou não podem exercê-los com segurança em suas próprias comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-2-1024x682.jpg" alt="" class="wp-image-17666" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-2-1024x682.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-2.jpg 1379w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Membros do Conselho Pastoral Feminino compartilham suas experiências de liderança em desenvolvimento comunitário. <strong>Foto: </strong>PWC</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Soluções holísticas de base: Pastoral Women’s Council</strong></h3>



<p>Reduzir a desigualdade no acesso à justiça exige abordagens culturalmente situadas, lideradas localmente e com equilíbrio de gênero, que levem em consideração as realidades cotidianas da vida pastoril. É aqui que as organizações de base desempenham um papel vital. O <em>Pastoral Women’s Council</em> (PWC) é uma organização que representa mais de 8.000 mulheres pastoras no norte da Tanzânia e demonstra como o acesso à justiça pode ser fortalecido desde a base. Em vez de tratar as mulheres como beneficiárias passivas, o PWC opera sob a premissa de que as mulheres pastoras são detentoras de direitos e agentes de mudança. Esta iniciativa de acesso à justiça, com foco na equidade de gênero para os povos indígenas, promove:</p>



<p><strong>Desenvolvendo voz e autonomia: </strong>Por meio de diálogos enraizados localmente e treinamento de liderança, as mulheres ganham confiança e habilidades em oratória, negociação dentro de suas famílias e interação com líderes tradicionais e autoridades governamentais. Esse empoderamento tem sido evidente em ações comunitárias relacionadas aos direitos à terra, onde mulheres que enfrentavam deslocamento devido a investimentos turísticos contribuíram para resultados mais equitativos por meio de sua participação direta nos diálogos. As líderes femininas contestaram com sucesso a expropriação de terras, defenderam seus direitos de herança e intervieram em casos de violência doméstica, ajudando a mudar a percepção da comunidade sobre quem tem autoridade para falar e tomar decisões.</p>



<p><strong>Liderança e tomada de decisões: </strong>Quando as mulheres ocupam cargos de tomada de decisão, seja em nível local ou nacional, as questões que as afetam e às suas famílias têm maior probabilidade de serem levantadas, discutidas e abordadas. O trabalho da PWC torna-se visível quando as mulheres assumem funções formais de liderança. Há quinze anos, apenas três pastoras eram eleitas presidentes de aldeia. Agora, esse número subiu para 18, com mais 1.400 pastoras atuando em órgãos governamentais de aldeias. Além da conquista individual, esse crescimento na equidade de liderança reflete uma transformação nas normas sociais e na inclusão política.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-1024x683.jpeg" alt="" class="wp-image-17667" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-1024x683.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-1536x1024.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzani-Marzo-2026-3-2048x1365.jpeg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As mulheres do Pastoral Women’s Council realizam oficinas comunitárias para desenvolver estratégias de acesso à justiça e agir coletivamente em defesa de seus direitos. <strong>Foto: </strong>PWC</em></figcaption></figure>



<p><strong>Prevenção da violência de gênero e mudança de normas: </strong>Combater a violência exige tanto prevenção quanto respostas abrangentes. A PWC trabalha com mulheres e homens para desafiar práticas nocivas que normalizam o abuso, ao mesmo tempo que fortalece os canais de encaminhamento para serviços de saúde, jurídicos e de proteção. Envolver os homens como aliados é uma estratégia deliberada, reconhecendo que a mudança duradoura depende da transformação de atitudes coletivas, e não apenas do apoio a sobreviventes individuais.</p>



<p><strong>Alfabetização jurídica e apoio paralegal: </strong>Muitas mulheres pastoras desconhecem seus direitos legais e como esses direitos se interligam com as práticas tradicionais. Os Fóruns de Direitos e Liderança das Mulheres da PwC traduzem conceitos jurídicos para os idiomas locais e contextos cotidianos, permitindo que as mulheres compreendam as leis fundiárias, as normas matrimoniais e as proteções contra a violência de gênero. Dessa forma, o conhecimento se torna uma ferramenta de empoderamento, reduzindo a dependência de intermediários masculinos e aumentando a confiança das mulheres para reivindicar seus direitos. Para descentralizar ainda mais o acesso à justiça, a PWC capacita defensoras jurídicas comunitárias, geralmente mulheres das próprias comunidades, que oferecem orientação jurídica básica, mediam conflitos e conectam vítimas de violência com instituições formais. Em áreas onde advogados e tribunais são distantes, as defensoras jurídicas comunitárias servem como pontos de entrada confiáveis para o sistema de justiça. Sua presença ajuda a desmistificar os processos legais e garante que as mulheres não os enfrentem sozinhas.</p>



<p><strong>Direitos fundiários e empoderamento econômico: </strong>A segurança fundiária e econômica é essencial para o acesso das mulheres à justiça. Sem direitos fundiários seguros, seu poder de negociação permanece limitado. É por isso que a PWC apoia mulheres marginalizadas na obtenção de seus Certificados de Direitos Fundiários Consuetudinários, formalizando as reivindicações de terras e combatendo a exclusão baseada em gênero. Por meio dos Bancos Comunitários Locais, as mulheres acumulam reservas financeiras, acessam empréstimos e recebem educação financeira, avançando progressivamente em direção ao microcrédito formal por meio de parceiros como a <em>Engishon Microfinance</em>. Dessa forma, a independência econômica reduz a vulnerabilidade à exploração e fortalece a capacidade das mulheres de combater as injustiças.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-1024x683.jpeg" alt="" class="wp-image-17669" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-1024x683.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-1536x1024.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Tanzania-Marzo-2026-Foto-4B-2048x1365.jpeg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A segurança fundiária e econômica é essencial para o acesso das mulheres à justiça. Sem direitos fundiários seguros, o poder de negociação dos pastores indígenas permanece limitado. <strong>Foto: </strong>PWC</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Justiça como transformação coletiva</strong></h3>



<p>Em 2025, Vaileth Elias e Sarah Oltetia foram eleitas vereadoras, um cargo tradicionalmente dominado por homens. Em um treinamento recente da PWC sobre &#8220;Diálogo Local a Local&#8221;, Vaileth compartilhou sua experiência: &#8220;Recebi treinamento logo no início da minha jornada de liderança e obtive enormes benefícios. Isso me deu a coragem de concorrer a um cargo público ao lado de quatro homens. Foi um momento tenso, e até mesmo os homens pareciam confusos. No fim, venci com uma ampla margem.&#8221; Essa construção de confiança foi confirmada por Sarah: &#8220;Agora sei como convocar uma reunião, quem convidar e como capacitar as pessoas para que entendam claramente o que estou comunicando. Onde estou hoje, atuando como vereadora, é graças à formação que recebi na PWC.&#8221;</p>



<p>Apesar do impacto comprovado e dos modelos escaláveis, organizações como o Conselho de Mulheres Pastoras enfrentam barreiras estruturais significativas, principalmente na mobilização de recursos financeiros e técnicos. O financiamento global para mudanças climáticas, conservação e direitos territoriais raramente chega diretamente a organizações lideradas por mulheres indígenas e locais, o que prejudica a sustentabilidade e limita o crescimento institucional. Se o acesso equitativo à justiça para mulheres pastoras indígenas é uma prioridade genuína, as estruturas de financiamento precisam mudar. Financiamento direto, de longo prazo e com perspectiva de gênero não é caridade: é um investimento estratégico em sistemas de justiça eficazes, sustentáveis e legitimados localmente.</p>



<p>Em conclusão, a experiência das mulheres pastoras na Tanzânia desafia definições restritas de justiça. Leis e tribunais são importantes, mas insuficientes sem a legitimidade cultural, a segurança econômica e a liderança das mulheres. A justiça surge quando as mulheres podem se expressar, as comunidades reconhecem sua autoridade e as instituições respondem às realidades vividas. O trabalho da PWC e a solidariedade de seus membros demonstram que abordagens integradas, que combinam alfabetização jurídica, desenvolvimento de liderança, empoderamento econômico e defesa comunitária, podem abordar as causas estruturais da injustiça. O acesso equitativo à justiça é uma questão de poder: quem o detém, quem o compartilha e quem pode reivindicá-lo.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Prisões e continuidades coloniais: a experiência de mulheres indígenas enfrentando o racismo judicial no México</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/03/01/prisoes-e-continuidades-coloniais-a-experiencia-de-mulheres-indigenas-enfrentando-o-racismo-judicial-no-mexico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[R. Aída Hernández Castillo]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 01:51:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[México]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17687</guid>

					<description><![CDATA[<p>As prisões e a criminalização das populações indígenas desempenham um papel central na perpetuação de um projeto colonial que continua a desapropriar os povos indígenas de seus territórios, deslocando e encarcerando os setores mais vulneráveis dessa população. A experiência de mulheres indígenas encarceradas em uma penitenciária federal de alta segurança no México demonstra a continuidade da violência que marca suas vivências diante do Estado e de um sistema judiciário racista e patriarcal. Essas mulheres desenvolveram estratégias de resistência construindo comunidade em um espaço que fomenta a competição e a desconfiança entre as detentas.</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Na América Latina, o mito da mestiçagem obscureceu o racismo nas prisões, reduzindo a análise à criminalização da pobreza e à corrupção judicial, e ignorando a sobrerrepresentação de corpos racializados nos espaços prisionais. No entanto, sabemos que <a href="https://www.studocu.com/es-ar/document/universidad-nacional-de-tres-de-febrero/antropologia/segato-el-color-de-la-carcel/32675113" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“as prisões têm cor”</a>: no México, o censo prisional de 2022 identificou 8.412 indígenas encarcerados, de um total de 247.000. <a href="https://informe.cndh.org.mx/menu.aspx?id=121" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Contudo, esse número é subestimado pelo uso de critérios linguísticos e pela omissão daqueles que perderam sua língua devido à integração forçada e às campanhas de hispanização</a>.</p>



<p>A chamada “guerra às drogas” é uma estratégia de segurança declarada em 2006 pelo então presidente Felipe Calderón Hinojosa, que buscou atacar e enfraquecer os cartéis de drogas por meio do uso das Forças Armadas. No entanto, essa estratégia apenas intensificou a criminalização e o encarceramento de povos indígenas e representou uma continuação do projeto colonial por meio da desapropriação territorial, da ruptura dos laços comunitários e da violência sistemática contra a população alvo. Esse processo deslocou à força os povos indígenas de suas comunidades, realocando-os para prisões distantes, onde sofrem isolamento e violência física e simbólica.</p>



<p>Mulheres indígenas detidas vivenciam formas específicas de violência interseccional antes, durante e depois de sua prisão. Embora apenas 5% das 13.985 mulheres encarceradas em prisões estaduais e federais tenham sido identificadas como indígenas, sabemos que esse número é subrregistrado, pois muitas mulheres indígenas não são reconhecidas como tal por não falarem seu idioma. De acordo com a Comissão Nacional de Direitos Humanos, entre as mulheres cuja afiliação étnica foi reconhecida, 43% foram presas por crimes relacionados a drogas, classificados como “crimes contra a saúde pública”.</p>



<p>A prisão dessas mulheres permite ao Estado mexicano apresentar estatísticas que demonstram que ele está “fazendo algo” contra o narcotráfico, sem afetar os interesses das redes do crime organizado. Paradoxalmente, o encarceramento de mulheres indígenas ligadas ao tráfico de drogas em pequena escala ou ao cultivo de drogas naturais não contribuiu para reduzir o impacto das redes de narcotráfico. Pelo contrário, essa dinâmica deixou seus filhos vulneráveis, perpetuando ciclos de deslocamento cultural e recrutamento de jovens.</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<iframe loading="lazy" title="CEFERESO 16: La CÁRCEL donde la VIDA VALE unos cuantos PESOS | PARTE 1" width="500" height="281" src="https://www.youtube.com/embed/38cee8ZycEw?feature=oembed" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share" referrerpolicy="strict-origin-when-cross-origin" allowfullscreen></iframe>
</div></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A imposição do direito colonizador</strong></h3>



<p>Ao longo de mais de 17 anos de trabalho em prisões, apoiando mulheres encarceradas em seus processos de escrita de histórias de vida, documentamos que, antes, durante e depois de sua detenção, <a href="https://iwgia.org/doclink/iwgia-libro-bajo-la-sombra-del-guamu%CC%81chil-2015-es/eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJzdWIiOiJpd2dpYS1saWJyby1iYWpvLWxhLXNvbWJyYS1kZWwtZ3VhbXVcdTAzMDFjaGlsLTIwMTUtZXMiLCJpYXQiOjE2Mjk3MTQ4MzQsImV4cCI6MTYyOTgwMTIzNH0.eFiei59pfUA9mUq6r0PcJNSXGAAzFS8hFDhcBVUFDZI%22%3Ehttps:/iwgia.org/doclink/iwgia-libro-bajo-la-sombra-del-guamu%CC%81chil-2015-es/eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJzdWIiOiJpd2dpYS1saWJyby1iYWpvLWxhLXNvbWJyYS1kZWwtZ3VhbXVcdTAzMDFjaGlsLTIwMTUtZXMiLCJpYXQiOjE2Mjk3MTQ4MzQsImV4cCI6MTYyOTgwMTIzNH0.eFiei59pfUA9mUq6r0PcJNSXGAAzFS8hFDhcBVUFDZI" target="_blank" rel="noreferrer noopener">mulheres indígenas sofreram violência racista, que varia de assédio e discriminação à separação de seus filhos, tortura e violência sexual</a>. A ocupação de seus territórios por meio da construção de complexos prisionais foi acompanhada pela ocupação de seus corpos por meio da violência policial.</p>



<p>O racismo judicial opera exogenamente ao concentrar a militarização e as estratégias de segurança em regiões pobres e racializadas, habitadas por povos indígenas. Simultaneamente, e endogenamente, o sistema judicial <a href="https://hermanasenlasombra.org/wp-content/uploads/2021/12/Manual-Digital_Renacer-en-la-escritura_16OCT-1-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">reproduz preconceitos racistas e patriarcais no tratamento dado às mulheres indígenas, que não têm acesso a intérpretes e desconhecem seu direito à representação legal</a>. Além disso, a aplicação da justiça criminal em territórios indígenas representa a imposição do direito colonial sobre as jurisdições indígenas, violando a Lei sobre os Direitos e a Cultura dos Povos Indígenas, a Convenção 169 da OIT e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.</p>



<p>Em um sentido histórico, o encarceramento de homens e mulheres indígenas representa uma continuidade das práticas coloniais que impõem a lei do colonizador sobre a justiça indígena. Isso não se trata apenas de um problema de sobrerrepresentação de corpos pobres e racializados nas prisões, mas sim da imposição de um sistema punitivo que não reconhece as formas tradicionais de resolução de conflitos historicamente desenvolvidas pelos povos indígenas do México. Assim, as mulheres indígenas encarceradas no Centro Federal de Reabilitação Social (<em>Cefereso 16</em>), a maior prisão feminina de alta segurança do México, foram deslocadas de seus territórios e julgadas por um sistema de justiça colonial que viola sistematicamente seus direitos.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="829" height="553" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-2.png" alt="" class="wp-image-17693" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-2.png 829w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-2-300x200.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-2-768x512.png 768w" sizes="auto, (max-width: 829px) 100vw, 829px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenas presas são deslocadas de seus territórios e julgadas por um sistema de justiça colonial que viola sistematicamente seus direitos. <strong>Foto: </strong>Coletivo Hermanas en la Sombra</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Michapa: Centro de reabilitação ou enclave colonial?</strong></h3>



<p>No território indígena e camponês de Michapa ergue-se o Centro de Reabilitação Social nº 16: a primeira e única prisão federal de alta segurança para mulheres do México. O centro foi construído pelo Grupo Inbursa, pertencente ao magnata Carlos Slim, <a href="https://www.proyectosmexico.gob.mx/proyecto_inversion/592-centro-federal-de-readaptacion-social-femenil-cefereso-no-16/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">sob um modelo de parceria público-privada</a> e, como muitas prisões mexicanas, foi estabelecido em terras pertencentes a povos indígenas. Hoje, os descendentes do povo Tlahuica são agricultores que cultivam produtos de subsistência e frutas tropicais em terras não cultivadas e comunitárias. Nessas terras, a vegetação foi destruída e um grande complexo penitenciário, com mais de um quilômetro de extensão, foi construído, alterando a paisagem ao longo da solitária rodovia Amacuzac-Michapa.</p>



<p>A economia da punição nesta prisão transforma o encarceramento em mercadoria: a iniciativa privada é responsável pelo projeto, construção, equipamento e manutenção da instalação, enquanto o Estado, como cliente, paga por toda a capacidade instalada — 2.528 celas, ocupadas ou não. Simultaneamente, foi estabelecida uma indústria têxtil na prisão, impulsionada por mão de obra barata, sem benefícios e com infraestrutura subsidiada pelo Estado. O salário semanal de 250 pesos (US$ 14,57) é pago por meio de um sistema interno de pontos, resgatáveis em lojas da prisão que lembram as lojas de empresas da era colonial e as <em>&#8220;tiendas de raya&#8221;</em> (lojas de empresas) das fazendas durante a ditadura de Porfirio Díaz (1876-1911).</p>



<p>Entrar em Michapa significa atravessar um território de opressão. Antes de chegar, o sinal telefônico é perdido, e o calor de 40 graus transforma o acesso em um exercício de resistência. Mais de 20 postos de controle consecutivos fazem parte de um labirinto burocrático-punitivo rígido, onde o controle extremo serve como punição para quem busca entrar. A violência simbólica se manifesta na arquitetura monocromática, mecânica e árida, onde a vegetação cuidadosamente controlada acolhe os visitantes, enquanto os espaços habitados pelas mulheres encarceradas apresentam apenas grama artificial que simula a vida (como se a negação da vida fizesse parte da punição). Este território constitui a realidade diária da população carcerária.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-3-768x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17694" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-3-768x1024.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-3-225x300.jpg 225w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-3.jpg 960w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Família de um dos autores do livro. No livro-objeto, os autores constroem memórias narradas em suas próprias palavras, carregadas de poder poético, político e emocional. <strong>Foto: </strong>Emiliana Cruz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Módulo 6.1</strong></h3>



<p>A tortura, o isolamento e a falta de assistência médica sofridos pelos detentos são apontados como as principais causas da <a href="https://animalpolitico.com/sociedad/cefereso-16-penal-morelos-negligencias-medicas?fbclid=IwY2xjawGkRBJleHRuA2FlbQIxMQABHfh8MHAUJolU5XIEPiGBCC4gJjoVpiQVmF7IVkkl4UXNrG4O6XaeGE8YKw_aem_ujNSEBkCeamvAgGjJJZRkw" target="_blank" rel="noreferrer noopener">deterioração de sua saúde mental</a>. Essas condições atingiram um ponto insustentável, <a href="https://www.lajornadamorelos.mx/editorial/cuantas-muertes-mas-se-necesitan-en-el-cefereso-16/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">levando o equilíbrio emocional dos detentos ao limite</a> e culminando em um <a href="https://elpais.com/mexico/2024-11-07/alarma-en-la-carcel-federal-de-morelos-por-la-muerte-de-otras-dos-mujeres.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">número alarmante e doloroso de suicídios</a>: 20 casos registrados até janeiro de 2026. Especificamente, as <a href="https://www.animalpolitico.com/sociedad/cefereso-16-morelos-femenil-cementerio-vivas?rtbref=rtb_sezaxyjannkvthu6oj6u_1714479785699" target="_blank" rel="noreferrer noopener">transferências de detentos de outros centros de detenção a partir de 2022 foram identificadas</a> como um fator que contribuiu significativamente para essa onda de suicídios, um ponto também levantado pela <a href="https://animalpolitico.com/sociedad/cndh-cefereso-16-morelos-violo-derechos-humanos-mujeres" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Comissão Nacional de Direitos Humanos</a> e pelo Instituto Federal de Defesa Pública.</p>



<p>Entre a população transferida, encontram-se mulheres indígenas de diferentes regiões: maias de Quintana Roo; otomis do Estado do México e Hidalgo; nahuas de Guerrero, Morelos e Puebla; mixtecas e chatinas de Oaxaca; yaquis de Sonora; wirrarikas de Zacatecas; e uma mulher <em>afro-guerrerense</em>. Após a prisão, em 2020, da <a href="https://www.animalpolitico.com/sociedad/kenia-hernandez-prision-encarcelada">ativista de direitos humanos afro-amuzga Kenya Hernández</a>, as mulheres indígenas de Michapa, inspiradas por sua liderança, reivindicaram um módulo especial onde pudessem viver juntas e dar continuidade às suas práticas culturais. Como resultado, uma comunidade multiétnica de 18 mulheres indígenas, detidas por crimes federais que variam de roubo e crime organizado a delitos menores como fraude e falsificação de documentos, foi formada no Módulo 6.1.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O <em>contínuo de violência </em>que marcou suas vidas desde a infância agora inclui a violência legitimada de um estado colonial, que usa a prisão como forma de controle, desapropriação e desumanização.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O <em>contínuo de violência </em>que marcou suas vidas desde a infância agora inclui a violência de um estado colonial, que usa a prisão como forma de controle e desumanização<strong>.</strong></p>
</blockquote>



<p>Como a maioria delas estava acostumada a viver em contato próximo com a natureza, o próprio espaço da prisão é uma forma de violência: elas vivem segregadas em um módulo cinza de concreto. Trata-se de uma estrutura circular na qual as celas estão dispostas ao redor de um espaço central onde todas as atividades acontecem: das refeições e treinamentos à higiene pessoal nos chuveiros. Todo o módulo é completamente revestido de concreto. Algo que parece tão básico, como poder sentir a terra sob os pés, é um desejo dessas mulheres que sonham e escrevem sobre a terra, os rios, as árvores e toda a natureza que cerca suas comunidades de origem.</p>



<p>Além do isolamento de suas comunidades, medidas punitivas, como o confinamento solitário, continuam sendo utilizadas como meio de controle da população carcerária. Durante os três anos em que trabalhamos neste centro de detenção, testemunhamos um caso em que uma das detentas do módulo 6.1 foi espancada, teve as mãos e os pés amarrados e foi mantida em isolamento como punição por seu “mau comportamento”. O <em>contínuo de violência </em>que marca suas vidas desde a infância agora inclui a violência legitimada de um Estado colonial que utiliza a prisão como instrumento de controle, desapropriação e desumanização.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="687" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-4-687x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17695" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-4-687x1024.jpg 687w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-4-201x300.jpg 201w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-4-768x1145.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Mexico-Marzo-2026-4.jpg 810w" sizes="auto, (max-width: 687px) 100vw, 687px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Capa do livro Totoltin: Palomas. Escritos de Mulheres Indígenas Internadas em Michapa (2025). <strong>Foto: </strong>Colectiva Editorial Hermanas en la Sombra<strong>&nbsp;</strong>&nbsp;</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A escrita como resistência: <em>Totoltin </em>e as vozes dissidentes</strong></h3>



<p>Diante dessa estrutura de controle colonial, essa comunidade multiétnica desenvolveu suas próprias estratégias de resistência coletiva, gerando redes de cuidado. A partir da abertura criada pela reflexão coletiva, iniciada com a oficina &#8220;<em>Renascimento na Escrita</em>&#8220;, as mulheres do módulo 6.1 puderam compartilhar suas histórias, conhecer-se e <em>se verem refletidas </em>umas nas outras, vivenciando processos de cura individual e coletiva por meio da escrita e da dignificação de suas memórias.</p>



<p>O <a href="https://hermanasenlasombra.org/">Coletivo Editorial <em>Hermanas en la Sombra</em></a><a href="https://hermanasenlasombra.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"> (Irmãs na Sombra)</a> chegou a Michapa em 2023 para oferecer esta oficina em vários módulos, baseada na <em>metodologia de Escrita da Identidade, </em>que desenvolvemos ao longo de 17 anos de trabalho em contextos prisionais e sistematizamos em <a href="https://hermanasenlasombra.org/wp-content/uploads/2021/12/Manual-Digital_Renacer-en-la-escritura_16OCT-1-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Renacer en la escritura. Manual para la intervención feminista en espacios donde se vive violencia (</em>Renascimento na Escrita: Manual para a Intervenção Feminista em Espaços Onde a Violência é Vivenciada<em>).</em></a> Essa metodologia representa um exercício de reconstrução da subjetividade que permite às mulheres reivindicar sua própria voz e denunciar as lógicas estruturais da opressão, reafirmando-as como sujeitos com história, memória e capacidade de ação. Habitar a escrita também representa uma ferramenta política que nos permite questionar como as mulheres indígenas são construídas nas narrativas oficiais, que as reduzem a estatísticas e crimes.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Aos poucos, as memórias foram sendo libertadas por meio da escrita, muitas delas envoltas em violência e opressão, tanto em suas trajetórias de vida quanto nas lembranças das histórias de seus ancestrais e de suas comunidades.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Memórias foram libertadas por meio da escrita, muitas delas envoltas em violência, tanto em suas vidas quanto nas lembranças das histórias de seus ancestrais e de suas comunidades.</p>
</blockquote>



<p>Por meio da escrita, as mulheres do Módulo 6.1 exploraram, semana após semana, os temas do manual: racismo, classismo, androcentrismo, sororidade e misoginia; os mitos do amor romântico; histórias de vida e o corpo; autonomia; e escrita transformadora e curativa. Esses processos de diálogo e escrita foram acompanhados por canções, rituais, leituras e exercícios de introspecção e reconexão consigo mesmas. Em cada sessão, refletimos coletivamente sobre nossas experiências de vida, ouvindo e reconhecendo umas às outras. Aos poucos, memórias foram liberadas por meio da escrita, muitas delas impregnadas de violência e opressão, tanto em suas próprias trajetórias de vida quanto nas histórias de seus ancestrais e comunidades.</p>



<p>No livro <em>Totoltin: Palomas. Escritos de Mulheres Indígenas Internadas em Michapa </em>(2025), Nido relembra sua infância na <em>Sierra de Sonora</em> e revive o deslocamento que ela e sua família sofreram da comunidade Yaqui para ter acesso à educação pública: “Chegou o dia de ir para a escola primária. Lembro-me bem do primeiro dia. Tudo o que eu tinha que fazer era aparecer com meu vestido bordado à mão, que minha mãe havia feito para mim, para ver como riam e diziam que eu era indígena e que as meninas da cidade não entendiam minha língua. Aos poucos, o ódio se apoderou de mim, e até hoje ainda carrego esse fardo. Muitas vezes me chamam de índia, me chamam de maldita indígena, outras vezes, ignorante”.<em></em></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="768" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-5-768x1024.jpeg" alt="" class="wp-image-17696" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-5-768x1024.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-5-225x300.jpeg 225w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-5.jpeg 960w" sizes="auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Oficina coletiva de encadernação para o livro Totoltin: Palomas. Escritos de Mulheres Indígenas Internadas em Michapa (2025), liderada pela editora Marina Ruiz Rodríguez. <strong>Foto: </strong>Colectiva Editorial Hermanas en la sombra</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Autoras-criadoras de suas histórias e dores</strong></h3>



<p>Após a conclusão da oficina de escrita, os textos foram digitalizados e iniciou-se uma segunda fase, focada em dar vida a essas histórias no livro <a href="https://www.comecso.com/publicaciones/resena-del-libro-totoltin-palomas" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Totoltin: Palomas. Escritos de mujeres de pueblos originarios internadas en Michapa (Totoltin: Pombas. Escritos de mulheres indígenas internadas em Michapa).</em></a> Os textos foram selecionados e editados pelas próprias autoras. Elas também confeccionaram artesanalmente as folhas de guardas do livro, aprenderam técnicas de encadernação e se dedicaram de corpo e alma a cada etapa. Como várias das 18 participantes falavam suas línguas nativas (principalmente náuatle, chatino, maia e zapoteca), mas eram analfabetas, a maioria dos textos foi escrita em espanhol. Algumas explicaram que não falavam suas línguas porque o racismo e a discriminação as obrigaram a esquecê-las. Em seu texto &#8220;<em>Yo crecí</em>&#8221; (Eu cresci), Lucía Ramírez, uma mulher nahua de Tatahuicapan de Juárez, relata as dificuldades e privações de sua infância:</p>



<p class="has-text-align-center"><em>Nej ni guella ken inon pelotzit zit cuak illek qui mel cajtek </em>(Eu cresci como cachorrinhos quando são abandonados pela mãe),</p>



<p class="has-text-align-center"><em>noselti (sozinho), nictemo ken nia ni isatotik </em>(procurando como sobreviver).</p>



<p class="has-text-align-center"><em>Ne niteki pano nochipa aun quej poins ni ciahuia pues alla ni llole catca</em>. (Eu trabalhava, eu sempre ficava muito cansada porque eu ainda era pequena).</p>



<p>Nas sessões finais, as mulheres refletiram sobre o processo transformador que vivenciaram e seu impacto durante a oficina. Leticia Pérez, uma mulher Nahua de Puebla, expressou: “Vejo o livro como algo que todas nós demos à luz juntas, algo em que trabalhamos por meses, e agora finalmente vai sair, companheiras! Representa nossas histórias, mas também o que sofremos. Não sei como vocês o veem, mas para mim, todas nós o demos à luz juntas.” A metáfora do parto coletivo compartilhada por “Mamá Lety” mostra como a escrita fortalece a comunidade e a conexão emocional. Ao se reconhecerem como autoras-criadoras de suas histórias e dores, que são ressignificadas, coletivizadas e materalizadas no livro-objeto, elas constroem memórias narradas em suas próprias palavras, imbuídas de poder poético, político e afetivo.</p>



<p>É na prisão, como um espaço hostil concebido para o controle, que a escrita emerge como um útero simbólico do qual a resistência e a comunidade são produzidas e nascem. A escrita nos permite considerar formas de subjetividade que não são definidas pela lógica punitiva do Estado, mas pela capacidade de criar, narrar, resistir e reafirmar a nós mesmos como sujeitos com história, memória e capacidade de ação. Por meio da escrita, as autoras de <em>Totoltin </em>compartilham memórias coletivas que retratam as condições de violência, exclusão, opressão e desapropriação enfrentadas por mulheres indígenas no México do século XXI.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="928" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-6-1024x928.jpeg" alt="" class="wp-image-17697" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-6-1024x928.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-6-300x272.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-6-768x696.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Foto-6.jpeg 1426w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Guardas do livro Totoltin: Palomas, feitas à mão com a técnica suminagashi por mulheres indígenas encarceradas. <strong>Foto: </strong>Colectiva Editorial Hermanas en la Sombra</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Reflexões finais</strong></h3>



<p>As prisões continuam sendo um instrumento de punição, controle e desapropriação territorial para os povos indígenas em todo o continente. Nesse sentido, <em>Totoltin: Palomas. Escritos de Mulheres Indígenas Encarceradas em Michapa </em>pode ser considerado parte dos arquivos da resistência indígena e, especificamente, das mulheres indígenas. A continuidade do projeto colonial nas Américas tem sido denunciada por meio de diversas estratégias textuais, que vão de manifestos políticos a canções, crônicas e poesia. O silêncio da cumplicidade foi rompido e nada pode silenciar essas vozes.</p>



<p>Essas denúncias também incluem testemunhos das diferentes formas de resistência que as mulheres desenvolveram para defender a vida e construir comunidade, mesmo em contextos onde a violência dos estados coloniais as isola por meio de leis que justificam o sequestro, o deslocamento e a desapropriação de seus territórios. Esperamos que este texto ecoe o seu apelo para derrubar os muros desses enclaves coloniais disfarçados de Centros de Reabilitação Social. Yanetzin Marcelo descreve isso desta forma no poema que dá título ao livro e que clama por uma resistência coletiva contínua:</p>



<p class="has-text-align-center">Queridas pombas,</p>



<p class="has-text-align-center">construam seu ninho e embelezem-se</p>



<p class="has-text-align-center">protejam-se individualmente e em grupo</p>



<p class="has-text-align-center">são a força, a vontade, a coragem e a vida</p>



<p class="has-text-align-center">Resistam à morte nessas células</p>



<p class="has-text-align-center">Escrevam, amem, cantem e dancem</p>



<p class="has-text-align-center">E permaneçam sempre no ar.</p>



<p class="has-text-align-center">Totometzinti</p>



<p class="has-text-align-center">Xmotlahpialikan</p>



<p class="has-text-align-center">Xmonapalokan</p>



<p class="has-text-align-center">Nehuame maka xmikan</p>



<p class="has-text-align-center">Xkelnamikan nimochikalisas</p>



<p class="has-text-align-center">Xpatlanikan, xmititikan, xmotlasohtlakan</p>



<p class="has-text-align-center">Nochipa xnemikan</p>



<p class="has-text-align-center">(Yanetzin Marcelo, Poema Palomares-Totohmetsinti)</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Acesso à justiça para mulheres e meninas indígenas no nordeste da Índia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/03/01/acesso-a-justica-para-mulheres-e-meninas-indigenas-no-nordeste-da-india/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Samir Talati]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 01:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[acesso à justiça]]></category>
		<category><![CDATA[India]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17673</guid>

					<description><![CDATA[<p>Mulheres e meninas indígenas enfrentam múltiplas barreiras legais decorrentes da interseção entre marginalização, desapropriação de terras e relações de poder. Embora as garantias constitucionais as protejam, a realidade revela um profundo abismo entre a igualdade proclamada pela lei e a desigualdade que vivenciam no terreno. Essa contradição é particularmente aguda onde as normas consuetudinárias são subordinadas a um sistema jurídico enraizado no colonialismo, na propriedade privada e na intervenção estatal. Nesse contexto, o acesso das mulheres à justiça deve ser compreendido em estreita relação com identidade, terra e meios de subsistência.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Os conflitos no nordeste da Índia giram em grande parte em torno da identidade: o reconhecimento ou a negação do status indígena e dos sistemas de subsistência comunitários. Inicialmente, o Estado converteu terras comunitárias em propriedade estatal, terrenos baldios ou florestas não classificadas. Posteriormente, a propriedade comunitária e a gestão coletiva foram substituídas por títulos individuais, leis florestais e administração tributária. Consequentemente, ocorreu uma alienação em larga escala de terras, florestas e recursos de propriedade comunitária, prejudicando os meios de subsistência dos povos indígenas e ameaçando sua cultura e organização social.</p>



<p>Para as mulheres, essa alienação tem consequências específicas. Tradicionalmente, as mulheres indígenas desfrutavam de um status proeminente devido ao seu papel na produção, no conhecimento ecológico e na economia familiar, tudo isso baseado em terras, florestas e recursos de propriedade comunitária. Assim, as mulheres no nordeste da Índia participavam da tomada de decisões e eram agentes econômicas ativas enquanto a terra era administrada pela comunidade. Quando esses sistemas foram interrompidos pela alienação de terras, pelo deslocamento induzido pelo desenvolvimento, pela assimilação legal à sociedade dominante e pelas intervenções de mercado, as mulheres indígenas sofreram uma perda desproporcional de status, autonomia e acesso à justiça.</p>



<p>Portanto, a justiça para as mulheres indígenas deve ser situada na interseção dos direitos coletivos, da segurança de subsistência, das relações de poder de gênero e da autodeterminação. A perda de recursos comuns, a imposição de regimes jurídicos individualizados e o deslocamento forçado prejudicaram desproporcionalmente os direitos das mulheres indígenas. Consequentemente, é necessária uma reconceitualização da noção de justiça, que priorize os direitos de subsistência, a reforma do direito consuetudinário com perspectiva de gênero e o reconhecimento significativo dos sistemas jurídicos indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="461" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-2-1024x461.jpg" alt="" class="wp-image-17679" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-2-1024x461.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-2-300x135.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-2-768x345.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-2.jpg 1156w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mulheres indígenas discutindo questões socioeconômicas. <strong>Foto: </strong>North Eastern Institute of Language and Culture</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Direitos coletivos e a questão da justiça</strong></h3>



<p>Na Índia, o debate sobre se as comunidades devem ser reconhecidas como <em>tribais </em>ou <em>indígenas </em>não é meramente semântico. O termo <em>&#8220;tribo</em>&#8220;, usado na Constituição, refere-se a uma comunidade com cultura e organização social compartilhadas. Ao fazê-lo, coloca essas comunidades dentro de um paradigma de bem-estar e desenvolvimento, sem reconhecer sua ocupação histórica do território. Por outro lado, o termo <em>&#8220;indígena&#8221; </em>está fundamentado no direito internacional e enfatiza a preexistência, a autodeterminação, os direitos coletivos e a soberania sobre a terra, as florestas e os recursos naturais. Esse termo se refere a uma identidade política baseada em direitos e vinculada à continuidade histórica.</p>



<p>O Estado indiano não reconhece nenhuma comunidade como <em>indígena</em>; classifica todas sob a categoria de <em>tribais</em>. Enquanto o reconhecimento <em>tribal </em>limita a justiça a medidas redistributivas e compensatórias, o status <em>indígena </em>a amplia para a justiça histórica, territorial e restaurativa. Os povos indígenas se percebem como <em>povos distintos </em>que possuem direitos coletivos enraizados em suas relações históricas, culturais, espirituais e territoriais. Esses direitos não se limitam a direitos individuais, mas incluem direitos coletivos sobre a terra, os recursos e os sistemas de governança. Esses direitos coletivos são essenciais para manter a continuidade intergeracional da cultura, do direito e dos meios de subsistência.</p>



<p>Contudo, a imposição da propriedade privada por meio de estruturas legais coloniais e noções capitalistas de desenvolvimento minou os direitos coletivos à terra das comunidades tribais e indígenas. O sistema jurídico na Índia não reconhece os bens comuns como meio de subsistência dos povos indígenas. A negação de seus direitos aos bens comuns leva à alienação de terras e ao empobrecimento. Essa estrutura é inadequada para as sociedades indígenas que tradicionalmente administram suas terras e recursos coletivamente. Nesse contexto, a justiça implica o reconhecimento dos direitos coletivos dos povos indígenas e de sua autoridade sobre os sistemas de subsistência.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="460" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-3-1024x460.jpg" alt="" class="wp-image-17680" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-3-1024x460.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-3-300x135.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-3-768x345.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/India-Marzo-2026-3.jpg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Embora a terra fosse administrada comunitariamente, as mulheres desempenhavam um papel fundamental na tomada de decisões; a perda de recursos comuns afetou esse sistema. <strong>Foto: </strong>North Eastern Institute of Language and Culture</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Implicações de gênero, direito consuetudinário e direito formal</strong></h3>



<p>Tradicionalmente, as comunidades indígenas do nordeste da Índia se autogovernavam por meio de leis consuetudinárias que priorizavam a distribuição equitativa, a sustentabilidade dos recursos e a equidade intergeracional. As mulheres gozavam de um status relativamente elevado (embora não igualitário) devido ao seu papel na gestão da economia doméstica. No entanto, a imposição da propriedade individual da terra converteu as terras comunitárias em propriedade estatal e reconheceu a posse por meio de títulos de propriedade individuais (<em>pattas), geralmente concedidos aos chefes de família</em>. Com a alienação dos recursos comuns, as mulheres indígenas perderam o acesso aos espaços econômicos e sociais que sustentavam seu status.</p>



<p>Essa mudança transfere o poder para uma minoria masculina e marginaliza as mulheres da tomada de decisões. O Estado e o mercado intensificam ainda mais esse processo ao concederem empréstimos, subsídios e benefícios apenas a proprietários de terras individuais, reforçando o patriarcado e acelerando a formação de classes dentro das comunidades. Como resultado, as mulheres perdem seu papel econômico, sua autonomia social e sua autoridade, levando muitas a internalizar ideologias de subordinação feminina. Assim, a convergência do direito consuetudinário e do direito formal não é uma transição neutra, mas um processo desigual que aprofunda a injustiça de gênero.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Embora os modelos de desenvolvimento impostos externamente aprofundem a desigualdade de gênero, a justiça de gênero se fortalece quando as próprias instituições tradicionais geram reformas que protegem os direitos das mulheres.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A justiça de gênero se fortalece quando as próprias instituições tradicionais geram reformas que protegem os direitos das mulheres.</p>
</blockquote>



<p>As evidências sugerem que a modernização sem salvaguardas ou preparação fortalece o domínio masculino ao introduzir a propriedade individual da terra e intensificar o controle dos homens sobre os recursos. Ela também cria diferenças de classe em sociedades que tradicionalmente eram igualitárias. Por exemplo, entre os Garo de Meghalaya, uma etnia matrilineal, os programas de financiamento estatal para plantações de seringueiras exigiam títulos individuais em nome dos chefes de família do sexo masculino. Isso minou a propriedade comunitária, permitiu que alguns indivíduos monopolizassem a terra e enfraqueceu o papel das mulheres.</p>



<p>Por outro lado, existem iniciativas que beneficiam as mulheres e que surgem dos próprios sistemas tradicionais. As reformas propostas pelo Conselho Tribal Paite para reconhecer os direitos de herança das filhas demonstram a possibilidade de alinhar a tradição à justiça de gênero. Em conjunto, essas experiências ressaltam que, embora os modelos de desenvolvimento impostos externamente aprofundem a desigualdade de gênero, a justiça de gênero emerge com mais força quando as próprias instituições tradicionais geram reformas que protegem os direitos das mulheres.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Desenvolvimento, deslocamento e feminização da injustiça</strong></h3>



<p>O deslocamento induzido pelo desenvolvimento é um dos obstáculos mais graves à justiça para os povos indígenas em geral e, em particular, para as mulheres e meninas indígenas. Barragens, mineração e expansão industrial têm como alvo terras, florestas e recursos comuns, a base dos meios de subsistência indígenas. A aquisição em larga escala de terras tribais para projetos de desenvolvimento resultou em um empobrecimento generalizado.</p>



<p>Nesse sentido, uma proporção significativamente maior de indígenas deslocados fica <em>sem terra </em>em comparação com grupos não indígenas deslocados. Além disso, a apropriação de terras gera consequências sociais devastadoras para os povos indígenas, como marginalização, miséria e perda de identidade e cultura. Na Índia, enquanto 25% dos agricultores deslocados ficam <em>sem terra </em>após o deslocamento, esse número ultrapassa 50% entre os povos indígenas e <em>dalits </em>(o estrato mais baixo da hierarquia social na Índia).</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">O deslocamento induzido pelo desenvolvimento vai além da reprodução de desigualdades preexistentes: ele feminiza a injustiça ao desmantelar os fundamentos materiais, sociais e culturais que sustentam a dignidade e os direitos das mulheres indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">O deslocamento feminiza a injustiça ao desmantelar os alicerces materiais, sociais e culturais que sustentam a dignidade das mulheres indígenas.</p>
</blockquote>



<p>Embora o deslocamento empobreça toda a comunidade, suas consequências são particularmente marcadas pelas questões de gênero. O deslocamento corrói tanto a segurança material quanto o status social das mulheres. A perda de recursos comuns priva as mulheres de seu status como agentes econômicos e sociais: reduz-as a papéis domésticos não remunerados e intensifica sua dependência dos homens. Ao mesmo tempo, as mulheres internalizam a ideologia da subordinação e, com o colapso de seus meios de subsistência, são empurradas para empregos precários e mal remunerados.</p>



<p>Enquanto isso, meninas são retiradas da escola para contribuir com a sobrevivência da família, perpetuando ciclos de pobreza e exclusão para as mulheres. Os mecanismos de justiça raramente consideram esses impactos, pois se concentram na compensação individual em vez da perda coletiva e social. Assim, o deslocamento induzido pelo desenvolvimento vai além da reprodução de desigualdades preexistentes: ele feminiza a injustiça ao desmantelar os fundamentos materiais, sociais e culturais que sustentam a dignidade e os direitos das mulheres indígenas.</p>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Em busca de justiça para as mulheres indígenas</strong></h3>



<p>No nordeste da Índia, garantir o acesso à justiça para mulheres e meninas indígenas exige uma reorientação dos marcos legais e das políticas públicas. Primeiro, a identidade indígena deve ser definida em termos de subsistência, e não cronológica. A proteção dos direitos indígenas depende do reconhecimento dos bens comuns como fundamento da cultura indígena. Segundo, o direito consuetudinário deve ser reconhecido e interpretado para combater a desigualdade de gênero. Enquanto um ressurgimento acrítico da tradição corre o risco de reforçar o patriarcado, a reforma baseada na equidade, na sustentabilidade e no bem-estar da comunidade pode fortalecer os direitos das mulheres.</p>



<p>Em terceiro lugar, o acesso à justiça deve ser ampliado para além dos tribunais, incluindo mecanismos de resolução de conflitos culturalmente adequados, alfabetização jurídica e estruturas de governança participativa que garantam a representação das mulheres. A modernização do direito consuetudinário seria um passo nessa direção. Por fim, a justiça para as mulheres indígenas deve reconhecer sua capacidade de ação. Apesar das limitações estruturais, as mulheres indígenas continuam sendo fundamentais para o conhecimento ecológico, a gestão de recursos e a resiliência comunitária. Reconhecer e fortalecer essa capacidade de ação é essencial não apenas para a justiça de gênero, mas também para o desenvolvimento sustentável e a governança democrática na região.</p>



<p>Isso significa que o acesso à justiça para mulheres indígenas no nordeste da Índia é indissociável das lutas por terra, meios de subsistência, autodeterminação e identidade. A erosão dos sistemas de subsistência comunitários, combinada com a imposição de regimes jurídicos individualizados, produziu formas interseccionais de injustiça que afetam desproporcionalmente as mulheres. Combater essa injustiça exige o reconhecimento dos direitos coletivos, a restauração do controle sobre os recursos comuns e a reforma das leis formais e consuetudinárias sob uma perspectiva de gênero. Somente priorizando os meios de subsistência, a dignidade e a autonomia, a justiça poderá se tornar significativa para as mulheres indígenas no nordeste da Índia e em todo o país.</p>
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		<title>Acesso à justiça negado: violência sexual contra mulheres e meninas indígenas em Bangladesh</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/03/01/acesso-a-justica-negado-violencia-sexual-contra-mulheres-e-meninas-indigenas-em-bangladesh/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rani Yan Yan]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Mar 2026 01:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Ásia]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[acesso à justiça]]></category>
		<category><![CDATA[Bangladesh]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17719</guid>

					<description><![CDATA[<p>A violência sexual, incluindo estupro e subsequente assassinato, é a forma mais prevalente de violência perpetrada contra mulheres e meninas indígenas na região das Colinas de Chittagong. Elas vivem, portanto, sob uma “cultura de impunidade”, onde a violência sexual é usada como arma de controle político e territorial. A perpetuação dessa cultura de impunidade não é resultado de mera fragilidade institucional, mas sim consequência da opressão estatal sistemática e deliberada contra os povos indígenas, envolvendo militarização e assentamento de colonizadores na região.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Durante décadas, a região das Colinas de Chittagong (CHT) foi submetida à militarização e a um programa de assentamento patrocinado pelo Estado, iniciado em 1979 como uma forma de engenharia demográfica. Mais de 400.000 bengaleses sem-terra e empobrecidos foram realocados para territórios indígenas na região e receberam rações alimentares, uma prática que continua até hoje. Apesar das regulamentações que proíbem cidadãos não indígenas de possuírem terras nas CHT, o número de bengaleses continuou a crescer exponencialmente. Essa mudança demográfica transformou os povos indígenas, que representavam aproximadamente 96% da população em 1940, em 50% em 2022.</p>



<p>Em 1997, o Acordo de Paz assinado entre o movimento indígena que liderou a resistência e o partido governante incluía disposições para resolver conflitos de terras entre povos indígenas e colonos, e para desmilitarizar as CHT com a remoção de mais de 230 acampamentos militares temporários. Se o Acordo dos CHT tivesse sido totalmente implementado, a ocupação militar e a expansão dos colonos poderiam ter sido interrompidas. No entanto, a falta de vontade política por parte dos sucessivos governos em implementar o tratado resultou na continuidade de um regime militar <em>de facto</em> na região.</p>



<p>Existe uma relação simbiótica entre os militares e os assentamentos de colonos. Estes últimos dependem da proteção militar para reivindicar, manter e expandir a posse de suas terras, enquanto os militares consolidam seu poder das CHT por meio dos colonos, que atuam como apoio civil e, por vezes, como instrumentos contra a resistência indígena. Nesse contexto, quando a violência sexual contra mulheres ou meninas indígenas é perpetrada por cidadãos de Bangladesh, os militares e as instituições estatais protegem os agressores.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-17724" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-1-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Famílias de vítimas encontram resistência ao registrar queixas em casos de violência de gênero. <strong>Foto:</strong> Arnab Dewan</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um padrão recorrente: falta de cooperação policial</strong></h3>



<p>As medidas para encobrir crimes de violência sexual seguem um padrão recorrente, especialmente em casos que geram indignação pública. E os casos que alcançam maior visibilidade nacional e internacional são frequentemente os que menos resultam em justiça para as vítimas. Paradoxalmente, quanto mais atenção recebem, mais esforços são mobilizados por agências estatais para proteger os perpetradores. Em alguns casos extremos, isso culmina em ataques contra comunidades indígenas inteiras por colonos bengaleses, resultando em mortes e destruição. Quatro casos de violência sexual na última década ilustram como as vítimas indígenas têm sua justiça negada.</p>



<p>Primeiramente, quando familiares das vítimas tentam registrar denúncias de violência sexual supostamente cometida por colonos, os policiais responsáveis se mostram relutantes em aceitá-las. Após muita insistência e persuasão, quando a polícia finalmente concorda em registrar o caso, informações cruciais (como depoimentos de testemunhas ou detalhes específicos essenciais para a investigação) são frequentemente omitidas ou distorcidas. Isso é feito intencionalmente para gerar dúvidas e permitir uma narrativa alternativa que, em última análise, proteja os agressores da responsabilização.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Em 2018, quando duas irmãs Marma foram a um hospital devido a ferimentos sofridos após supostamente terem sido estupradas por dois soldados, elas foram detidas ilegalmente em uma ala abandonada do mesmo hospital.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Quando duas irmãs Marma foram ao hospital devido a ferimentos sofridos após supostamente terem sido estupradas por dois soldados, elas foram detidas ilegalmente.</p>
</blockquote>



<p>Em setembro de 2025, uma menina Marma de 12 anos relatou ter sido estuprada por três colonos bengaleses. Segundo o pai, ao registrar a queixa, a polícia o pressionou a descrever os agressores como “três homens não identificados”, apesar de testemunhas relatarem que três homens bengaleses a seguiram antes do incidente. No caso do estupro e assassinato de uma mulher Chakma em 2014, o marido forneceu os nomes de três suspeitos com base em depoimentos de testemunhas. A polícia omitiu deliberadamente esses nomes ao elaborar o processo e, sem informar o marido (que era analfabeto) das alterações, obteve sua assinatura no documento no dia seguinte.</p>



<p>Em maio de 2025, o comissário distrital e a polícia questionaram se um crime havia sido cometido quando uma mulher indígena Khyang foi brutalmente assassinada após um suposto estupro, apesar das claras evidências de homicídio. Seu corpo foi encontrado nu, com o crânio esmagado. No comunicado à imprensa, a polícia omitiu o depoimento de que ela havia sido assediada por três homens bengaleses no dia anterior. Em 2018, quando duas irmãs Marma foram a um hospital distrital com ferimentos sofridos após supostamente terem sido estupradas por dois soldados, as forças de segurança as detiveram ilegalmente e as mantiveram confinadas em uma ala abandonada do mesmo hospital por mais de três semanas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="683" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17725" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-683x1024.jpg 683w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-200x300.jpg 200w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-768x1152.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-1024x1536.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-1365x2048.jpg 1365w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-2-1-scaled.jpg 1707w" sizes="auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A visibilidade nacional e internacional desses casos não garante justiça. <strong>Foto: </strong>Arnab Dewan</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Manipulação de provas médicas e cumplicidade institucional</strong></h3>



<p>Os exames médico-legais são essenciais para fundamentar casos de agressão sexual. Após o registro da denúncia, se já tiverem ocorrido manifestações públicas exigindo justiça e condenação, as autoridades médicas frequentemente atrasam a emissão dos laudos, que podem, eventualmente, apresentar um resultado negativo. No caso das duas irmãs Marma, o primeiro laudo médico foi retido pelas autoridades policiais e, duas semanas depois, um segundo laudo, elaborado por um médico diferente, foi apresentado, o qual também apresentou um resultado negativo.</p>



<p>Os médicos legistas correm o risco de sofrer represálias caso se recusem a falsificar laudos. Em uma ocasião, uma falsa acusação de corrupção foi repentinamente apresentada contra um legista poucos dias após ele ter produzido o primeiro laudo médico. Isso arruinou sua carreira médica no serviço público. Assim, a falsa acusação serviu como punição por se recusar a produzir um laudo falso, como coerção para que permanecesse em silêncio sobre o caso em andamento e como um aviso a outros médicos legistas sobre as consequências da não conformidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Médicos legistas correm o risco de sofrer represálias se se recusarem a adulterar laudos. Em um caso, uma falsa acusação de corrupção foi feita contra um legista poucos dias após ele ter produzido o primeiro laudo médico.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Médicos legistas correm o risco de sofrer represálias se se recusarem a manipular laudos. Em um caso, uma falsa denúncia de corrupção foi apresentada.</p>
</blockquote>



<p>O relatório médico da menina Marma foi retido por vários dias. O documento confidencial, contendo sua fotografia e informações pessoais, vazou e foi divulgado em mídias online controladas por colonos e em alguns veículos da mídia tradicional, mesmo antes de ter sido entregue à polícia pelas autoridades do hospital. Enquanto isso, nos dias anteriores, organizações de colonos realizaram manifestações alegando que nenhum estupro havia ocorrido, o que sugere conhecimento prévio das conclusões do relatório.<br>Os dados do relatório foram visivelmente alterados. A data do exame foi sobrescrita com uma nova e assinada pelos examinadores com a data anterior. Ao fazerem isso, não conseguiram evitar inconsistências nas informações fornecidas. Nenhuma autoridade competente iniciou qualquer investigação sobre a divulgação não autorizada do relatório confidencial ou sobre as discrepâncias.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="683" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-683x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17726" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-683x1024.jpg 683w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-200x300.jpg 200w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-768x1152.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-1024x1536.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-1365x2048.jpg 1365w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/03/Bangladesh-Marzo-2026-3-1-scaled.jpg 1707w" sizes="auto, (max-width: 683px) 100vw, 683px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Frequentemente, após o registro de queixas, a autoridade médica atrasa a emissão de laudos e acaba divulgando resultados negativos. <strong>Foto:</strong> Arnab Dewan</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Controle narrativo por meio da mídia</strong></h3>



<p>Nos últimos anos, a mídia tradicional, sites de notícias e redes sociais têm sido usados para propagar narrativas que deslegitimam as reivindicações dos povos indígenas. Enquanto as mobilizações indígenas recebem cobertura mínima, as manifestações lideradas por colonizadores são amplamente divulgadas. Além disso, a mídia funciona como instrumento de propaganda pró-militar. Ao mesmo tempo, inúmeros colonizadores administram sites de notícias e contas em redes sociais que disseminam informações falsas sobre a resistência indígena. Essa campanha busca retratar os povos indígenas como forças antiestatais e os defensores dos direitos indígenas como separatistas.</p>



<p>Nesse contexto, à medida que os povos indígenas intensificam suas reivindicações por justiça pelos crimes cometidos contra mulheres e meninas, uma campanha coordenada é lançada para desviar o debate público da busca por justiça para as vítimas, para a suspeita em torno das intenções dos protestos indígenas. A obtenção de um laudo médico negativo é essencial para promover a narrativa de que os &#8220;separatistas indígenas&#8221; estão usando falsas acusações de estupro para criar instabilidade contra o exército e os colonos bengaleses com o objetivo de desestabilizar a região.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Pode-se argumentar que a mesma estrutura que garante impunidade sistemática aos perpetradores de violência sexual também garante impunidade para a violência comunitária subsequente contra comunidades indígenas que buscam justiça.</p>



<p class="destacado cel-only">A mesma estrutura que garante impunidade aos autores de violência sexual também garante impunidade para a violência subsequente contra comunidades que buscam justiça.</p>
</blockquote>



<p>Em casos extremos, os ataques contra comunidades indígenas são orquestrados para intimidar, reforçar narrativas propagandísticas e desviar a atenção das reivindicações por justiça. No caso do estupro e assassinato da mulher Chakma em 2014, colonos lançaram uma série de ataques comunitários contra aldeias indígenas, utilizando boatos sobre o desaparecimento de uma criança bengali. No caso da menina Marma, ataques e incêndios se alastraram pelo distrito durante dois dias, resultando em pelo menos três mortes, dezenas de feridos entre os indígenas e destruição de propriedades. Há fortes indícios de que os militares apoiaram os ataques e atiraram contra os moradores. Esses ataques seguiram o mesmo padrão de disseminação de boatos sobre agressões indígenas contra colonos bengalis, enquanto o uso coordenado das redes sociais amplificou seu impacto.</p>



<p>Em nenhum dos casos foi instaurada qualquer investigação sobre os ataques comunitários. Pelo contrário, no caso da menina Marma, acusações forjadas foram feitas contra mais de uma dezena de jovens indígenas, com base em diversas leis, incluindo a Lei de Poderes Especiais, uma lei draconiana frequentemente usada para reprimir os povos indígenas. Pode-se argumentar, com razão, que a mesma estrutura que garante impunidade sistemática aos autores de violência sexual também garante impunidade para a violência subsequente contra comunidades indígenas que buscam justiça.</p>



<p><strong>Este artigo sintetiza depoimentos de defensores dos direitos indígenas que atuam nas Colinas de Chittagong, juntamente com relatos de fontes documentadas.</strong></p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Territórios vivos: a luta das mulheres indígenas contra o extrativismo</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/12/01/territorios-vivos-a-luta-das-mulheres-indigenas-contra-o-extrativismo/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Wara Iris Ruiz Condori]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Dec 2024 06:15:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[América Latina]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=13395</guid>

					<description><![CDATA[<p>Tendo o Lago Titicaca como testemunha, mulheres indígenas de toda a América Latina participaram do Primeiro Encontro sobre Extrativismo, Minerais de Transição e Povos Nativos para compartilhar experiências de resistência contra os interesses que invadem seus territórios como se fossem zonas de sacrifício. Estas mulheres guardiãs da natureza concordaram que a luta é coletiva e continental, sublinharam a urgência de reforçar alianças e realçaram a necessidade de tornar estes conflitos visíveis através de todas as plataformas possíveis.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Lago Titicaca, com sua imensidão azul e suas margens guardadas por montanhas sagradas, é muito mais que um corpo de água. Representa um símbolo de vida, um espaço de memória e um testemunho da profunda ligação entre os Povos Indígenas de Abya Yala e a natureza. As orações são confiadas às suas águas, as histórias são contadas nas suas reflexões e na sua vastidão vive a força ancestral daqueles que a protegem há gerações. No entanto, este espelho sagrado que hoje une a Bolívia e o Peru também reflete as cicatrizes da exploração e a ameaça constante do extrativismo.</p>



<p>Em Puno, nos dias 28 e 29 de novembro, mulheres indígenas de diferentes cantos da América Latina se reuniram para compartilhar suas vozes, suas histórias e sua resistência no Primeiro Encontro sobre Extrativismo, Minerais de Transição e Povos Nativos, organizado pela Cultural Survival. No eco das suas palavras, ressoou um apelo comum: defender os territórios, a água e a vida contra o que muitos identificaram como uma “terceira vaga de invasão” por parte das empresas extrativistas. Este novo ataque, liderado pelos interesses do mercado global em minerais de transição como o lítio, ameaça não só o equilíbrio ecológico dos territórios indígenas, mas também as estruturas sociais, culturais e espirituais que os sustentam.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-13400" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/Lago-Titicaca-Diciembre-2024-3.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Lago Titicaca é símbolo da profunda conexão entre os Povos Indígenas e a natureza <strong>Foto: </strong>Wara Iris Ruiz Condori</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma realidade que se repete</strong></h3>



<p>Chegada de Jujuy (Argentina), <a href="https://www.pressenza.com/es/2023/11/maloneras-ii-erika-canari-para-que-no-se-apague-nuestro-fuego/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Erika Cañari é uma jovem líder da comunidade Pozo Colorado do povo Kolla</a>. A dirigente levantou a voz em defesa das Salinas Grandes e do lago Guayatayoc, territórios hoje ameaçados pela extração de lítio: “Nossas águas estão sendo contaminadas, o solo está secando e com ele nossos modos de vida estão morrendo. Não estamos lutando apenas pelo nosso povo, mas pela água que também é sua, de todos.” Apesar da repressão e do assédio que enfrentam, estas comunidades elaboraram estratégias legais e de visibilidade para travar as empresas. “Decidimos não ficar calados. Apresentamos proteções, denúncias e trabalhamos com a mídia para que o mundo conheça a nossa realidade”, afirma em nome dos Povos Indígenas.</p>



<p>Representando o Peru, a líder das Rodadas Camponesas Antonia Quisocca relembrou a luta de Cajamarca contra o megaprojeto minerador Conga: “Foram 12 anos de resistência. Vivemos em estado de emergência, rodeados de polícias e militares. Houveram assassinatos, centenas de feridos e nossas vozes foram silenciadas e estigmatizadas pela mídia.” No entanto, esta batalha deixou uma lição poderosa sobre histórias de resistência e persistência coletiva. “Nossa força estava na organização. As Rodadas Camponesas se fortaleceram e aprendemos a influenciar politicamente, a litigar e a nos mobilizar em unidade. No final, conseguimos que o projeto fosse declarado contrário aos interesses do nosso povo”, finaliza Antonia.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>“A comunicação tem sido uma ferramenta fundamental para resistir e tornar visível a nossa luta, porque as nossas vozes não desaparecem e a nossa dignidade não desiste”, enfatizou a jornalista Martina Paillacar.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>“A comunicação tem sido uma ferramenta fundamental para resistir e tornar visível a nossa luta, porque as nossas vozes não desaparecem e a nossa dignidade não desiste”, enfatizou Martina Paillacar.</cite></blockquote>



<p>Por sua vez, a voz da jornalista Martina Paillacar, mapuche da região de Futawillimapu, trouxe um eco de luta desde as Grandes Terras do Sul: na Patagônia chilena, as comunidades enfrentam a invasão de hidrelétricas, pisciculturas, eólicas, imóveis e projetos de mineração. “A nossa terra não é um lugar vazio para o desenvolvimento: é a nossa casa e a casa dos nossos antepassados. Sofremos assassinatos, repressão, ataques, militarização e prisão política. Criminalizam-nos e chamam-nos de terroristas, mas somos nós que cuidamos do que resta de vida nestes territórios”, partilha num tom que sintetiza nostalgia, resistência e coragem.</p>



<p>Em resposta a estes ataques, as comunidades Mapuche fortaleceram sua organização e participam ativamente em espaços como o <a href="https://www.instagram.com/mapuexpress/?hl=es" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coletivo Mapuche de Comunicação</a>. Este meio popularmente conhecido como <a href="https://www.instagram.com/mapuexpress/?hl=es">Mapuexpress </a>trabalha para defender os direitos humanos dos povos indígenas do Chile e a recuperação de seus territórios. “A comunicação tem sido uma ferramenta fundamental para resistir e tornar visível a nossa luta, porque a nossa voz não desaparece e a nossa dignidade não desiste”, explica Martina.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-13397" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/12/WhatsApp-Image-2024-11-30-at-21.10.33.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A líder Antonia Quisocca (à esquerda) destaca que a organização coletiva foi fundamental para a luta contra o megaprojeto de mineração Conga. <strong>Foto: </strong>Wara Iris Ruiz Condori</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Tecendo narrativas de resistência</strong></h3>



<p>Ao longo da reunião, as mulheres concordaram que a Consulta Prévia, Livre e Informada, consagrada na Convenção 169 da OIT, continua a ser um direito sistematicamente violado. “Falam-nos de desenvolvimento, de progresso, mas nunca nos consultam. Para eles, nossas terras são áreas de sacrifício. Para nós são vida, memória e futuro”, disse um dos participantes da Bolívia. Neste espaço de diálogo, as lutas locais foram entrelaçadas com a resistência continental, e foi destacada a urgência de fortalecer alianças e tornar estes conflitos visíveis através de todas as plataformas possíveis.</p>



<p>O Lago Titicaca, testemunha deste encontro, tornou-se um símbolo do que está em jogo. Poluído e ameaçado pelas mudanças climáticas, o lago representa o grito dos Povos Indígenas por justiça. As suas águas, que outrora refletiam a paz do céu, carregam agora as feridas de uma crise que ameaça toda a humanidade. No entanto, nas suas margens, as mulheres de Abya Yala reafirmaram o seu compromisso inabalável em protegê-la, não apenas como um recurso, mas como um ser vivo que guarda o espírito do seu povo.</p>



<p>Em Puno, as vozes das mulheres indígenas teciam uma narrativa de resistência que ultrapassa fronteiras. De Jujuy a Cajamarca, de Futawillimapu ao Lago Titicaca, a mensagem era clara: a luta pela vida e pelo território não é individual ou local, é coletiva e continental. Em suas palavras, a força dos Andes e do Lago Titicaca se uniram para nos lembrar que, embora as ondas do extrativismo continuem a atingir, os Povos Indígenas continuarão a resistir com a dignidade e o vigor que só eles conhecem.</p>
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		<title>Uma escola que forma mulheres indígenas para influenciar a luta climática</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2024/11/01/uma-escola-que-forma-mulheres-indigenas-para-influenciar-a-luta-climatica/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Rocío Yon]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 01 Nov 2024 20:39:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Mulheres indígenas]]></category>
		<category><![CDATA[mudanças climáticas]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As respostas institucionais à crise climática, orientadas pelas negociações na Conferência das Partes (COP) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (CQNUAC), perpetuaram as desigualdades de gênero, étnicas e territoriais. Esta situação é claramente observada nas barreiras à participação efetiva das mulheres indígenas na tomada de decisões. Perante esta insuficiência, os movimentos indígenas e especialmente as mulheres estão se organizando para desenvolver as suas próprias estratégias para enfrentar a crise, resistir ao extrativismo e exigir justiça ecológica. Dentre essas iniciativas, destacam-se os espaços de formação para fortalecer suas lutas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>No contexto latinoamericano, a crise climática teve impactos ambientais desiguais para a população. As respostas institucionais <a href="https://forum.lasaweb.org/files/vol47-issue4/debates2.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">tendem a reproduzir desigualdades em aspectos como gênero, etnia e territorialidade</a>. As mulheres indígenas e afrodescendentes fazem parte da população mais afetada. Apesar da sua progressiva consideração em espaços de participação institucional a nível global e nacional, a sua incidência em espaços de poder e de decisão ainda é baixa. As principais lacunas que enfrentam são a falta de informação e a falta de validação dos seus conhecimentos. Tais barreiras coexistem com cenários de violência e desigualdades de diversos tipos.</p>



<p>Contudo, a experiência na nossa região também mostra respostas que surgiram fora da ação do Estado. A trajetória dos povos e comunidades que enfrentam as transformações ambientais é antiga e, desde a década de 1990, a organização política tornou-se especialmente relevante devido à intensificação do extrativismo na região. São várias as organizações translocalizadas que se levantaram pela justiça ecológica, exigindo a autodeterminação, uma luta que hoje também leva o nome de justiça climática.</p>



<p>Neste cenário, as mulheres indígenas de diferentes origens territoriais têm sido as protagonistas da promoção das organizações de base. Graças à sua organização coletiva e ao profundo conhecimento dos seus ambientes, conseguiram preservar modos de vida interdependentes com a natureza e ameaçados pela crise climática. Além disso, suas contribuições e trajetórias transcendem o âmbito territorial: destacam-se como profissionais das ciências ambientais, jurídicas e sociais, e ocupam funções como acadêmicas, agentes públicos e líderes comunitários. Esta pluralidade de experiências permitiu-lhes articular-se politicamente e tecer redes de colaboração com outros atores.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-13161" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As mulheres indígenas são a força motriz nas lutas climáticas nas suas comunidades. IVEscola de Formação e Defesa de Mulheres Indígenas sobre Mudanças Climáticas, Tiltil, 2024. <strong>Foto: </strong>Francisca Carril</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Fortalecimento das capacidades de defesa de direitos</strong></h3>



<p>Uma das principais estratégias das mulheres indígenas para a defesa de direitos tem sido a capacitação. Organizações com uma longa história, como a <a href="https://www.onamiap.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Organização de Mulheres Indígenas e Amazônicas do Peru (ONAMIAP) </a>e a <a href="https://www.facebook.com/coordinadora.nacional.98/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Coordenadoria Nacional de Mulheres dos Povos Indígenas do Chile,</a> geraram iniciativas para fortalecer sua liderança e ações.</p>



<p>Por sua vez, a <a href="https://rmib-lac.org/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Rede de Mulheres Indígenas sobre Biodiversidade na América Latina e no Caribe </a>fortalece capacidades em questões relacionadas à crise climática, à biodiversidade e ao conhecimento tradicional. Seu objetivo é valorizar o conhecimento indígena e apresentá-lo como solução para a crise ambiental. Além disso, almeja que as mulheres indígenas sejam capazes de influenciar a concepção, implementação e revisão das estratégias nacionais a nível nacional, garantindo o respeito pelos direitos dos povos.</p>



<p>Por meio das suas próprias experiências em diferentes espaços de tomada de decisão locais, nacionais e globais, as mulheres indígenas trocam conhecimentos e ferramentas e socializam as lacunas que enfrentam. Assim, a partir da história coletiva de seus povos, fortaleceram sua participação nos níveis territorial, comunitário e de políticas públicas, e conseguiram estabelecer discussões em debates legislativos, consultas indígenas, reuniões internacionais e nas próprias comunidades.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Fortalecer as capacidades a partir da sua própria visão gera o reconhecimento do seu conhecimento como válido, tanto na sua heterogeneidade como no seu dinamismo.</cite></blockquote>



<p>Fortalecer as capacidades a partir da sua própria visão gera o reconhecimento do seu conhecimento como válido, tanto na sua heterogeneidade como no seu dinamismo. Esse processo permite uma construção coletiva e dialógica, baseada no intercâmbio entre diferentes epistemes, com ênfase naquelas que consideram próprias (como os saberes tradicionais e indígenas). Este diálogo é possível dada a colaboração entre os atores e permite a formação de redes entre mulheres e comunidades indígenas, instituições, organismos multilaterais, centros de pesquisa e diversas organizações.</p>



<p>Esta colaboração alimentou as suas estratégias de advocacia e permitiu-lhes posicionar as suas prioridades temáticas e formas de trabalhar para abordar a justiça climática. Ao mesmo tempo, lhes deu ferramentas que permitem reduzir as disparidades de gênero no seu diálogo com as instituições (bem como nos territórios) e que potencializam as ações a nível comunitário.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="820" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-820x1024.jpg" alt="" class="wp-image-13163" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-820x1024.jpg 820w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-240x300.jpg 240w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-768x960.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-1229x1536.jpg 1229w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1-1639x2048.jpg 1639w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Cartografia-crisis-climatica-I-Escuela.-Ilustracion-por-Tomas-Olivos-1.jpg 1772w" sizes="auto, (max-width: 820px) 100vw, 820px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Os espaços de debate coletivo permitem que as mulheres gerem ferramentas para reduzir as disparidades de gênero. Mapeamento da crise climática, I Escola de Formação e Defesa de Mulheres Indígenas sobre Mudanças Climáticas. <strong>Ilustração: </strong>Tomás Olivos</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma escola de formação e defesa sobre mudanças climáticas com mulheres indígenas</strong></h3>



<p>No Chile, as respostas à crise climática seguiram as orientações das negociações internacionais. No entanto, a inclusão dos povos indígenas na governança climática, tal como recomendado pela COP, ainda encontra uma série de resistências: <a href="https://dialnet.unirioja.es/servlet/articulo?codigo=8936893" target="_blank" rel="noreferrer noopener">uma análise detalhada da política nacional de alterações climáticas revela que a participação dos povos indígenas é marginal</a>. Por um lado, apresentam-se como um grupo homogêneo e, por isso, a dimensão de género não é considerada. Por outro lado, os órgãos de participação estatal a eles relacionados foram improvisados, sem dotar os seus membros das capacidades necessárias para uma participação efetiva.</p>



<p>Consequentemente, observamos que o cenário é alarmante dado que as políticas climáticas no Chile reproduzem a situação de exclusão das mulheres indígenas. Como se não bastasse, desconhecem o papel que, graças ao seu conhecimento local, poderiam desempenhar na gestão das alterações climáticas. <a href="https://www.cigiden.cl/wp-content/uploads/2022/10/PP_MujeresCC_v06-ISBN-digital-1.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Se não forem tomadas medidas concretas para a sua inclusão, existe o risco de aumentar a sua vulnerabilidade climática</a>.</p>



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<cite>O objetivo da Escola é promover o diálogo de saberes situados, dando ênfase às experiências das mulheres indígenas, aos efeitos da crise climática em seus territórios e aos aprendizados que dela nasceram.</cite></blockquote>



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<cite>O objetivo da Escola é que as mulheres indígenas influenciem a governança climática, entendendo que esta não é uma tarefa exclusiva das instituições do Estado.</cite></blockquote>



<p>A Escola de Formação e Defesa de Mulheres Indígenas sobre Mudanças Climáticas busca responder a este contexto de participação desigual. É uma iniciativa criada de forma colaborativa entre a Coordenação Nacional de Mulheres dos Povos Indígenas e o <a href="https://ciir.cl/c/cambio-climatico/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Grupo de Trabalho Interline sobre Mudanças Climáticas, Políticas Públicas e Povos Indígenas do Centro de Estudos Interculturais e Indígenas (CIIR)</a>. A sua origem remonta a 2021, no contexto do trabalho de defesa do projeto de Lei-Quadro das Alterações Climáticas no Chile, que encerrou o seu processo legislativo sem consulta indígena ou participação diferenciada dos povos indígenas.</p>



<p>O objetivo da Escola é que as mulheres indígenas influenciem a governança climática, entendendo que esta não é uma tarefa exclusiva das instituições do Estado. Além disso, promover a construção e o diálogo de conhecimentos situados, dando ênfase às experiências das mulheres indígenas, aos efeitos da crise climática em seus territórios e aos aprendizados que daí nasceram. Em última análise, a Escola espera contribuir para a articulação política e a geração de redes entre vários atores comprometidos com o clima e a justiça social.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="556" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1024x556.jpg" alt="" class="wp-image-13154" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1024x556.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-300x163.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-768x417.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-1536x835.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2048x1113.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Nos espaços internacionais, a inclusão dos povos indígenas apresenta dificuldades e a dimensão de gênero não é considerada. II Escola de Formação e Defesa de Mulheres Indígenas sobre Mudanças Climáticas, Santiago, 2023. <strong>Fotos: </strong>Francisca Carril</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Preenchendo as lacunas de suas próprias experiências</strong></h3>



<p>Nas suas quatro versões virtuais e presenciais, <a href="https://ciir.cl/c/2024/07/10/escuela-de-formacion-e-incidencia-con-mujeres-indigenas-sobre-cambio-climatico/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">este espaço de formação já conectou cerca de 100 pessoas, organizações e instituições</a>. Além disso, foi realizado um trabalho intergeracional, graças à participação da organização juvenil indígena <a href="https://www.instagram.com/wechekeche.ka.itrofillmongen/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Wechekeche Ka Itrofilmongen</a>. Entre os temas abordados estão a justiça climática e ecológica, os efeitos dos organismos e territórios, o diálogo intercultural de conhecimentos, a governança climática institucional a nível nacional e global e as ações de liderança territorial como contributos concretos para a adaptação às alterações climáticas.</p>



<p>Os resultados da Escola foram fundamentais para a construção de um conceito mais realista de justiça climática. Através de workshops, metodologias críticas e participativas, as conjunturas históricas da crise climática foram reconstruídas, dando nomes aos sistemas de opressão patriarcais, colonialistas e capitalistas globais que lhe deram origem. Com esta perspectiva situada, foi possível olhar e analisar o presente e levantar noções partilhadas de justiça (de como conviver com o mundo) e de futuro.</p>



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<cite>O conhecimento que é compartilhado e construído na Escola fornece às mulheres ferramentas para participarem de diálogos onde muitas vezes são excluídas.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>O conhecimento compartilhado na Escola fornece às mulheres ferramentas para participarem em diálogos onde muitas vezes são excluídas.</cite></blockquote>



<p>A formação teve um impacto relevante na formação de redes translocalizadas e multidisciplinares. As Escolas têm conectado pessoas de diversas territorialidades e realidades socioculturais. Por meio da escuta e do diálogo, as mulheres indígenas partilham e aprendem com outras experiências. Da mesma forma, tem sido dado espaço a conhecimentos diversos a partir de uma lógica de horizontalidade, que fornece sentido e possibilidade de ação para enfrentar a crise como um problema complexo, questionando o lugar de vulnerabilidade em que a política climática tem classificado as mulheres indígenas.</p>



<p>Além disso, o conhecimento compartilhado e construído na Escola fornece às mulheres ferramentas para participarem de diálogos onde muitas vezes são excluídas. Conhecer a política climática e as instituições ambientais nos seus diferentes níveis tem sido um dos temas de maior interesse e um dos mais desafiantes. As mulheres procuram reduzir a lacuna de informação e superar a elevada complexidade técnica. Além disso, as dirigentes almejam ser capacitadas em todas as áreas necessárias para poder dialogar eficazmente com o Estado e posicionar as suas reivindicações.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="606" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED-1024x606.jpg" alt="" class="wp-image-13153" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED-1024x606.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED-300x178.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED-768x455.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED-1536x909.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2024/11/Escuela-Mujeres-Noviembre-2024-2-ED.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Escola de Formação e Defesa de Mulheres Indígenas sobre Mudanças Climáticas conectou cerca de 100 pessoas, organizações e instituições. Santiago do Chile, segunda edição. <strong>Foto: </strong>Francisca Carril</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A formação como estratégia política</strong></h3>



<p>Os espaços de formação promovidos pelas mulheres indígenas proporcionam possibilidades concretas de construir conhecimento e colocá-lo em prática de forma colaborativa. Da mesma forma, contribuem para posicionar suas formas de trabalho e metodologias, e assumir diferentes papéis na formação. Esse aprendizado também permite que as mulheres indígenas localizem suas próprias fronteiras e tempos, visto que estes nem sempre são coerentes com instituições ou agentes externos.</p>



<p>As contribuições das mulheres nesses espaços são concretas: geraram diagnósticos situados sobre a vulnerabilidade, a partir da análise de suas trajetórias de vida e de suas comunidades. Além disso, identificaram as ações que contribuem para o enfrentamento da crise, bem como o conhecimento necessário para este trabalho. Por outro lado, a partir de uma abordagem estratégica, as mulheres indígenas têm analisado suas possibilidades de impacto a nível institucional e com diversos atores, aumentando as redes de colaboração na matéria.</p>



<p>O fortalecimento de capacidades nestes termos promove experiências pessoais numa perspectiva comunitária, profundamente ligadas aos territórios e expressas coletivamente. Por meio do encontro e da troca dessas experiências são geradas ferramentas e estratégias específicas para influenciar os territórios, valorizando os sentimentos e ações das mulheres indígenas a partir de seus corpos-territórios. Ao mesmo tempo, a capacitação colabora com as relações institucionais e promove impacto nas políticas públicas multiníveis, gerando novas alianças e colaborações com diversos atores associados a questões ambientais e climáticas.</p>
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