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	<title>Bolivia Archives - Debates Indígenas</title>
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	<description>Revista digital que se propone abordar las luchas, conquistas y problemáticas de los pueblos indígenas</description>
	<lastBuildDate>Tue, 08 Sep 2026 14:12:39 +0000</lastBuildDate>
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	<title>Bolivia Archives - Debates Indígenas</title>
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	<item>
		<title>A meta 30&#215;30 e os territórios indígenas: a contradição da Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-meta-30x30-e-os-territorios-indigenas-a-contradicao-da-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Nelfi Fernandez Reyes]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Sep 2026 00:55:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>A Bolívia chega para a COP17 com territórios indígenas como parte de sua estratégia de conservação da biodiversidade. Mas o desmatamento, a grilagem de terras, as disputas fundiárias e a falta de informações sobre a posse da terra evidenciam uma tensão fundamental: não será possível atingir as metas globais de conservação se os direitos dos povos indígenas continuarem a ser garantidos de forma incompleta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em outubro, o mundo se reunirá na Armênia para avaliar uma promessa feita há quatro anos em Montreal, no Canadá: deter e reverter a perda de biodiversidade até 2030. Na metade do caminho para esse prazo, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os governos terão que demonstrar o progresso alcançado no cumprimento das 23 metas do Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal</a>, incluindo o ambicioso desafio de conservar pelo menos 30% das terras e águas do planeta.</p>



<p>Em outras palavras, os governos serão postos à prova para responder a uma pergunta simples, mas crucial para a saúde da Terra: estão realmente cumprindo o que prometeram para deter a destruição da natureza e restaurar a biodiversidade perdida? A Bolívia é um dos países chamados a demonstrar seu progresso. Para se preparar para esse teste, durante a COP17 da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB), em Yerevan, Armênia, de 19 a 30 de outubro de 2026, os países foram obrigados a apresentar um relatório prévio de prestação de contas. <a href="https://www.cbd.int/doc/c/5611/c35f/aa96bdcd816f5952d586a777/sbstta-28-02-add1-rev1-en.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Fizeram isso por meio de seu Sétimo Relatório Nacional (7RN), um documento no qual cada governo detalha as medidas tomadas e os resultados alcançados</a>.</p>



<p>O prazo para envio foi no dia 28 de fevereiro de 2026. Esses relatórios servirão de base para a primeira avaliação global do progresso coletivo. A Bolívia também enviou seu relatório, um documento que nos permite reconstruir (da perspectiva oficial do Estado) o progresso que alega ter alcançado e onde reconhece dificuldades.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-19422" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-1-1.jpg 2000w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Líderes do território indígena Monte Verde, uma das áreas mais afetadas pelo desmatamento e pelos incêndios, se reúnem para organizar a defesa de suas terras ancestrais. <strong>Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O grande desafio</strong></h3>



<p>Em 2022, durante a COP15 da Convenção sobre Diversidade Biológica, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os países adotaram o Marco Global de Biodiversidade de Kunming-Montreal e delinearam um roteiro para alcançar um mundo em harmonia com a natureza até 2050.</a> Para enfrentar esse desafio, estabeleceram 23 metas para 2030 que não apenas comprometem os governos a deter a perda de biodiversidade, mas também colocam os povos indígenas e as comunidades locais no centro, como detentores de direitos e atores-chave na conservação de seus territórios e modos de vida.</p>



<p>Essa relação entre conservação e direitos indígenas é um tema transversal em todo o Marco. Isso fica particularmente evidente nas metas 1 e 3. A meta 1 exige um planejamento territorial que reduza a perda de áreas importantes para a biodiversidade, respeitando os direitos dos povos indígenas e das comunidades locais, enquanto a meta 3, <a href="https://www.cbd.int/gbf/targets/3" target="_blank" rel="noreferrer noopener">conhecida como meta 30&#215;30</a>, estabelece que a conservação de pelo menos 30% das terras e águas do planeta deve respeitar o direito desses povos aos seus territórios tradicionais. A mensagem é clara: a conservação da biodiversidade não pode ser dissociada dos povos indígenas. Diante disso, o que a Bolívia fez nos últimos quatro anos para cumprir seus compromissos?</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia da Bolívia para conservar a biodiversidade, o que realmente está acontecendo com suas florestas?</p>
</blockquote>



<p><a href="https://ort.cbd.int/national-reports/nr7/E2690700-50D7-C02E-AB16-083EC3E80939" target="_blank" rel="noreferrer noopener">No Sétimo Relatório Nacional, elaborado pela Direção-Geral de Biodiversidade e Áreas Protegidas, o Estado boliviano afirma que os territórios indígenas fazem parte de sua estratégia de conservação</a>. O documento, sem especificar números, relata avanços na titulação de novas Terras de Origem Comunitária (TOCs)/Territórios Indígenas Nativos Camponeses (TIOCs), no desenvolvimento de planos de vida e no fortalecimento das estruturas de governança indígena. Destaca também a criação de áreas de conservação sob gestão indígena e experiências em manejo florestal, uso sustentável, restauração e monitoramento territorial.</p>



<p>Mas o mesmo relatório revela um cenário mais complexo. A Bolívia reconhece a existência de grilagem de terras, conflitos pelo uso da terra e sobreposição de direitos, além das pressões decorrentes de atividades extrativistas, expansão agrícola e assentamentos ilegais. Admite também dificuldades na atualização e harmonização dos planos de vida e, sobretudo, a falta de informações para mensurar as mudanças no uso da terra e a posse da terra em territórios ancestrais e comunidades locais. O documento afirma: “Não há dados disponíveis”.</p>



<p>O paradoxo é significativo. A Bolívia apresenta os territórios indígenas como um elemento-chave para a conservação e para a meta internacional de proteger pelo menos 30% das terras e águas do planeta, mas, quando se trata de mostrar o que está acontecendo dentro deles, o próprio Estado reconhece que ainda não possui os dados necessários para relatar um dos indicadores estabelecidos pelo Quadro Global de Biodiversidade. Se os territórios indígenas fazem parte da estratégia de conservação da biodiversidade da Bolívia, o que realmente está acontecendo com suas florestas diante do desmatamento, da grilagem de terras e de outras pressões que o próprio Estado reconhece?</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19423" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-2-1.jpg 2000w" sizes="(max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Monte Verde é um dos 28 territórios na bacia amazônica boliviana que registraram conflitos envolvendo grilagem de terras e tráfico de pessoas<strong>. Foto: </strong>Edy Yobany Velasco/Amazônia Tráficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Florestas sob pressão</strong></h3>



<p><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/">Uma investigação da </a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><em>Amazonía Traficada</em></a><a href="https://amazoniatraficada.com/vista/"> (um projeto jornalístico apoiado pelo Pulitzer Center, Mongabay Latam, RAI Bolívia e Asuntos Centrales) examinou uma região fundamental para a conservação — a Amazônia Indígena Boliviana — utilizando dados de satélite.</a> A pesquisa analisou o desmatamento em 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica boliviana e constatou que, entre 1986 e 2024, essas terras ancestrais sofreram uma perda cumulativa de 257 mil hectares de floresta. Esse número representa 3,4% da área total desmatada na Bolívia durante o mesmo período, que atingiu 7,6 milhões de hectares.</p>



<p>Para determinar em que medida o desmatamento ocorreu dentro da legalidade, as informações foram cruzadas com as licenças de desmatamento emitidas pela Autoridade de Controle e Fiscalização Social de Florestas e Terras (ABT) entre 2003 e 2023. Os registros mostram que, durante essas duas décadas, a instituição aprovou o desmatamento de quase 80.000 hectares de floresta em 41 territórios indígenas. No entanto, apenas 17.900 hectares dessa área autorizada perderam efetivamente sua cobertura florestal. A maior parte da perda ocorreu fora das áreas permitidas.</p>



<p>Em outras palavras, entre 2003 e 2023, o desmatamento em áreas não autorizadas atingiu 168.670 hectares. Essa proporção coloca o problema em perspectiva: para cada hectare desmatado dentro de uma área autorizada, mais de nove foram desmatados fora dela. Isso significa que quase 90% da perda florestal registrada em territórios indígenas da Amazônia durante esse período ocorreu fora dos mecanismos de autorização estatal. A pressão sobre esses territórios faz parte de uma tendência nacional. <a href="https://es.mongabay.com/2026/05/perdida-bosque-tropical-2025-latinoamerica/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O relatório do World Resources Institute (WRI) mostra que, em 2025, a Bolívia voltaria a ocupar o segundo lugar no ranking mundial de perda de florestas primárias, atrás apenas do Brasil</a>.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img decoding="async" width="819" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg" alt="" class="wp-image-19424" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-819x1024.jpg 819w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-240x300.jpg 240w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-768x960.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1229x1536.jpg 1229w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1-1638x2048.jpg 1638w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-3-1.jpg 2000w" sizes="(max-width: 819px) 100vw, 819px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Amazonía Traficada analisou dados de satélite para mostrar as pressões enfrentadas pelos territórios indígenas na Amazônia boliviana. <strong>Infográfico: </strong>José Arias e Lily Soruco</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma reivindicação territorial que nunca termina</strong></h3>



<p>A pressão sobre os territórios indígenas não se limita à floresta; ela se estende também à posse da terra e à segurança jurídica. Em seu Sétimo Relatório Nacional, a Bolívia afirma ter ampliado a área de Terras de Comunidades Indígenas (TCOs/TIOCs) por meio de novos títulos de propriedade, embora não especifique quantos hectares foram incorporados.</p>



<p>No entanto, o cruzamento de dados de pesquisas realizadas pelo Centro de Estudos Jurídicos e Pesquisa Social <a href="http://iwgia.org/images/documentos/Libros/ATLAS%202019.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CEJIS)</a> e pelo Centro de Pesquisa e Promoção do Campesinato <a href="https://cipca.org.bo/publicaciones-e-investigaciones/cuadernos-de-investigacion/saneamiento-de-la-tierra-en-seis-regiones-de-bolivia-1996-2007-cuadernos-de-investigacion-n-69" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(CIPCA)</a> revela que a luta dos povos indígenas das terras baixas pelo reconhecimento, titulação e defesa de seu território ancestral está longe de terminar.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continua a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a conceder terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas.</p>
</blockquote>



<p>Desde a década de 1990 até os dias atuais, os 48 territórios indígenas da bacia amazônica, em conjunto, solicitaram o reconhecimento legal de aproximadamente 22,7 milhões de hectares. No entanto, o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) concedeu títulos de propriedade para apenas 11,7 milhões de hectares, o que corresponde a meros 52% da área solicitada. Ou seja, mais de 11 milhões de hectares permaneceram sem título.</p>



<p>Embora grande parte dessa demanda permaneça sem solução, o Estado continuou a destinar terras a terceiros em áreas adjacentes a territórios indígenas. Entre 2009 e 2019, o INRA repassou aproximadamente 318.500 hectares a grupos interculturais e camponeses (organizações sociais ligadas ao partido político que governou a Bolívia entre 2006 e 2015) para o estabelecimento de 236 comunidades.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1005" height="771" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg" alt="" class="wp-image-19425" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1.jpeg 1005w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-300x230.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-4-1-768x589.jpeg 768w" sizes="auto, (max-width: 1005px) 100vw, 1005px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Desmatamento acumulado até 2024 (marrom) e assentamento de comunidades interculturais e agricultores (vermelho) no Território Indígena de Monte Verde. <strong>Foto: </strong>Captura de tela do VISTA/Amazonía Traficada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Quando a proteção é insuficiente</strong></h3>



<p>A discrepância entre a proteção declarada pelo Estado e o que de fato ocorre nos territórios indígenas também se reflete no próprio Sétimo Relatório Nacional. A Bolívia reconhece a falta de informações para mensurar, entre outros aspectos, a posse da terra nos territórios ancestrais dos povos indígenas e comunidades locais. Admite ainda a existência de problemas de grilagem de terras e ocupação ilegal.</p>



<p>Além da pressão exercida por comunidades terceirizadas instaladas com autorização do Instituto Nacional de Reforma Agrária em torno dos territórios indígenas titulados, esses povos ancestrais enfrentam a invasão de seus espaços legalmente reconhecidos pelo Estado, ou seja, nos territórios que possuem título de propriedade coletiva.</p>



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<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam caindo e os territórios indígenas continuam sendo alvo de tráfico.</p>
</blockquote>



<p>Uma análise de entrevistas com líderes de 30 dos 48 territórios indígenas titulados na bacia amazônica conclui que 28 dessas terras ancestrais sofreram grilagem nas últimas duas décadas e, em 22 casos, os conflitos permanecem sem solução. Segundo os líderes entrevistados, essas ocupações são impulsionadas por redes que buscam ativar um mercado ilegal de terras na Amazônia boliviana, principalmente para desmatar e viabilizar atividades agrícolas em larga escala.</p>



<p>Enquanto as comunidades indígenas denunciam a invasão e as instituições estatais levam meses (e até anos) para agir, as árvores continuam a cair e os territórios indígenas continuam a ser alvo de tráfico. Mas essa não é a única pressão. Os 30 líderes indígenas também apontaram conflitos e ameaças ligados aos mercados de carbono, à mineração ilegal, ao tráfico de madeira e ao tráfico de drogas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-19426" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/09/Bolivia-Sept-2026-5-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Foto de julho de 2025 documentando o desmatamento ilegal realizado pelas colônias menonitas em Monte Verde. <strong>Foto: </strong>CEJIS</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Preservando além do mapa</strong></h3>



<p>Em Yerevan, a Bolívia terá que demonstrar seu progresso rumo à meta 30&#215;30. Poderá falar em territórios titulados, governança indígena e conservação sob a gestão de povos indígenas. No entanto, por trás desses números, existem territórios onde árvores continuam a cair, onde persistem disputas de terras e onde comunidades indígenas aguardam há anos uma resposta do Estado em relação à invasão e ao tráfico de suas terras.</p>



<p>A meta de 30&#215;30 pode parecer alcançável quando vista em um mapa, mas a conservação não acontece em um mapa; ela acontece em territórios concretos onde os povos indígenas defendem suas florestas, seus direitos e seus modos de vida. A questão que a Bolívia levará à COP17 não é apenas quantos hectares pode declarar como conservados, mas quanto daquilo que alega proteger está de fato seguro e quanto pode conter ou controlar o que ela mesma reconhece em seu Sétimo Relatório Nacional: a expansão da fronteira agrícola, as atividades extrativistas e os assentamentos humanos como as principais causas da perda de biodiversidade e do desmatamento.</p>



<p>Em outras palavras, além do teste que deve passar em outubro, o Estado boliviano (independentemente de quem estiver no poder em La Paz) deve ser capaz de fazer cumprir as regras que criou e garantir a proteção das florestas e daqueles que habitam essas terras ancestrais. Isso não é apenas uma obrigação para com os bolivianos, mas também uma responsabilidade para com um planeta que não tem mais tempo para esperar que promessas se transformem em ações.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2026/09/01/a-meta-30x30-e-os-territorios-indigenas-a-contradicao-da-bolivia/">A meta 30&#215;30 e os territórios indígenas: a contradição da Bolívia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Fim do grande bloqueio nacional na Bolívia: sem vencedores nem vencidos?</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/08/01/fim-do-grande-bloqueio-nacional-na-bolivia-sem-vencedores-nem-vencidos/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Leonardo Tamburini]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Aug 2026 00:45:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=19053</guid>

					<description><![CDATA[<p>Partindo de uma exigência do agronegócio para converter pequenas propriedades rurais em médias, movimentos sociais lançaram uma mobilização contra o governo de Rodrigo Paz que durou várias semanas. Camponeses da Amazônia e organizações indígenas da Amazônia/Chaco foram acompanhados por cooperativas de mineração, professores, a Central Operária Boliviana (COB), os Ponchos Rojos del Altiplano e produtores de coca leais a Evo Morales. Após um mês de má gestão do conflito, o descontentamento dos setores mobilizados levou a um acordo com o governo. Um mês após o acordo, a perspectiva para a Bolívia permanece incerta.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Em 25 de junho, a Central Operária Boliviana (COB) assinou um acordo com o presidente Rodrigo Paz, pondo fim a 53 dias de bloqueios de estradas em todo o país. Esse conflito custou a vida de 22 pessoas e aproximadamente 3 bilhões de bolivianos (US$300 milhões). Uma das primeiras questões que surge é o que motivou a mobilização, a fim de compreender a natureza radical das medidas e a duração prolongada do conflito. Nesse sentido, é necessário questionar por que o presidente declarou estado de emergência após a assinatura do acordo, em vez de adotar uma medida para conter os protestos, permitindo que crescessem e persistissem por tanto tempo.</p>



<p>Por fim, permanece a questão de saber se o conflito serviu para interromper as medidas estruturais destinadas a modificar o modelo econômico (que inicialmente implicavam em um retrocesso nas conquistas sociais) ou se, ao contrário, serviu para fortalecer a demanda pela renúncia do presidente por parte das organizações mobilizadas (uma reivindicação central na última fase do conflito). Quanto a esta última hipótese, diversos líderes de organizações e comunidades camponesas explicaram que a demanda seria canalizada para a renúncia do presidente, seguida da sucessão constitucional do vice-presidente, Edman Lara, e a convocação de novas eleições em até três meses. Alguns chegaram a propor a reeleição do ex-presidente Evo Morales, uma medida atualmente rejeitada pelos tribunais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="716" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-1024x716.jpg" alt="" class="wp-image-19054" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-1024x716.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-300x210.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1-768x537.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-1.jpg 1406w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Rodrigo Paz, ainda criança, participando de uma marcha do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), fundado por seu pai e ex-presidente, Jaime Paz Zamora. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2068812838311956769/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Conta do Twitter de Rodrigo Paz</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um presidente que ninguém previu</strong></h3>



<p>Rodrigo Paz Pereira, filho do ex-presidente Jaime Paz Zamora, chegou à presidência de forma totalmente inesperada. Vindo de uma família de esquerda e guerrilheira, seu pai foi presidente e líder do antigo Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), graças a um acordo político incomum com o ex-ditador de direita Hugo Banzer após as eleições de 1989. Em 2025, Paz Pereira venceu o segundo turno das eleições contra o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga com votos dispersos após o fim do Movimento para o Socialismo (MAS): esses eleitores, de origem operária, jamais teriam optado por um candidato de extrema-direita como “Tuto”.</p>



<p>Ao assumir o cargo, Paz amenizou temporariamente a crise de escassez de combustível por meio de acordos com os Estados Unidos e países aliados da região. No entanto, logo começou a assinar decretos e resoluções com o objetivo de desmantelar o que ele próprio chamava de &#8220;Estado bloqueador&#8221;. Na realidade, tratavam-se de medidas que favoreciam os poderosos setores econômicos da região leste, ignorando seu eleitorado nos Andes. Assim, aprovou a eliminação do imposto sobre grandes fortunas e promulgou o Decreto Supremo 5503, que, em seus 121 artigos, estabeleceu um procedimento acelerado (<em>fast-track</em>) para a aprovação de contratos de investimento estrangeiro em infraestrutura e desenvolvimento de recursos naturais, sem aprovação parlamentar ou o consentimento prévio dos povos indígenas afetados. Além disso, eliminou quase completamente o subsídio aos hidrocarbonetos líquidos, o que dobrou o preço da gasolina e triplicou o do diesel.</p>



<p>Foi precisamente nesses primeiros dias que se pode traçar um dos antecedentes do conflito subsequente. O presidente e seu governo distanciaram-se do vice-presidente, Edman Lara, um ex-policial com amplo apoio popular. Mesmo antes da posse, Lara acusou o presidente, pelas redes sociais, de quebrar promessas acordadas e de formar um governo sem a sua participação. Quando a disputa se intensificou, o governo aprovou um decreto que eliminou os poderes constitucionais do vice-presidente e cortou quase todo o seu financiamento. Enquanto Paz acusava Lara de ser inapto para o cargo, uma parcela significativa de seu eleitorado interpretou isso como uma traição de classe: especialmente a classe trabalhadora andina, representada por agricultores, comerciantes, autônomos, transportadores e operários, que se mostram mais resistentes às classes média e alta das cidades de La Paz, Cochabamba e Santa Cruz, que consideram de &#8220;direita&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="552" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1024x552.jpg" alt="" class="wp-image-19055" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1024x552.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-300x162.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-768x414.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2-1536x828.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-2.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O conflito encontrou o presidente e seu vice-presidente já em desacordo. Nesse contexto, ganharam força rumores de que, com a renúncia de Paz, Lara abriria caminho para uma futura candidatura de Evo Morales. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/VPEP_Bol/status/2062303255544152264/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vice-Presidência da Bolívia</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma soma de demandas</strong></h3>



<p>A composição da mobilização mudou ao longo do tempo. Em abril, o presidente aprovou unilateralmente a Lei 1720, que visava converter pequenas propriedades agrícolas em médias por meio de um processo administrativo e conceder uma moratória na verificação da função econômica e social dessas propriedades. O governo e o setor agroindustrial tentaram posicioná-la como uma lei benéfica para os pequenos agricultores, embora fosse evidente que ela se dirigia diretamente aos proprietários de terras da região leste. De fato, o principal empresário e senador dessa região assumiu a responsabilidade de promover e defender sua aprovação.</p>



<p>Nesse contexto, o primeiro protesto foi liderado por organizações camponesas do norte da Amazônia, que iniciaram uma marcha exigindo a revogação da Lei 1720. Ao longo do caminho, organizações indígenas da região de Beni se uniram a elas, distanciando-se dos acordos firmados pela Confederação de Nações e Povos Indígenas do Leste da Bolívia, do Chaco e da Amazônia (CIDOB) com o governo, que tentava minimizar a marcha camponesa. Essa mobilização, por sua vez, incentivou mineradores cooperativistas e professores a se mobilizarem com suas próprias reivindicações. Até então, o governo havia caracterizado os protestos como uma série de conflitos setoriais atribuídos ao legado dos &#8220;20 anos de MAS&#8221; (Movimento pelo Socialismo) e às tentativas de líderes políticos, depostos do poder e ligados ao ex-presidente Evo Morales, de desestabilizar o governo.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">No dia 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) apresentou sua lista de reivindicações em El Alto, e o conflito entrou em outra fase: assumiu um caráter estrutural e intensificou a polarização social, que se manifestou nas ruas, na mídia e nas redes sociais.</p>
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<p class="destacadp cel-only">1º de maio.A Central Operária Boliviana apresentou sua lista de reivindicações e o conflito entrou em outra fase: assumiu um caráter estrutural e intensificou a polarização social.</p>
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<p>Com a revogação parcial da Lei 1720 e a assinatura do Decreto 5613, que permite a destinação de áreas fiscais com potencial florestal para comunidades camponesas e indígenas da Amazônia, o governo declarou que as mobilizações não tinham mais um caráter reivindicatório, mas sim político. Principalmente porque a exigência da renúncia do presidente começou a ganhar força: uma exigência da qual as organizações indígenas se distanciaram após a revogação parcial da Lei 1720. Além disso, o governo aprovou uma resolução ministerial que concede aos mineradores a regularização de contratos em áreas protegidas e territórios indígenas sem consulta prévia. Dessa forma, consolidou-se a violação dos direitos indígenas estabelecidos na Constituição, com a única intenção de neutralizar um dos setores mais fortes do movimento de protesto.</p>



<p>Em 1º de maio, a Central Operária Boliviana (COB) apresentou sua lista de reivindicações em El Alto, e o conflito entrou em uma nova fase: adquiriu um caráter estrutural e intensificou a polarização social, que se manifestou nas ruas, na mídia e nas redes sociais. Nessa nova etapa, diferentes organizações se mobilizaram: os cultivadores de coca de Chapare, que iniciaram uma marcha em direção a La Paz, e os camponeses do histórico movimento &#8220;Túpac Katari&#8221;, que reúne os chamados &#8220;Ponchos Vermelhos&#8221;, um dos setores mais combativos do país. Bloqueios se espalharam por quase toda a região andina, e camponeses de base comunitária aderiram em massa às mobilizações em seus territórios. Agora, a única reivindicação era a renúncia de Rodrigo Paz devido à venda de combustíveis líquidos de baixa qualidade, à falta de dólares e à inflação crescente.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="692" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-1024x692.jpg" alt="" class="wp-image-19056" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-1024x692.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-300x203.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3-768x519.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-3.jpg 1442w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A entrada da Central Operária Boliviana (COB) no conflito deu estrutura e organização às mobilizações, permitindo que elas se prolongassem por mais tempo. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/photo?fbid=1627668799365370&amp;set=a.496939219105006" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Central Operária Boliviana</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um conflito que parecia não ter fim</strong></h3>



<p>Outro aspecto do conflito é o impacto sobre a classe trabalhadora andina da aliança de Rodrigo Paz com setores poderosos das terras baixas do leste (após sua vitória eleitoral). Além das políticas neoliberais que corroeram as conquistas sociais consagradas na Constituição, a classe trabalhadora percebeu esse acordo como uma traição ao voto que levou Paz ao poder. Isso foi agravado pela ausência de elementos simbólicos indígenas nos símbolos do Estado e por uma mudança na linguagem e nas práticas utilizadas pelo governo para dialogar com os setores mobilizados: sem interlocutores que compreendessem as questões sociais, o conflito permaneceu sem solução e se arrastou.</p>



<p>O governo priorizou consistentemente o diálogo, recusando-se a ceder às exigências de renúncia do presidente, e tratou o conflito como uma questão setorial. Durante várias semanas, a renúncia do presidente foi a única maneira de pôr fim aos quase 100 bloqueios de estradas que começavam a paralisar La Paz, a capital do governo. Discursos xenófobos e discriminatórios dirigidos aos manifestantes tornaram-se comuns nas redes sociais e na mídia tradicional, que se mostrou totalmente tendenciosa a favor do governo. Por sua vez, os manifestantes responderam com uma agressividade justificada apenas por sua frustração.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">Tal como noutros conflitos liderados por organizações populares na região andina, a polarização manifestou-se na exacerbação das divisões históricas da Bolívia, principalmente as de natureza étnica e regional.</p>
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<p class="destacado cel-only">Assim como em outros conflitos liderados pela região andina, a polarização se expressou nas divisões históricas da Bolívia, principalmente de natureza étnica e regional.</p>
</blockquote>



<p>Assim, o governo recorreu a uma estratégia de desgaste e evitou declarar estado de emergência, para não inflamar outros setores e gerar maior caos. Embora a ausência de repressão armada (como a vivenciada durante as presidências de Jeanine Añez ou Gonzalo Sánchez de Lozada, com seu rastro de mortes, feridos e prisões) tenha mantido os protestos dentro de canais institucionais controláveis, a propagação do conflito causou ao presidente danos políticos significativos perante a sociedade como um todo, o que exigiu que ele mobilizasse o exército para as ruas.</p>



<p>Assim como em outros conflitos liderados por organizações populares na região andina, a polarização manifestou-se na exacerbação das divisões históricas da Bolívia, principalmente as de natureza étnica e regional. Em Santa Cruz, o bloqueio foi interpretado como uma medida dirigida contra aquela região, dada a sua importância como fornecedor de muitos produtos consumidos no Oeste. Enquanto isso, da perspectiva da intelectualidade indígena urbana, particularmente aimará e quéchua, o conflito trouxe à tona o racismo e a discriminação contra a população indígena dos Andes, que mais uma vez se via marginalizada na administração pública. Além disso, argumentava-se amplamente que as conquistas consagradas na Constituição estavam em risco.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-19057" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-4.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption">As assembleias populares realizadas na cidade de El Alto exigiram repetidamente a renúncia de Rodrigo Paz. <strong>Foto: </strong><a href="https://www.facebook.com/CentralObreraBolivianaOficial/posts/pfbid03R41bk7curyLqirG9JzS8XfTGf1R2PvxLxQKdHJ8rV8grp7ksEsDFiMP5uLZW2FSl" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Central Operária Boliviana</a></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O papel de Evo Morales</strong></h3>



<p>No âmbito da campanha de descredibilização midiática, o governo acusou Evo Morales de orquestrar uma tentativa de sedição e de financiar os bloqueios por meio do narcotráfico, com o único objetivo de permitir sua participação em supostas eleições após sua renúncia. Na realidade, além da mobilização dos produtores de coca de Chapare, o ex-presidente teve mais presença na mídia do que participação efetiva nos protestos, dado o seu conflito com diversos setores que participaram das manifestações. Embora convergissem para a principal reivindicação do conflito, a multiplicidade de atores reunidos pela Central Operária Boliviana (COB) e pelos camponeses foi maior do que a mobilização dos próprios produtores de coca, que marcharam de seu histórico reduto em Chapare em direção à sede do governo.</p>



<p>Os momentos mais tensos ocorreram em maio, com a chegada de diversas marchas a La Paz e o bloqueio total da cidade. Os grupos de protesto intensificaram seus ataques contra estabelecimentos comerciais que se recusavam a fechar e até mesmo contra cidadãos comuns que rejeitavam o caráter radical das medidas e os pedidos de renúncia de Rodrigo Paz, apenas seis meses após sua posse. Em todo o país, <a href="https://eldia.com.bo/2026-06-15/pais/sube-a-22-la-cifra-de-fallecidos-a-causa-de-los-bloqueos.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">os bloqueios paralisaram a economia e causaram, direta e indiretamente, a morte de 22 pessoas</a>: tanto por impedir a chegada de ambulâncias aos bloqueios (dificultando, assim, o atendimento médico) quanto pela escassez de suprimentos que não chegaram aos hospitais para pacientes em estado grave.</p>



<p>A sociedade urbana também criticou o presidente pela sua gestão ineficiente da crise, que revelou uma falta de compreensão dos setores que reivindicavam direitos, especialmente em relação à terra e ao território. Nesse caso, o porta-voz foi o senador e empresário latifundiário Branko Marincovic, do partido <em>Alianza Libre</em>, do ex-candidato presidencial de extrema-direita Jorge “Tuto” Quiroga. Esse foi outro fator que alimentou os protestos, já que Marincovic era visto como descendente de imigrantes, proprietário de terras, branco e da região leste, promovendo uma reforma que claramente prejudicava os pequenos agricultores, com argumentos que careciam de credibilidade perante a população.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1024x682.jpg" alt="" class="wp-image-19058" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1024x682.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5-1536x1023.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/08/Bolivia-Agosto-2026-5.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Entrega de paralelepípedos nas avenidas de El Alto. Após o conflito, Rodrigo Paz tenta reconstruir seu relacionamento com os eleitores da cidade aimará que o elegeram presidente. <strong>Foto: </strong><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2081109470902382802/photo/1">C</a><a href="https://x.com/Rodrigo_PazP/status/2081109470902382802/photo/1" target="_blank" rel="noreferrer noopener">onta do Twitter de Rodrigo Paz</a></em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A trégua e a incerteza</strong></h3>



<p>O conflito terminou com a assinatura do acordo em 26 de junho. Embora não represente uma agenda política para o movimento popular, pode ser um ponto de virada na relação entre o Estado e um amplo espectro social no que diz respeito às suas conquistas históricas: soberania nacional; respeito aos povos indígenas; consulta e participação em decisões que possam afetá-los; e a proibição de atividades de mineração em áreas protegidas e territórios indígenas. Um ponto fundamental foi o compromisso de Rodrigo Paz de não abrir mão dos recursos naturais (gás e lítio) nem privatizar empresas nacionais estratégicas. Por fim, o acordo incluiu indenização por danos a veículos causados por combustível contaminado, medidas para proteger a cesta básica e reajustes salariais e previdenciários .</p>



<p>Quase um mês após a assinatura do acordo, fica claro que diversas demandas permanecem sem solução. Politicamente, o presidente Rodrigo Paz não renunciou e declarou estado de emergência, o que, em todo caso, não foi o mecanismo utilizado para desmantelar os bloqueios. Além disso, a fragmentação no Congresso persiste, e as organizações populares não se recuperaram nem se fortaleceram: negociaram demandas específicas e retornaram às suas regiões. Economicamente, não há clareza na política de desenvolvimento, que combina retórica bombástica com uma dependência indispensável de empréstimos internacionais para cobrir os déficits orçamentários decorrentes da queda na receita do gás.</p>



<p>Com o passar dos dias e meses, ficará claro quem venceu este conflito. O governo está gradualmente reintegrando vários pontos de sua agenda econômica: permitindo a flutuação da taxa de câmbio para &#8220;ajustar&#8221; seu valor; propondo regulamentações para atrair investimento estrangeiro direto; e flexibilizando impostos e barreiras estatais. A conversão de pequenas propriedades rurais em médias, que desencadeou o conflito, foi recentemente restabelecida por meio de dois projetos de lei, com diversas revisões e uma salvaguarda explícita para a propriedade coletiva de territórios indígenas. Não está claro se essa iniciativa partiu do agronegócio ou do próprio governo. Neste último caso, seria realmente brincar com fogo, visto que ainda não se recuperou da crise gerada pelos bloqueios.</p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>Regressão dos direitos na Bolívia: uma ofensiva contra a terra camponesa</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2026/04/01/regressao-dos-direitos-na-bolivia-uma-ofensiva-contra-a-terra-camponesa/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Fátima Monasterio Mercado]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 01 Apr 2026 00:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[territorio]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em 26 de março, a Assembleia Plurinacional aprovou o Projeto de Lei nº 157, que autoriza a conversão de pequenas propriedades agrícolas em propriedades de médio porte, e o encaminhou ao Poder Executivo para promulgação. Essa lei é flagrantemente inconstitucional, pois viola e distorce uma das categorias agrárias expressamente protegidas pela Constituição. Assim, a lei aprovada constitui uma modificação que põe em xeque as garantias estruturais do sistema agrário boliviano e afeta diretamente a base material que sustenta a vida rural.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O projeto, ainda em fase de aprovação, permite que propriedades classificadas como pequenas propriedades rurais sejam reclassificadas como médias por meio de um simples requerimento do proprietário, em prazos curtos e sem a supervisão da Função Socioeconômica (FES). No debate público, essa iniciativa tem sido apresentada como uma forma de facilitar o acesso ao crédito rural e revitalizar a economia agrícola. No entanto, essa explicação se mostra insuficiente se não se compreender que as pequenas propriedades rurais na Bolívia não são apenas qualquer forma de propriedade privada; elas constituem uma categoria constitucionalmente protegida, cujo propósito não é a acumulação de capital, mas sim a subsistência e a reprodução da unidade familiar camponesa.</p>



<p>A aprovação desta lei ocorre num contexto político marcado pela ascensão de forças conservadoras que, a partir de posições de poder estatal, buscam reorientar o modelo agrário em favor do agronegócio e dos interesses corporativos. É significativo que o projeto tenha sido promovido por figuras como Branko Marinkovic, um importante empresário de Santa Cruz e defensor de longa data da desregulamentação da propriedade da terra. Nesse contexto, a lei faz parte de uma ofensiva mais ampla destinada a remover os limites que a legislação agrária boliviana impôs à mercantilização da terra.</p>



<p>As reações foram imediatas. Diversas organizações camponesas e indígenas declararam estado de emergência e anunciaram mobilizações em defesa da terra, reativando uma história de lutas que reconhece essa medida como uma ameaça direta às conquistas históricas. As pequenas propriedades rurais não são meramente uma construção legal: são uma garantia criada para sustentar a vida e evitar o desapossamento. Enfraquecê-las significa desmantelar o caráter protetor do atual sistema agrário. Portanto, este não é um evento isolado: é o primeiro passo de uma estratégia mais ampla que, originária dos mesmos setores poderosos, também visa a propriedade comunal da terra e os territórios camponeses indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1-1024x768.jpeg" alt="" class="wp-image-17930" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1-1024x768.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1-300x225.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1-768x576.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1-1536x1152.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-1-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>As pequenas propriedades rurais são uma garantia constitucional criada para sustentar a vida e evitar o desapossamento. <strong>Foto: </strong>Fundação Solón</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pequenas propriedades rurais no sistema agrário boliviano</strong></h3>



<p>No sistema agrário boliviano, as pequenas propriedades rurais são uma forma de propriedade individual da terra cujo propósito é a subsistência e a reprodução da unidade familiar camponesa. A Lei do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) as define como fonte de recursos de subsistência para o proprietário e sua família, e o Artigo 394 da Constituição Política do Estado as protege como patrimônio familiar indivisível e inapropriado, isento de impostos. Essa configuração expressa uma clara decisão política: excluir as pequenas propriedades rurais das forças de mercado. Elas não são ativos destinados à circulação, hipotecas ou acumulação, mas sim uma base material destinada a sustentar a vida camponesa e protegê-la de dívidas, perdas e reconcentração de terras.</p>



<p>Na Bolívia, as pequenas propriedades rurais não são uma concessão a pequenos proprietários individuais, mas sim uma instituição agrária de proteção social, nascida das lutas pela Reforma Agrária de 1953, que visava desmantelar as grandes propriedades e garantir o sustento de homens e mulheres rurais. Sua constitucionalização em 1967 reafirmou esse princípio, estabelecendo um sistema concebido para impedir que as parcelas camponesas recaíssem facilmente em ciclos de apropriação, perda e reconcentração. A Constituição de 2009 reafirma essa proteção dentro de uma nova ordem plurinacional e a reposiciona em um sistema agrário que coexiste com outras formas coletivas de propriedade.</p>



<p>O sujeito dessa forma de propriedade é o camponês, que não é concebido como um proprietário isolado, mas como parte de uma organização política coletiva. As pequenas propriedades são a base material sobre a qual se estrutura o campesinato organizado, expresso em entidades como a Confederação Unificada de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB) e a Confederação de Comunidades Indígenas Interculturais da Bolívia (CSCIOB). Nesse contexto, a terra não é meramente um meio de produção, mas um elemento que articula organização, representação política, controle territorial e defesa de direitos. Portanto, sua proteção salvaguarda não apenas um bem individual, mas um tecido social historicamente construído pelo movimento camponês.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-17931" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-1536x863.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-2-1-2048x1151.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Lentamente, uma unidade está sendo construída entre organizações camponesas e indígenas para rejeitar a lei. <strong>Foto: </strong>Fundação Solón</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma conversão que elimina a proteção constitucional</strong></h3>



<p>O artigo 394 da Constituição Política afirma expressamente: “As pequenas propriedades rurais são isentas de penhora, constituem patrimônio familiar e não estão sujeitas à tributação”. Isso significa que as pequenas propriedades rurais são protegidas para evitar que os agricultores percam seus meios de subsistência devido a dívidas ou pressões de mercado. Além disso, é importante lembrar que sua origem está nas concessões de terras, ou seja, na distribuição gratuita de terras pelo Estado para garantir condições de vida dignas. Não se trata de um bem adquirido no mercado para fins especulativos, mas sim de um espaço destinado a sustentar a vida rural.</p>



<p>A proposta de Lei 157, ao permitir a conversão de pequenas propriedades rurais em médias, é flagrantemente inconstitucional, pois elimina efetivamente essa proteção. A terra deixa de estar isenta de penhora e passa a ser suscetível de ser usada como garantia financeira. Nesse cenário, se o agricultor não puder cumprir suas obrigações, poderá perder sua propriedade. Isso não é um efeito colateral; é o resultado direto do modelo que está sendo imposto: abrir as portas para que as terras camponesas entrem no circuito financeiro e se tornem vulneráveis à apropriação por agentes com maior poder econômico. Assim, a lei restabelece as condições para a concentração e reconfiguração de grandes propriedades rurais, em flagrante contradição com o Artigo 398 da Constituição.</p>



<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<blockquote class="wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p class="destacado pc-only">A lei abre caminho para um modelo de desenvolvimento que exige a propriedade como garantia e, em caso de incumprimento, permite a sua perda. Longe de promover o desenvolvimento rural, está a forçar a mercantilização dos espaços habitacionais dos camponeses.</p>
</blockquote>



<p class="destacado cel-only">A lei abre caminho para um modelo de desenvolvimento que exige propriedade como garantia e, em caso de inadimplência, permite sua perda.</p>
</blockquote>



<p>Mais grave ainda, o texto aprovado estabelece um período de carência de dez anos sem verificação do cumprimento da função social e econômica. Esse elemento é central para o sistema agrário boliviano, pois a função social e econômica legitima a propriedade com base em seu uso e exploração. Ao suspender sua verificação por uma década, a lei desativa um dos principais mecanismos de controle e permite que propriedades convertidas permaneçam improdutivas ou sejam utilizadas para fins alheios à sua função social, consolidando uma lógica de acumulação que a Constituição buscava limitar.</p>



<p>A principal justificativa para a medida é que a conversão permitirá aos agricultores o acesso ao crédito e, consequentemente, melhorar a produção. No entanto, na realidade, abre-se a porta para um modelo financeiro que exige a propriedade como garantia e, em caso de incumprimento, permite a sua perda. Como se pode ver, longe de promover o desenvolvimento rural, forçará a mercantilização dos espaços de vida dos camponeses e a enfraquecer deliberadamente um sistema agrário especificamente concebido para os proteger.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-3-1-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-17932" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-3-1-1024x682.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-3-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-3-1-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-3-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A lei é um primeiro passo dentro de uma estratégia mais ampla: avançar em relação à propriedade comunitária e aos territórios indígenas. <strong>Foto: </strong>Betzabé Saca/CENDA Bolívia</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um processo legislativo irregular sem participação social</strong></h3>



<p>O processo legislativo do Projeto de Lei 157 apresentou irregularidades substanciais que comprometem sua validade. O projeto foi inicialmente aprovado na Câmara dos Deputados durante o governo anterior, mas, ao chegar ao Senado, foi modificado pela comissão presidida por Branko Marinkovic, introduzindo mudanças significativas em seu conteúdo. Apesar disso, a versão modificada não foi submetida a um debate detalhado, sendo aprovada diretamente pelo plenário do Senado, entrando em vigor. Isso significa que o texto atualmente aprovado não foi submetido a uma deliberação suficiente e adequada, embora altere elementos centrais do sistema agrário.</p>



<p>O problema não reside apenas na forma como foi aprovado, mas sim no que foi aprovado. O texto original já propunha a conversão de pequenas propriedades rurais em categorias baseadas no mercado. O Senado removeu a referência à propriedade comercial, mas não abordou o problema subjacente. Pelo contrário, simplificou o processo de conversão, reduziu os controles e estabeleceu um prazo acelerado de dez dias para o processamento. Na prática, o mecanismo que permite que propriedades constitucionalmente protegidas percam essa proteção tornou-se mais fácil e rápido. Isso não é uma correção, mas uma reformulação com o objetivo de tornar a transformação do regime de pequenas propriedades rurais mais rápida e eficaz.</p>



<p>A isso se soma uma omissão ainda mais grave: a falta de consulta e participação de organizações camponesas e indígenas em uma questão que afeta diretamente suas terras. Não se trata de uma questão técnica: está sendo aprovada uma legislação que atinge o próprio fundamento da vida camponesa sem que se ouça aqueles que dependem dela para o seu sustento. O pedido de reconsideração legislativa apresentado em 31 de março pela Deputada Patricia Helen Patiño destacou essas irregularidades, mas não obteve a maioria de dois terços necessária. Assim, a aprovação de uma lei foi consolidada sem o devido debate e sem a participação daqueles que serão diretamente afetados.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="682" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1-1024x682.jpeg" alt="" class="wp-image-17933" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1-1024x682.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1-300x200.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1-768x512.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1-1536x1023.jpeg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2026/04/Bolivia-Abril-2026-4-1.jpeg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A modificação das pequenas propriedades rurais abre a possibilidade de que a terra volte a se concentrar nas mãos de poucos. <strong>Foto: </strong>Betzabé Saca/CENDA Bolívia</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Terras e territórios não são negociáveis</strong></h3>



<p>A aprovação da Lei 157 provocou uma resposta imediata do movimento camponês e indígena em todo o país. Diversas organizações declararam estado de emergência e emitiram comunicados rejeitando uma lei que consideram inconstitucional e benéfica aos interesses do agronegócio, dos grandes proprietários de terras e dos bancos privados. Consequentemente, anunciaram mobilizações e a apresentação de contestações constitucionais caso a lei seja promulgada, marcando o início de um confronto aberto com uma lei que impacta diretamente o próprio fundamento de sua existência.</p>



<p>Essa rejeição se baseia em uma compreensão clara do que está em jogo. As pequenas propriedades rurais não são meramente uma categoria jurídica: são uma conquista histórica. Sua proteção constitucional não foi uma concessão, mas o resultado de lutas para garantir uma base material própria para as famílias camponesas. Portanto, modificar seu marco legal implica alterar as condições fundamentais de acesso e controle da terra, e abre a possibilidade de sua renovada concentração nas mãos de grupos poderosos.</p>



<p>Nesse contexto, a Lei 157 não surge como um evento isolado, mas sim como o início de uma ofensiva mais ampla. O enfraquecimento das pequenas propriedades rurais abre caminho para que, posteriormente, outras formas de posse da terra sejam afetadas, em particular a propriedade comunal e os territórios camponeses indígenas. O que está em jogo não é apenas uma categoria de propriedade, mas as próprias garantias oferecidas pelo sistema agrário boliviano. A mobilização anunciada hoje é, nesse sentido, uma defesa preventiva contra um processo que busca reconfigurar a terra como mercadoria, em vez de fundamento da vida.</p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
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		<title>Vitória política para os Challa: a nova entidade territorial autônoma da Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/12/01/vitoria-politica-para-os-challa-a-nova-entidade-territorial-autonoma-da-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Betzabe Saca Choque]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Dec 2025 04:35:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Autonomía indígena]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=17131</guid>

					<description><![CDATA[<p>Após anos de luta, o povo Challa deu um passo histórico rumo à sua autonomia original com a aprovação da Lei que cria a Unidade Territorial Indígena Originária Camponesa Challa. O processo dos Challa demonstra que a autonomia não é uma concessão, mas sim uma construção popular de resistência e união comunitária. Challa está a caminho de se tornar o nono Governo Autônomo Indígena do Estado Plurinacional da Bolívia.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O território de Challa, pertencente à Nação Soras, é composto pelos Ayllus Aransaya, Urinsaya e Majasaya, com raízes ancestrais e uma organização que reúne autoridades tradicionais e uma estrutura sindical em seus 12 Territórios Indígenas Originários Camponeses (TIOC). Em 2014, as comunidades tomaram a decisão coletiva de se constituírem como um Governo Indígena, exercerem controle sobre seu território e fortalecerem sua identidade cultural com base em suas próprias normas e procedimentos.</p>



<p>Em 2016, as autoridades indígenas começaram a coletar os documentos necessários para iniciar os procedimentos administrativos, cumprindo as exigências estabelecidas pela legislação estadual. Graças a esse trabalho, em junho de 2018, o Comitê Diretivo formalizou a demanda regional solicitando o Certificado de Status de Território Ancestrale oCertificado de Viabilidade Governamental para o Vice-Ministério das Autonomias. Ambos os certificados foram obtidos em janeiro de 2020.</p>



<p>Em 15 de fevereiro de 2020, mais de 3.000 membros da comunidade reuniram-se na Jacha Mara Tantachawi e votaram “sim” à Autonomia Indígena Originária Camponesa (AIOC). A Assembleia Deliberativa foi então formada com 45 membros titulares (posteriormente ampliada para 60) e 15 suplentes. Após anos de debate, conciliação, diálogo e consulta, o órgão máximo de decisão, a Jacha Mara Tantachawi, aprovou o Estatuto de Autonomia em dezembro de 2023. Essa decisão foi apoiada por mais de 4.000 membros da comunidade, reunidos em Challa Lacuyo, a capital da Autonomia Indígena Originária Challa (AOCH).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-17132" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-1-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Cerimônia de aprovação do Estatuto de Autonomia de acordo com suas próprias regras e procedimentos (2023). <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabe Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Atrasos causados pela burocracia estatal</strong></h3>



<p>Em maio de 2024, representantes da Autonomia Originária Challa apresentaram à Assembleia Legislativa Plurinacional o projeto de lei para a criação da Unidade Territorial Indígena Originária Camponesa Challa. Este projeto havia sido elaborado pelo Vice-Ministério das Autonomias e pelas autoridades indígenas, em coordenação com instituições de apoio. Com esta apresentação, confiaram à Assembleia a promulgação da lei que permitiria a sua consolidação territorial.</p>



<p>Após a entrega formal do projeto de lei ao Presidente do Senado, Andrónico Rodríguez, representantes da AIOC realizaram um evento com demonstrações culturais e ritmos musicais do povo indígena Challa: <em>pinkillada</em>, <em>thurumeada</em>, <em>khonqoteada </em>e <em>moseñada</em>. Desde então, o projeto de lei tem enfrentado inúmeras objeções técnicas e atrasos burocráticos, tanto no Senado quanto em outros órgãos do Estado.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O projeto de lei enfrentou diversas objeções técnicas e atrasos burocráticos, tanto no Senado quanto em outras instâncias do aparato estatal.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Os procedimentos têm avançado lentamente devido a constantes objeções técnicas e à falta de clareza institucional.</cite></blockquote>



<p>Em relação aos atrasos burocráticos, Fabián Choque Cruz, Presidente do Conselho de Autoridades da Autonomia Originária Challa, declarou: “Após a submissão inicial, o trabalho da comissão terminou no final de outubro de 2024. Todo o progresso foi anulado (eles não conseguiram abordar as observações). Portanto, o projeto de lei foi novamente encaminhado a outra comissão do Senado, presidida pelo senador Romaña”.</p>



<p>O término do mandato em outubro daquele ano interrompeu o progresso alcançado, forçando as autoridades indígenas a reapresentar o projeto de lei, que foi então retomado pela recém-formada Comissão do Senado sobre Organização Territorial e Autonomias Estaduais. O processo tem sido lento devido a constantes objeções técnicas e à falta de clareza institucional.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="751" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-2-1-751x1024.jpg" alt="" class="wp-image-17133" style="width:840px;height:auto" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-2-1-751x1024.jpg 751w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-2-1-220x300.jpg 220w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-2-1-768x1047.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-2-1.jpg 1078w" sizes="auto, (max-width: 751px) 100vw, 751px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Localização geográfica da Autonomia Originária de Challa. <strong>Fonte: </strong>CENDA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O obstáculo burocrático ao direito regional</strong></h3>



<p>Uma das questões mais debatidas levantadas pelo projeto de lei foi a redefinição das fronteiras interdepartamentais entre Oruro e Cochabamba, tarefa que cabe aos governos de ambos os departamentos (regiões). Caso esse problema não seja resolvido, afetará diretamente o território de Challa, localizado precisamente nessa área fronteiriça.</p>



<p>Durante o ano de 2024, as autoridades indígenas de Challa promoveram o diálogo e exigiram atenção urgente para esta questão, que está fora de sua jurisdição e dificulta o progresso do processo de autonomia. Finalmente, em 23 de outubro, a questão foi resolvida com a aprovação da Lei nº 127/2024-2025, a Lei de Delimitação/Seção entre o Departamento de Oruro, Município de Paria, e a região de Cochabamba, Municípios de Tacopaya, Tapacarí e Bolívar, proporcionando assim segurança territorial e garantindo a continuidade do processo de autonomia.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O processo Challa demonstra que a autonomia não é uma concessão, mas sim uma construção popular de resistência e unidade comunitária. Challa está a caminho de se tornar o nono Governo Autônomo Indígena do Estado Plurinacional.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O processo Challa demonstra que a autonomia não é uma concessão, mas sim uma construção de resistência e unidade comunitária a partir da base.</cite></blockquote>



<p>Por outro lado, a segunda observação veio do relatório divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento Rural e Terras (MDRyT) e pelo Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), que descreveu o avanço da tramitação como “inviável” devido à alegada ausência do título de propriedade SAM-TIOC 369 em seus registros. Este título pertence à comunidade K&#8217;usilliri, uma das 12 TIOCs que compõem o território Challa. O problema surgiu porque havia dois sistemas de numeração diferentes: um sob o sistema SAM-SIM 304 e outro atualizado sob o SAM-TIOC 369.</p>



<p>A inconsistência decorria de sistemas obsoletos e da falta de coordenação entre as entidades estatais, o que gerava confusão quanto à numeração dos títulos de propriedade emitidos por diferentes administrações. Contudo, graças a sessões de diálogo técnico entre as autoridades indígenas, o Vice-Ministério das Autonomias e o apoio de relatórios esclarecedores, comprovou-se que não havia contradições na extensão ou regularização das terras.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-17134" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-3-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Reunião técnica com o INRA e o Vice-Ministério da Autonomia, juntamente com as autoridades de Challa, 2025. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabe Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h2 class="wp-block-heading"><strong>Vitória política para Challa: a nona autonomia indígena na Bolívia</strong></h2>



<p>Em 30 de outubro de 2025, o povo indígena Challa marcou um novo marco na história da autonomia do país. A aprovação da Lei de Criação da Unidade Territorial Camponesa Indígena Challa consolida um longo processo de luta, resistência e ação coletiva. Apesar de algumas opiniões contrárias por parte daqueles que ainda não compreendem que a autonomia indígena vai muito além da simples gestão econômica, a lei foi apoiada por uma coalizão de diferentes forças políticas na Câmara dos Deputados, comprometidas com o bem comum e o respeito aos direitos coletivos.</p>



<p>As autoridades do território Challa foram claras: não pedem doações, apenas exigem o cumprimento do seu direito à autogovernança e à autodeterminação. Com o respaldo legal, o Governo Autônomo Originário Challa (GAOCH) inicia agora uma nova fase de organização interna, com a eleição de suas autoridades segundo regras e procedimentos próprios, e a implementação do seu Plano de Gestão Territorial.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Cada nova autonomia é reconhecida como uma conquista, celebrada coletivamente, por sua persistência, clareza política e compromisso com a construção de seu autogoverno.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Cada nova região autônoma é reconhecida como uma conquista coletiva por sua persistência, clareza política e compromisso com o autogoverno.</cite></blockquote>



<p>Durante a Assembleia Nacional das Autonomias Indígenas Originárias Camponesas, realizada nos dias 18 e 19 de novembro, a Coordenação Nacional das Autonomias Indígenas Camponesas (CONAIOC) reconheceu oficialmente o Governo Indígena de Challa como a nona Autonomia Indígena Camponesa do Estado Plurinacional da Bolívia. A resolução, aprovada pela Assembleia, legitima o processo burocrático superado pelo território de Challa e o integra plenamente ao grupo de autonomias já estabelecidas.</p>



<p>Neste espaço, participaram GAIOCs já estabelecidas, como Yura, Salinas, Charagua Iyambae, Kereimba Iyaambae, Raqaypampa, Huacaya e Challa, juntamente com autonomias em processo, como Corque Marka, Totora I e Oica Cavineño. O encontro demonstra que cada nova autonomia é reconhecida como uma conquista, celebrada coletivamente por sua persistência, clareza política e compromisso com a construção da autogestão. Em meio a palavras de congratulação, as autonomias já existentes ressaltaram que o verdadeiro desafio começa com a implementação do Estatuto de Autonomia.<strong></strong></p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-17135" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/12/Bolivia-Diciembre-2025-4-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Autoridades indígenas acompanham a aprovação da Lei de Unidade Territorial. <strong>Foto: </strong>CENDA / Betzabe Saca Choque</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O território de Challa recebe sua Lei de Unidade Territorial</strong></h3>



<p>Em um dos últimos atos de governo do ex-presidente Luis Arce Catacora, na noite de 7 de novembro, foi promulgada a Lei nº 1689, criando a unidade territorial &#8220;Território Indígena Camponês de Challa&#8221;. O atraso é evidencia que os processos de autonomia indígena não estavam entre as suas prioridades de governo.</p>



<p>No dia 23 de novembro, mais de 3.000 moradores das comunidades Urinsaya, Aransaya e Majasaya, em Challa, celebraram a promulgação da lei que as reconhece como uma entidade autônoma: uma luta que durou anos, cumprindo o mandato de suas comunidades. Música, dança, bandeiras Wiphala e bastões cerimoniais acompanharam essa celebração, que marca o início de um novo desafio. Agora, eles prosseguirão com a fase eleitoral, cumprindo seus Regulamentos para a Eleição das Autoridades que constituirão seu Governo Autônomo Originário.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Hoje, mais do que nunca, é urgente fortalecer essas experiências e apoiar o exercício efetivo do autogoverno, para que as Nações e os Povos Indígenas da Bolívia possam continuar construindo seus próprios sistemas de organização, tomada de decisões e vida comunitária.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O verdadeiro Estado Plurinacional só será possível quando a autodeterminação deixar de ser mera retórica e for vivenciada nos territórios.</cite></blockquote>



<p>A consolidação das autonomias indígenas na Bolívia permanece uma tarefa inacabada para o Estado plurinacional. Após o fim da era de esquerda &#8220;com os povos indígenas no poder&#8221;, apenas oito autonomias conseguiram se consolidar, deixando incerto como o novo governo de centro-direita assumirá a responsabilidade de dar continuidade ao processo de implementação do autogoverno indígena.</p>



<p>Hoje, mais do que nunca, é urgente fortalecer essas experiências e apoiar o exercício efetivo da autogestão, para que as Nações e os Povos Indígenas da Bolívia possam continuar construindo seus próprios sistemas de organização, tomada de decisões e vida comunitária. Um verdadeiro Estado Plurinacional só será possível quando a autodeterminação deixar de ser mera retórica e for vivenciada nos territórios.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/12/01/vitoria-politica-para-os-challa-a-nova-entidade-territorial-autonoma-da-bolivia/">Vitória política para os Challa: a nova entidade territorial autônoma da Bolívia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
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		<title>A cartografia como ferramenta de governança indígena no Território Indígena Multiétnico</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/09/01/a-cartografia-como-ferramenta-de-governanca-indigena-no-territorio-indigena-multietnico/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Catalina Rivadeneira Canedo]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 01 Sep 2025 04:40:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[Cartografias]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=16247</guid>

					<description><![CDATA[<p>Para os povos indígenas, o território não representa apenas um espaço físico, mas também um elemento essencial que define sua cultura. Para fortalecer a gestão territorial do Governo Indígena, a Organização de Apoio Jurídico e Social (ORE) trabalha com as autoridades do TIM, fornecendo informações georreferenciadas sobre seus recursos naturais comuns, conservação florestal e seu sistema de controle e vigilância. Os mapas incorporam conhecimentos ancestrais e tecnologias modernas, resultando em uma representação dinâmica que respeita as tradições e se adapta às demandas atuais.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Ao longo da história, os povos indígenas desenvolveram uma compreensão profunda de seu território sem recorrer a ferramentas cartográficas modernas. Eles registraram rotas, sítios e lugares sagrados em sua memória coletiva por meio de mapas mentais transmitidos de geração em geração. Esse conhecimento se baseia na observação dos astros, das mudanças na paisagem, das rotas dos animais e de elementos naturais como rios, montanhas, árvores e rochas. Como o reconhecimento territorial é fundamental para o exercício de sua autonomia, os mapas que eles próprios geram permitem que visualizem sua presença ancestral, organizem seus espaços e atividades e protejam sua cultura e seus recursos naturais.</p>



<p>No entanto, hoje, os meios de subsistência da maioria das comunidades estão ameaçados pela superexploração dos recursos naturais, pela expansão da fronteira agrícola, pela construção de estradas, por projetos de infraestrutura e por outras atividades em escala industrial que alteram seu meio ambiente. Esses projetos extrativistas colocam sua sobrevivência em risco e, portanto, é necessário dispor de ferramentas que fortaleçam sua governança e autonomia na defesa de seu território e de seus recursos naturais.</p>



<p>A experiência que desejamos compartilhar neste artigo é o trabalho conjunto desenvolvido com as autoridades do Território Indígena Multiétnico (TIM): o Governo Autônomo Indígena, os Conselhos Indígenas Subcentrais e o Conselho Subcentral de Mulheres. Essa sinergia, que combinou conhecimentos ancestrais com novas tecnologias de mapeamento, resultou no desenvolvimento de um Atlas e de um conjunto de ferramentas cartográficas para otimizar a governança e fortalecer a autonomia.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="791" height="1024" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-791x1024.png" alt="" class="wp-image-16248" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-791x1024.png 791w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-232x300.png 232w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-768x994.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-1187x1536.png 1187w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-1-1-1583x2048.png 1583w" sizes="auto, (max-width: 791px) 100vw, 791px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O Território Indígena Multiétnico (representado pela mancha vermelha) está localizado no departamento de Beni e na Amazônia boliviana. <strong>Mapa: </strong>ORE / IWGIA / NICFI</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um território onde coexistem cinco povos</strong></h3>



<p>A Terra Indígena Multiétnica está localizada na Amazônia boliviana, na chamada Planície de Mojos: a terceira maior savana de várzea da América do Sul. O TIM foi reconhecido como território indígena pelo Decreto Supremo 22.611, obtido após a primeira marcha liderada pelos Povos Indígenas das Terras Baixas em 1990. É chamado de Multiétnico porque este território é composto por 28 comunidades pertencentes a cinco povos indígenas: Mojeño Ignaciano, Mojeño Trinitario, Movima, Yuracaré e T&#8217;simane. Assim, o TIM é um exemplo de coexistência harmoniosa entre diversos grupos étnicos e a natureza.</p>



<p>Em 2010, uma Reunião de Corregedores (o mais alto órgão decisório territorial) decidiu iniciar o estabelecimento de um governo autônomo na Terra Indígena Multiétnica, conforme estabelecido pela Constituição Política do Estado. O complexo processo teve início com o cumprimento de múltiplos requisitos, como a construção participativa e a aprovação em diversas instâncias de um estatuto que estabelece as regras do novo governo indígena. A característica singular da Autonomia Indígena do TIM é que ela se estabelece em todo o território ancestral titulado como terras coletivas, diferentemente das outras oito autonomias indígenas reconhecidas até o momento, cujas jurisdições territoriais são as mesmas dos antigos municípios.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Utilizando mapas falados e imagens de satélite, locais importantes para cada comunidade e cidade foram georreferenciados, e seus diversos usos dentro do território foram detalhados.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Utilizando mapas falados e imagens de satélite, locais importantes para cada comunidade e cidade foram georreferenciados, e seus diversos usos dentro do território foram detalhados.</cite></blockquote>



<p>Após 13 anos de longos processos conduzidos pelos Conselhos Indígenas Subcentrais e pelo Conselho Subcentral de Mulheres, em 1º de março de 2023, eles conquistaram a autonomia com a aprovação da Lei nº 1.497, que criou a Unidade Territorial do Território Multiétnico Indígena (TIM). Em novembro do mesmo ano, as autoridades que formariam o novo Governo Autônomo Indígena foram empossadas.</p>



<p>Desde 2020, a Organização de Apoio Jurídico e Social (ORE) tem trabalhado com as autoridades do TIM, prestando apoio na gestão de seus recursos naturais comuns, na conservação de suas florestas e em seu sistema de controle e vigilância. Nesse contexto, em conjunto com organizações e autoridades indígenas, foram desenvolvidos mapas ambientais, geográficos, demográficos e culturais. Utilizando “mapas falantes” e imagens de satélite, foram georreferenciados locais importantes para cada comunidade e povo, e seus diversos usos dentro do território foram detalhados.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-16249" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-2-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Rota para a comunidade de San Salvador del Apere. O trabalho de mapeamento é resultado de uma sinergia entre os cinco povos indígenas da TIM e técnicos da ORE. <strong>Foto: </strong>Pedro Laguna / ORE</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uso da cartografia na governança do TIM</strong></h3>



<p>Este trabalho permitiu a compilação de mapas em um <a href="https://iwgia.org/doclink/atlas-del-tim-2025/eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJzdWIiOiJhdGxhcy1kZWwtdGltLTIwMjUiLCJpYXQiOjE3NDUzNTY2MjYsImV4cCI6MTc0NTQ0MzAyNn0.rA_JTkEApaVbhnKcbBZUvLnukPo73RNXDYrWrezF7gY%22%3Ehttps:/iwgia.org/doclink/atlas-del-tim-2025/eyJ0eXAiOiJKV1QiLCJhbGciOiJIUzI1NiJ9.eyJzdWIiOiJhdGxhcy1kZWwtdGltLTIwMjUiLCJpYXQiOjE3NDUzNTY2MjYsImV4cCI6MTc0NTQ0MzAyNn0.rA_JTkEApaVbhnKcbBZUvLnukPo73RNXDYrWrezF7gY" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Atlas do Território Indígena Multiétnico. Este conjunto de ferramentas fornece ferramentas para a gestão territorial e ambiental</a>, contendo informações sobre a &#8220;Unidade Territorial&#8221;: detalhes de sua localização, superfície, limites e comunidades; e identifica seus aspectos físicos, geológicos e hidrográficos. Além disso, por meio de um amplo trabalho colaborativo com as comunidades, informações sociais foram atualizadas, incluindo o acesso à saúde e à educação em diferentes níveis, e fragilidades e potencialidades foram identificadas para garantir o exercício desses dois direitos humanos fundamentais.</p>



<p>Este atlas constitui uma ferramenta visual e política que visa não apenas registrar o uso e a distribuição da terra, mas também fortalecer a identidade cultural e aprofundar a memória histórica. Os mapas incorporam conhecimentos ancestrais e tecnologias modernas, resultando em uma representação dinâmica que respeita as tradições e se adapta às demandas atuais. Inclui também um mapa histórico, descrito pelas comunidades, mostrando a localização dos assentamentos jesuítas estabelecidos em 1600. Identifica também as áreas que, séculos depois, seriam ocupadas por madeireiras e que agora retornaram às mãos dos povos indígenas de Mojos.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O mapeamento permite a observação de limites territoriais e o monitoramento em tempo real de pontos críticos: informações cruciais durante a temporada de incêndios em agosto, setembro e outubro (fim da estação seca).</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O mapeamento permite observar limites territoriais e, simultaneamente, monitorar pontos críticos em tempo real: informações cruciais durante a temporada de incêndios florestais.</cite></blockquote>



<p>Esse mapeamento histórico e cultural ganha relevância na dupla dimensão do que se entende por governança territorial. De um lado, <em>a governança interna</em>, que consiste na tomada de controle dos próprios assuntos: o exercício efetivo dos direitos coletivos relacionados à gestão territorial e ao funcionamento das instituições locais, aos sistemas de distribuição dos benefícios dos recursos, aos acordos intercomunitários e à gestão interna de conflitos. De outro, <em>a governança externa</em>, que abrange a legitimação externa das estruturas representativas, instâncias que devem ser fortalecidas para desenvolver políticas orgânicas de consulta aos atores que pretendem tomar decisões no território.</p>



<p><a href="https://timgobernanzaterritorial.com/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O acesso às informações cartográficas não se limita a um atlas físico, e mapas interativos foram gerados e estão disponíveis no site de governança do TIM</a>. Essa ferramenta permite que autoridades, membros da comunidade, estudantes e o público em geral criem seus próprios mapas online por meio de um geovisualizador fácil de usar que baixa camadas de informações geográficas, ambientais e sociais. Também permite observar os limites do território e, simultaneamente, monitorar os pontos críticos em tempo real: informações cruciais durante a temporada de incêndios em agosto, setembro e outubro (fim da estação seca).</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-3-1-1024x576.jpeg" alt="" class="wp-image-16250" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-3-1-1024x576.jpeg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-3-1-300x169.jpeg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-3-1-768x432.jpeg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-3-1.jpeg 1280w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>O Atlas do Território Multiétnico Indígena é uma ferramenta valiosa para a gestão territorial, o conhecimento dos comunitários e da população em geral.<strong> Foto: </strong>Mario Cerezo / ORE</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Uma área de conservação que fortalece a cultura</strong></h3>



<p>Um elemento-chave na gestão e governança do território foi o processo de zoneamento, realizado por meio de um longo processo participativo com as comunidades. Ele mapeia seis zonas de uso do solo: corpos d&#8217;água, pampas, savanas, terras de pecuária, terras agrícolas, florestas tradicionais e uma área de conservação. Com base nesse zoneamento, em 26 de novembro de 2022, durante uma Reunião de Corregedores, a Subcentral de Conselhos Indígenas e a Subcentral de Mulheres propuseram a criação da &#8220;Área de Conservação Loma Santa&#8221;.</p>



<p>Durante as reduções jesuíticas, os habitantes ancestrais de Gran Mojos se deslocaram em busca de um lugar ideal no meio da floresta, livre de doenças e exploração humana, onde a paz e a comida fossem abundantes. Eles chamaram esse lugar de &#8220;Loma Santa&#8221;. Séculos mais tarde, em 3 de outubro de 2024, o Governo Autônomo Indígena de TIM promulgou a Lei Autônoma nº 003/2024, que criou a Área de Conservação do Patrimônio Histórico, Cultural, Social e Espiritual com o nome de &#8220;Loma Santa&#8221;, consolidando assim a decisão adotada pela Reunião de Corregedores dois anos antes.</p>



<p>Esta área de conservação é a primeira área protegida indígena criada na Amazônia boliviana. O mapeamento mostra como a &#8220;Loma Santa&#8221; está localizada dentro de um importante mosaico de conservação de áreas protegidas e territórios indígenas, e está conectada ao amplo corredor de biodiversidade Vilcabamba-Amboró, que se estende pela região central do território nacional, cruzando a fronteira com o Peru. Da mesma forma, a localização da TIM é destacada como parte de uma grande área úmida de importância global, o Sítio RAMSAR &#8220;Río Matos&#8221;.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-16251" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/09/Bolivia-Septiembre-2025-4-1-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Entrada para Loma Santa. O Território Indígena Multiétnico (TIM) criou um posto de controle com tecnologia fornecida pela ORE para otimizar a gestão territorial. <strong>Foto: </strong>Pedro Laguna / ORE</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Cartografia: uma ferramenta para a autonomia indígena</strong></h3>



<p>Nos últimos anos, o TIM tem enfrentado diversas ameaças, desde a exploração de seus recursos naturais até eventos climáticos, como incêndios e inundações. Dispor de informações precisas e atualizadas permite a tomada de decisões em tempo hábil e a proteção territorial. Em resposta a esses desafios, um Sistema de Controle e Vigilância Territorial foi desenvolvido para garantir a segurança dos recursos naturais comuns, monitorar mudanças ambientais e fortalecer a governança indígena diante de pressões externas.</p>



<p>O mapeamento territorial dos povos indígenas da Bolívia representa um ato de recuperação e reafirmação dos espaços que tradicionalmente habitam. Durante décadas, a exploração dos recursos naturais causou o deslocamento e a desorganização social e cultural dessas comunidades. Nesse sentido, o processo de titulação de terras buscou, em certa medida, reparar esse dano.</p>



<p>As ferramentas cartográficas, portanto, não são meramente a representação estática de uma realidade geográfica, mas a expressão dinâmica de eventos históricos e das decisões políticas tomadas pelos povos. Elas buscam evidenciar situações, disseminar informações e reafirmar os direitos dos povos indígenas sobre seu território, sua biodiversidade e os demais elementos da natureza que nele existem.</p>



<p></p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/09/01/a-cartografia-como-ferramenta-de-governanca-indigena-no-territorio-indigena-multietnico/">A cartografia como ferramenta de governança indígena no Território Indígena Multiétnico</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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		<item>
		<title>Bolívia: Transição Energética e Direitos dos Povos Indígenas Diante da Exploração de Minerais Essenciais</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/06/01/bolivia-transicao-energetica-e-direitos-dos-povos-indigenas-diante-da-exploracao-de-minerais-essenciais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Miguel Vargas Delgado]]></dc:creator>
		<pubDate>Sun, 01 Jun 2025 05:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[transição justa]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=15288</guid>

					<description><![CDATA[<p>Enquanto a atenção se concentra na exploração de lítio, as comunidades indígenas Ayorea, Chiquitana e Guaraya enfrentam uma nova ameaça em seus territórios: a expansão da mineração de terras raras e minerais críticos. Estes projetos, essenciais para uma suposta transição para a energia verde, tendem a aprofundar o modelo extrativista. É urgente restabelecer salvaguardas efetivas e garantir a implementação de processos de Consulta Livre, Prévia e Informada, com pleno respeito à autodeterminação dos povos indígenas.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/06/01/bolivia-transicao-energetica-e-direitos-dos-povos-indigenas-diante-da-exploracao-de-minerais-essenciais/">Bolívia: Transição Energética e Direitos dos Povos Indígenas Diante da Exploração de Minerais Essenciais</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>A transição energética busca reduzir progressivamente o consumo de combustíveis fósseis, promovendo a eletrificação da economia por meio de tecnologias como painéis solares e turbinas eólicas. No entanto, seu desenvolvimento enfrenta limitações significativas devido à sua alta dependência da exploração de terras raras ou minerais críticos — um grupo de pelo menos 17 elementos presentes na crosta terrestre. Esses recursos são <a href="http://latinoamerica.unam.mx/index.php/latino/article/view/57665/51515#:~:text=De%20acuerdo%20con%20datos%20proporcionados,iea%2C%202024%2C%20181)." target="_blank" rel="noreferrer noopener">estratégicos para as tecnologias modernas e fundamentais para a sociedade atual</a>.</p>



<p>Embora muitos países, especialmente na Europa, tenham acelerado sua transição energética para cumprir seus compromissos climáticos e responder à crise energética decorrente do conflito entre Rússia e Ucrânia, nem todos possuem reservas suficientes desses minerais. O sucesso dessa transição está intimamente ligado à disponibilidade e oferta desses recursos, <a href="http://latinoamerica.unam.mx/index.php/latino/article/view/57665/51515#:~:text=De%20acuerdo%20con%20datos%20proporcionados,iea%2C%202024%2C%20181)." target="_blank" rel="noreferrer noopener">o que poderia intensificar modelos de desenvolvimento extrativista nos países que os possuem</a>.</p>



<p><a href="https://www.iea.org/reports/energy-technology-perspectives-2023/clean-energy-supply-chains-vulnerabilities" target="_blank" rel="noreferrer noopener">De acordo com a Agência Internacional de Energia</a>, a China é a maior produtora e processadora mundial de terras raras, sendo responsável por cerca de 60% da extração e processamento de quase 90% da produção global. O regime de Xi Jinping entendeu que o valor desses minerais não se limita à sua comercialização, mas também reside no seu uso estratégico para o desenvolvimento tecnológico. Essa situação gerou uma crescente dependência dos países ocidentais em relação à China, o que impacta diretamente no ritmo e na soberania da transição energética global. Na América Latina, apenas o Brasil está entre os dez países com maiores reservas, ocupando o terceiro lugar com aproximadamente 15% do total mundial.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15290" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-1-1-2048x1366.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Projetos de exploração e aproveitamento de terras raras na Bolívia e seu impacto em territórios indígenas, incluindo áreas com presença de povos em isolamento voluntário e contato inicial. <strong>Fonte: </strong>Ministério de Minas e Metalurgia da Bolívia e CEJIS &#8211; CPTA (2024). <strong>Elaboração: </strong>CEJIS &#8211; CPTA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Terras raras e minerais críticos em territórios indígenas</strong></h3>



<p>Paradoxalmente, a transição energética baseada em fontes renováveis aumentou a demanda por terras raras e minerais críticos — recursos não renováveis — <a href="https://www.instagram.com/p/DCpwrE3p1Dd/?img_index=7&amp;igsh=MXdycmhlZDJodnducQ%3D%3D" target="_blank" rel="noreferrer noopener">cuja extração está concentrada em ecossistemas estratégicos e frágeis, como territórios indígenas </a>. <a href="https://www-nature-com.translate.goog/articles/s41893-022-00994-6?error=cookies_not_supported&amp;code=c45b0fa0-a483-4556-a94f-0df1cdfafff6&amp;_x_tr_sl=en&amp;_x_tr_tl=es&amp;_x_tr_hl=es&amp;_x_tr_pto=tc" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Um estudo global publicado em 2022</a>, baseado na Plataforma Internacional sobre Fornecimento de Minerais para a Transição Energética, revela que mais da metade dos projetos extrativistas vinculados a esses recursos estão localizados dentro ou perto de territórios indígenas.</p>



<p>Na América Latina e no Caribe, estima-se que 73&nbsp;% desses projetos impactam direta ou indiretamente territórios indígenas formalmente titulados. Além disso, muitas delas se sobrepõem a áreas com altos níveis de estresse hídrico, o que aumenta sua vulnerabilidade ambiental.</p>



<p>A exploração de terras raras e minerais essenciais não só acarreta impactos ambientais significativos, mas também consequências sociais e culturais. Isso inclui o risco de deslocamento forçado de comunidades indígenas e a ameaça à sua identidade cultural devido à migração, à fragmentação territorial e à rápida transformação de seus modos de vida. Há também um impacto nos mecanismos de tomada de decisão e no sistema de autoridades, particularmente devido à decisão das autoridades estatais de desconsiderar o direito à consulta livre, prévia e informada.</p>



<figure class="wp-block-image size-large is-resized"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15291" style="width:840px;height:auto" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-2-1-2048x1366.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Território de Monte Verde. <strong>Foto de: </strong>Nahim Aslla Ortiz &#8211; Justicia Alimentaria</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Bolívia em destaque na exploração de terras raras e minerais críticos</strong></h3>



<p>A Bolívia vive uma profunda crise econômica e energética, resultado do colapso de um modelo baseado na exploração de hidrocarbonetos. O aumento dos preços internacionais do petróleo, juntamente com um declínio drástico nas reservas de gás, levou a um grave desequilíbrio fiscal. Essa situação tem repercussões nas esferas social, política e judicial, e é agravada pela fragilidade das instituições democráticas e pela ausência de poderes independentes do governo.</p>



<p>Neste contexto de crise multidimensional, o governo nacional decidiu aprofundar o modelo de desenvolvimento extrativista, expandindo a fronteira de hidrocarbonetos e mineração na região amazônica, juntamente com o interesse na exploração de terras raras e minerais críticos. Embora a atenção internacional em relação à transição energética tenha se concentrado em projetos de exploração de lítio no sudeste do país, é essencial dar atenção aos projetos de exploração e exploração de terras raras e minerais críticos em regiões como a Amazônia, Chiquitanía, Chaco e Pantanal.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O governo nacional busca promover &#8220;nova mineração não tradicional&#8221; para atender à crescente demanda global no contexto da transição energética.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O governo nacional busca promover &#8220;nova mineração não tradicional&#8221; para responder à crescente demanda global no contexto da transição energética.</cite></blockquote>



<p>Como parte da expansão do modelo extrativista, foi criado em 2022 o <a href="https://mineria.gob.bo/documentos/noticias.php?pvnoticia=1677&amp;codigo=eyJzdWIiOiIxMjM0NTY3ODkwIiwibmFtZSI6IkpvaG4gRG9lIiwiaWF0IjoxNTE2MjM5MDIyfQ" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Vice-Ministério de Minerais Tecnológicos e Terras Raras</a>. Dois anos depois, em janeiro de 2024, o Ministério de Minas e Metalurgia anunciou o <a href="https://unidosrumboalbicentenario.bo/detalle/bolivia-avanza-hacia-la-mineria-de-tierras-raras" target="_blank" rel="noreferrer noopener">início das atividades de exploração desses recursos</a>. O governo nacional busca promover &#8220;nova mineração não tradicional&#8221; para atender à crescente demanda global no contexto da transição energética. O objetivo é diversificar a exploração de minerais tradicionais (prata, estanho, chumbo, zinco e ouro) para outros como níquel, cobalto e terras raras. Para tanto, no âmbito da Corporação Mineradora Boliviana (COMIBOL), empresa estatal responsável pela gestão da cadeia produtiva da mineração, foi criada a Gestão Nacional de Minerais Tecnológicos e Terras Raras.</p>



<p>Além da exploração de lítio em Potosí, liderada por Yacimientos de Litio Bolivianos (YLB), dois projetos de exploração de terras raras estão sendo desenvolvidos no país: Cerro Manomó e Rincón del Tigre, ambos localizados no departamento de Santa Cruz, nas regiões de Chiquitanía e Pantanal. Esses projetos visam identificar e quantificar reservas de minerais como tório, nióbio, níquel, cobalto, cromo, ouro e terras raras.</p>



<p>Por outro lado, <a href="https://www.la-razon.com/energias-negocios/2023/03/17/bolivia-y-los-minerales-tecnologicos/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">em 2023, foram realizadas atividades de prospecção em San Javier (Chiquitanía), onde</a> foram coletadas amostras de rubídio, césio, tungstênio, titânio, tântalo, lantânio, praseodímio, európio, cério, neodímio, samário e tório. Os resultados desses estudos ainda são desconhecidos, e menos ainda se sabe quais atores estariam envolvidos na fase de exploração.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15292" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-3-1.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Projetos de exploração e exploração de terras raras em territórios indígenas de Monte Verde, Bolívia. <strong>Fonte: </strong>Ministério de Minas e Metalurgia &#8211; CEJIS &#8211; CPTA (2024). <strong>Elaboração: </strong>CEJIS &#8211; CPTA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Minerais tecnológicos e terras raras em territórios indígenas</strong></h3>



<p>Atualmente, não há um banco de dados oficial sobre a presença de minerais tecnológicos e terras raras em territórios indígenas do Leste, do Chaco e da Amazônia. Entretanto, um exercício de sobreposição entre o Mapa de Minerais Tecnológicos e Terras Raras da Bolívia e a superfície dos 58 territórios indígenas formalmente reconhecidos pelo Estado, <a href="https://mineria.gob.bo/documentos/noticias.php?pvnoticia=1657&amp;codigo=eyJzdWIiOiIxMjM0NTY3ODkwIiwibmFtZSI6IkpvaG4gRG9lIiwiaWF0IjoxNTE2MjM5MDIyfQ" target="_blank" rel="noreferrer noopener">realizado pelo CEJIS</a>, permite identificar que esses projetos se concentram principalmente nas regiões de Chiquitania, Pantanal e Amazônia Norte do país.</p>



<p>Em Chiquitanía, as Terras Comunitárias Indígenas (TCOs) Guarayos, Monte Verde, Lomerío e Zapocó estão diretamente ameaçadas pelo projeto Pico Suto, enquanto as Terras Comunitárias Indígenas (TCOs) Bajo Paragua são afetadas pelo projeto Cerro Manomó. No Pantanal, o projeto Rincón del Tigre impacta diretamente o TCO do Pantanal e o território de mesmo nome, de propriedade do povo Ayoreo. No norte da Amazônia, o projeto de mineração de ouro Madre de Dios afetará diretamente o Território Multiétnico II.</p>



<p>Por outro lado, os projetos implementados pela COMIBOL no departamento de Santa Cruz terão impacto indireto em quatro territórios indígenas: Guarayos, Pantanal, Tobité e Turubó Este.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15294" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Mapa-4-Junio-2025-1-2048x1366.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Projetos de exploração e exploração de terras raras em territórios indígenas do Baixo Paraguai, Bolívia. <strong>Fonte: </strong>Ministério de Minas e Metalurgia &#8211; CEJIS &#8211; CPTA (2024). <strong>Elaboração: </strong>CEJIS &#8211; CPTA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Povos em isolamento voluntário e contato inicial</strong></h3>



<p>Projetos de prospecção também representam uma ameaça aos povos indígenas em isolamento voluntário e contato inicial no Pantanal e nas zonas de transição em direção ao Chaco. Em particular, o projeto Rincón del Tigre impacta diretamente as áreas de trânsito dos últimos grupos Yoreo que permanecem em isolamento voluntário.</p>



<p>Não há evidências do desenvolvimento de salvaguardas para proteger a integridade desses povos ou respeitar sua decisão de permanecer em isolamento, conforme estabelecido no Artigo 31 da Constituição Política do Estado em vigor desde 2009. Como uma ação para fortalecer as salvaguardas internacionais em favor desses povos no nível internacional, durante a 24ª sessão do Fórum Permanente sobre Questões Indígenas das Nações Unidas, abordou-se a situação dos direitos dos povos indígenas, incluindo aqueles que vivem em isolamento voluntário e contato inicial, no contexto da extração de minerais essenciais. Neste caso, <a href="https://documents.un.org/symbol-explorer?s=E/C.19/2025/4&amp;i=E/C.19/2025/4_1740499021994" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Fórum recomendou “proibir todas as atividades econômicas, especialmente a exploração, a pesquisa, a extração e o processamento de minerais essenciais para a transição energética, em territórios onde sejam reconhecidos povos em isolamento voluntário”</a>.</p>



<p>Longe de acatar essa recomendação, as autoridades nacionais estão se concentrando em intensificar as atividades de prospecção em regiões com presença comprovada de povos em isolamento voluntário e contato inicial.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15296" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-5-1-2048x1366.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Projetos de exploração e exploração de terras raras em territórios indígenas de Rincón del Tigre, Bolívia. <strong>Fonte: </strong>Ministério de Minas e Metalurgia &#8211; CEJIS &#8211; CEJIS (2024). <strong>Elaboração</strong>: CEJIS &#8211; CPTA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Falta de consulta prévia e informação ambiental</strong></h3>



<p>Embora a Constituição estabeleça a obrigação de realizar processos de Consentimento Livre, Prévio e Informado com os Povos Indígenas sobre qualquer atividade que possa afetar suas vidas ou direitos, a política nacional sobre a chamada &#8220;nova mineração não tradicional&#8221; — particularmente a exploração de terras raras e minerais críticos — não foi submetida à consulta aos povos das TCOs Chiquitanía e Pantanal.</p>



<p>Os projetos Pico Suto, Cerro Manomó e Rincón del Tigre não foram consultados com as autoridades dos municípios Guarayo, Chiquitano e Ayoreo. A exclusão das comunidades indígenas do processo de consulta prévia decorre da Lei de Mineração e Metalurgia nº 535, promulgada em maio de 2014, que isenta projetos de prospecção dessa obrigação. Esta disposição é claramente inconstitucional, pois contradiz as disposições da Lei Fundamental e os instrumentos internacionais sobre direitos indígenas.</p>



<p>A aplicação desta regulamentação agrava a vulnerabilidade dos povos indígenas, em particular do povo Ayoreo, que tem segmentos deles em isolamento voluntário na área onde se desenvolve o projeto Rincón del Tigre. A lei permite atividades de prospecção sem quaisquer mecanismos de fiscalização ou participação, além de uma simples autorização administrativa emitida pelas autoridades de mineração. Soma-se a isso a falta de informações sobre impactos ambientais, tanto na fase de prospecção quanto na futura fase de exploração.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-15297" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/06/Bolivia-Junio-2025-4-2-2048x1366.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Projetos de exploração e exploração de terras raras em territórios indígenas do Pantanal, Bolívia. <strong>Fonte: </strong>Ministério de Minas e Metalurgia &#8211; CEJIS &#8211; CPTA (2024). <strong>Elaboração: </strong>CEJIS &#8211; CPTA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A título de conclusão</strong></h3>



<p>A transição energética não pode ser construída à custa da violação dos direitos dos povos indígenas ou da devastação de seus territórios e do meio ambiente. A situação das comunidades indígenas nas regiões de Chiquitanía e Pantanal demonstra que, longe de representar uma solução para o modelo extrativista, a chegada de projetos de exploração e aproveitamento de terras raras e minerais críticos tende a aprofundá-lo. Isso gera maior pressão sobre os territórios e novas violações de direitos indígenas.</p>



<p>O avanço silencioso dessa &#8220;nova mineração&#8221; nas terras baixas bolivianas já mostra seus primeiros impactos: projetos de exploração e exploração implementados sem consulta ou consentimento dos povos indígenas. Essas atividades acarretam uma perda significativa do patrimônio natural — especialmente florestas — e agravam os efeitos das mudanças climáticas, como o aumento do estresse hídrico.</p>



<p>A Bolívia está numa encruzilhada: persistir com um modelo extrativista ou avançar para formas de desenvolvimento que respeitem a autodeterminação dos povos indígenas. Neste contexto, é urgente restabelecer salvaguardas efetivas e garantir processos obrigatórios de Consentimento Livre, Prévio e Informado em todas as etapas dos projetos de mineração, como condição mínima para avançar em direção a uma transição energética verdadeiramente justa.</p>



<p></p>
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]]></content:encoded>
					
		
		
			</item>
		<item>
		<title>O etnocídio do Estado boliviano contra a população indígena Yukí</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/04/01/o-etnocidio-do-estado-boliviano-contra-a-populacao-indigena-yuki/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Erwin Melgar Ortíz]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 06:00:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=14918</guid>

					<description><![CDATA[<p>Durante a segunda metade do século XX, os Yukí foram contatados à força por meio da Missão Evangélica Novas Tribos. Sua rápida aculturação os torna um povo altamente vulnerável aos ataques de atores externos. Esta cidade amazônica está sofrendo com o avanço de colonos do Altiplano que cultivam coca, madeireiros ilegais e a violência do narcotráfico. Entre a falta de apoio do Estado boliviano e as invasões de outros povos indígenas, seus direitos territoriais estão sendo rapidamente afetados. É necessária uma ação urgente para evitar o desaparecimento dos Yukí.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Embora a sociedade boliviana tenha lhes dado o nome Yukí, eles se autodenominam Biá, que significa &#8220;povo&#8221;, e pertencem à família guarani. Historicamente, os Yukí habitavam as áreas interfluviais das províncias de Sara e Ichilo, na região de Santa Cruz, e das províncias de Chapare e Carrasco, na região de Cochabamba. Atualmente, os Yukí estão concentrados na comunidade de Biá Recuaté (lugar ou povoado do povo), às margens do rio Chimoré.</p>



<p>Na década de 1950, uma equipe da Missão Evangélica Novas Tribos, especializada em contato com povos indígenas nômades, iniciou o contato inicial com um grupo de Yuki. Esse processo durou vários anos até ser concluído em 11 de março de 1965, após ter construído laços de confiança entre os missionários e os indígenas. Essa confiança permitiu a transferência de um primeiro grupo de 43 pessoas para o acampamento Novas Tribos, que, anos depois, se tornaria uma comunidade indígena. Mais tarde, eles continuaram a busca por mais famílias Yukí ao longo de todos os rios da região.</p>



<p>Em dezembro de 1986, um segundo grupo de 23 pessoas foi transferido do rio Víbora para Biá Recuaté. Em um contexto de crise econômica, empresas intensificaram sua invasão às terras Yukí, e conflitos eclodiram entre colonos, madeireiros e caçadores: os indígenas foram os mais afetados. Finalmente, em 1989, um terceiro grupo foi transferido para Biá Recuaté, após várias visitas do líder deste grupo, onde ele viu com seus próprios olhos a realidade em que viviam seus parentes.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="844" height="554" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosEnvio.jpg" alt="" class="wp-image-14920" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosEnvio.jpg 844w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosEnvio-300x197.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosEnvio-768x504.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 844px) 100vw, 844px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Sendo um povo nômade da Amazônia, seu contato só ocorreu na segunda metade do século XX. <strong>Foto: </strong>Erwin Melgar Ortiz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um povo contatado recentemente</strong></h3>



<p>Em 1990, os indígenas das Terras Baixas realizaram a primeira “grande marcha” em direção a La Paz, sede do governo, com o objetivo de reivindicar <em>dignidade </em>e <em>território</em>. Foi a primeira vez que se tornaram visíveis para a sociedade boliviana e para o Estado. Neste contexto, o Decreto Supremo nº 23.111 concedeu ao povo Yuquí uma extensão territorial de 115.000 hectares com base na estimativa de 500 habitantes, na densidade de animais silvestres e sua taxa de reprodução, na média anual de animais de cada espécie que caçam e na estrutura populacional da fauna por idade e sexo em sua área de caça. A resolução não mencionou em nenhum lugar qualquer reconhecimento de outros povos indígenas (como o Conselho Indígena do Rio Ichilo).</p>



<p>A determinação de um território para o povo Yukí foi realizada por uma equipe multidisciplinar da Missão Evangélica Novas Tribos, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e da Universidade da Flórida Central. Para calcular a localização e o número de hectares, o projeto priorizou três fatores essenciais para sua sobrevivência: áreas de caça tradicional e coleta de frutos silvestres e mel; a taxa de crescimento populacional e os determinantes culturais de uma população que se encontra em estado de alta vulnerabilidade.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite><strong> </strong>O Estado reconheceu 10 territórios indígenas, incluindo o reconhecimento territorial do povo Yukí, abrangendo uma área de 115.000 hectares.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>O Estado reconheceu 10 territórios indígenas, incluindo o reconhecimento territorial do povo Yukí, abrangendo uma área de 115.000 hectares.</cite></blockquote>



<p>Atualmente, os Yukí estão passando por uma transição de caçadores-coletores nômades para um estilo de vida sedentário. Esse processo envolve o aprendizado de novas atividades que lhes permitam obter recursos econômicos para satisfazer as novas necessidades de consumo criadas pela aculturação. Essa transição que os Yuki estão vivenciando os torna altamente vulneráveis, pois são absorvidos pelos vários processos que ocorrem simultaneamente em seu meio social: a colonização, o tráfico de drogas e a invasão de suas terras pelos yuracarés do Rio Chapare e outros grupos indígenas do Rio Ichilo.</p>



<p>A isso se somam as características socioculturais muito particulares do grupo étnico: a fragilidade de suas organizações, a ausência de lideranças e a ausência de práticas hortícolas. Todos esses fatores os colocam em desvantagem significativa em comparação com outras populações indígenas do país, na capacidade de exigir seus direitos e canalizar suas demandas ao Estado. Essa situação vulnerável é explorada por colonos, madeireiros, outras populações indígenas e pelo próprio Estado, que, em suas diversas interações sociais, econômicas e políticas, estabelecem um tratamento enganoso e explorador aos Yukí.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-14922" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/fotosenvio3.jpg 1599w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Aniversário da comunidade Biá Recuaté. Os Yuki comemoraram o 60º aniversário de sua comunidade com uma competição de arco e flecha. <strong>Foto: </strong>Erwin Melgar Ortiz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>A traição do povo Yukí</strong></h3>



<p>Apesar do reconhecimento formal do Território Indígena Yukí, o próprio Estado boliviano endossa invasões sistemáticas de plantadores de coca, madeireiros ilegais, traficantes de drogas e outros povos indígenas. Essa situação faz com que o território seja constantemente segmentado, um processo que afeta tanto a biodiversidade do sistema ecológico quanto a subsistência dos Yukí. Ao mesmo tempo, até 2024, o Estado boliviano investiu cerca de 20.000.000 de bolivianos (2,87 milhões de dólares) em projetos de habitação, saneamento, eletricidade e telecomunicações para os outros povos indígenas a quem os Yukí permitiram viver dentro de seu Território Comunitário de Origem (TCO).</p>



<p>Quando o Estado reconheceu o TCO Yukí em 1992, o Conselho Yukí decidiu não expulsar aqueles que viviam em seu território, mas exigiu que eles cumprissem todas as regras e regulamentos relativos ao acesso, uso e controle de seus recursos naturais. Até então, havia apenas cinco acampamentos de outros povos indígenas e colonos: Tres Islas, Cafarnaum, Santa Isabel, Las Flores e Tres Bocas. Essas comunidades eram itinerantes, extraíam madeira ilegalmente e viviam em Puerto Villarroel, uma cidade mestiça localizada fora do TCO. Quando o Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA) realizou a reforma agrária em 2000, esses cinco acampamentos foram reconhecidos como comunidades pelo povo Yukí.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Atualmente, o Conselho Indígena do Rio Ichilo (CIRI) ocupa mais da metade do TCO: eles formaram 10 comunidades com pessoas de outros lugares, o que implica que seu crescimento populacional é maior que o dos Yukí e, portanto, precisam de mais terras.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Atualmente, o Conselho Indígena do Rio Ichilo (CIRI) ocupa mais da metade do TCO: eles formaram 10 comunidades com pessoas de outros lugares, o que implica que seu crescimento populacional é maior que o dos Yuki e, portanto, precisam de mais terras.</cite></blockquote>



<p>Entretanto, esses indígenas, muito mais aculturados à sociedade nacional, aproveitaram a situação política e se organizaram no Conselho Indígena do Rio Ichilo (CIRI), que reúne yuracarés, moxeños e trinitários. Com argumentos fracos e sem consistência técnica, eles pediram ao INRA que adicionasse sua sigla “CIRI” ao título executivo do TCO Yukí. Este foi o momento em que a traição desses indígenas se institucionalizou, pois eles tentaram tomar todo o território dos Yukí por meio da criação de cinco novas comunidades, sem a autorização ou consentimento dos verdadeiros donos do território.</p>



<p>Atualmente, o CIRI ocupa mais da metade do TCO: eles formaram 10 comunidades com pessoas de outros lugares, o que sugere que seu crescimento populacional é maior e que eles precisam de mais terras. Ao mesmo tempo, o investimento do Estado boliviano em projetos para os Yukí é mínimo e só se materializa quando há alegações de cumplicidade nas invasões de terras. As convenções internacionais e as leis bolivianas não são aplicadas e servem apenas para atrair recursos econômicos da comunidade internacional. Todos os projetos que estão sendo implementados estão sendo realizados sem consulta livre, prévia e informada.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-14923" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio2.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Os Yukí são um povo pacífico que busca coexistir com os demais povos indígenas da região. No entanto, alguns os traíram e estão tentando tomar suas terras. <strong>Foto: </strong>Erwin Melgar Ortiz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Um etnocídio latente</strong></h3>



<p>A população Yuki vive em constante perigo de perder um espaço geográfico vital para sua reprodução social e cultural. Essa situação leva à extinção gradual desse grupo étnico, que será assimilado pela população mestiça em decorrência da ação (ou omissão) promovida pelo Estado boliviano contra eles. Ao mesmo tempo, funcionários públicos os discriminam constantemente: nas eleições de 2014, o Tribunal Supremo Eleitoral confirmou a usurpação do cargo de Deputado Nacional pelo povo Yuracaré em detrimento do povo Yukí na circunscrição especial do Departamento de Cochabamba, alegando que eles são &#8220;ignorantes e não contribuem em nada&#8221;.</p>



<p>Essa violação dos direitos das populações indígenas das Terras Baixas se agravou desde que o Movimento ao Socialismo (MAS) assumiu o poder em 2006. Contrariando toda a lógica, embora o governo tenha uma maioria de líderes e autoridades do Altiplano (planalto boliviano), a discriminação, o racismo e as práticas etnocidas contra os povos indígenas das Terras Baixas se tornaram institucionalizadas. Nesse processo de colonialismo interno, seus territórios são invadidos por colonizadores das terras altas com autorização do governo nacional. A defesa dos TCOs está sendo atacada por meio de processos judiciais que visam silenciar todas as formas de protesto.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Para o Estado, as mortes dos Yukí são consequência da “tuberculose”. Entretanto, vários testes de laboratório realizados nos Estados Unidos revelaram que a população Yukí tem o fungo Aspergillus nos pulmões.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>Para o Estado, as mortes da população Yukí são consequência da “tuberculose”. Entretanto, várias análises laboratoriais revelaram que a população Yukí tem o fungo Aspergillus nos pulmões.</cite></blockquote>



<p>Nesse contexto, os povos indígenas que não possuem uma organização sólida e estável são os que estão sendo ameaçados, pois carecem de lideranças que saibam defender seus TCOs. Entretanto, o governo nacional criou leis em favor dos povos indígenas que não são aplicadas, e os povos indígenas continuam encurralados em seus próprios territórios pelos colonizadores. Consequentemente, o etnocídio se manifesta na expansão da fronteira agrícola, na construção de estradas, na exploração de mineração, na exploração de petróleo e na subjugação de camponeses.</p>



<p>Para o Estado, as mortes dos Yukí são consequência da “tuberculose”. Entretanto, vários testes de laboratório realizados nos Estados Unidos revelaram que a população Yukí tem o fungo <em>Aspergillus </em>nos pulmões. Esta situação, mal interpretada pelos médicos nacionais, têm feito com que os Yuki continuem morrendo em decorrência deste fungo, já que o tratamento dado pelos médicos encarregados de monitorar a saúde desta população, ao invés de eliminar <em>o Aspergillus</em>, está fortalecendo-o dentro dos corpos dos Yukí.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-14924" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/05/FotosEnvio7.jpg 1600w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Nos últimos anos, a violação dos direitos dos Yuki tem se agravado. O Estado boliviano deve tomar medidas urgentes para garantir sua existência. <strong>Foto: </strong>Erwin Melgar Ortiz</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>O que pode ser feito para evitar o desaparecimento do Yukí?</strong></h3>



<p>No século XXI, o problema é complicado e não será resolvido fácil ou rapidamente. Mas poderíamos começar com uma série de medidas básicas e urgentes.</p>



<p>Primeiro, o Estado deve elaborar uma lei que sistematize os vários fatores que ameaçam a sobrevivência dos Yukí, para realmente proteger essa população. Além disso, violações ou infrações desta lei devem ser punidas com medidas drásticas contra os infratores.</p>



<p>Em segundo lugar, o Ministério da Saúde deve conduzir um estudo sério e aprofundado sobre a situação da população Yukí, com o objetivo de erradicar o <em>fungo Aspergillus </em>e melhorar a saúde de toda a população.</p>



<p>Terceiro, o Ministério da Educação deve monitorar o currículo do ensino fundamental e médio, pois atualmente ele não reflete as características culturais do povo Yukí. Além disso, a qualidade da educação é ruim, limitando tanto as habilidades dos jovens Yukís quanto sua capacidade de continuar sua educação em centros de treinamento técnico ou universitário.</p>



<p>Quarto, o Estado deve priorizar o financiamento de vários tipos de projetos para garantir que a população Yukí tenha uma renda que garanta suas necessidades básicas de sobrevivência.</p>



<p>Quinto, o Ministério da Justiça deve desenvolver um plano de treinamento para os líderes Yukí defenderem seu povo e sua cultura de todas as atrocidades que estão sofrendo atualmente.</p>



<p>Somente com a implementação dessas medidas iniciais tão urgentes pelo Estado boliviano em favor do povo Yukí poderemos começar a trabalhar para evitar seu desaparecimento.</p>
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		<title>O caçador Tsimane e os peões</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/04/01/o-cacador-tsimane-e-os-peoes/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Yassir Mucharo Lero]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 01 Apr 2025 05:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Território]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[Jovens Autores]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=14951</guid>

					<description><![CDATA[<p>Yassir Muchairo Lero é um jovem indígena do povo Tsimane, da comunidade Santa Ana de Moseruna, localizada na autonomia do Território Indígena Multiétnico (TIM), na Amazônia boliviana. Ele está atualmente no 7º ano e foi selecionado como um dos 33 bolsistas da nova Escola Mojos de Jornalismo Indígena. Esta é sua primeira crônica e foi selecionada para publicação pela Debates Indígenas como parte de seu Programa de Apoio a Jovens Autores.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Quando eu tinha 18 anos, fui com três amigos trabalhar no Rio Cuverene. Como de costume, navegamos pelo rio por três horas em um <em>pequepeque </em>(como chamamos os pequenos barcos). Meu amigo estava carregando seu rifle automático carregado com cinco tiros.</p>



<p>Chegamos ao acampamento no meio da montanha. Depois de alguns minutos de descanso, um dos meus companheiros foi até o Chaco para cortar cana. Porém, sua surpresa foi maior: ele encontrou alguns <em>caititus (Dicotyles tajacu) </em>no canavial. Muito assustado, ele correu de volta para o acampamento.</p>



<p>– Os caititus estão no Chaco! – ele nos disse</p>



<p>Corremos rapidamente para o canal para vê-los, mas só encontramos pegadas. Continuamos nosso passeio. Duas horas depois, estávamos pastando em um campo em pousio quando ouvimos alguns queixadas <em>(Tayassu pecari) </em>vindo em nossa direção.</p>



<p>– Vá para o acampamento e traga o rifle! – Eu disse ao meu parceiro</p>



<p>Ele partiu rápido como um raio. Ele retornou depois de 15 minutos. Preparei o rifle, ficamos em silêncio, vimos as tropas e mirei. Fiquei com muito medo. Eu estava nervoso.</p>



<p>De repente, um peão apareceu atrás de mim. Virei-me rapidamente e atirei no pescoço dele. O peão gritou e caiu no chão. Eu o peguei. Era muito <em>pesado. </em>Olhei para o céu e comecei a ver as primeiras estrelas. Já era muito tarde e eu estava muito cansado. Ouvi ao longe os gritos de um dos meus companheiros.</p>



<p>&#8211; Estou aqui! Ajude-me com a minha carga – lembro-me de gritar para ele</p>



<p>Quando chegamos ao acampamento já estava escuro. Assim que deixamos o grupo, deitei-me de costas para descansar. Eu só queria deitar no chão. Meus olhos estavam pesados e eu mal conseguia conter o cansaço. Então, enquanto eu lutava contra o sono, meus companheiros começaram a fazer carne seca.</p>



<p></p>
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		<item>
		<title>Educação intracultural, intercultural e multilíngue: uma leitura no Estado Plurinacional da Bolívia</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/03/01/educacao-intracultural-intercultural-e-multilingue-uma-leitura-no-estado-plurinacional-da-bolivia/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Marcia Mandepora Chundary]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Mar 2025 05:20:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Autonomia]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[Educação Intercultural]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=14673</guid>

					<description><![CDATA[<p>Para os povos indígenas, a Educação Intercultural Bilíngue (EIB) foi uma estratégia que lhes permitiu se tornarem e se posicionarem como atores políticos ativos, influenciando na transformação do Estado e dando-lhe um caráter plurinacional e multilíngue. Antes de se tornar uma política pública, os povos indígenas se comprometeram a implementá-la com responsabilidade social, estabelecendo-a como uma estratégia favorável para avançar na prevenção e eliminação do racismo e da discriminação. Dessa forma, eles dignificaram e deram visibilidade às suas sociedades, às quais historicamente foi negada a formação do Estado republicano. No entanto, hoje, as escolas não cumprem seu papel de contribuir para a recuperação, aprendizagem e revitalização das línguas indígenas e, em muitos casos, a interculturalidade continua sendo abordada por meio de atividades folclóricas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Desde meados da década de 1990, na Bolívia, a Educação Intercultural Bilíngue (EIB) surgiu da demanda e projeção dos povos indígenas e deu ênfase ao desenvolvimento da linguagem, dos valores, do conhecimento e da competência individual. Dessa forma, houve autonomia para a implementação do EIB de acordo com seus próprios objetivos e práticas pedagógicas. A gestão administrativa foi baseada nas necessidades do processo educacional, e o envolvimento de organizações sociais comunitárias foi considerado importante.</p>



<p>Até o momento, a EIB expôs a pobreza, a escassez de terras, a discriminação e o racismo promovidos e implementados pelo sistema educacional tradicional. Chegou a expor situações de quase escravidão em certas comunidades indígenas, como ocorreu na região Guarani. <a href="https://www.funproeibandes.org/wp-content/uploads/2024/07/Interculturalidad-ciudadania-y-multilinguismo.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Sua conexão com as realidades socioculturais permitiu a recuperação da memória histórica, bem como a recuperação e revitalização das línguas nativas, conseguindo seu reconhecimento como línguas oficiais do Estado, o que para os atores e protagonistas daquela época foi um sucesso</a>.</p>



<p>Com a <a href="https://media.unesco.org/sites/default/files/webform/r2e002/8451dd233c59e2fd91ee139df65770640fd58021.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aprovação da Lei 1565 de Reforma Educacional em 1994</a>, o Programa de Educação Intercultural Bilíngue, desenvolvido inicialmente nas regiões aimará, guarani e quéchua, tornou-se uma política de Estado, em cuja implementação os povos indígenas e suas organizações desempenharam um papel decisivo por meio dos Conselhos Educacionais dos Povos Originários (CEPO). Embora houvesse boa intenção, a qualidade foi diluída até se tornar tão tradicional quanto é hoje. O que foi resgatável foi a valorização que as línguas indígenas adquiriram nas escolas em termos de uso e ensino, ainda que apenas no nível primário.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-14674" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-1-1-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Professores da aldeia Monkox fazendo grandes esforços para recuperar a língua Besiro entre as novas gerações. <strong>Foto: </strong>Damián Andrada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Intracultural, intercultural e multilíngue</strong></h3>



<p>Foi promulgada <a href="https://www.minedu.gob.bo/files/documentos-normativos/leyes/LEY_070_AVELINO_SINANI_ELIZARDO_PEREZ.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a Lei de Educação 070 “Avelino Siñani e Elizardo Pérez”</a>, que estabelece: “A educação é intracultural, intercultural e multilíngue em todo o sistema educacional”. A modalidade bilíngue é substituída pela modalidade multilíngue, o que significa que além da língua materna e do espanhol, será ensinada uma língua estrangeira: o inglês. Entretanto, em termos de planejamento curricular, a língua nativa e a língua estrangeira se fundem na área de linguagem e comunicação. Vários professores entrevistados explicam que, uma vez por semana, durante 40 minutos, ensinam a língua nativa, assim como a língua estrangeira.</p>



<p>Em muitos casos, os professores não falam a língua nativa, muito menos inglês. A esse respeito, um professor afirma: “Sou falante de guarani, não tenho problemas em ensinar essa língua, mas não sei falar inglês, então peço ajuda a outro colega que saiba alguma coisa”. Na mesma linha, outro professor diz: &#8220;Eu não sei a língua nativa, então eu ensino artesanato; assim, eu resolvo meu problema. Eu sei um pouco de inglês; eu não tenho outra opção porque eu tenho que cuidar da minha matéria, do meu tempo.&#8221; Como resultado, a educação multilíngue não está sendo desenvolvida.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A rigor, a escola não está cumprindo seu papel de contribuir para a recuperação, aprendizagem e revitalização das línguas indígenas. Essa situação influencia os alunos, que passam a ter mais atenção e interesse em aprender inglês.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A rigor, a escola não está cumprindo seu papel de contribuir para a recuperação, aprendizagem e revitalização das línguas indígenas.</cite></blockquote>



<p>O artigo 7º da <a href="https://www.minedu.gob.bo/files/documentos-normativos/leyes/LEY_070_AVELINO_SINANI_ELIZARDO_PEREZ.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei de Educação 070</a> estabelece que “o ensino de línguas estrangeiras é iniciado de forma gradual e obrigatória desde os primeiros anos de escolaridade, com metodologia adequada e pessoal especializado, e continua em todos os níveis do Sistema Plurinacional de Educação”. Essa exigência não é a mesma para o ensino de línguas indígenas, pois não é obrigatória em todos os níveis do Sistema Educacional Plurinacional. Na prática, o tempo é insuficiente e influencia seu movimento. Ainda mais se os professores não falam ou não usam essa língua no processo de aprendizagem.</p>



<p>A rigor, a escola não está cumprindo seu papel de contribuir para a recuperação, aprendizagem e revitalização das línguas indígenas. Essa situação influencia os alunos, que passam a ter mais atenção e interesse em aprender inglês. Existe também o risco de os alunos pensarem e acreditarem que sua língua materna não tem o mesmo valor que outras línguas, como espanhol e inglês, já que não há professores bilíngues que trabalhem exclusivamente na língua indígena. Isto é resultado da unificação forçada das três línguas na área da linguagem e da comunicação, uma questão prejudicial à língua nativa e seus elementos culturais.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="720" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-1024x720.jpg" alt="" class="wp-image-14675" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-1024x720.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-300x211.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-768x540.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-1536x1080.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-2-1-2048x1439.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Escola de Jornalismo Indígena (EPI) fortalece a autonomia e a cultura Guarani de Charagua Iyambae. <strong>Foto: </strong>Damián Andrada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Na teoria, mas não na prática</strong></h3>



<p>Nos discursos das autoridades educacionais locais e nacionais, fica claro que todas as línguas faladas no país são línguas oficiais do Estado Plurinacional. Contudo, na prática, isso não acontece. Tampouco cumpre com o disposto na <a href="https://sea.gob.bo/digesto/CompendioII/D/29_L_269.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei 269 de Direitos e Políticas Linguísticas</a>, pois não há um órgão específico de apoio técnico e acompanhamento do desenvolvimento das línguas indígenas nos diferentes níveis do sistema educacional plurinacional.</p>



<p>Além disso, os avanços regulatórios alcançados no país, com a promulgação de normas sobre os direitos de uso, promoção e revitalização das línguas indígenas, encontram pouco espaço na estrutura institucional e acadêmica das Escolas Superiores de Formação de Professores. Essas escolas não priorizam a metodologia de ensino e aprendizagem da língua nativa, seja como primeira ou segunda língua, em suas diretrizes operacionais, nem dão atenção ao aprendizado do espanhol. Em suma, a formação profissional para professores é uma necessidade real.</p>



<p>Da mesma forma, o Ministério da Educação também não aborda a necessidade de professores de línguas indígenas. Dessa forma, os editais públicos para o provimento de vagas em docência desconsideram o uso e o domínio das línguas indígenas, desconsiderando seu reconhecimento constitucional e oficialidade, bem como o princípio da territorialidade previsto na Lei 269.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-14676" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-3-B-1-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Javier Gualu Yubanure, professor da comunidade Monte Grande do Território Indígena Multiétnico (TIM), diz: “O compromisso das autoridades e dos alunos com a educação fortalece nossa autonomia”. <strong>Foto: </strong>Damián Andrada</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Currículos regionalizados e educação produtiva</strong></h3>



<p>A Lei &#8220;Avelino Siñani e Elizardo Pérez&#8221; tem como objetivo desenvolver a educação intracultural por meio da implementação de currículos regionalizados, &#8220;em coordenação com as nações e povos indígenas e camponeses originários, preservando sua harmonia e complementaridade com o currículo básico do Sistema Educacional Plurinacional&#8221;. Embora 21 currículos regionalizados tenham sido aprovados por resolução ministerial, algumas lideranças indígenas acreditam que até agora não houve resultados concretos nas instituições educacionais.</p>



<p>A falta de implementação se deve à falta de treinamento metodológico dos professores e à falta de harmonização com o currículo nacional. O problema é muito claro nas Terras Baixas, onde há uma carência de professores locais que falem a língua nativa e estejam familiarizados com o contexto sociocultural: a maioria vem de comunidades de língua aimará ou quéchua e desconhecem a cultura da região. É paradoxal que as culturas andinas prevaleçam nesses territórios, negligenciando o desenvolvimento da cultura local.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>A interculturalidade continua sendo abordada por meio de atividades folclóricas. Nesse sentido, professores não nativos justificam o desenvolvimento da interculturalidade porque permitem que os alunos aprendam sobre outras culturas.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacadp cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A interculturalidade continua sendo abordada por meio de atividades folclóricas.</cite></blockquote>



<p>A Lei da Educação 070 também visa vincular a teoria à prática produtiva. É nesse alinhamento que se define o Modelo Educacional Produtivo Sociocomunitário, que propõe que educação e produção não se aprendem separadamente: <a href="https://isbn.cloud/9789995481797/educacion-sociocomunitaria-y-productiva/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">aprende-se fazendo, faz-se aprendendo, produz-se aprendendo, aprende-se produzindo e aprende-se pesquisando</a>. Há uma visão tendenciosa da educação produtiva: embora algumas instituições educacionais estejam se esforçando para estabelecer uma horta escolar, a maior fraqueza é a falta de suporte técnico para traduzir os planos curriculares em atividades produtivas específicas.</p>



<p>Alguns professores mencionam que, por meio de projetos produtivos, desenvolvem a interculturalidade porque os alunos aprendem sobre outras realidades por meio da gastronomia, da dança, da música ou do vestuário. No entanto, como pode ser visto, a interculturalidade continua sendo abordada por meio de atividades folclóricas. Nesse sentido, professores não nativos justificam o desenvolvimento da interculturalidade porque permitem que os alunos aprendam sobre outras culturas. O problema é que eles acabam impondo suas culturas, geralmente andinas, aos seus alunos das Terras Baixas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="768" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-1024x768.jpg" alt="" class="wp-image-14677" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-1024x768.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-300x225.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-768x576.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-1536x1152.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-4-1-2048x1536.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>A Organização de Idosos da Comunidade Karaguatarenda revitaliza a língua guarani. <strong>Foto: </strong>Marcia Mandepora Chundary</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Diálogos, participação e materiais educativos</strong></h3>



<p>As faculdades de formação de professores não dialogam com organizações indígenas sobre a relevância, pertinência e qualidade do treinamento. A gestão institucional é rigorosamente controlada pelo Ministério da Educação e pelo Sindicato dos Professores, por meio de confederações de professores e representantes estudantis, excluindo os representantes indígenas, que são os beneficiários diretos da educação intercultural. As organizações também não têm presença ou poder organizacional na tomada de decisões, nem têm voz ativa em questões administrativas e acadêmicas.</p>



<p>A implementação da Educação Intercultural Bilíngue envolveu ativamente a participação de comunidades, pais e acadêmicos indígenas. Com base nessas experiências, foram criados os Conselhos Educacionais dos Povos Indígenas (CEPO), posteriormente reconhecidos legalmente pela <a href="https://media.unesco.org/sites/default/files/webform/r2e002/8451dd233c59e2fd91ee139df65770640fd58021.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">Lei 1565 de Reforma Educacional</a>. Os primeiros CEPOs reconhecidos para participar da formulação de políticas educacionais e supervisionar sua implementação foram: o Conselho Aymara, o Conselho Quechua, o Conselho Multiétnico Amazônico e o Conselho Guarani.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>A implementação da Educação Intercultural Bilíngue tornou-se quase inexistente nas comunidades, e os esforços ficaram presos em questões regulatórias. As demandas e propostas foram aceitas pelos atuais governos e pela classe docente boliviana.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>A implementação da Educação Intercultural Bilíngue tornou-se inexistente nas comunidades, e os esforços ficaram presos em questões institucionais e regulatórias.</cite></blockquote>



<p>Essas organizações estavam envolvidas na formação de conselhos de pais de escolas, apoiando o treinamento de professores, fornecendo monitoramento em sala de aula, produzindo materiais e conduzindo reuniões de avaliação com autoridades. Por sua vez, a cooperação internacional concentrou seus esforços no fortalecimento das instituições dos conselhos educacionais, fornecendo-lhes estatutos, equipes técnicas e requisitos logísticos. Entretanto, a implementação da EIB tornou-se quase inexistente nas comunidades, e os esforços feitos ficaram presos em questões institucionais e regulatórias. Dessa forma, as demandas e propostas foram assumidas pelos atuais governos e pelo magistério boliviano. Dessa forma, a representação indígena foi relegada.</p>



<p>Há também uma carência de materiais bilíngues que fortaleçam o uso oral e escrito das línguas indígenas no nível primário, com foco na manutenção e no desenvolvimento. As autoridades educacionais também não conseguem fornecer monitoramento técnico e suporte oportunos e adequados às instituições educacionais, o que levou à falha na implementação adequada do sistema. Isso ocorre apesar das diretrizes estipuladas na Resolução Ministerial 001, que o Ministério da Educação emite anualmente no início do ano letivo.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="751" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1-1024x751.jpg" alt="" class="wp-image-14678" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1-1024x751.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1-300x220.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1-768x563.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1-1536x1126.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Marzo-2025-5-1.jpg 1874w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Em algumas Unidades Educacionais, os jovens trabalham valores comunitários. <strong>Foto: </strong>Marcia Mandepora Chundary</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Questões pendentes na educação intercultural</strong></h3>



<p>As línguas nativas são ensinadas e faladas cada vez menos porque não recebem a devida atenção para se desenvolverem. As instituições de ensino que deveriam proporcionar-lhes condições pedagógicas e técnicas não o fazem porque não têm professores bilíngues que ensinem exclusivamente a sua língua materna para garantir a sua relevância na educação. Além disso, a unificação forçada das três línguas no âmbito da linguagem e da comunicação acabou tornando-as invisíveis, situação prejudicial às línguas indígenas e seus elementos culturais.</p>



<p>A implementação da educação intracultural, intercultural e multilíngue é incipiente, apesar do desenvolvimento de currículos regionalizados, que também não são implementados porque os professores não receberam treinamento ou apoio técnico. Além disso, a maioria dos professores são falantes de espanhol e não pertencem à região. Nas unidades educacionais localizadas nas Terras Baixas, há professores que não conhecem as línguas e culturas amazônicas, chaquenhas ou orientais, pois muitas vezes são de origem aimará ou quéchua.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>As organizações indígenas e os Conselhos de Educação dos Povos Indígenas perderam o controle sobre a implementação da EIB, deixando que as demandas e propostas dos povos indígenas fossem adotadas pelo atual governo.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>Organizações indígenas e Conselhos de Educação dos Povos Indígenas perderam o controle sobre a implementação da Educação Intercultural Bilíngue.</cite></blockquote>



<p>Supõe-se que a EIB adquiriu um status mais elevado ou se tornou mais radical sob o nome de Educação Intracultural, Intercultural e Plurilíngue em todos os níveis do sistema educacional. Contudo, na prática, a interculturalidade, muito menos o multilinguismo, não se desenvolve devido à falta de condições materiais e de recursos humanos capacitados para essa abordagem. Em relação ao multilinguismo, crianças e jovens estão cada vez mais falando menos suas línguas nativas, escrevendo menos e aprendendo menos inglês. Dessa forma, o espanhol continua se consolidando como a única língua de prestígio.</p>



<p>Devido à burocratização das estruturas do Ministério da Educação e à transformação da Educação Intercultural Bilíngue em política educacional de Estado, as organizações indígenas e os Conselhos de Educação dos Povos Indígenas perderam o controle sobre a implementação da EIB, deixando que as demandas e propostas históricas geradas pelos povos indígenas fossem assumidas e controladas pelo atual governo. Isso certamente não é uma boa notícia.</p>
<p>The post <a href="https://debatesindigenas.org/pt/2025/03/01/educacao-intracultural-intercultural-e-multilingue-uma-leitura-no-estado-plurinacional-da-bolivia/">Educação intracultural, intercultural e multilíngue: uma leitura no Estado Plurinacional da Bolívia</a> appeared first on <a href="https://debatesindigenas.org/pt">Debates Indígenas</a>.</p>
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			</item>
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		<title>O TIPNIS sob cerco e pressão de interesses extrativistas</title>
		<link>https://debatesindigenas.org/pt/2025/02/01/o-tipnis-sob-cerco-e-pressao-de-interesses-extrativistas/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Sergio Vásquez Rojas]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 01 Feb 2025 05:30:00 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Extrativismo]]></category>
		<category><![CDATA[Bolivia]]></category>
		<category><![CDATA[Monitoramento do Território]]></category>
		<guid isPermaLink="false">https://debatesindigenas.org/?p=14574</guid>

					<description><![CDATA[<p>Durante 2024, as comunidades da parte sul do Território Indígena do Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS) desenvolveram a experiência de Monitoramento Satélite do Território, uma ferramenta que lhes permitiu verificar as ameaças que as populações indígenas Yuracaré e Mojeño-Trinitaria e Tsimane do Conselho Indígena do Sul (CONISUR) vêm sofrendo por parte de atores externos, tanto privados quanto públicos. Entre as principais ameaças ao território estão a mineração aluvial, a disseminação do cultivo ilegal de folha de coca e a invasão de comunidades indígenas.</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>O Território Indígena e Parque Nacional Isiboro Sécure (TIPNIS) está localizado entre a parte norte de Cochabamba e a parte sul de Beni, abrangendo as províncias de Chapare e Ayopaya em Cochabamba, e Moxos e Marbán em Beni. Seus limites naturais, estabelecidos em 1965 e expandidos em 1990, são definidos pelo curso dos rios Natusama, Sécure, Isiboro e Chipiriri, bem como pelas cadeias de montanhas Sejeruma e Mosetenes.</p>



<p><a href="https://iwgia.org/es/noticias/5266-%C3%A1reas-protegidas-y-territorios-ind%C3%ADgenas-una-convivencia-problem%C3%A1tica.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O TIPNIS tem um status duplo: é um Parque Nacional e um Território Indígena.</a> Três etnias indígenas viveram ancestralmente neste território: Yuracarés, Mojeños-Trinitarios e Tsimanes, distribuídos em um total de 74 comunidades. Sua economia é baseada na exploração de recursos naturais, como caça, pesca, colheita, extração de madeira, agricultura e pecuária. O TIPNIS cobre uma área de 1.236.296 hectares, equivalente a aproximadamente 12.363 quilômetros quadrados, e é caracterizado por uma alta biodiversidade: <a href="https://www.opinion.com.bo/articulo/cochabamba/tipnis-guarda-857-especies-fauna-3500-flora/20170905212000589179.html" target="_blank" rel="noreferrer noopener">a área protegida abriga 857 espécies de animais e cerca de 3.500 plantas</a>.</p>



<p>Ao longo de sua história, o TIPNIS foi, e continua sendo, um espaço territorial disputado. A experiência de monitoramento territorial por meio de imagens de satélite revelou informações alarmantes sobre a gama de ameaças e violações sofridas pelos moradores de um território indígena tão vasto. Guardas florestais e guardas territoriais indígenas estão fazendo todos os esforços para defender e proteger o TIPNIS, apesar da falta de recursos financeiros, equipamentos ou logística necessária para impedir invasões, desmatamento, desmatamento, pesca ilegal e tráfico de ovos de tartaruga.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="721" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B-1024x721.png" alt="" class="wp-image-14577" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B-1024x721.png 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B-300x211.png 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B-768x541.png 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B-1536x1081.png 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-1B.png 2037w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Em 1965, o Parque Nacional Isiboro Sécure foi criado por Decreto Supremo. <strong>Fonte: </strong>CENDA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Pressões sobre o TIPNIS</strong></h3>



<p>Apesar de ter proteção regulatória devido ao seu status duplo, o TIPNIS é um espaço cobiçado e está constantemente sob ameaça de atores externos: interculturais (colonizadores), madeireiros, caçadores furtivos e megaprojetos. Todos eles buscam saquear os recursos naturais, aproveitando-se de políticas públicas que promovem o modelo de desenvolvimento extrativista.</p>



<p>Em 2011, durante a VIII Grande Marcha Indígena pela Defesa do TIPNIS, dos Territórios, da Vida, da Dignidade e dos Direitos dos Povos Indígenas, as comunidades Yuracaré, Mojeño-Trinitaria e Tsiman rejeitaram a construção da rodovia de Villa Tunari a San Ignacio de Moxos, que deveria atravessar a zona central do território.</p>



<blockquote class="wp-block-quote destacado pc-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
<p></p>
<cite>As cooperativas de mineração ameaçam o território indígena e o parque nacional: algumas cooperativas estão localizadas a poucos quilômetros da área central.</cite></blockquote>



<blockquote class="wp-block-quote destacado cel-only is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow">
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<cite>As cooperativas de mineração ameaçam o território indígena e o parque nacional: algumas cooperativas estão localizadas a poucos quilômetros da área central.</cite></blockquote>



<p>Do setor público, as províncias de Beni e Cochabamba insistem em reativar o megaprojeto da rodovia Villa Tunari &#8211; San Ignacio de Moxos, que foi rejeitado pela segunda vez na reunião de Corregedores em março de 2023. A rodovia é um tema constantemente alvo de chantagem por parte das autoridades públicas, tanto subnacionais quanto nacionais. Isso se reflete nas restrições enfrentadas pelas comunidades do CONISUR-TIPNIS na execução de obras públicas e na prestação de serviços, como educação e saúde.</p>



<p>Em relação à presença de atores estrangeiros (especialmente colombianos e peruanos), há interesse em casar a população feminina indígena com o objetivo de obter maior legitimidade no território. Por outro lado, as cooperativas de mineração também ameaçam o território indígena e o parque nacional: algumas cooperativas estão localizadas a poucos quilômetros da área central. Uma situação semelhante ocorre em grande parte da Amazônia boliviana, onde cooperativas invadem territórios indígenas e tomam violentamente as margens dos rios, violando os direitos indígenas.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="576" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B-1024x576.jpg" alt="" class="wp-image-14578" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B-1024x576.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B-300x169.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B-768x432.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B-1536x864.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-2B.jpg 1920w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Três grupos étnicos indígenas viveram ancestralmente no TIPNIS: Yuracarés, Mojeños-Trinitarios e Tsimanes. <strong>Foto: </strong>CENDA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Monitoramento do território por satélite</strong></h3>



<p>Esses casos de violações dos direitos territoriais e coletivos das comunidades indígenas motivaram os magistrados do CONISUR-TIPNIS a explorar ferramentas tecnológicas para um controle territorial efetivo. Neste contexto, as autoridades orgânicas decidiram desenvolver um sistema de monitorização territorial baseado em imagens de satélite de alta precisão que permitisse: 1. Rastrear o território para encontrar indícios de possíveis violações; e 2. Atualizar o zoneamento territorial com vistas à construção participativa de um plano de gestão ou plano de vida territorial.</p>



<p><a href="https://www.cejis.org/publicacion/monitoreo-territorial-indigena-una-herramienta/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">O monitoramento por satélite</a> é uma ferramenta que fornece informações de alta qualidade sobre o uso, a exploração e os riscos dos recursos naturais do território. Por um lado, o monitoramento é preventivo contra potenciais violações de direitos; ou seja, ele relata informações sobre eventos naturais ou provocados pelo homem que devem ser resolvidos prontamente. Por outro lado, é restaurador ao facilitar a comunicação dequalquer ato que fira os direitos dos Povos Indígenas, seja por ação ou omissão de indivíduos ou autoridades estatais, perante órgãos administrativos ou judiciais, exigindo a restituição e o gozo de direitos.</p>



<p>O <a href="https://www.instagram.com/cendabolivia/reel/C_lGKqgoTJO/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">processo de treinamento do Monitoramento Territorial por Satélite</a> foi desenvolvido com a participação de guardas territoriais indígenas do CONISUR, jovens de base eleitos por suas comunidades e guardas-florestais do Serviço Nacional de Áreas Protegidas (SERNAP). Uma das principais preocupações dos chefes e corregedores do CONISUR eram os relatos de invasões cometidas pela população intercultural, que realiza queimadas para plantar folhas de coca. Nesse sentido, <a href="https://www.unodc.org/documents/crop-monitoring/Bolivia/Bolivia_Informe_Monitoreo_Coca_2020.pdf" target="_blank" rel="noreferrer noopener">o Relatório Anual de Monitoramento da Coca de 2020</a>, publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, indica que <a href="https://revistalabrava.com/la-deforestacion-para-cultivar-coca-se-agudiza-en-el-sur-de-tipnis/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">1.373 hectares de cultivos foram identificados naquele ano no Polígono Sete</a>. Ainda mais alarmante, 27 hectares foram registrados dentro de território indígena, onde o cultivo de coca é proibido.</p>



<figure class="wp-block-image size-large"><img loading="lazy" decoding="async" width="1024" height="683" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-1024x683.jpg" alt="" class="wp-image-14579" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-1024x683.jpg 1024w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-300x200.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-768x512.jpg 768w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-1536x1024.jpg 1536w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-3-2048x1365.jpg 2048w" sizes="auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Jovens escolhidos por suas comunidades e guardas florestais do Serviço Nacional de Áreas Protegidas participaram de um treinamento sobre Monitoramento por Satélite do Território durante 2024. <strong>Foto: </strong>CENDA</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Ameaças e vulnerabilidades identificadas no TIPNIS</strong></h3>



<p>Especificamente, o monitoramento por satélite identificou a perda de cobertura florestal e arbórea, a presença de incêndios ou pontos críticos na área, bem como dados sobre desmatamento, grilagem de terras e limpeza de estradas.</p>



<p>Durante o processo de capacitação realizado em 2024, os monitores indígenas fortaleceram seus conhecimentos sobre o envio de coordenadas sobre a localização de eventos provocados pelo homem ou fenômenos naturais irregulares em áreas consideradas vulneráveis, com base no nível de cuidado e proteção de cada área. A classificação das <em>áreas vulneráveis </em>foi determinada com base nos eventos: <em>alto risco para </em>aqueles que ocorrem na área núcleo, <em>médio risco para </em>aqueles que ocorrem na área de exploração e <em>baixo risco para </em>aqueles que ocorrem na área de uso tradicional. Com base nesses critérios, os monitores identificaram e enviaram as coordenadas das <em>áreas vulneráveis</em>, consideradas ameaçadoras ao território.</p>



<p>Entre os eventos que ameaçam o território do TIPNIS e geram ampla preocupação nas comunidades do sul, estão a atividade de mineração aluvial, o avanço dos produtores de coca do município de Cocapata (província de Ayopaya) em direção à área central do TIPNIS e as invasões de comunidades indígenas por grupos interculturais no Polígono 7, o que resulta no descumprimento de acordos por parte dos grupos interculturais.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1002" height="605" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-4B.jpg" alt="" class="wp-image-14580" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-4B.jpg 1002w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-4B-300x181.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-4B-768x464.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1002px) 100vw, 1002px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em>Mapeamento de ameaças ao território do TIPNIS. <strong>Fonte: </strong>CENDA/ Iniciativa Internacional sobre Clima e Florestas da Noruega (NICFI)</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Fontes específicas de ameaças</strong></h3>



<p>Graças ao monitoramento por satélite e ao trabalho de monitores indígenas, os seguintes pontos críticos foram identificados:</p>



<p><strong>1. Mineração aluvial no rio Altamachi</strong></p>



<p>Em 2024, foram observadas obras de terraplenagem e estradas para máquinas pesadas, a apenas 5 quilômetros do TIPNIS, no Rio Altamachi, para o desenvolvimento da mineração aluvial. Essa atividade ameaça contaminar comunidades rio abaixo. As coordenadas desta área foram enviadas ao grupo de monitoramento por satélite, e os guardas florestais do SERNAP puderam confirmá-las.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="988" height="638" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-5B.jpg" alt="" class="wp-image-14581" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-5B.jpg 988w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-5B-300x194.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-5B-768x496.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 988px) 100vw, 988px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Fonte: </strong>CENDA/NICFI</em></figcaption></figure>



<p><strong>2. Incursão na Zona de Santo Domingo</strong></p>



<p>Na parte norte do território, em Santo Domingo, foi detectada uma incursão de grandes chacos a 3 quilômetros da fronteira do TIPNIS, o que representa uma ameaça direta à entrada na zona central. As coordenadas deste ataque também foram enviadas ao grupo de monitoramento por satélite.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="975" height="596" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-6B.jpg" alt="" class="wp-image-14582" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-6B.jpg 975w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-6B-300x183.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-6B-768x469.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 975px) 100vw, 975px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Fonte: </strong>CENDA/NICFI</em></figcaption></figure>



<p><strong>3. Violação de acordos na “Linha Vermelha do Polígono 7”</strong></p>



<p>Imagens mensais de satélite revelaram que alguns dos lotes das comunidades interculturais (chacos) cruzaram a linha vermelha, violando acordos de proteção estabelecidos e piorando a situação na área.</p>



<p><strong>3.1 Invasão na Zona da União de Bustillos</strong></p>



<p>O sindicato Bustillos expandiu repetidamente suas plantações de coca nesta área perto do rio, aumentando a pressão sobre o TIPNIS. De acordo com o monitoramento mensal por satélite, essas atividades ilegais se repetem com frequência, danificando o meio ambiente natural e colocando em risco as práticas tradicionais das comunidades indígenas que dependem do rio para sua subsistência. Também foi constatado que a Linha Vermelha do Polígono 7 não foi respeitada e o limite estabelecido foi ultrapassado no último ano, o que agrava a situação na área afetada.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="1007" height="632" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-8B.jpg" alt="" class="wp-image-14584" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-8B.jpg 1007w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-8B-300x188.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-8B-768x482.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 1007px) 100vw, 1007px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Fonte: </strong>CENDA/NICFI</em></figcaption></figure>



<p><strong>3.2 Ultrapassagem na Zona União Primavera</strong></p>



<p>A União Primavera desenvolveu plantações de coca que impactam diretamente o TIPNIS. Apesar dos esforços da comunidade indígena para proteger seu território, essas atividades continuam a ter um impacto negativo tanto no ambiente natural quanto na estrutura social das comunidades. Além das plantações, o monitoramento por satélite revelou uma preocupante expansão do território de cultivo de coca, com possibilidade de ultrapassar os limites do Polígono 7.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="998" height="631" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-9B.jpg" alt="" class="wp-image-14585" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-9B.jpg 998w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-9B-300x190.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-9B-768x486.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 998px) 100vw, 998px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Fonte: </strong>CENDA/NICFI</em></figcaption></figure>



<p><strong>3.3 Invasões no Polígono 7</strong></p>



<p>O mapa sugere um crescimento acelerado de assentamentos e plantações de coca no TIPNIS, impulsionado, segundo relatos, por atores externos. Isso pode estar mudando o modo de vida e o pensamento das comunidades indígenas, afetando suas práticas tradicionais e alterando a dinâmica social e territorial da região.</p>



<figure class="wp-block-image size-full"><img loading="lazy" decoding="async" width="962" height="590" src="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-10B.jpg" alt="" class="wp-image-14586" srcset="https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-10B.jpg 962w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-10B-300x184.jpg 300w, https://debatesindigenas.org/wp-content/uploads/2025/04/Bolivia-Febrero-2025-10B-768x471.jpg 768w" sizes="auto, (max-width: 962px) 100vw, 962px" /><figcaption class="wp-element-caption"><em><strong>Fonte: </strong>CENDA/NICFI</em></figcaption></figure>



<h3 class="wp-block-heading"><strong>Monitoramento como ferramenta de proteção territorial</strong></h3>



<p>Este conjunto de ameaças e violações dos direitos coletivos e territoriais das comunidades do TIPNIS demonstra claramente os interesses econômicos que movem diversos atores dentro e fora do território.</p>



<p>As informações coletadas por meio do monitoramento via satélite das &#8220;áreas vulneráveis&#8221; levantam a necessidade de encontrar mecanismos de defesa para os conflitos existentes, abordando-os desde uma perspectiva integral, com base nos direitos coletivos reconhecidos nos artigos 2º e 30 da Constituição Política do Estado e nas normas internacionais que integram o marco constitucional, como os direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais (DESCA) que protegem as comunidades indígenas.</p>
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